Provérbios Provados noutras casas:

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Provérbio provado com cuidado - II

Nunca tivera um emprego que emprego se chamasse, mas à Cremilde nunca faltara trabalho. Tivera cinco filhos, mas apenas três vingaram. Por mais que o tentasse evitar, não foram poupados às dores de crescimento. Ela também não fora, nem o haviam sido os seus antepassados: naquelas terras onde viviam era o tempo das sementeiras que marcava o tempo do relógio.
Um a um, os filhos acabaram por partir. O mais velho trocara a vida rude da agricultura por uma ainda mais rude a operar uma máquina de moldes de cutelaria. Casara. Tivera dois filhos. A única filha trocara o lar onde crescera desde criança até mulher por um novo lar onde cumpriria o papel de única nora. Casara. Tivera dois filhos. O filho mais novo, o mais curioso e ambicioso dos três, fora procurar a fronteira mais próxima e depois, não contente com um, cruzara mais um par de países. A Cremilde não sabia se tinha chegado a casar ou a ser pai.

Todo o seu semblante se animava e o futuro passava a ter um propósito quando antecipava a visita dos netos. Nos dias que precediam a chegada da criançada, dedicava-se a preparar a sua vinda. Lavava tapetes e lençóis com afinco, retirava das superfícies qualquer suspeita de pó, confeccionava compotas de frutos variados e até ia apanhar flores ao quintal da vizinha Silvina que depois dispunha em jarras pela casa fora.
Os netos costumavam ficar vários dias aos seus cuidados e o que a avó dedicada mais temia era que apanhassem alguma doença durante esse período. Por isso, mal pressentia uns raios de sol, corria a abrir as janelas de todas as assoalhadas de par em par.


- Casa onde entra o sol não entra o médico 

Provérbio provado rimado - MDCVII

Nem tudo o que luz é ouro 
Nem tudo o que balança cai 
Por isso protege o teu couro 
Para depois não gritares ai 

Não te fies nas aparências 
Há um fruto além da casca 
E desconfia das evidências 
Ou então vais ver-te à rasca 

E quando te vierem acenar 
Com amostras do paraíso 
Poderás então gargalhar 
Dizer-lhes que tenham juízo 


sábado, 27 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDCVI

O que dizem os meus olhos?
Que estou farta de trambolhos 
De homens lentos e carentes 
Da vida a sós descontentes 

Também há o tipo tarado 
Que quer sexo consumado 
Tão cheio de pressa e tesão 
Não mostra nenhuma emoção 

Estou perdida nesse ermo 
Onde não há meio termo 
Vou ficar quieta na toca 
Cada cavadela sua minhoca 

Eu cá vou parar de escavar 
Já perdi a fé de encontrar 
O tal gesto verdadeiro 
Que não seja interesseiro 


Provérbio provado rimado - MDCV

Qualquer chefe que se preze 
Muito emprenha pelos ouvidos 
Conquanto assim menospreze 
Os que não são os preferidos 

E também faz do seu gabinete 
Uma espécie de confessionário 
Achando que não é um frete 
Escutar cada novo fadário 

Nessa tal porta fazem fila 
Para queixinhas vomitar 
E dali ninguém desopila 
Sem intrigas várias largar 

Vão lançando no ar suspeições 
Que não têm pingo de verdade 
E através de dissimulações 
Desejam mais notoriedade 

Até que o chefe constata 
Que tem sido injusto talvez 
Já que a gente mais pacata 
Não implora pela sua vez 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDCIV

Para longe tu podes fugir 
Sem sequer calcular a distância 
Estás-te apenas a querer iludir 
Ao alimentares essa ânsia 

Isso não te permite acalmar 
Deixa-te somente agitado 
Sentes um aperto ao respirar 
Tens medo de ficar perturbado 

Nessa altura só queres escapar 
E esconder-te como a avestruz 
Quando vês a vida a complicar 
Foges como o diabo da cruz 


Provérbio provado rimado - MDCIII

Quem me dera a mim amar 
Sendo enfim correspondido 
Só me resta porém soluçar 
Se me encontro arrependido 

Um balanço maior dou ao passo 
Do que a perna que está disponível 
E redunda no fim em fracasso 
O que antes pensei concebível 

Por ser muito precipitado 
E tantas vezes irrealista 
Se defino um alvo afastado 
Mais me lanço a essa pista 

E se ajo de forma imprudente
Não me posso depois queixar 
Por pôr sempre o carro à frente 
Dos bois que o deviam levar 


