sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Provérbio citado (LISPECTOR)

« - Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Compreende, Joana?
(...)
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. (...) Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. (...)
(...)
- Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas à chave é quem receia atirar sobre todos. (...)»

domingo, 19 de junho de 2016

Provérbio do vendedor enganador

O Sr. Viegas, não sendo propriamente um senhor, passava por tal. Sua habilidade, e aproveitando a voz charmosa e de boa dicção, consistia num voltear entusiasta dos anseios dos clientes, levando-os ao clímax e subsequente compra. Nunca apressava a dita, mas não os deixava pensar demais: havia ali aquele momento em que intervinha e chutava para a vitória. O Viegas tinha já então o cliente preso pelos dentes e aí já não mais poderia resistir, sentia-se obrigado a comprar, completamente encurralado, levando peças que não lhe interessavam ou sequer fariam qualquer préstimo. Esta loja do Sr. Viegas era a típica do "há tudo", e ele sabia onde estava mesmo tudo: parafusos, lâmpadas, fósforos, palha d'aço, sabão Clarim, sacas de sarapilheira, pilhas, e muito mais desse tudo. E como não havia nenhuma deste tipo de loja nas redondezas nem depois delas, o Viegas passou a alinhar no "há tudo, mas a peso". Assim foi que enriqueceu.

- Metade do ano com arte e engenho e a outra metade com engenho e arte

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Provérbio ortopédico

Meu filho querido, como gosto que finalmente venhas ver-me! Fizeste bem em vir visitar a tua mãe, filho, que estou muito cansada e acabada, nesta cama de hospital aqui entrevada, com a mão no peito e o pé no leito. E que te disseram teus irmãos? Que a velha teimosa ainda esperneia? Ver-te aqui significa a esperança de ultrapassardes estas velhas zangas, entende-te com os teus irmãos, filho, que interessam as casas na terra, diz-me?, mais uns anos poucos e caiem como castelos de cartas que é um primor. Que me dizes? Que aqui ando a ver passar os que passam? E tu, conta-me, meu querido, não apoquentes tua mãe, que tens feito de jeito? Sempre te disse e não te esqueças:

- Anda direito se queres respeito

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Provérbio indiferente

Nem o Daniel olhava o mundo em seu redor, nem o mundo parecia dar por ele. Passava nos intervalos da chuva se chovia; não apenas por ser excessivamente magro, mas porque passava realmente despercebido, seguindo em frente sem rodar o pescoço, como cão por vinha vindimada.
Não se percebia como tinha vivido assim, até chegar à idade adulta, sem prestar atenção a nada. Nada lhe avivava um brilhozinho nos olhos, nada lhe arrancava um sorriso ou uma palavra cordial. Era completamente desinteressado; não tinha sequer amigos por não saber como se faziam. Nesse sentido não olhava para as mulheres com curiosidade, não olhava sequer para elas pois nunca nenhuma lhe despertara desejo. Também não sentia qualquer empatia pela família; mal punha a chave à porta, fechava-se no quarto para não ter de conversar.
Poderia pensar-se que, por viver assim apartado da realidade, o Daniel teria uma fecunda vida interior. Mas não, ocupava todo o seu tempo disponível a jogar computador: uns jogos de guerra bastante infantis e sempre os mesmos.
Cumpria os mínimos de higiene pessoal, mas tinha um ar sempre desmazelado, emaranhado, às vezes mesmo roto e com nódoas na roupa muito larga. Se não encontrava nada cozinhado, alimentava-se à base de cereais e papas. Não comia fruta, legumes ou peixe.
No mundo interior do Daniel não havia arte. Não era sensível à beleza das imagens e das palavras. Não ouvia nenhum tipo de música nem via televisão. Não praticava desporto nem andava ao ar livre. Não tinha interesses de associativismo, política ou economia. Nunca tinha ouvido falar na dívida pública, no PIB e no NIB, nem sabia o que era uma taxa de juro.
Parecia impossível como era possível viver-se assim: sem levantar um braço para nada. Completamente imprestável, enrascado e, antevia-se, de difícil futuro.

