sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Provérbio para uma amiga

Não desejando tirar cores e sabores a outras amigas, a Marta é especial.
Descobri há tempos um provérbio e cheguei a sugerir-lhe que mo escrevesse “por encomenda”, e sendo uma pessoa discreta, não se escusou de todo mas também não exultou propriamente. É essa uma das características da Marta: tem uma fleuma muito calorosa, passe a contradição. E sendo ela discreta, abster-me-ei de discorrer aqui sobre as suas extraordinárias virtudes, o seu admirável apego à vida sem dramas, oferecendo lições de borla aos mais atentos sem no entanto se tornar pedante ou querer vender as suas ideias.
A Marta canta muito bem, é extremamente afinada e tem um timbre jazzístico que muito me agrada. Para além disso, tem uma capacidade de improviso fabulosa; e entre outras, recordo com particular carinho a sua versão do Summertime em português, da qual me lembro apenas de frases soltas, se calhar trocadas pela memória:
" É Verão (…) e o algodão está crescido / O teu pai é riii-co e a tua mãe é bem boa / Por isso, querida, não chores mais… "

E se recordo a tua voz maviosa, recordarás decerto o meu pânico com o regime de contrato da função pública. Por isso acontece, querida Marta, e sem lágrimas, que te devo já vai para um ano um jantar. Planeio encher-te o estômago e o fígado de agradecimentos, e no fim terás de fazer jus ao provérbio que não quiseste escrever:

- Bem canta Marta, depois de farta

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 10 de Setembro de 1942 – É fantástico ver o impudor com que este meu amigo mente! E é fantástico ver também, com que bonomia, numa terra de intolerantes como a nossa, este pequeno pecadilho nacional é tolerado. Mas, pensando bem, é natural. Na casa onde não cabem grandes janelas, cabem sempre pequenos postigos…
»

In Diário, Vol. 2 – Miguel Torga

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 – Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.
…Quinto – a sede de amor absoluto que me devora;
Sexto – o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço. Absolvido.
Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo?
Porque não. Porque um homem não se escreve.
»
In Diário, Vol. 1 – Miguel Torga


P.S. – Post livre de preconceitos virtuais, e quiçá supondo que os Diários do Torga se tornariam no melhor blog português, fosse ele um contemporâneo entusiasta da Internet. Apenas desconfio que não seria adepto das redes sociais…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Provérbio a gosto

Há muito que se sentia confortável com a inexistência das mulheres na sua vida. Esse comedimento reflectia-se numa redoma implacável por saber que, ao menos uma que deixasse aproximar-se, viria desnortear a sua linha de pensamentos já tão precária e o afastaria dos projectos que queria a brotar apenas da sua fonte identitária. Assim o faziam as mulheres, mesmo sem intenção, imiscuindo-se aos poucos nos sonhos de um homem e aí tomando raízes. Resolvera-se evitá-las então, permanecendo vigilante no seu propósito, mas a decisão não o impedia de por vezes experimentar uma certa insatisfação.

Foi numa esplanada toda virada aos salpicos do mar que sentiu espalhar-se-lhe pelo corpo devagar uma sensação julgada desaparecida. Era uma tarde muito azul desse Verão tão denso de incêndios por todas as partes. E na sua pele um incêndio também, devastando áreas secas como se mato por desbastar. Foi nesse Verão tão incendiado e espesso de suor que tomou o antídoto do que já não sabia do amor, experimentando um vasto número de mulheres. Só um número nesse Verão, com o mero fim de serventia: o de se aclimatar de novo às mulheres, para vingar todas as que entretanto não lhe haviam interessado e que lhe tinham passado ao lado como um sobreiro descascado.

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra