quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Provérbio citado (LAHIRI)

« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».

In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Provérbio linguarudo

Felizmente deixámos o apartamento há já dois anos.
Havia principalmente aquela velhota viúva do rés-do-chão direito sempre em conferência com a porteira. Aquilo era uma calhandrice pegada, a ver qual a mais coscuvilheira. Quem saía, quem entrava, com quem ia e a que horas vinha, quem correspondência tinha...
Línguas afiadas, de trapos, o pior mesmo a dizer das duas. E a porteira era a mais pica-miolos, quebra-ossos, não que fosse violenta ou corpulenta, mas porque era capaz de com apenas uma frase reduzir uma reputação a fanicos.

- Língua comprida, mentira maior

sábado, 3 de outubro de 2015

Provérbio corrido

O Fábio decidiu largar o ferro todos os dias no ginásio quando se pôs de moda a febre das correrias. Preparou convenientemente a troca de um desporto pelo outro: dirigiu-se a uma mega loja especializada e dispôs-se a comprar todo um arsenal de equipamento, desde roupa colorida e ténis novos a gadgets que contam quilómetros, ritmos cardíacos e só falta fazerem também os alongamentos. Mudou também o alinhamento musical que o passou a acompanhar sempre, e agora ouvia músicas alegres e ritmadas, que lhe tornavam o espírito mais leve e tremendamente positivo.
Todos os fins de semana havia pequenas maratonas que, por vezes, se assemelhavam a manifestações de sindicato, dado que a maioria dos corredores se deixavam apenas caminhar vestidos de igual. Havia sempre um qualquer motivo solidário e por isso se compravam uns sacos com t-shirts mal impressas e dois pacotitos de merchandising.
Não tardou a juntar-se a um grupo de corridas, formado informalmente, que começava às 6 da manhã percorrendo sempre a mesma rota, e ao qual se iam juntando mais e mais pessoas pelo caminho. Acordava cedo, energético, previamente excitado com as ancas, rabos e seios que abanavam e saltitavam todas as manhãs à sua volta. Sem querer tinha vindo substituir o Filipe, antigo camarada das manhãs, que estava encostado com uma hérnia.
Nem de propósito, nessa manhã o Manuel dirigiu-se-lhe numa conversa assim:
Sabes com quem falei ontem? Com o Filipe. Qual Filipe? O da hérnia. Está, está; está melhor das costas e a organizar a meia maratona deste fim de semana. Se ele vem? Diz que vem de muletas, se for preciso. É tudo pela causa, claro! Ah, ok, sim, é um rio que querem betonar. Ora, porquê!, para fechar o rio, ordenar as margens e porque acho que cheira mal como o caralho, desculpa lá a linguagem. O movimento está contra, o Filipe diz que descaracteriza a paisagem, e além disso quando vierem as chuvas vai haver inundações como o… muitas inundações, mesmo! Contamos contigo, certo? Mas porquê? Pois, a família é o mais importante de tudo. Com a família não se pode falhar.

No Sábado pela fresquinha, ao Fábio apetecia-lhe ir sozinho à corrida mas, como não queria melindrar ninguém, evitou os percursos habituais e introduziu-se, já com a t-shirt laranjão vestida e disfarçado de boné e óculos escuros, no fim da partida onde iam chegando os retardatários. Lá no início estava o Filipe, bem disposto e até disposto a correr pela causa.
Já tinha começado a corrida quando chegou o Manuel com duas louras jeitosas de t-shirt laranjão. A Marlene já fazia parte do grupo e trazia uma amiga nova. O Manuel tirou-lhe as medidas e pôs-se numa conversa assim:
Querem começar já a correr? Podemos ir primeiro só a caminhar para aquecer, e conversar um bocado. Marisa, não é? Quer uma água?, está fresca… Pronto, a senhora é que sabe. Menina? Combinado então, tratamo-nos por tu. O rio? Não sei, nunca lá passei, mas assinei a petição no Livro das Caras, claro! O Filipe é que está a organizar isso, ele costumava correr connosco, mas a saúde, sabes?, deve estar por aí sentado a ver a corrida passar. Quem, Marlene? Ah, o Fábio tinha um almoço de família, não podia vir. Onde? O Fábio, onde? Olha-me este!, que descaramento, a mentir-me com quantos dentes tinha na boca, eu arranco-lhe um a esse filho da… Olhem que as pessoas… Deixem, vamos ignorar e começar mas é a correr. Veem quem vai a correr lá à frente? Não é que é o maluco do Filipe? Venham, vamos apanhá-lo!


- Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Provérbio citado (CARVALHO)

«(...) Durante toda a noite, assistimos àquela actividade formigueira de que nos chegavam ecos longínquos de estranhos cânticos, ritmados ao som de tambores. Ao amanhecer, os campos estavam quase limpos de cadáveres e a chusma de mouros parecia mais adelgaçada, não tanto pelas perdas que houvessem sofrido, mas porque, por cada um que ficou, outro teria partido a talas os campos ou a procurar melhor sorte mais além. raras e desconvictas eram as investidas contra as muralhas. Pareciam ter optado por um cerco prolongado, sem que alguém pudesse perceber que vantagem teriam nisso. Pobremente acampados, debaixo de coberturas de pele, continuavam a fazer ressoar os tambores que retumbavam nos ares. Um assomo da brisa trazia-nos, de vez em quando, os seus cantares, em coro. No mais, era um estendido e miserável acampamento de nómadas. Nós cremámos os nossos mortos, com o cerimonial mínimo. À música dolente que ondulava ao longe, respondia a cidade com os gemidos das carpideiras, o toque das flautas cerimoniais, e o lamento dos familiares dos mortos.
Ao segundo dia, pela hora sétima, Calpúrnio veio visitar as muralhas, com alguma pompa, acompanhado por Ápito e outros decênviros. Caminhando a pé, a seu lado, logo atrás dos lictores, Airhan, de armadura de ferro e elmo à cinta, trazia ao ombro alforges com dinheiro que ia distribuindo aos combatentes. Escravos de Calpúrnio já tinham percorrido as ruas, dispensando espórtulas aos familiares de mortos e feridos, de acordo com a categoria social de cada um: mais aos ricos, menos aos menos.
(...) »

In Um deus passeando pela brisa da tarde - Mário de Carvalho

sábado, 29 de agosto de 2015

Provérbio previsto

Não conseguia lembrar-se exactamente desde quando - talvez dois, três meses - mas ele andava diferente. Atrasava-se muito agora, ele sempre tão pontual. E, quando não se atrasava, desmarcava à última hora, ele sempre tão correcto e educado. Ora era um almoço com um cliente, ora reuniões com os colegas para discutir propostas. Demorava-se até tarde no emprego, ele sempre tão apologista de que não se podia viver apenas para trabalhar.

Trabalhar, trabalhar, não trabalhava. E o mais certo era que nem sequer o fizesse bem: andava de cabeça completamente desvairada e doente de paixão pela estagiária. Saíam a meio do dia para o motel, e depois de jantarem voltavam ao motel, onde os tomavam por mais um casalinho atrevido. Passaram-se quatro meses nisto, até que a situação se tornou insustentável.

Depois da maldita conversa, ele baixou os olhos e nunca mais foi capaz de a encarar directamente.Não lhe faltava mais nada: triste e divorciada. Andou um mês a chorar pelos cantos; porra, que só lhe vinham as recordações saborosas para aumentar o padecimento. Até que um dia entrou lá em casa, num aparatoso sobressalto, a amiga Ana. Subiu os estores, puxou as cortinas, pôs a água a correr para o duche e pegou numas calças e t-shirt lavadas:
- Anda lá, mexe-te, e seca já essa merda dessas lágrimas que nunca mais param de correr!

- Ferida molhada, ferida infectada

domingo, 23 de agosto de 2015

Provérbio provado santificado

Aqueles eram os dias entre a apanha do figo e da uva, e embora as nuvens escondessem teimosas o sol, ele queimava. Às vezes punha-se um tempo muito abafado, carregado de ventos quentes, que dava dores de cabeça. A Avó em casa dizia: Está aqui, está a pôr-se a trovejar; o Avô na várzea dizia: Vamos embora, que vem lá trovoada. Então voltávamos ligeiros e ao passar ao São João, onde ficava a tele escola com o seu catavento altaneiro que nesses dias rodopiava sem destino, vínhamos por ali abaixo que assim como assim todos os santos ajudam. Chegados a casa já estava a Avó numa prece baixinha, uma reza que tentou várias vezes ensinar-me. Eu, garota, reagia ao drama fugindo a esconder-me debaixo da cama, donde só saía quando voltava a bonança.
São recordações tão vívidas que, ainda hoje, tremo ao som do trovão e começa-se a desenhar-se a canção da qual só me lembro o início: "Santa Bárbara bendita, no céu está escrita, leva lá para bem longe esta trovoada..."

- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja

sábado, 15 de agosto de 2015

Provérbio divino

Chegado que era Agosto lá na aldeia, não havia sequer espaço para estacionar uma agulha, tal era a afluência de famílias que chegavam de todo o país e também do estrangeiro. Quando apareciam, logo começava a trinar o sino anunciando a festa anual. Os filhos da terra vinham esbaforidos das cidades, ansiando beber inspiração, consolo, fraternidade, eu sei lá, naquele verde a perder de vista.
Nesse Verão estava muitíssimo calor, mas para o final da tarde adensava-se uma neblina carregada de ventania e trovoada. O arvoredo todo se abanava e remexia, e pequenos ramos e folhas volteavam caprichosamente ao sabor do anoitecer. Dormia-se mal tal era o vendaval.. Dadas estas circunstâncias climatéricas, foi mais que certo que chegado o dia da festa tudo estivesse por preparar. Mas esta gente nascida no meio das pedras era tão rija quanto elas, e iria ter a sua festa desse lá por onde desse.
Coordenaram-se então movimentos: uns carregaram madeiros para improvisar um palco, outros montaram um bar sem águas correntes sobrepondo pedras de xisto, e depois foi só alçar as barraquinhas velhinhas da tia Aida e das sobrinhas, numa as famosas filhozes e noutra a quermesse "Sai sempre" - e saía.
Acercou-se depois o mais beato mulherio enfeitando com flores os andores, e um grupo de pacóvios transportando cada um seu instrumento num arremedo de tocata. Apenas um deles sabia de música, os outros marcavam mais ou menos a compasso os ferrinhos, a concertina, o cavaquinho, a gaita de beiços e duas guitarras desafinadas.
Dispondo-se em cena os actores lá arrancou a procissão, dispersa numa amálgama de santíssimos, estandartes mal engalanados e rezas desafinadas. Foi por ali fora dar três voltas à capelinha do monte e regressou.
Tivéssemos ido também, atentos e sóbrios, e talvez pensássemos que é este culto meio acabrunhado, porém superficial. O que iria na cabeça dos que, com olhos baixos, carregavam estatuetas com a tinta meio comida às quais se loam orações? Em que pensariam enquanto percorriam aquele caminho soprando cantorias, e por dentro palavras há muito ansiosas por partir? Fazer luto ou de conta que ainda há esperança? Talvez alguns desconfiassem que este Deus não é afinal magnânimo, nem sequer omnisciente, ou teria evitado uma data de tretas. Ou é castigador, o que não abona muito a seu favor. Ou então dorme demais e se calhar é um pouquito inseguro.

- Deus é grande e o mato é maior

domingo, 21 de junho de 2015

Provérbio provado viajado

Começou por dizer que nasceu numa aldeia remota, onde só não havia mais miséria porque todo o país vivia na miséria. No final da década de 40, nove aninhos acabados de completar, partiu num transporte marítimo com destino a Lourenço Marques. O que terá motivado essa decisão, que empurrão precipitou tais circunstâncias, o que levou uma criança tão pequena a embarcar sozinha numa viagem tão penosa?

- Oh, por essa altura já eu era um adolescente – respondeu, sem mais adiantar de razões e pormenores.

Contou-me então do dia em que resolveu mudar de nome, uma novíssima identidade para fugir de justiças novas e chaminés velhas.

- De repente, nesse momento, parece que passei a ver tudo de um modo completamente novo. Aí, senti que ia começar de facto a minha grande viagem. Mas conservei o antigo bilhete português, por se acaso algum acaso...

- Foi aí que iniciou as suas travessias por África? E qual era o plano? - encaminhei a conversa para a história que me interessava.

