quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Provérbio citado (ANTUNES)

«Gago Coutinho eram também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie de botija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dos beliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás, de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolante em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorroida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tardes de domingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para me mostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por de mais exíguo para as suas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida:
- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa

In Os cus de Judas - António Lobo Antunes

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Provérbio citado (AMADO)

« (...) O Coronel não precisava de nada no Rio? De algum empenho junto a algum político importante? Se precisasse era só dizer. Ele estava ali para servir aos amigos e, se bem tivesse conhecido o coronel fazia pouco, tinha simpatizado imensamente com ele, seria feliz de servi-lo. O coronel não precisava de nada no Rio, mas ficou muito agradecido e como Maneca Dantas ia passando, pesadão e gorducho, a camisa suada e as mãos pegajosas, ele o chamou e fez as apresentações:
- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é mesmo que mato...
(...)»

In Terras do sem fim - Jorge Amado

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Provérbio citado (MÁRAI)

« (...) A Kristóf podia confiar-se tudo. Não era preciso convencê-lo de nada, pois, desde a mais tenra infância, estava imbuído dos princípios que norteiam o entendimento da vida social. O velho juiz  sabia que também Kristóf queria salvar a sociedade - não era necessário discutir isso com ele, a tal ponto o entusiasmo, a fé e a convicção emanavam da sua pessoa, de cada uma das suas palavras. Poder-se-ia confiar-lhe a sociedade... Mas o velho juiz observava o jovem juiz num ar de reflexão crítica, atrás da cortina de fumo do cigarro. «Tem o seu excesso de formalismo» pensou. «É pura correcção. Nunca o vi com uns copos, nunca lhe ouvi uma palavra descuidada.» O juiz estava quase nos setenta, já vira muito, vira a nudez moral dos homens, pior do que a nudez física, e julgava conhecê-los. Observava a «correcção» de Kristóf com uma certa preocupação. «Só se cuida assim quem se vigia.» (...)»

In Divórcio em Buda - Sándor Márai

sábado, 15 de outubro de 2016

Provérbio incontestável

Na primeira, mesmo logo na primeira vez, acho que não correu lá muito bem. Foi tudo às apalpadelas, com pouca luz, tacteando a medo: um receio muito vivo de poder chocar sensibilidades, os lábios juntando-se hesitantes na dança envergonhada dos corpos. Nem a eito, nada feito.
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.

- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Provérbio citado (LUÍS)

« (...) Criava simpatias entre a criadagem; armada em conselheira, ouvia, toda saturada de lógica e espírito piedoso, as práticas das serventes rebeldes. Por elas, conhecia o escândalo de alcova, as misérias domésticas, as longas histórias de família, que os interesses faziam de uma sordidez de viela. Toda a escorralha podre e inútil daquela burguesia cujos nervos amoleciam na fartura, cujo orgulho não era mais que um histerismo de populaça que se embriaga e se rebola em colchões de plumas, ela a sepultava na sua alma, colocando-lhe por cima um sinete de sigilo, à semelhança dos campónios que, depois de uma catástrofe, duma batalha, encontram os vasos do templo e os enterram para não serem culpados de violarem coisas sacras. - «A prudência é a mãe dos pequeninos» - costumava dizer. (...)»

In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Provérbio sortudo

Quando nasceu já trazia um sinal dourado no meio da testa, o que fazia prever um futuro auspicioso. Nascendo assim com o cú todo viradinho para a lua, teve uma infância sem cuidados, sem resfriados, mente e espírito sincronizados, uma família funcional e compreensiva, pais companheiros e jardins soalheiros.
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.

- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Provérbio citado (MURAKAMI)

«O Professor partiu um pedaço de pão, pôs-lhe por cima um grosso bocado de carne enlatada e devorou tudo com apetite. A seguir comeu vários pedaços de pêssego, levou a lata aos lábios e bebeu a calda. (...)
- Ufa! Tenho de lhe agradecer - exclamou o Professor. - Por costume trago comigo provisões para dois ou três dias, mas, desta vez, esqueci-me de repor as existências. O meu descuido deixa-me embaraçado. Quando uma pessoa se habitua à vida fácil, baixa a guarda. Eis uma boa lição. «Prepara o teu guarda-chuva num dia de sol para que o tenhas pronto num dia de chuva.» (...)»

In O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo / Haruki Murakami

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Provérbio citado (LISPECTOR)

« - Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Compreende, Joana?
(...)
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. (...) Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. (...)
(...)
- Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas à chave é quem receia atirar sobre todos. (...)»

