sábado, 23 de julho de 2011

(Vários) provérbios provados numa (longa) conversa

Uma tasca com nome de estádio. Múltiplas pequenas mesas amontoadas ao calhas. Três jovens, nos seus vintes, mais as minis e as conversas cruzadas. E um brinde inicia o jogo habitual do “se perdes, bebes”, que é só um pretexto para a conversa fluir solta:

RICARDO - Então?, vamos escolher o tema…
PATRÍCIA - Gostei na semana passada, o dos filmes. Hoje não tenho ideias.
MANUEL - Sim, o dos filmes, muito interessante. (maroto) Quando tu não estás cá, jogamos com outro tipo de filmes. (piscadela de olho para Ricardo)
R. - Ó Patrícia, não lhe ligues. Ele só te quer chatear. Então?, o tema de hoje pode ser, deixa ver: provérbios.
M. - Provérbios? Isso é um bocado seca.
R. – Não é nada! É tão fácil, há tantos!
M. – Se é assim tão fácil, não se bebe nada. (ri-se muito)
P. – Eu gosto da ideia. E temos dois terços dos votos, portanto a maioria é soberana; isto já conta como provérbio?
R. – Podia contar. (sorri benevolente para Patrícia) Mas não, começamos agora. Vamos lá, no sentido dos ponteiros do relógio. Patrícia, és tu. Ó Sr. Marques, traga mais três, estamos secos!
P. – Deixa-me pensar… O que é teu à tua mão há-de chegar.
M. – Pássaro enjaulado não voa.
R. – Ó Manel, qual é a relação?
M. – Tu não disseste que há tantos?, cada um vê nos provérbios a relação que quer. E toma lá dois seguidos. Ah-ah!
R. – Se queres jogar à toa, Manel, por mim tudo bem. A paciência é uma virtude.
M. – Essa é boa! O que tem o cu a ver c’as calças? E toma lá três, bebe!
R. – Adiante. (bebe) Patrícia, és tu.
P. – Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
M. – Quem? Essa não é para mim, de certeza. (piscadela de olho para Ricardo) Sou eu a jogar? Quem diz quem? Ah-ah! O seguro morreu de velho.
P. – Nunca percebi essa expressão…
R. – Nem eu. (sorri benevolente para Patrícia) O que não se faz de uma vez, faz-se em duas ou três.
P. – Fraquinho, fraquinho. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
M. – Epá, temos guerra aberta. (esfregando as mãos) Vénus anda no ar?
R. – E também o Baco; não é, ó Manel? Isso nem foi provérbio, atina lá no jogo.
M. – O que é bonito é para se ver. Ah-ah!
R. – O segredo é a alma do negócio.
P. – Onde há fumo, há fogo.
M. – Olho por olho, dente por dente.
R. – Isso é bíblico. O Cristo não concordava com isto, e vai daí a ligação de se oferecer a outra face.
M. – Lá vens tu, feito professor, estou-me a cagar para a Bíblia. (Manuel interroga-se agora se há-de manter a maiúscula)
P. – Manel, bem sabes que o Ricardo não perde uma oportunidade de ensinar os pobres de espírito. (irónica)
R. – O saber não ocupa lugar. Bebam, os dois! Com esta arrumei-vos.
P. – O sol quando nasce é para todos. (bebe)
M. – O sol, se houvesse onde o esconder, já o teriam roubado. Ah-ah! (bebe)
R. – Nem sei se é provérbio, mas que bonito, pá! Os amigos são prás ocasiões.
P. – Esse nem devia valer, Ricardo, de lógico que é… Deixa-me pensar numa coisa espirituosa assim da mesma colheita (irónica): O sal é o rei dos temperos.
M. – Vocês, parem com a parvoíce; Sr. Marques, são só mais três! Sou eu a pagar esta rodada? Sou eu a jogar? Quem diz quem? Os espertos também se enganam. Ah-ah!
R. – Os olhos comem primeiro do que a boca.
P. – Os olhos são o espelho da alma.
M. – Olha que merda mais a estas frases recicladas, parece que estamos todos a mandar bocas uns aos outros. Quando termina o jogo? Cá p’ra mim, quem ri por último, ri melhor. (e bebe)



P.S. – Post livre de preconceitos de enumeração, e quiçá arriscando prémio a quem contar os provérbios deste diálogo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Provérbio provado viciado

As notícias publicadas nos jornais cantavam parangonas em louvor ao euro: estava-se no tempo da transição do escudo e fazia-se ainda a multiplicação por duzentos vírgula outros três números. Que crise, que lá!, o euro era moeda boa, viçosa e fresquinha, que apetecia gastar.

Ele transportava-se pela profissão com perfeição, o euro era ouro na sua mão, misto de Midas e Adónis com cauda de pavão. Vaidoso, vaidoso. Todo o ser se projectava para fora, como um filme dedilhado a pulso pelo realizador. Nos momentos em que não tinha de estar a fingir, podia então recolher-se aos seus corredores envoltos em trevas.
Até que um dia, o consumo esporádico e tão-só recreativo se transformou em sujeição ao vício. Isto foi antes das consultas, muito antes da suspeita de que um dia precisaria dos médicos e medicamentos; isto foi na época em que se supunha no controlo das vontades. E em que ganhava bom dinheiro, que lhe sustentava tanto o vício como as aparências.
Vivia sozinho em casa própria e, quando estava normal, dava jantares para os amigos, onde fazia as vezes de esforçado cozinheiro e anfitrião afável. Dera-se porém ao cuidado de arrendar uma casa no bairro mais esconso da cidade, na viela mais pútrida desse bairro, com os passeios carregados de traficantes e viciados. Aí, nessa casa, despia a máscara e dava-se à evasão total. Nem sequer se pode dar o nome de casa a um quarto minúsculo, com a sanita e o lavatório a um canto e um colchão piolhoso no outro.
Nunca ninguém soube desse refúgio durante mais de dez anos; alguns amigos dos jantares chegaram a visitá-lo na clínica, outros não foram a tempo.

- O que o dinheiro dá o dinheiro tira