Provérbio provado rimado - MDCII

Não sei se é o amor que me perde 
Ou sou eu quem perde o amor 
Quando tal ocorre fico verde 
Ou vermelha de tanto rubor 

Já não sei o que à vida faça 
Tenho a cabecinha às voltas 
O amor parece uma trapaça 
Que deixa no fim pontas soltas 


Provérbio provado rimado - MDCI

O Semedo é pouco erudito 
Sendo um tipo rudimentar 
Não possui fraseado bonito 
Não dobra a língua ao falar 

Dizem que é tímido e discreto 
Mas é só falta de instrução 
Esse é o calcanhar secreto 
Que o faz agir com contenção 

Quando um diálogo enceta 
Faz-se muito despercebido 
Evitando a ideia concreta 
É tão vago e indefinido 

Solta as palavras com poupança 
Por estranhar-lhes os significados 
No que diz não tem confiança 
Não deseja meter-se em assados 


Provérbio provado rimado - MDC

Tu és um sujeito atrevido 
Tens um modo pouco polido 
E começas a lançar piropos 
Sempre que estás com os copos 

Vês em cada mulher uma musa 
Que te deixa cheinho de tusa 
Até chamas algumas de flor 
Perguntando se dá para pôr 

Outras vais nomear de boneca 
Para ver se te calha uma queca 
E propões arrastando a asa 
Ó febra junta-te aqui à brasa 

Tantas curvas e tu sem travões 
Começam a faltar-te opções 
É então que tu ficas confuso 
Sem rosca para o teu parafuso 

Se não inventares outro mote 
Vais ficar como o Dom Quixote 
Sempre em busca da tal Dulcineia 
Que não te vá fazer cara feia

Elas pensam que tu és otário 
Porque és um bocado ordinário
Dom Juan de trazer por casa 
Do que esperam fazes tábua rasa 


Provérbio provado rimado - MDXCIX

Vou contar de uma senhora 
Que é muito observadora 
Mas depois não fica calada 
Tudo conta à rapaziada 

Se algo descobre adora 
Ser a principal oradora 
Sem tabus ou sequer freios 
Ela tudo expõe sem rodeios 

Quer sempre saber na hora 
O boato que corre por fora 
Para então concluir ao seu jeito 
Sem ter pelos visados respeito 

Dos conflitos instigadora 
Já nas rixas não se demora 
Afastando-se logo das brigas 
Diz Eu cá não sou de intrigas 


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVIII

Considero que a falsidade 
É um traço da gente maldosa 
Para quem qualquer amizade 
Deve ser coisa tendenciosa 

Os meios amigos pretendem 
De uma união tirar proveito 
Pensando que assim não ofendem 
E que esse é um plano perfeito 

Ao mostrar o gesto duvidoso 
Ainda acham que fazem favor 
Inimigo declarado é perigoso 
Mas o falso amigo é pior 


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVII

Se a divina providência 
Não te fez muito abastado 
Lidarás com a consequência 
De ser só um assalariado 

E até mesmo se fores patrão 
Não esperes outros desenlaces 
Que apesar dessa dedicação 
Alguém te dirá Estudasses 


sábado, 13 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVI

Aquele que tem ego enorme 

Parece um indivíduo disforme 

Não o considero um amigo 

Pois tanto egoísmo é um perigo 


Ele tudo pretende abraçar 

Com esperança de arrecadar 

Até o que não lhe pertence 

Pensando que alguém convence 


Com medo que no dia seguinte 

Outro mais esperto o finte 

Todo ele é cheio de certezas 

Tem a mania das grandezas 


Mas não lhe dou importância 

Desse ser eu quero distância 

Ou aínda me arranca a pele 

Por achar que é tudo dele 


Que volte para donde veio 

Porque de si está tão cheio 

O seu narcisismo é extremo 

Mais parece coisa do demo 


Crê que é muito experiente 

Porém é somente aparente 

No fundo ainda está verde 

E quem tudo quer tudo perde 




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCV

Toda a junta de freguesia 

Devia conquistar empatia 

Mas o presidente e os vogais 

Ocultam interesses pessoais 


Quando há elo paroquial 

Mais se benze esse pessoal 

E quem não rezar ao Senhor 

Vai esperar sentado um favor 


Quem lhes for pedir cultura 

Encontra paredes com altura 

É costume acenar com asfalto 

Ao tomar as urnas de assalto


Não há nada que acrescente 

Mais uns horizontes à gente

Constroem estradas a esmo 

Para fazer só mais do mesmo 



sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Provérbio provado num dia feriado

Hoje aconteceu-me uma que nem sei se vos diga se vos conte, ele há mesmo coisas do arco da velha!
(Não comecem já a torcer o nariz que ainda a procissão vai no adro e até ao lavar dos cestos é vindima.)
Passando então à vaca fria, senão nunca mais é sábado, de manhã chovia a potes e estava um grizo tão grande que até bati o dente. Saí de casa vestida como uma cebola, embora preferisse ter ficado à sombra da bananeira. Mas como não nasci com o cu virado para a lua, lá tive de meter a mão na consciência e fui vergar a mola.
Chegada ao escritório, bati com o nariz na porta e quase me chegava a mostarda ao nariz, até que me caiu a ficha e percebi porque é que estava tudo às moscas. Não é que eu, uma cabeça nas nuvens, me esqueci que era feriado? Meti mesmo a pata na poça.
E então, já que tinha saído de casa e tinha, estava perdida por cem, perdida por mil. Fui mas é laurear a pevide, uma vez que já não tinha de andar a toque de caixa como uma barata tonta a bater na mesma tecla.
O dia não estava perdido, não.

- Há mais dias que linguiças 

Provérbio provado num verso branco - CLIII

Há os que organizam a vida como uma agenda 
Com separadores de tarefas 
Definição de prioridades 
Com resultados que se contabilizam 
Em grelhas gráficos e percentagens 
Regem assim o quotidiano por meio 
De princípios mensuráveis 
Estabelecendo metas realistas 

E depois há os outros 
- Ah os outros! -
Cujos acasos desenham o próprio destino 
Que enfrentam todas as experiências 
Sem preconceitos ou prévias condições 
Correndo o risco de estar sempre errados 
Numa incessante corda bamba

Qualquer dos casos 
Não passa de uma tentativa 
De tornar cada vida o mais fácil possível 



quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCIV

Não te gramo um grama sequer  
Por meteres sempre a colher 
No que não te diz respeito 
Como se fosses mesmo perfeito 

Consideras que a tua opinião 
É a mais correcta de antemão 
E passas o tempo a ajuizar 
Qualquer falha irás apontar 

Tens um timbre condescendente 
Que me deixa muito impaciente 
Não me ofereças o teu conselho 
Dispenso que metas o bedelho 


Provérbio provado rimado - MDXCIII

Deixa que te encaminhe 
Para lá do imaginável 
E deixa que me aproxime 
Para veres como é agradável 

Que desse modo não receies 
Antes de ver o nosso futuro 
E ainda que não o nomeies 
Por estares sobre ele inseguro 

Considero esse medo normal 
Que o futuro não viu ninguém 
Mas não vale ser tão racional 
E estragar o que aí vem 

Calça então os sapatos forrados 
Que farão o percurso melhor 
E que estão impermeabilizados 
Para que não ganhem bolor 

Que os uses com muita coragem 
Sem temer a entrega vindoura 
Pois és parte também da viagem 
Da nossa relação duradoura 

Se o temor só suspeita o pior 
Também mete a lebre a caminho 
Só então podes ser vencedor 
E ser livre sem estar sozinho 

Por isso escuta o que te digo 
Sem sofrer por antecipação 
Podes contar sempre comigo 
Quem tem medo compra um cão 




Provérbio provado rimado - MDXCII

Com este tempo que faz 
Dá tanto frio na espinha 
E portanto sou bem capaz 
De sentar-me à escrivaninha 

Faço listas de vários ditados 
Não interessa se são repetidos 
Divirto-me a vê-los provados 
E depois são aqui oferecidos 

Quando não há nada de novo 
Que eu aos leitores possa dar 
A provérbios antigos recorro 
Como se fossem já a estrear 

Conto com um ovo já posto 
Que há algum tempo choquei 
E vocês nem topam aposto 
Que esse tal ditado bisei 

É tamanha a vossa distração 
Não adianta fazer beicinho 
Só reparam na ilustração 
Isso é certinho direitinho 


terça-feira, 11 de novembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCI

Quando o despertador tocou
Levantou-se de pronto aflita 
Nem sequer um banho tomou 
Limitou-se a usar toalhita 

No relato do seu despertar 
Os pés acordaram de fora 
Mas lá teve de se despachar 
Pois estava em cima da hora 

Depois o carro não pegava 
E a oficina estava fechada 
A pé tão cedo não chegava 
Era certo entrar atrasada 

Com início tão conturbado 
O resto do dia prometia 
Na cama devia ter ficado 
Mas o salário não ganharia 