- Quem não sabe é como quem não vê

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Provérbio numeral ordinal

Ai, comadre, que isto foi um falatório, toda a gente soube. Não se acanhe, pode dizer. Foi um desenvergonhado, pode dizer à vontade, eu digo também. Isto nas terras pequenas já se sabe que tudo se sabe. Até porque ele fez tudo às claras, andou atrás da rapariga nas barbas da mulher. E a Zézinha, parvinha, não dava por nada, ainda se punha a defender o marido. Ouça cá, saberia ela o que se passava e esperava que passasse? Eu só sei é que depois foi uma grande bronca, aquele dia da gritaria, ai, coitadinha da Zézinha, comadre, que julguei que lhe dava ali uma coisa, a levar com as verdades assim todas de rajada. Aquele bruto! Bem ela chorou baba e ranho e lhe pediu que não fosse, mas ele fez ouvidos de mercador. Saiu porta fora ainda cheio de razão. Pode bem dizer, um grande estupor, diga à vontade, um ordinário, toda a gente sabe. E quando, na altura das papeladas, a Zézinha lhe falou no dinheiro para as crianças, ainda teve a distinta lata de dizer que agora não, que não podia porque ia com a outra de férias. Isto dá para acreditar?

- A primeira é mesquinha, a segunda é rainha

Provérbio provado numa prosa parada

Como a imagino?
Normal. Pouco faladora. Tranquila. Pouco vaidosa. Recatada. Loura ou morena, é igual. Nem alta nem baixa, um meio termo. Nem carne nem peixe, um peido amarelo. Nem oito nem por sombras oitenta. Só assim, normal.

- Nem bonita que abisme nem feia que meta medo

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Provérbio citado (PEDROSA)

« (...) Desde que nos conhecemos, reza todas as noites a Santo António para que eu encontre o homem que mereço. Quer ver reproduzida em mim a sua felicidade com José. Ofereceu-me há tempos um anel com uma pedra branca dizendo-me que dava sorte.
O grande desgosto de Lupe é não ter tido filhos; um aborto mal feito, no início da década de quarenta tornou-a estéril. Fez o aborto porque, quando estava grávida, recebeu uma proposta de contrato para cantar na Madeira, no Brasil e em Espanha, Pediu à mãe que lhe tomasse conta do futuro bebé durante uns meses de modo a que pudesse aceitar a tournée, e a mãe respondeu-lhe: «Quem os tem que os embale». (...) »

In Desamparo - Inês Pedrosa

sábado, 23 de abril de 2016

Provérbio platónico

Oh, isso… Já lá vão mais de dez anos ou mais…
E antes já tinha deambulado por muitas profissões: fui estafeta, choffeur de turismo, barmen. Mas nessa altura substituía uma baixa de parto numa recepção mal iluminada.
Não, não me esqueço do dia em que primeiro a vi; chegou esbaforida com o cabelo louro desgrenhado. Tinha olhos claros grandes e tristes, que contrastavam com a alegria e rapidez dos gestos. Apresentou-se-me com um sorriso caloroso, e perguntou pelo “patrão”.
Foi assim, sem mais perguntas, que me habituei a conduzi-la através dos corredores que levavam ao escritório do director. Ansiava, ansioso, numa espera de vê-la, e ela vinha muitas vezes, às vezes todos os dias; algumas tiritava de frio, mas fazia alergia às mantas e aos chás quentes, outras pedia um copo de água, que depois não bebia porque estava fresca demais. Quanto mais caprichosa, flutuante e rabugenta se encontrava, mais eu a amava. Perdidamente, platonicamente.
Não, nunca me questionei qual o grau de intimidade com o director: por mim, tanto podiam ser família como amantes. Preferia imaginá-la livre, completamente livre, e isso ela era: completamente livre, era-lhe sanguíneo. O momento que vivia era o momento em que vivia. Tive muitas vezes vontade de
- Hoje está linda
mas não era preciso. Eu sabia que ela sabia.
Passado o tempo estipulado, e depois de algumas visitas com a bebé dormindo no ovo, a recepcionista voltou ao seu lugar e eu fui dispensado. Assim.
Não, não me despedi dela. Não aguentaria o pesar nos seus olhos claros grandes e tristes. Não lhe deixei nada. Eu sabia que ela sabia.

