sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XLVIII

A sorte protege os audazes
E todas as pessoas capazes

É como o raio da trovoada
Onde cai não se sabe nada

Aquilo que não se merece
Aos sortudos acontece

Bate uma vez muito à toa
À porta de cada pessoa

P'ra contornar a má sorte
É eficaz um coração forte

Tanto faz correr como saltar
S'ela não te quer encontrar

Pois p'ra quem não tem sorte
Até p'lo cu entra a morte

Provérbio provado rimado - XLVII

Quando tiveres um desgosto
Não fiques a pensar nisso
Parece qu'é pressuposto
Mas só arranjas enguiço

Faz mas é umas noitadas
Com dois ou três vizinhos
É qu'afinal águas passadas
Não movem nenhuns moinhos

Provérbio provado rimado - XLVI

O João teve pouco zelo
E partiu o tornozelo
Teve de meter atestado
E ficar em casa enfiado

Ficou deitado na caminha
Que cuidados e caldos de galinha
Nunca fizeram mal a ninguém
Foi isso que lhe disse a mãe

Provérbio provado rimado - XLV

O Joaquim era soldado
Não podia ir a nenhum lado
Tinha de estar no quartel
Em continências a granel

Comia sempre na cantina
Fazia plantão na esquina
Trazia cuidada a farda
E subornava o guarda

Às vezes lá se escapava
À noite no bar estava
E iludia o comandante
Quando entrava de rompante

Escondia-se do capitão
Com alguma imaginação
Mas disse-lh'então o alferes
Safar-te sempre não esperes

Um dia foi apanhado
Viu-se num grande assado
Meteu o rabo entre as pernas
E foi limpar as casernas

Provérbio provado rimado - XLIV

Para bem te alimentares
É preciso carne enfardares
Que não puxa carroça o peixe
Nem mesmo s'alguém se queixe

O peixe dá pouco alimento
Não enche a barriga a contento
É o que diz a expressão
Não te cause admiração

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Provérbio oral

A avó era professora de português e não trocava os bês pelos vês. Era extremamente fluente, também bastante inteligente. Dominava a gramática e era pessoa pragmática. Mas tinha apenas um defeito: o falar não era escorreito. Manifestava gaguez, desconhecia os porquês.
O pai era bom na oratória, mas não teve escapatória. Era gago como a mãe, não sabia porquê também. Tinha um doutoramento e um cargo a seu contento.
As irmãs tinham má dicção, mas falavam na perfeição. O Filipe saiu ao pai, gaguejava até com um ai. Todo ele se atrapalhava, suava e logo corava. Arranjou uma professora que era uma velha senhora. Dava aulas numa sala de terapia da fala. Foi assim que ganhou confiança: a que não tinha em criança. Não mais pôde gaguejar, começou ousado a falar. E discursava a preceito com definição e conceito.

- Quem fala assim não é gago

Provérbio provado rimado - XLIII

Um mal nunca vem só
Já dizia a minha avó

O que fizeram nossos avós
Foi um mal que pagamos nós

O mal dos outros não convém
Mas com ele posso eu bem

O mal está no começar
Se arranca é difícil parar

Só que para o mal vencer
Com o mal não se vai combater

E o único que não tem cura
É o mal que vem com a loucura

O mal vem às braçadas
E parte às polegadas

E enquanto o mal tem asas
O bem caminha sobre brasas

Provérbio provado rimado - XLII

Cada um vê mal ou bem
Conforme os olhos que tem
Se é bem intencionado
Vê a bondade ao quadrado

Contudo se é malevolente
Não fica decerto contente
Ao vislumbrar união
Ternura e compaixão