- Foi, sim. Eu não tinha nenhum caminho traçado em mente. Parti de Moçambique para o que era então a Rodésia, hoje Zimbabwe, e daí para a África do Sul. Depois pela Namíbia, direito a Angola, e assim resolvi ir subindo a costa atlântica. É engraçado, sabe, quando estive em Marrocos podia ter regressado ao Portugal natal, mas decidi continuar a contornar África pelo Mediterrâneo com destino ao Egipto, pareceu-me mais interessante – riu-se.

- Sim? - digo, para incentivar a conversa.

- Oh, pois claro, isso nem se pergunta! Naveguei pelo Mar Vermelho até ao verde Índico. Foi uma experiência maravilhosa!

- Viajou sempre sozinho? - tentei dar cabo da ideia do viajante solitário.

- Sempre que pude, sim. É que durante estas viagens atravessei uma época tremenda: presenciei tumultos, convulsões socias, muitas mortes. Só trago a memória dos longos rios, dos desertos, dos animais pela savana e das árvores. As árvores por vezes eram poucas, mas que beleza! A natureza foi a minha melhor companheira. O resto apaguei tudo.

- E quando é que se dá o regresso a Moçambique?

- Fui-me atrasando pela Tanzânia. Tinha algum medo de voltar.

- Porquê, pode dizer-me? - perguntei, baixando levemente a voz.

- Tinham passado uns bons anos e muita porcaria por baixo da ponte. Mas quando cheguei a Maputo e reencontrei aquela cor do sol e aquela cor do barro, soube que estava em casa.

Disse esta frase em tom de despedida, mas ainda acrescentou, do outro lado da linha telefónica, com uma risada esplêndida:

- Mas, olhe, fui ganhando tiques nas várias Áfricas por onde passei. Por exemplo, sou de uma pontualidade britânica!

Não, a entrevista não podia terminar assim... e arrisquei a tirada final.

- Então, e o nome do senhor é mesmo Amílcar?

- Isso, menina, nunca poderá saber. É que afinal


- O mundo dá muita volta e numa delas eu entro

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Provérbios provados seleccionados

Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim. Foi pensado assim. pretende que os leitores descubram com surpresa qual é o provérbio-desfecho. Ora sabendo que quem lê muitas vezes espreita primeiro o final, segue uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:

- Dá Deus nozes a quem não tem dentes

- A cavalo dado não se olha o dente

- Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

- A César o que é de César

- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata

- Há mais marés que marinheiros

- Ladrão só, puta só

- Vão os anéis, ficam-se os dedos

- Quem vier atrás que feche a porta

- Pela boca morre o peixe

- Cada qual come do que gosta

- Vozes de burro não chegam ao céu

- A esperança é a última a morrer

- Burro velho não aprende línguas


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Provérbio provado adaptado

Adaptado do Ventoinha

É o final de uma tarde muito quente de Agosto. No escritório, Carlos espreita o relógio: falta uma hora para terminar o expediente. Está sozinho. Os patrões nem lá puseram os pés hoje; imagina-os refastelados numa qualquer espreguiçadeira na sombra de um pinhal. Os reposteiros estão corridos mas mesmo assim o calor penetra pelas paredes tornando mais saturada a atmosfera. A campainha do telefone trina, Carlos atende: Escritório de Advogados Bento, Filho & Associados Limitada boa tarde, mas do outro lado desligam de imediato. Serão os patrões a confirmar a sua presença?, e abana a cabeça não acreditando. Agora é a campainha da porta soando por sua vez. É o amigo Ventoinha. Traz como de costume os cabelos ao ar num reboliço, mesmo num dia como hoje em que não corre uma aragem.
- Acaba lá com isso e vem tomar um café ao Chiado. Quero passar ao Grandela e ver de um presente para uma tia minha...
E pisca-lhe o olho, divertido. Carlos garante que não pode sair já. Mas que ele faça horas, que terá o maior prazer em o acompanhar ao Chiado.
- Tu és muito amedrontado. Então tu crês que os teus patrões te andariam a espiar? Que disparate pegado! Eu sim, ando a ser seguido... mas anda daí à Brasileira que já te conto tudo.
Passam primeiro nos Armazéns do Grandela. Ventoinha vê luvas, chapéus, sombrinhas, meias finas mas nada lhe agrada, a tudo torce o nariz contrariado.
- Gostava de dar algo com mais chique à minha tia. Ela é muito moderna.
E pisca-lhe mais uma vez o olho, com uma gargalhada. Seguem então para a Brasileira a tomar o café. E o Ventoinha começa a soprar a sua história:
- Vês tu aquele indivíduo, à esquina da Bertrand, a espreitar para aqui? (Não olhes agora.) Já não o via há algum tempo e hoje... zás, lá o topei de novo. Tirou a gabardina e rapou o bigode, deve ser do calor.
E realmente lá está um fulano de ar suspeito que os olha. Imagina logo o Ventoinha muito mais metido na política do que parece; é certo que conversam em sussurro muitas vezes contra o regime, mas daí à conspiração vai um longo passo. Pensa que lhe apanharam folhetos, livros ou o apanharam em alguma reunião suspeita, está visto é que o apanharam!
- Tu estás a pensar que é um espião, não é meu pobre Carlos? Mas é alguém acima deles. Eu inventei uma coisa que se chama blog. É um diário do futuro. Tu bates palavras numa máquina de escrever que não faz barulho e, no minuto seguinte, qualquer pessoa no mundo lê na televisão tudo o que escreveste. E isto é uma máquina muito perigosa, claro está! Por isso é que eles andam atrás de mim...
Carlos fica desorientado com a revelação. Pensa que o querido amigo Ventoinha endoidou de vez. Mas ainda lhe pergunta que tipo de coisas escreve nesse ‘bloque’...