In Perto do coração selvagem / Clarice Lispector

domingo, 19 de junho de 2016

Provérbio do vendedor enganador

O Sr. Viegas, não sendo propriamente um senhor, passava por tal. Sua habilidade, e aproveitando a voz charmosa e de boa dicção, consistia num voltear entusiasta dos anseios dos clientes, levando-os ao clímax e subsequente compra. Nunca apressava a dita, mas não os deixava pensar demais: havia ali aquele momento em que intervinha e chutava para a vitória. O Viegas tinha já então o cliente preso pelos dentes e aí já não mais poderia resistir, sentia-se obrigado a comprar, completamente encurralado, levando peças que não lhe interessavam ou sequer fariam qualquer préstimo. Esta loja do Sr. Viegas era a típica do "há tudo", e ele sabia onde estava mesmo tudo: parafusos, lâmpadas, fósforos, palha d'aço, sabão Clarim, sacas de sarapilheira, pilhas, e muito mais desse tudo. E como não havia nenhuma deste tipo de loja nas redondezas nem depois delas, o Viegas passou a alinhar no "há tudo, mas a peso". Assim foi que enriqueceu.

- Metade do ano com arte e engenho e a outra metade com engenho e arte

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Provérbio ortopédico

Meu filho querido, como gosto que finalmente venhas ver-me! Fizeste bem em vir visitar a tua mãe, filho, que estou muito cansada e acabada, nesta cama de hospital aqui entrevada, com a mão no peito e o pé no leito. E que te disseram teus irmãos? Que a velha teimosa ainda esperneia? Ver-te aqui significa a esperança de ultrapassardes estas velhas zangas, entende-te com os teus irmãos, filho, que interessam as casas na terra, diz-me?, mais uns anos poucos e caiem como castelos de cartas que é um primor. Que me dizes? Que aqui ando a ver passar os que passam? E tu, conta-me, meu querido, não apoquentes tua mãe, que tens feito de jeito? Sempre te disse e não te esqueças:

- Anda direito se queres respeito

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Provérbio indiferente

Nem o Daniel olhava o mundo em seu redor, nem o mundo parecia dar por ele. Passava nos intervalos da chuva se chovia; não apenas por ser excessivamente magro, mas porque passava realmente despercebido, seguindo em frente sem rodar o pescoço, como cão por vinha vindimada.
Não se percebia como tinha vivido assim, até chegar à idade adulta, sem prestar atenção a nada. Nada lhe avivava um brilhozinho nos olhos, nada lhe arrancava um sorriso ou uma palavra cordial. Era completamente desinteressado; não tinha sequer amigos por não saber como se faziam. Nesse sentido não olhava para as mulheres com curiosidade, não olhava sequer para elas pois nunca nenhuma lhe despertara desejo. Também não sentia qualquer empatia pela família; mal punha a chave à porta, fechava-se no quarto para não ter de conversar.
Poderia pensar-se que, por viver assim apartado da realidade, o Daniel teria uma fecunda vida interior. Mas não, ocupava todo o seu tempo disponível a jogar computador: uns jogos de guerra bastante infantis e sempre os mesmos.
Cumpria os mínimos de higiene pessoal, mas tinha um ar sempre desmazelado, emaranhado, às vezes mesmo roto e com nódoas na roupa muito larga. Se não encontrava nada cozinhado, alimentava-se à base de cereais e papas. Não comia fruta, legumes ou peixe.
No mundo interior do Daniel não havia arte. Não era sensível à beleza das imagens e das palavras. Não ouvia nenhum tipo de música nem via televisão. Não praticava desporto nem andava ao ar livre. Não tinha interesses de associativismo, política ou economia. Nunca tinha ouvido falar na dívida pública, no PIB e no NIB, nem sabia o que era uma taxa de juro.
Parecia impossível como era possível viver-se assim: sem levantar um braço para nada. Completamente imprestável, enrascado e, antevia-se, de difícil futuro.

- Quem não sabe é como quem não vê

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Provérbio numeral ordinal

Ai, comadre, que isto foi um falatório, toda a gente soube. Não se acanhe, pode dizer. Foi um desenvergonhado, pode dizer à vontade, eu digo também. Isto nas terras pequenas já se sabe que tudo se sabe. Até porque ele fez tudo às claras, andou atrás da rapariga nas barbas da mulher. E a Zézinha, parvinha, não dava por nada, ainda se punha a defender o marido. Ouça cá, saberia ela o que se passava e esperava que passasse? Eu só sei é que depois foi uma grande bronca, aquele dia da gritaria, ai, coitadinha da Zézinha, comadre, que julguei que lhe dava ali uma coisa, a levar com as verdades assim todas de rajada. Aquele bruto! Bem ela chorou baba e ranho e lhe pediu que não fosse, mas ele fez ouvidos de mercador. Saiu porta fora ainda cheio de razão. Pode bem dizer, um grande estupor, diga à vontade, um ordinário, toda a gente sabe. E quando, na altura das papeladas, a Zézinha lhe falou no dinheiro para as crianças, ainda teve a distinta lata de dizer que agora não, que não podia porque ia com a outra de férias. Isto dá para acreditar?

- A primeira é mesquinha, a segunda é rainha

Provérbio provado numa prosa parada

Como a imagino?
Normal. Pouco faladora. Tranquila. Pouco vaidosa. Recatada. Loura ou morena, é igual. Nem alta nem baixa, um meio termo. Nem carne nem peixe, um peido amarelo. Nem oito nem por sombras oitenta. Só assim, normal.