Ao ver que não tinha almoço 
Foi a gota de água prá Anita 
Instalou-se grande alvoroço 
Porque se passou da marmita 



Provérbio provado rimado - MDXC

Faz parte de toda a rotina 
Uma ideia de repetição 
Contudo a mais louca sina 
Progride com a criação 

E sempre que nasce um dia 
Surge nova oportunidade 
Contanto se largue a mania 
De dar nome à realidade 

Ao achar que tudo é um bis 
A surpresa é logo anulada 
Corrompe qualquer aprendiz 
Que só vê a vida estagnada 

Apesar de querer progredir 
É como uma ave sem asas 
Quase tende até a desistir 
Se a vida lhe corta as vazas 


Provérbio provado rimado - MDLXXXIX


Se existe alguém que só fala 
Sem pausas e nunca se cala 
Vai por vários temas saltando 
Sem uma resposta esperando 

É um grande fala-barato 
Tem assuntos ao desbarato 
O pior é que exige atenção 
E na testa concentração 

Pois debita os seus pensamentos 
Numa compulsão de momentos 
Com as ideias tão aceleradas 
E as sinapses desorganizadas 

Faz comentários descabidos 
Que são sempre mal recebidos 
E só sabe dizer disparates 
Tolices asneiras dislates 

Não consegue calar o bico 
E é capaz de deixar num fanico 
Quem se vê sujeito à soltura 
De ideias a qualquer altura 


Provérbio provado rimado - MDLXXXVIII

Ela é uma senhora castiça 
Que atinjiu a meia idade 
Mas não é todavia postiça 
E assume a sua identidade 

Que a cabeleireira grisalha 
Não iluda os mais desatentos 
Pois ela é jovial e se calha 
Sabe esgrimir argumentos 

Fresca e fofa todos os dias 
Não põe o pé nas argolas 
É capaz de dar arritmias 
Ainda rompe meias solas 


Provérbio provado rimado - MDLXXXVII

Achas-te um tipo sortudo 
Convicto de que sabe tudo 
Mas assim não vais aprender 
Enquanto a crista não descer 

A vida há-de pôr-te à prova 
Trazendo atribulação nova 
Depois de cada uma passar 
A firmeza irá regressar 

Mas o teu impasse persiste 
Pois a tua arrogância resiste 
E já mais descansado então 
Vai-se o perigo volta a presunção 




Provérbio provado por atacado

Sabei que não enfio a carapuça por dá cá aquela palha: não é assim com duas cantigas que me passam a perna. É precisamente quando pensam que estou com a cabeça nas nuvens que sou capaz de uma solução num abrir e fechar de olhos.
 Não fico muito tempo a criar raízes no fundo do poço: dou logo corda aos sapatos e ponho-me na alheta. 
Também não tenho vergonha de mudar da água para o vinho se a agulha virar. E se for para andar à procura dela no palheiro, dai-me paciência e um paninho para a embrulhar que lá me vou aguentando nas canetas.
Quando percebo que me querem vender gato por lebre e atirar areia para os olhos com histórias da Carochinha, abro a pestana e não conseguem levar a sua avante: é que aos burros dá-se palha, não se dá conversa. 
Deixai-os pousar que eu já comi muito milho por debaixo do espantalho, ando há muitos anos a virar frangos, essa é que é essa! 
Às vezes, sou uma pessoa um bocado teimosa: faço finca-pé e, sem virar o bico ao prego, não arrepio caminho. Se depois bater com os cornos na parede, lá terei de me desemerdar: é a vidinha. Elas não matam, mas moem.
Como vêdes, gosto de chamar os bois pelos nomes, dar com a língua nos dentes e pôr os pontos nos is: não sou de levar desaforos para casa. Digo tudo tal e qual os malucos e posso ser bruta como as casas, mesmo sabendo que pela boca morre o peixe. Abro sempre o jogo e, se preciso for, também sou capaz de abrir os olhos de quem prefere fazer-se de morto ou está, simplesmente, a pensar na morte da bezerra.
Por isso, tropa fandanga, podeis sacar o cavalinho da chuva se pensais em tirar-me o tapete: antes quebrar que torcer, sabíeis? Descansai que não vou arrancar cabelos ou misturar alhos com bugalhos. Ainda assim, é melhor trocar os pés pelas mãos do que ficar a vida toda a ver passar os comboios para no fim ficar 


- A ver navios 

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXXVI

Conheci há pouco a fulana 
E parecia tão encantadora 
Mas anda a ver se me engana 
Porque é muito controladora 