- Do bom tudo e do ruim nada

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Provérbio canino feminino

O Doutor Rui Gonçalves estabelecera-se como veterinário na província já lá iam p'ra mais de dez anos, e revelara-se essa mudança da cidade para o campo uma boa escolha para si e para a família. Para além das magníficas paisagens circundantes, estas gentes haviam-nos realmente acolhido com simplicidade e generosidade.
De vez em vez, ocorriam inesperados, emergências, e logo acorria prontamente às chamadas, sempre diligente. Assim foi esta madrugada aquando da aflição com um animal do Senhor José Madureira. Arrancou de sopetão, direito à quinta, e com ele se deparou ao portão dizendo:
- É a Tareca, Doutor!
- Lá vamos, lá vamos... Mas o que se passa com a gata?
- É uma cadela, Doutor!
- Mas tem nome de gata...
- Não, tem nome de fadista.
No meio deste diálogo, o Doutor aproximou-se e viu a cadela quase a sufocar, e a seu lado cinco cachorrinhos acabadinhos de nascer. Já a contar que por aí viessem mais irmãozinhos, o Doutor teve de os ajudar rapidamente a despertar para o mundo: e nasceram mais cinco!, nunca se vira uma cadela parir assim. O Senhor José Madureira, muito apreensivo, balbuciava:
- A Tareca só tem oito tetas! Como é que isto se vai fazer, valha-me Deus meu? Diga-me, Doutor. Como é que isto se vai fazer?
Assim foi que o Doutor Rui Gonçalves acabou por levar consigo dois sobejantes a tiracolo. Quando a mulher o viu chegar de manhã nestes preparos, levantou as sobrancelhas inquiridoras e recebeu como resposta:

- Não pode a cadela com tanto cachorro

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Provérbio canino - III

Joaquim Pintor era viúvo e reformado, cedo deitava e cedo erguia, e frugalmente comia: cozidos e grelhados, nada de fritos ou estufados. Não foram os Domingos, em que se permita certas excepções como doces e enchidos e álcool e cigarrilhas, tudo o mais seria plácido e sereno.
O Joaquim não queria mãos alheias que lhe tratassem da casa; ia fazendo o necessário sem grande dificuldade, gostava de paz e tranquilidade.
Tinha apenas por companhia um gato e um cão que, fazendo jus à forma de estar do dono, conviviam lindamente. Chamavam-se simplesmente Gato e Cão e, como é natural, respondiam sempre pelo nome: eram dois animais muito completos, duas fotografias desfocadas da personalidade do Joaquim. Tinham chegado lá a casa ainda novos, o Cão primeiro que o Gato. O Gato era mais menineiro, e debaixo do sol gostava de caçar moscas no quintal e também de dormitar. Quando acordava das suas sestas, espreguiçava-se até à medula. Tinha um olhar cinza faíscante belíssimo. O Cão, sem querer, às vezes afundava-se naqueles olhos, mas logo se afastava tremendo. O Cão era mais velho e mais companheiro. Andava atrás do dono por toda a parte e, como era arraçado de perdigueiro com rafeiro, o Joaquim até costumava dizer que farejava até Faro.
Joaquim Pintor era caçador. Quando virava a porta, todos os dias à mesma hora, ambos Cão e Gato se acercavam – o Cão porque sabia que era chegada a hora do passeio, o Gato miando e esperando o seu miar comovesse o dono. O que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, não propriamente da caça em si. Aliás, nunca trazia mais do que um exemplar para casa, mesmo se havia caça animada em voo. Era sempre o Cão que lhe trazia a peça, arquejando triunfante à espera da festa reconhecida do dono, e às vezes um pedacinho de torresmo que sobrava dos Domingos.