- Não há último adeus, senão aquele que se não diz

sábado, 2 de abril de 2016

Provérbio citado (MAUGHAM)

« Bernard continuava, no entanto, a não progredir na carreira e muitos outros, mais novos do que ele, já tinham sido feitos conselheiros. Era absolutamente necessário que ele o fosse também, não só porque de outro modo seriam quase nulas as esperanças de chegar a juiz, mas também por causa dela; mortificava-a entrar nas salas de jantar atrás de mulheres dez anos mais novas. Neste ponto, porém, encontrou no marido uma obstinação a que não estava habituada havia anos. Ele receava não ter trabalho suficiente como conselheiro do rei. Mais valia um pássaro na mão do que dois a voar, era o que ele dizia, ao que ela respondia que os provérbios eram o último refúgio dos pobres de espírito. (...)»


In O véu pintado – Somerset Maugham

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Provérbio citado (LAHIRI)

« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».

In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Provérbio linguarudo

Felizmente deixámos o apartamento há já dois anos.
Havia principalmente aquela velhota viúva do rés-do-chão direito sempre em conferência com a porteira. Aquilo era uma calhandrice pegada, a ver qual a mais coscuvilheira. Quem saía, quem entrava, com quem ia e a que horas vinha, quem correspondência tinha...
Línguas afiadas, de trapos, o pior mesmo a dizer das duas. E a porteira era a mais pica-miolos, quebra-ossos, não que fosse violenta ou corpulenta, mas porque era capaz de com apenas uma frase reduzir uma reputação a fanicos.

- Língua comprida, mentira maior

sábado, 3 de outubro de 2015

Provérbio corrido

O Fábio decidiu largar o ferro todos os dias no ginásio quando se pôs de moda a febre das correrias. Preparou convenientemente a troca de um desporto pelo outro: dirigiu-se a uma mega loja especializada e dispôs-se a comprar todo um arsenal de equipamento, desde roupa colorida e ténis novos a gadgets que contam quilómetros, ritmos cardíacos e só falta fazerem também os alongamentos. Mudou também o alinhamento musical que o passou a acompanhar sempre, e agora ouvia músicas alegres e ritmadas, que lhe tornavam o espírito mais leve e tremendamente positivo.
Todos os fins de semana havia pequenas maratonas que, por vezes, se assemelhavam a manifestações de sindicato, dado que a maioria dos corredores se deixavam apenas caminhar vestidos de igual. Havia sempre um qualquer motivo solidário e por isso se compravam uns sacos com t-shirts mal impressas e dois pacotitos de merchandising.
Não tardou a juntar-se a um grupo de corridas, formado informalmente, que começava às 6 da manhã percorrendo sempre a mesma rota, e ao qual se iam juntando mais e mais pessoas pelo caminho. Acordava cedo, energético, previamente excitado com as ancas, rabos e seios que abanavam e saltitavam todas as manhãs à sua volta. Sem querer tinha vindo substituir o Filipe, antigo camarada das manhãs, que estava encostado com uma hérnia.
Nem de propósito, nessa manhã o Manuel dirigiu-se-lhe numa conversa assim:
Sabes com quem falei ontem? Com o Filipe. Qual Filipe? O da hérnia. Está, está; está melhor das costas e a organizar a meia maratona deste fim de semana. Se ele vem? Diz que vem de muletas, se for preciso. É tudo pela causa, claro! Ah, ok, sim, é um rio que querem betonar. Ora, porquê!, para fechar o rio, ordenar as margens e porque acho que cheira mal como o caralho, desculpa lá a linguagem. O movimento está contra, o Filipe diz que descaracteriza a paisagem, e além disso quando vierem as chuvas vai haver inundações como o… muitas inundações, mesmo! Contamos contigo, certo? Mas porquê? Pois, a família é o mais importante de tudo. Com a família não se pode falhar.