Tal barrete eu não enfiei 
Pois queria influenciar -me 
Então foi assim que a topei 
Pressionando cheia de charme 

Entretanto não sei que faça 
Se eu finja que nem percebi 
Ou se denuncie a trapaça 
Que ela pensa que eu engoli 

Avisei que era inteligente 
Mas não adianta estar fula 
Deve ter-lhe sido indiferente 
Só que ela não me manipula

Não pára de me arreliar 
Não tem vergonha na fuça 
Enquanto continuo a ignorar 
Não me enfia essa carapuça 


Provérbio provado rimado - MDLXXXV

Faz favor com licença desculpe 
É o que a educação esculpe 
Mas que não traz nada de novo 
Aos brandos costumes do povo 

Que a gente é tão acomodada 
Não levanta nenhuma amurada 
E aceita tudo como convém 
De quem dela só sente desdém 

Vai sempre dourar o retrato 
Assim como refere o contrato 
E nos seus dias de pica boi 
Mente tanto ao contar como foi 

Não relata o grau de chulice 
Nem sequer o tipo de burrice 
Em que forçosamente repara 
Pois sempre com tal se depara 

Mourejando de forma cegueta 
Chega a meio do mês sem cheta 
Mas bem como um boi é picado 
Para render mais um bocado 


Provérbio provado rimado - MDLXXXIV

A prisão de ventre é lixada 
Um dia vai dar em cagada 
Mas é de se evitar afinal 
Que dê em diarreia mental 


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXXIII

A vida é a pergunta eterna 
Que com a cabeça contende
Vivem em união fraterna 
Já que perguntar não ofende 

Porque o que há mesmo a fazer 
É dar corda à imaginação 
Nessa dúvida toda viver 
Até ir dormir para o caixão 


sábado, 1 de novembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXXII

Também me senti excitada 

Com a nossa despedida 

Não era assim programada 

Porém foi bem recebida 


E perante essa surpresa 

Desfrutei muito do beijo 

Que fez subir com certeza 

O meu nível de desejo 


Sinto também de antemão 

Que tudo fará sentido 

Porque além da tesão 

Há muito pra ser vivido 


Tu no entanto não temas 

Que eu construa castelos 

Não vou trazer-te problemas 

Somente momentos belos 


Espero que gostes de ler 

Estes versinhos tão crus 

Que contam quanto prazer 

Terão nossos corpos nus 


E se me ponho a divagar 

Enquanto o corpo derrete 

É mais fácil assim delirar 

De facto a coisa promete 



Provérbio provado rimado - MDLXXXI

Os censos dão uma ideia 
De como procria a gente 
E parece acção em cadeia 
De um gene sempre diligente 

Gráficos a três dimensões 
Fazem curvas de natalidade 
E convém que tais proporções 
Desenhem bem a realidade 

Mas os números desconhecem 
Os preâmbulos dos nascimentos 
Dessa forma eles não formecem 
O calor que move os momentos 

São estáticos e são muito frios 
Os algarismos da demografia 
Não assegurando os desvios 
De alguém que só se alivia 

A estatística é rigorosa 
Mas pode falhar a equação 
Pois é na noite silenciosa 
Que aumenta a população


Provérbio provado rimado - MDLXXX

Alguém que gosta de bem-estar 
Tendo o ócio a acompanhar 
Junta a companhia à bebida 
É o melhor que leva da vida 

Só que não vivendo em casal 
Não dispõe de um par oficial 
E terá de sacar companhia 
De mulher que não seja arredia 

E que disposta a entretê-lo
Não lhe chegue a roupa ao pêlo 
E que os desejos lhe satisfaça 
Mesmo se a vontade for escassa 

Vai directo a um lupanar 
Para o sexo que tem de pagar 
Mas primeiro faz um intervalo 
Para poder molhar o gargalo 

Já no local e de copo vazio 
Pede vinho que esteja bem frio 
E assim putas e mais um verdinho 
Sabem pôr um homem mansinho 


Provérbio provado rimado - MDLXXIX

Aposto que nem tens noção 
Dessa que é a vulgar posição 
Em que prontamente te prestas 
A lidar com coisas funestas 

Como louco ou meio bobo 
Metes-te na boca do lobo 
E estás sempre a arranjar 
Mais lenha para te queimar 



Provérbio provado rimado - MDLXXVIII

Tu exibe alguma habilidade 
Para os entraves vencer 
Saberás ter a capacidade 
Dos teus objectivos obter 

Conforme a música tocar 
Assim deves abrir o ouvido 
E ao mesmo ritmo dançar 
Para não seres substituído 

Perante um caso complicado 
Tu não percas a compostura 
Pois terás de soar adaptado 
Demonstrar jogo de cintura 




Provérbio provado rimado - MDLXXVII

Não sei se um verso te faço 
Que saiba cantar meu desejo 
Às vezes só quero um abraço 
Mais do que um húmido beijo 

Entretanto se um beijo houver 
Consigas também ser meiguinho 
E que esse mimo possa parecer 
Um beijinho à passarinho 


Provérbio provado rimado - MDLXXVI

Não sejas mangas de alpaca 
Um ajudante da burocracia 
Ou vais dar muita barraca 
Ao balcão dessa secretaria 

Percebo que será frustrante 
Sempre iguais tarefas fazer 
Pois sentes-te insignificante 
E tão prestes a endoidecer 

Tu compensas esse desencanto 
Com excesso tremendo de zelo 
Evita que largues num pranto 
Quando sacas algo do prelo 

Na mencionada repartição 
Tu costumas ser apontado 
Por não oferecer solução 
A quem comparece atrasado 

E então só dás seguimento 
Se nas linhas certas assina 
Cada regra e procedimento 
Toda a tua cartilha domina 

Fechado e também impassível 
És como um detalhista à antiga 
Nunca consegues ser flexível 
Seu burocrata de uma figa 



quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXV

És a rainha do boato 
Que entoas ao desbarato 
Pedindo ao interlocutor 
Que não seja teu delator 

Com grande mistério intentas 
A fé naquilo que inventas 
E ao construir cada enredo 
Tu rogas que fique em segredo 

Imploras grande discrição 
E vais repetindo essa acção 
Para cada rumor revelar 
A quem se disponha a escutar 

Por não conseguires ser discreta 
A questão já não é secreta 
E corre então em paralelo 
Tal segredo de polichinelo 




Provérbio provado rimado - MDLXXIV

Tu desejas protagonismo 
Por causa do teu narcisismo 
E não sentes qualquer empatia 
Por quem te faz companhia 

Sabes provocar tanta dor 
A quem está ao teu redor 
Mas não te crês responsável 
Por essa aflição evitável 

Manipulas a realidade 
Com imensa facilidade 
E os factos vais distorcer 
Quando isso te convier 

Os restantes intervenientes 
Até se sentem impotentes 
Chegando mesmo a duvidar 
Do seu modo de avaliar 

Usas um disfarce de charme 
Esperando que o povo desarme 
Em público és tão amistosa 
E em privado és impiedosa 

Tu projectas cada tua falha 
Por medo ou coisa que o valha 
Mas também por insegurança 
Punes quem te dá confiança 

Mais pareces não ter consciência 
Ou sequer um pingo de decência 
Já que tu nunca és a culpada 
Foste sempre influenciada 

Persegues toda a nova presa 
Que ao reagir com surpresa 
Logo é excluída muito à toa 
Cuidando que é má pessoa 

És tão hábil a assim descartar 
Quem não te andar a adular
Vais embora sem qualquer aviso 
Considerando que não é preciso 

E para além da manipulação 
Também tens a forte obsessão 
Do controlo sem descaramento 
Como se sempre teu o momento 

Ser muito perfeita simulas 
Enquanto os outros anulas 
E agindo segundo o teu esquema 
Tu jamais serás o problema 

Esse modo de ser vergonhoso 
É um círculo tão vicioso 
E só quem não te conhecer 
É que te compra sem ver 








quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXIII

Eu supus que te ias embora 
Bem mais tarde do que agora 
Quando um bom substituto 
Comprovasse algum atributo 

Mas antes do que era esperado 
Foste sem mais despachado 
Por causa de tanto enrolares 
E a minha vida empatares 

Tão fartinha de cada finta 
Eu dispensei-te com pinta 
E se não soasse o alarme 
Seguirias a enganar-me

Dito isto estarei disponível 
Para quem tornar acessível 
O caminho para o seu coração 
Sem entrar em contradição 

Do que sente não guarde segredo 
De se dar tenha nenhum medo 
Que seja assim de ti o oposto 
Depois de rei morto rei posto 

Esperando que o rei vindouro 
Surja então coberto de ouro 
O seguinte é sempre melhor 
Para desbaratar o amor 


domingo, 12 de outubro de 2025

Provérbio provado esperando de lado

 

Fomos ganhando o hábito da desconfiança a cada nova estação de partida. Levamos o peito passo a passo mais encolhido. Quando chegamos é já de braços fechados, atentos no assinalar de outros também cruzados. Braços que não se prestam à troca porque são, a toda a nova recepção, cada vez menos soltos, menos livres.