São destas mudanças que acontecem nas histórias, e vai daí um Sábado em que Joaquim Pintor sai em vias de caçador, acompanhado como habitualmente pelo fiel Cão. Era esse um Sábado agitado, por mostra de caçadores amadores vindos das cidades com a motivação de somar disparos. Mas o que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, por isso não compreendia propriamente aquela farsa da caça em si. E sentia tão certo o não estar certo, que os acontecimentos lhe vieram dar razão. Foi o Cão. Uma bala perdida. Depois trouxe o Cão todo o caminho ao colo.
O tempo avançou e Joaquim não quis mais cães nem mais caçou. O Gato caiu numa lealdade tal ao dono que o seguia para todo o lado, escavando covas furiosamente, perseguindo insectos no voo, desaparecendo e reaparecendo em ápices nos arbustos do quintal. Então vai daí um Sábado em que ao Joaquim lhe dá uma comichão de procurar a arma e um impulso de levar o Gato consigo. E foi assim e Era uma vez. Claro que o Gato não trazia perdizes nos dentes, embora as soubesse localizar se estivesse para aí virado. Mas foi assim que sucedeu porque Joaquim caçador e o seu Gato viveram muitos anos.

- Quem não tem cão caça com gato


P.S. - Provérbio e história sugeridos pela afilhada/sobrinha Catarina, 11 anos. Espero que ela goste do resultado. E até possa quem sabe escrever uma história alternativa.

sábado, 28 de março de 2015

Provérbio provado conversado

Vamos de passeio, percorrendo uma longa estrada ladeada de cerejeiras em flor. Somos quatro no carro, e contemplamos e comentamos a magnífica paisagem. Fora isto, nada mais se diz; navegamos em silêncio como se no fundo do mar.
No banco de trás, a minha amiga Luísa leva um livro abandonado no colo:
- Como se chama esse livro, Lu?
- Pela estrada fora
- É esse o título? É mesmo assim que vamos.
Gonçalo, o meu companheiro do lado, conversa com os seus botões no registo habitual: é discreto e silencioso como um peixe lento.
Resta-me o Lourenço, que no ir mirando as cerejeiras vai de lado, mas alheado, calado e mergulhado nos seus pensamentos. Até que num momento se interrompe e sai-se com esta:
- As cerejas parecem flores do silêncio. E também respiram sozinhas. No entanto, juntam-se às duas e três para terem companhia.
E de repente, entre sins, enfins e afins, entre amigos, despontam palavras animadas, soltas e mal passadas.

- As conversas são como as cerejas: atrás d'umas vêm as outras

terça-feira, 24 de março de 2015

Provérbio individualista

Somos por costume social atacados por conselhos que não pedimos e observações impertinentes - por vezes ambíguas - fora de hora(s) e de lugar. Têm algum poder de poder azedar o dia ou parte dele.
Durante uns tempos utilizava em resposta a expressão "Como assim?" com uma certa indiferença mas, se não calava os predadores, ameaçava também ser início de mais palpites idiotas.
Por estes tempos, adoptei então um provérbio que rasteira mais considerações:

- Cada um sabe de si

P.S. - Post livre de preconceitos de apatia, e quiçá observando que às vezes há resposta, mas é invariavelmente só uma e a continuação do provérbio acima...
- E Deus sabe de todos...