No Sábado pela fresquinha, ao Fábio apetecia-lhe ir sozinho à corrida mas, como não queria melindrar ninguém, evitou os percursos habituais e introduziu-se, já com a t-shirt laranjão vestida e disfarçado de boné e óculos escuros, no fim da partida onde iam chegando os retardatários. Lá no início estava o Filipe, bem disposto e até disposto a correr pela causa.
Já tinha começado a corrida quando chegou o Manuel com duas louras jeitosas de t-shirt laranjão. A Marlene já fazia parte do grupo e trazia uma amiga nova. O Manuel tirou-lhe as medidas e pôs-se numa conversa assim:
Querem começar já a correr? Podemos ir primeiro só a caminhar para aquecer, e conversar um bocado. Marisa, não é? Quer uma água?, está fresca… Pronto, a senhora é que sabe. Menina? Combinado então, tratamo-nos por tu. O rio? Não sei, nunca lá passei, mas assinei a petição no Livro das Caras, claro! O Filipe é que está a organizar isso, ele costumava correr connosco, mas a saúde, sabes?, deve estar por aí sentado a ver a corrida passar. Quem, Marlene? Ah, o Fábio tinha um almoço de família, não podia vir. Onde? O Fábio, onde? Olha-me este!, que descaramento, a mentir-me com quantos dentes tinha na boca, eu arranco-lhe um a esse filho da… Olhem que as pessoas… Deixem, vamos ignorar e começar mas é a correr. Veem quem vai a correr lá à frente? Não é que é o maluco do Filipe? Venham, vamos apanhá-lo!


- Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Provérbio citado (CARVALHO)

«(...) Durante toda a noite, assistimos àquela actividade formigueira de que nos chegavam ecos longínquos de estranhos cânticos, ritmados ao som de tambores. Ao amanhecer, os campos estavam quase limpos de cadáveres e a chusma de mouros parecia mais adelgaçada, não tanto pelas perdas que houvessem sofrido, mas porque, por cada um que ficou, outro teria partido a talas os campos ou a procurar melhor sorte mais além. raras e desconvictas eram as investidas contra as muralhas. Pareciam ter optado por um cerco prolongado, sem que alguém pudesse perceber que vantagem teriam nisso. Pobremente acampados, debaixo de coberturas de pele, continuavam a fazer ressoar os tambores que retumbavam nos ares. Um assomo da brisa trazia-nos, de vez em quando, os seus cantares, em coro. No mais, era um estendido e miserável acampamento de nómadas. Nós cremámos os nossos mortos, com o cerimonial mínimo. À música dolente que ondulava ao longe, respondia a cidade com os gemidos das carpideiras, o toque das flautas cerimoniais, e o lamento dos familiares dos mortos.
Ao segundo dia, pela hora sétima, Calpúrnio veio visitar as muralhas, com alguma pompa, acompanhado por Ápito e outros decênviros. Caminhando a pé, a seu lado, logo atrás dos lictores, Airhan, de armadura de ferro e elmo à cinta, trazia ao ombro alforges com dinheiro que ia distribuindo aos combatentes. Escravos de Calpúrnio já tinham percorrido as ruas, dispensando espórtulas aos familiares de mortos e feridos, de acordo com a categoria social de cada um: mais aos ricos, menos aos menos.
(...) »

In Um deus passeando pela brisa da tarde - Mário de Carvalho

sábado, 29 de agosto de 2015

Provérbio previsto

Não conseguia lembrar-se exactamente desde quando - talvez dois, três meses - mas ele andava diferente. Atrasava-se muito agora, ele sempre tão pontual. E, quando não se atrasava, desmarcava à última hora, ele sempre tão correcto e educado. Ora era um almoço com um cliente, ora reuniões com os colegas para discutir propostas. Demorava-se até tarde no emprego, ele sempre tão apologista de que não se podia viver apenas para trabalhar.

Trabalhar, trabalhar, não trabalhava. E o mais certo era que nem sequer o fizesse bem: andava de cabeça completamente desvairada e doente de paixão pela estagiária. Saíam a meio do dia para o motel, e depois de jantarem voltavam ao motel, onde os tomavam por mais um casalinho atrevido. Passaram-se quatro meses nisto, até que a situação se tornou insustentável.

Depois da maldita conversa, ele baixou os olhos e nunca mais foi capaz de a encarar directamente.Não lhe faltava mais nada: triste e divorciada. Andou um mês a chorar pelos cantos; porra, que só lhe vinham as recordações saborosas para aumentar o padecimento. Até que um dia entrou lá em casa, num aparatoso sobressalto, a amiga Ana. Subiu os estores, puxou as cortinas, pôs a água a correr para o duche e pegou numas calças e t-shirt lavadas:
- Anda lá, mexe-te, e seca já essa merda dessas lágrimas que nunca mais param de correr!

- Ferida molhada, ferida infectada

domingo, 23 de agosto de 2015

Provérbio provado santificado

Aqueles eram os dias entre a apanha do figo e da uva, e embora as nuvens escondessem teimosas o sol, ele queimava. Às vezes punha-se um tempo muito abafado, carregado de ventos quentes, que dava dores de cabeça. A Avó em casa dizia: Está aqui, está a pôr-se a trovejar; o Avô na várzea dizia: Vamos embora, que vem lá trovoada. Então voltávamos ligeiros e ao passar ao São João, onde ficava a tele escola com o seu catavento altaneiro que nesses dias rodopiava sem destino, vínhamos por ali abaixo que assim como assim todos os santos ajudam. Chegados a casa já estava a Avó numa prece baixinha, uma reza que tentou várias vezes ensinar-me. Eu, garota, reagia ao drama fugindo a esconder-me debaixo da cama, donde só saía quando voltava a bonança.
São recordações tão vívidas que, ainda hoje, tremo ao som do trovão e começa-se a desenhar-se a canção da qual só me lembro o início: "Santa Bárbara bendita, no céu está escrita, leva lá para bem longe esta trovoada..."

- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja

sábado, 15 de agosto de 2015

Provérbio divino

Chegado que era Agosto lá na aldeia, não havia sequer espaço para estacionar uma agulha, tal era a afluência de famílias que chegavam de todo o país e também do estrangeiro. Quando apareciam, logo começava a trinar o sino anunciando a festa anual. Os filhos da terra vinham esbaforidos das cidades, ansiando beber inspiração, consolo, fraternidade, eu sei lá, naquele verde a perder de vista.
Nesse Verão estava muitíssimo calor, mas para o final da tarde adensava-se uma neblina carregada de ventania e trovoada. O arvoredo todo se abanava e remexia, e pequenos ramos e folhas volteavam caprichosamente ao sabor do anoitecer. Dormia-se mal tal era o vendaval.. Dadas estas circunstâncias climatéricas, foi mais que certo que chegado o dia da festa tudo estivesse por preparar. Mas esta gente nascida no meio das pedras era tão rija quanto elas, e iria ter a sua festa desse lá por onde desse.
Coordenaram-se então movimentos: uns carregaram madeiros para improvisar um palco, outros montaram um bar sem águas correntes sobrepondo pedras de xisto, e depois foi só alçar as barraquinhas velhinhas da tia Aida e das sobrinhas, numa as famosas filhozes e noutra a quermesse "Sai sempre" - e saía.
Acercou-se depois o mais beato mulherio enfeitando com flores os andores, e um grupo de pacóvios transportando cada um seu instrumento num arremedo de tocata. Apenas um deles sabia de música, os outros marcavam mais ou menos a compasso os ferrinhos, a concertina, o cavaquinho, a gaita de beiços e duas guitarras desafinadas.
Dispondo-se em cena os actores lá arrancou a procissão, dispersa numa amálgama de santíssimos, estandartes mal engalanados e rezas desafinadas. Foi por ali fora dar três voltas à capelinha do monte e regressou.
Tivéssemos ido também, atentos e sóbrios, e talvez pensássemos que é este culto meio acabrunhado, porém superficial. O que iria na cabeça dos que, com olhos baixos, carregavam estatuetas com a tinta meio comida às quais se loam orações? Em que pensariam enquanto percorriam aquele caminho soprando cantorias, e por dentro palavras há muito ansiosas por partir? Fazer luto ou de conta que ainda há esperança? Talvez alguns desconfiassem que este Deus não é afinal magnânime, nem sequer omnisciente, ou teria evitado uma data de tretas. Ou é castigador, o que não abona muito a seu favor. Ou então dorme demais e se calhar é um pouquito inseguro.