Assim acossados, a tendência é para que ultrapassemos os acontecimentos certos de que prescindimos das evidências. Já vamos preparados, aliás, para interceptar o fingimento e representar um papel que não desejamos no teatro social. Com os dez dedos fora de cena e, com sorte, um naipe parcelado dentro das mangas. Preparados para o passou-bem frouxo, nunca para um embate de frente. Nas circunstâncias mais típicas acautelamos o boato dançando ao ritmo das cadeiras que vagam. Mas não conseguimos evitar a suspeição, isso não. Colocamos sempre alguma reserva nas intenções alheias, prontos a revelar mais uma camada de mentira por detrás da que se nos afigura mais evidente. É de facto curioso que raramente escolhamos acreditar nos outros humanos.

Quantas vezes se falou bem de nós nas costas? Certamente quase tantas como aquelas em que se falou mal. No entanto, não estamos à espera que as pessoas que nos rodeiam se reúnam para conspirar a nosso favor, imaginamos imediatamente um tribunal cujo veredicto nos prejudicará.

Seríamos mais livres, menos reféns da suspeita, se descruzássemos os braços e oferecêssemos hipóteses aos tendões. Um dos grandes problemas da comunicação, e da falta dela, é afinal neuro-esquelético: não aprendemos a ginástica da entrega por nos apresentarmos


- De braços cruzados

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXII

Se achas que me falta esperteza 
Podes logo abraçar a certeza 
Que não a tenho suficiente 
Para discutir com a gente 

Se ademais te pareço cansado 
É do peso em excesso levado 
Que aguentar a burrice alheia 
É tarefa exaustiva e tão feia 

Se crês que ninguém me adora 
Podes ir desde já porta fora 
Porque eu não pedi audição 
Para ter amigos de feição 

Se de mim me julgas tão cheio 
Raramente os outros premeio 
É melhor ser como um balão 
Do que ser vazio por opção 

Se pensas que me penso melhor 
Do que a multidão em redor 
Obrigado por me dares o aviso 
Embora num contexto impreciso 

Se argumentas que um dia mudei 
Pois no mesmo lugar não fiquei 
O problema de ser sempre igual 
Não é meu mas sim teu afinal 

Se às vezes te pareço quieto 
Indiferente ou até circunspecto 
É que estar calado eu prefiro 
Com as minhas escolhas não firo 

Se adiantas que sou perdedor 
Não pedi para ser vencedor 
Não vou convencer-te de nada 
Ou ceder-te a vida emprestada 

Se por fim até se te afiguro 
Que não levo em conta o futuro 
É porque se calhar eu só levo 
Mais a sério aquilo que escrevo 

Se opinas que vais a algum lado 
Estás decerto muito equivocado 
A tua opinião não me interessa 
Eu só dou valor ao que peça 

Por isso poupa lá a energia 
Para o que te seja mais valia 
Lamento pela pouca atenção 
Fala aí com a minha mão 






sábado, 27 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXI

Tu chamaste-me vaidosa

E também superficial 

Sabendo que és invejosa 

Não lhe dou atenção total 


Porém fica lá um resquício 

Dos betardos que lançaste 

Que provoca quiçá malefício

E faz-me sentir um traste 


Essa dúvida vai remoendo 

Tornando-me mais insegura 

E a coisa segue em crescendo 

Batendo-me noutra altura 


Foi apenas uma opinião 

Largada com muito despeito 

Que além de operar fricção 

Me ficou cravada no peito 


Logo há duas alternativas 

Nenhuma será a mais certa 

Surgem em vias rotativas 

Mostrando à vez uma oferta 


Então para a frente empurro 

Aceitando os traços do Eu 

Por saber que as vozes de burro 

É difícil que cheguem ao céu 


(Ilustração: José Alves)



Provérbio provado rimado - MDLXX

Às vezes não compreendo 
O modo de ser mais alheio 
Que aponta o dedo tremendo 
E mostra também o do meio 

Deito-me então a pensar 
Que não é um acto correcto 
Os defeitos de fora apontar 
No que na gente é secreto 

Portanto no que toca a mim 
Gostava que fosse diferente 
Houvesse abertura sem fim 
Nos corredores da mente 

E falassem então do que penso 
Pensassem também no que falo 
Sem um dedo hirto e tenso 
Soubessem porque me calo 

Assim caladinha converso 
Com os botões da camisa 
Que expõem um uso diverso 
E me fazem ser mais concisa 

Falando com os meus botões 
Eu faço caretas ao espelho 
E quando prevejo aflições 
Peço aos botões um conselho 

Não é que um simples botão 
Seja melhor que um amigo 
Mas ouço a voz da razão 
Falando a sério comigo 


Provérbio provado rimado - MDLXIX

Fecunde-se a opinião 
Principalmente a alheia 
Cada um tem a sua razão 
E dela a barriga tão cheia 

Porque a pessoa progride 
Na viagem que traz na retina 
Aos outros não deve pevide 
Nem sequer precisa de ardina 

Que lhe anuncie os fracassos 
Enquanto os sucessos esquece 
Que faça da espera compassos 
Comentando o que lhe acontece 

E fazendo o papel de arauto 
Da desgraça e até da tristeza 
De cada vez que um incauto 
Lá perde mais uma certeza 

Ao prever o desastre iminente 
Com o credo na boca ele passa 
Afinal o que é simplesmente 
É ser um arauto da desgraça 


Provérbio provado rimado - MDLXVIII

Quem é o tipo de marmanjo 
Que insiste em rodear-te?
É lobo com cara de anjo 
E traz a auréola à parte 

É o género de predador 
Que mais parece um falcão 
Investindo com tanto vigor 
Quer ganhar total atenção 

Anseia que a ele te rendas 
Com extrema facilidade 
Impondo-te várias agendas 
Para agires em conformidade 

Não espera obter resistência 
A tudinho o que ele deseja 
E até vê muita pertinência 
Em que te dês de bandeja 


Provérbio provado rimado - MDLXVII

Tu és um gajo pedante 
Estás tão saturado de ar 
Achas que és importante 
E um dia podes rebentar 

Crês que o teu peso é maior 
Do que o comum dos mortais 
E julgas-te um ser superior 
Mais apto do que os demais 

Conviver à tua altura 
Já foi uma fé que perdi 
Por não aturar a postura 
De quem está cheio de si 


Provérbio provado rimado - MDLXVI

Amor a quem tanto concedo 
A minha constante oferta 
Que até chega a dar medo 
Estar sempre de perna aberta 

Muitas vezes estás indisponível 
E eu tão parva espero sentada 
O teu desdém é de um nível 
Que me deixa super frustrada 

Não tenho o tempo do mundo 
Para estar por ti a aguardar 
E porque eu sei lá no fundo 
Não termos pernas pra andar 


Provérbio provado rimado - MDLXV

Por onde tu andas amor?
Em que longínquo hemisfério?
As saudades do teu sabor 
São para mim um mistério 

No meu íntimo mal te provei 
O que com certeza te espanta 
Já que o dia em que te beijei 
Deixou-me um nó na garganta 


Provérbio provado rimado - MDLXIV

Parecia existir empatia 
Misturada com muita tesão 
O João gostou da Maria 
E a Maria gostou do João 

Mas diante de um compromisso 
O João fez marcha-atrás 
Não queria entrar logo nisso 
Por pensar que não era capaz 

No que toca à Maria tão doce 
Tal qual um gato escaldado 
Deixou que a coisa assim fosse 
Só promessa de um namorado 

Em face do fraco empenho 
E da expectativa a morrer 
Fazia-lhes falta um desenho 
Que dissesse como proceder 

Então nem houve começo 
Tão pouco chegaram à cama 
Restou um sóbrio apreço 
E os dois ficaram pela rama 


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXIII

O cérebro é tão bonito 
Que todos o deviam ter
Porém não fiques aflito 
Não vás logo esmorecer

Por isso persiste e estuda 
Que decerto irás progredir 
Pois na vida tudo muda 
Não queiras só subsistir 


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXII

Nem sei sequer se és giro 
Mas essa ideia eu prefiro 
Vou imaginar-te um galã 
Sem remelas pela manhã 

E quando um dia te vir 
Irei mirar-te a sorrir 
Constatando com emoção 
Que tu és um grande pão 


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXI

Se te passa a perna o futuro 
Erguendo-te em volta um muro 
Tu és minado pela ansiedade 
De não querer viver pla metade 

De facto o futuro dá medo 
Não é pra ninguém segredo 
E é um país tão distante 
Onde tu irás doravante 

Quando tu quiseres mentir 
Fala do tempo que há-de vir 
É argumento que não convence 
Que o futuro a Deus pertence