Provérbio provado rimado - XLI

Um livro é um bom amigo
Não se centra no umbigo

Quand'ele é adquirido
É noite de sono perdido

Não se deve julgar pela capa
Ou o conteúdo nos escapa

É medicina do esquecimento
Um saudável medicamento

Diz-se que livro emprestado
É provável voltar estragado

Mas se for na biblioteca
Paga multa ou hipoteca

Fechado é bloco de papel
Ou literatura de cordel

Também de livro fechado
Se diz que não sai letrado

Provérbio provado rimado - XL

O dinheiro não traz felicidade
Apenas atrai falsidade

Pois enquanto abunda há amigos
Quando se vai só castigos

Se um amigo queres perder
Empresta-lhe soldo sem temer

P'ra enriquecer não lhe dês tostões
Retira-lhe antes ambições

O dinheiro atrai dinheiro
Desde que fora do mealheiro

Mas cuidado que ele também voa
Se for mesmo gasto à toa

Quando haja dinheiro à vista
Toda a gente se bemquista

O dinheiro abre todas as portas
Mesmo p'ra quem tem as pernas tortas

É bem sabido que compra pão
Porém não compra gratidão

Mas afinal sempre é preciso
P'ra viver com pouco ou muito siso


Provérbio provado rimado - XXXIX

A água é a melhor bebida
Fervida alimenta a vida

Principalmente se for quente
Ela dá saúde ao ventre

A água não empobrece
Nem tão pouco envelhece

E tal como conselho com sede
Só se dá a quem se pede

Provérbio provado rimado - XXXVIII

A saúde é um bem precioso
Sobretudo num corpo jeitoso

Que não tem preço se diz
Quem a tem anda feliz

E mais vale ter boa saúde
Que pesada bolsa amiúde

Quando a saúde é cuidada
A vida é bem conservada

Quem a tem e dinheiro p'ra vinho
Pode ser que até chegue a velhinho

Muito se sente a doença
Saúde é como se não pertença

E ter saúde e liberdade
É ter no viver qualidade

Entretanto já vou terminar
Um provérbio vou enunciar

Deitar cedo e cedo erguer
Dá saúde e faz crescer

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXVII

Ó amor a quanto obrigas
Sobre ti há tantas cantigas

Amor com amor se paga
Até que a chama se apaga

Os amores quando são arrufados
Acabam por ser redobrados

O amor ajuda os atrevidos
Não os deixa andar aos caídos

O amor é um passarinho
Que não aceita gaiola nem ninho

É uma religião que não cai
Não se aleija nem solta um ai

O amor nunca envelhece
Criança p'ra sempre permanece

Vê ao longe e todavia é cego
Anda sempre em guerra c'o ego

O amor sincero é tão forte
Que vive até mesmo na morte

O amor se é forasteiro
Acaba por ser passageiro

O amor é sempre imprudente
Destemido e muito valente

E onde mandar o amor
Não há nenhum outro senhor

O amor é também como a lua
Quando ele não cresce mingua

Doze amores aqui já escrevi
Desta espécie alguns já vivi

Mas seu fim tive de aceitar
Nestas coisas não se pode mandar

E quando passa a desilusão
Logo abro o meu coração

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Provérbio ladrão

Todo o homem nasce com o seu nome e não há nome sem sobrenome. O nosso homem chama-se António Maria da Silva Peneda e já passou dos trinta há algum tempo. É magro e de estatura mediana e ainda tem todos os dentes e o cabelo. Mas assim como não há nome sem sobrenome, também não o há sem alcunha, e o nosso homem é localmente conhecido por Tó da Taberna. Qual taberna?; não é preciso especificar: nesta aldeia só há uma e nem se diz “a taberna”, mas apenas “vou ali ao Tó”. O Tó é para todos como se fosse da família e passa por ser um homem honesto e trabalhador; é também bastante devoto e leva uma vida austera: não bebe, não fuma, não tem o vício das cartas nem do dominó.
A mulher do Tó chama-se Amélia, mas nem toda a mulher nasce com o seu nome. Na aldeia só há uma Amélia, mas as pessoas dizem apenas “vou ali à do Tó”. A do Tó cuida da casa e dos filhos, e às vezes faz uns petiscos quando é dia de futebol, pois há poucas televisões lá na aldeia e os homens juntam-se ruidosamente na taberna a ver o jogo.
O Tó e a mulher têm três filhos, todos em idade escolar. Os avós já morreram, eram os mais ricos da aldeia, mas o pai do Tó tinha o vício da bebida e assim arruinou o bolso e a saúde. Morreu novo e a mãe do Tó ficou pouco tempo viúva: morreu um ano depois com o desgosto. A casa de família fica por cima da taberna e é modesta e, embora não vivam na miséria, o Tó não pode evitar uma grande saudade dos tempos felizes e sem preocupações de dinheiro da sua juventude. À hora das refeições há muitas mãos no mesmo prato, mas o Tó exige silêncio à mesa e não admite guerras com a comida, divide tudo em porções iguais na cozinha aquecida enquanto murmura um dito aldeão - “não há lenha como o azinho, nem carne como o toucinho” -, lastimando-se interiormente com a falta do dinheiro que lhe permitiria um viver mais desafogado.
Na taberna, o recatado Tó assegura o seu lucro, que é como quem diz em bom português: orienta-se. Quando a noite já vai longa, e os clientes já estão tão alterados que nem dão conta, mistura água no vinho. Os chouriços e queijinhos vêm dum talho vulgaríssimo da cidade mais próxima, mas o Tó faz passar gato por lebre anunciando-lhes uma proveniência privilegiada, de uma terra bem mais a Norte, afamada pelos seus enchidos e queijos curados. Ninguém paga nada na taberna diariamente, o Tó aponta os gastos num caderno e faz contas com os clientes no fim do mês. Também aqui mete a unha, acrescentando umas parcelas aqui e ali para engrossar o rol. Mas ladrão que não é apanhado passa por homem honrado e o Tó é calado e não tem amigos, só clientes; os seus únicos amigos são o Deus que vê tudo lá de cima, o seu padre confessor e o dinheiro na algibeira. Por este andar o Tó vai morrer rico, mesmo a tempo de deixar uma herança simpática aos filhos: é isto que o anima para enfrentar a luz da manhã, depois de ficar até tarde na taberna a expulsar os últimos bêbados. Com este modo sisudo de ser, acaba por gerar algumas antipatias.
Numa noite o Tó sai tão cansado que se esquece de trancar a porta da taberna. Não há inimigo que seja pequeno e este anda a observar o Tó há algum tempo, esperando a ocasião que faça o ladrão. Quando o Tó regressa de manhã encontra a caixa registadora vazia e, antes de ir à polícia, busca consolo junto do padre da aldeia que o ouve em confissão. Este não fica particularmente consternado nem com pena do nosso Tó e apenas lhe responde:

- Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão 

Provérbio egoísta

Apresentava-se sempre muito bem posto, improvável de causar desgosto. E tomava todo o cuidado para andar muito bem arranjado. Tinha um comportamento amável, com senhoras era muito agradável. Não mostrava o temperamento aceso, quem o ouvisse não o levava preso. Contudo, se alguém reparava que muito em si se centrava, dizia-se um pouco egocêntrico e também um tantinho excêntrico. Estes traços eram um eufemismo, o egoísmo era o seu dinamismo, o motor que o fazia avançar para de si só conta tomar. Não tinha a cargo família para não aturar qualquer quezília. Lidava mal com a contrariedade, exigia ter toda a liberdade. Claro é que com este modo de ser não arranjava nenhuma mulher. Ao fim de um ou dois cafés, acabavam por lhe dar com os pés.

- Ninguém é amado se só de si tem cuidado

Provérbio provado rimado - XXXVI

'Inda impera um grande machismo
Que dá todo o realce ao homem
E na sombra as mulheres se somem
Acusadas de terem romantismo

A mulher merecia mais destaque
Não por favor nem obrigação
Mas por ter também de antemão
O mesmo valor mas sem claque

Sempre encarada como suporte
Do funcionamento familiar
E cuida de todos no lar
Sem que com ela ninguém s'importe

Pois é hora de dizer um basta
Deixar a norma paternalista
Ainda que o povo insista
Em negar-lhe obra mais vasta

Porque atrás de um grande homem
Há sempre uma grande mulher
Deve ser-lhes dado a escolher
A função que em suas mãos tomem

Provérbio provado rimado - XXXV

Quem pratica o mexerico
De prudência não é muito rico
Deveria ter mais cuidado
Que de si falam ali ao lado

Deve evitar-se dizer mal
E pensar que é uma coisa normal
As sentenças sobre cada vida
São coisa de gente atrevida

Há quem adore opinar
E comportamentos criticar
É que dos outros nas costas
Se vêem as nossas expostas

domingo, 15 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXIV

O Gonçalo era agricultor
Trabalhava até ao sol pôr

Acordava sempre muito cedo
Do trabalho tinha nenhum medo

Cultivava tomate e alface
C'o suor a escorrer-lhe p'la face

Apanhava a uva e a maçã
Apressado e num grande afã

Tinha aves na capoeira
E coelhos numa coelheira

Mas o galo andava tristonho
C'um receio bastante medonho

Porque já não sabia cantar
Para assim os donos despertar

A galinha tomou-lhe as dores
E guardaram-se os despertadores

De manhã antes de pôr o ovo
Cacarejava num canto novo

É assim qu'em casa de Gonçalo
Pode mais a galinha que o galo

Provérbio provado rimado - XXXIII

Um porquinho mealheiro
Ou debaixo do colchão
Para esconder o dinheiro
Tudo é boa solução

Ou como a minha avó
Nas latinhas de bolacha
Uma ideia nunca vem só
E ali ninguém o acha

Desde que longe da vista
É poupar enquanto há
Pois como diz na revista
Não havendo poupado está

sábado, 14 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXII

É preciso é manter a esperança
Até onde a visão a alcança
Ao fim do túnel a luz está
E continua do lado de lá

Mas não embandeirar em arco
Como o sapo que coaxa no charco
Que p'ra tudo é preciso um limite
Ou a ansiedade será dinamite

Bom é o meio termo que assegure
Pois não há mal que sempre dure
Nem bem que porém nunca acabe
Isto diz quem de prover sabe