- Deus é grande e o mato é maior

domingo, 21 de junho de 2015

Provérbio provado viajado

Começou por dizer que nasceu numa aldeia remota, onde só não havia mais miséria porque todo o país vivia na miséria. No final da década de 40, nove aninhos acabados de completar, partiu num transporte marítimo com destino a Lourenço Marques. O que terá motivado essa decisão, que empurrão precipitou tais circunstâncias, o que levou uma criança tão pequena a embarcar sozinha numa viagem tão penosa?

- Oh, por essa altura já eu era um adolescente – respondeu, sem mais adiantar de razões e pormenores.

Contou-me então do dia em que resolveu mudar de nome, uma novíssima identidade para fugir de justiças novas e chaminés velhas.

- De repente, nesse momento, parece que passei a ver tudo de um modo completamente novo. Aí, senti que ia começar de facto a minha grande viagem. Mas conservei o antigo bilhete português, por se acaso algum acaso...

- Foi aí que iniciou as suas travessias por África? E qual era o plano? - encaminhei a conversa para a história que me interessava.

- Foi, sim. Eu não tinha nenhum caminho traçado em mente. Parti de Moçambique para o que era então a Rodésia, hoje Zimbabwe, e daí para a África do Sul. Depois pela Namíbia, direito a Angola, e assim resolvi ir subindo a costa atlântica. É engraçado, sabe, quando estive em Marrocos podia ter regressado ao Portugal natal, mas decidi continuar a contornar África pelo Mediterrâneo com destino ao Egipto, pareceu-me mais interessante – riu-se.

- Sim? - digo, para incentivar a conversa.

- Oh, pois claro, isso nem se pergunta! Naveguei pelo Mar Vermelho até ao verde Índico. Foi uma experiência maravilhosa!

- Viajou sempre sozinho? - tentei dar cabo da ideia do viajante solitário.

- Sempre que pude, sim. É que durante estas viagens atravessei uma época tremenda: presenciei tumultos, convulsões socias, muitas mortes. Só trago a memória dos longos rios, dos desertos, dos animais pela savana e das árvores. As árvores por vezes eram poucas, mas que beleza! A natureza foi a minha melhor companheira. O resto apaguei tudo.

- E quando é que se dá o regresso a Moçambique?

- Fui-me atrasando pela Tanzânia. Tinha algum medo de voltar.

- Porquê, pode dizer-me? - perguntei, baixando levemente a voz.

- Tinham passado uns bons anos e muita porcaria por baixo da ponte. Mas quando cheguei a Maputo e reencontrei aquela cor do sol e aquela cor do barro, soube que estava em casa.

Disse esta frase em tom de despedida, mas ainda acrescentou, do outro lado da linha telefónica, com uma risada esplêndida:

- Mas, olhe, fui ganhando tiques nas várias Áfricas por onde passei. Por exemplo, sou de uma pontualidade britânica!

Não, a entrevista não podia terminar assim... e arrisquei a tirada final.

- Então, e o nome do senhor é mesmo Amílcar?

- Isso, menina, nunca poderá saber. É que afinal


- O mundo dá muita volta e numa delas eu entro

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Provérbios provados seleccionados

Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim. Foi pensado assim. pretende que os leitores descubram com surpresa qual é o provérbio-desfecho. Ora sabendo que quem lê muitas vezes espreita primeiro o final, segue uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:

- Dá Deus nozes a quem não tem dentes

- A cavalo dado não se olha o dente

- Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

- A César o que é de César

- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata

- Há mais marés que marinheiros

- Ladrão só, puta só

- Vão os anéis, ficam-se os dedos

- Quem vier atrás que feche a porta

- Pela boca morre o peixe

- Cada qual come do que gosta

- Vozes de burro não chegam ao céu

- A esperança é a última a morrer

- Burro velho não aprende línguas


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Provérbio provado adaptado

Adaptado do Ventoinha

É o final de uma tarde muito quente de Agosto. No escritório, Carlos espreita o relógio: falta uma hora para terminar o expediente. Está sozinho. Os patrões nem lá puseram os pés hoje; imagina-os refastelados numa qualquer espreguiçadeira na sombra de um pinhal. Os reposteiros estão corridos mas mesmo assim o calor penetra pelas paredes tornando mais saturada a atmosfera. A campainha do telefone trina, Carlos atende: Escritório de Advogados Bento, Filho & Associados Limitada boa tarde, mas do outro lado desligam de imediato. Serão os patrões a confirmar a sua presença?, e abana a cabeça não acreditando. Agora é a campainha da porta soando por sua vez. É o amigo Ventoinha. Traz como de costume os cabelos ao ar num reboliço, mesmo num dia como hoje em que não corre uma aragem.
- Acaba lá com isso e vem tomar um café ao Chiado. Quero passar ao Grandela e ver de um presente para uma tia minha...
E pisca-lhe o olho, divertido. Carlos garante que não pode sair já. Mas que ele faça horas, que terá o maior prazer em o acompanhar ao Chiado.
- Tu és muito amedrontado. Então tu crês que os teus patrões te andariam a espiar? Que disparate pegado! Eu sim, ando a ser seguido... mas anda daí à Brasileira que já te conto tudo.
Passam primeiro nos Armazéns do Grandela. Ventoinha vê luvas, chapéus, sombrinhas, meias finas mas nada lhe agrada, a tudo torce o nariz contrariado.
- Gostava de dar algo com mais chique à minha tia. Ela é muito moderna.
E pisca-lhe mais uma vez o olho, com uma gargalhada. Seguem então para a Brasileira a tomar o café. E o Ventoinha começa a soprar a sua história:
- Vês tu aquele indivíduo, à esquina da Bertrand, a espreitar para aqui? (Não olhes agora.) Já não o via há algum tempo e hoje... zás, lá o topei de novo. Tirou a gabardina e rapou o bigode, deve ser do calor.
E realmente lá está um fulano de ar suspeito que os olha. Imagina logo o Ventoinha muito mais metido na política do que parece; é certo que conversam em sussurro muitas vezes contra o regime, mas daí à conspiração vai um longo passo. Pensa que lhe apanharam folhetos, livros ou o apanharam em alguma reunião suspeita, está visto é que o apanharam!
- Tu estás a pensar que é um espião, não é meu pobre Carlos? Mas é alguém acima deles. Eu inventei uma coisa que se chama blog. É um diário do futuro. Tu bates palavras numa máquina de escrever que não faz barulho e, no minuto seguinte, qualquer pessoa no mundo lê na televisão tudo o que escreveste. E isto é uma máquina muito perigosa, claro está! Por isso é que eles andam atrás de mim...
Carlos fica desorientado com a revelação. Pensa que o querido amigo Ventoinha endoidou de vez. Mas ainda lhe pergunta que tipo de coisas escreve nesse ‘bloque’...

- Do bom tudo e do ruim nada

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Provérbio canino feminino

O Doutor Rui Gonçalves estabelecera-se como veterinário na província já lá iam p'ra mais de dez anos, e revelara-se essa mudança da cidade para o campo uma boa escolha para si e para a família. Para além das magníficas paisagens circundantes, estas gentes haviam-nos realmente acolhido com simplicidade e generosidade.
De vez em vez, ocorriam inesperados, emergências, e logo acorria prontamente às chamadas, sempre diligente. Assim foi esta madrugada aquando da aflição com um animal do Senhor José Madureira. Arrancou de sopetão, direito à quinta, e com ele se deparou ao portão dizendo:
- É a Tareca, Doutor!
- Lá vamos, lá vamos... Mas o que se passa com a gata?
- É uma cadela, Doutor!
- Mas tem nome de gata...
- Não, tem nome de fadista.
No meio deste diálogo, o Doutor aproximou-se e viu a cadela quase a sufocar, e a seu lado cinco cachorrinhos acabadinhos de nascer. Já a contar que por aí viessem mais irmãozinhos, o Doutor teve de os ajudar rapidamente a despertar para o mundo: e nasceram mais cinco!, nunca se vira uma cadela parir assim. O Senhor José Madureira, muito apreensivo, balbuciava:
- A Tareca só tem oito tetas! Como é que isto se vai fazer, valha-me Deus meu? Diga-me, Doutor. Como é que isto se vai fazer?
Assim foi que o Doutor Rui Gonçalves acabou por levar consigo dois sobejantes a tiracolo. Quando a mulher o viu chegar de manhã nestes preparos, levantou as sobrancelhas inquiridoras e recebeu como resposta:

- Não pode a cadela com tanto cachorro