- Nem bonita que abisme nem feia que meta medo

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Provérbio citado (PEDROSA)

« (...) Desde que nos conhecemos, reza todas as noites a Santo António para que eu encontre o homem que mereço. Quer ver reproduzida em mim a sua felicidade com José. Ofereceu-me há tempos um anel com uma pedra branca dizendo-me que dava sorte.
O grande desgosto de Lupe é não ter tido filhos; um aborto mal feito, no início da década de quarenta tornou-a estéril. Fez o aborto porque, quando estava grávida, recebeu uma proposta de contrato para cantar na Madeira, no Brasil e em Espanha, Pediu à mãe que lhe tomasse conta do futuro bebé durante uns meses de modo a que pudesse aceitar a tournée, e a mãe respondeu-lhe: «Quem os tem que os embale». (...) »

In Desamparo - Inês Pedrosa

sábado, 23 de abril de 2016

Provérbio platónico

Oh, isso… Já lá vão mais de dez anos ou mais…
E antes já tinha deambulado por muitas profissões: fui estafeta, choffeur de turismo, barmen. Mas nessa altura substituía uma baixa de parto numa recepção mal iluminada.
Não, não me esqueço do dia em que primeiro a vi; chegou esbaforida com o cabelo louro desgrenhado. Tinha olhos claros grandes e tristes, que contrastavam com a alegria e rapidez dos gestos. Apresentou-se-me com um sorriso caloroso, e perguntou pelo “patrão”.
Foi assim, sem mais perguntas, que me habituei a conduzi-la através dos corredores que levavam ao escritório do director. Ansiava, ansioso, numa espera de vê-la, e ela vinha muitas vezes, às vezes todos os dias; algumas tiritava de frio, mas fazia alergia às mantas e aos chás quentes, outras pedia um copo de água, que depois não bebia porque estava fresca demais. Quanto mais caprichosa, flutuante e rabugenta se encontrava, mais eu a amava. Perdidamente, platonicamente.
Não, nunca me questionei qual o grau de intimidade com o director: por mim, tanto podiam ser família como amantes. Preferia imaginá-la livre, completamente livre, e isso ela era: completamente livre, era-lhe sanguíneo. O momento que vivia era o momento em que vivia. Tive muitas vezes vontade de
- Hoje está linda
mas não era preciso. Eu sabia que ela sabia.
Passado o tempo estipulado, e depois de algumas visitas com a bebé dormindo no ovo, a recepcionista voltou ao seu lugar e eu fui dispensado. Assim.
Não, não me despedi dela. Não aguentaria o pesar nos seus olhos claros grandes e tristes. Não lhe deixei nada. Eu sabia que ela sabia.

- Não há último adeus, senão aquele que se não diz

sábado, 2 de abril de 2016

Provérbio citado (MAUGHAM)

« Bernard continuava, no entanto, a não progredir na carreira e muitos outros, mais novos do que ele, já tinham sido feitos conselheiros. Era absolutamente necessário que ele o fosse também, não só porque de outro modo seriam quase nulas as esperanças de chegar a juiz, mas também por causa dela; mortificava-a entrar nas salas de jantar atrás de mulheres dez anos mais novas. Neste ponto, porém, encontrou no marido uma obstinação a que não estava habituada havia anos. Ele receava não ter trabalho suficiente como conselheiro do rei. Mais valia um pássaro na mão do que dois a voar, era o que ele dizia, ao que ela respondia que os provérbios eram o último refúgio dos pobres de espírito. (...)»


In O véu pintado – Somerset Maugham

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Provérbio citado (LAHIRI)

« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».

In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Provérbio linguarudo

Felizmente deixámos o apartamento há já dois anos.
Havia principalmente aquela velhota viúva do rés-do-chão direito sempre em conferência com a porteira. Aquilo era uma calhandrice pegada, a ver qual a mais coscuvilheira. Quem saía, quem entrava, com quem ia e a que horas vinha, quem correspondência tinha...
Línguas afiadas, de trapos, o pior mesmo a dizer das duas. E a porteira era a mais pica-miolos, quebra-ossos, não que fosse violenta ou corpulenta, mas porque era capaz de com apenas uma frase reduzir uma reputação a fanicos.

- Língua comprida, mentira maior

sábado, 3 de outubro de 2015

Provérbio corrido

O Fábio decidiu largar o ferro todos os dias no ginásio quando se pôs de moda a febre das correrias. Preparou convenientemente a troca de um desporto pelo outro: dirigiu-se a uma mega loja especializada e dispôs-se a comprar todo um arsenal de equipamento, desde roupa colorida e ténis novos a gadgets que contam quilómetros, ritmos cardíacos e só falta fazerem também os alongamentos. Mudou também o alinhamento musical que o passou a acompanhar sempre, e agora ouvia músicas alegres e ritmadas, que lhe tornavam o espírito mais leve e tremendamente positivo.
Todos os fins de semana havia pequenas maratonas que, por vezes, se assemelhavam a manifestações de sindicato, dado que a maioria dos corredores se deixavam apenas caminhar vestidos de igual. Havia sempre um qualquer motivo solidário e por isso se compravam uns sacos com t-shirts mal impressas e dois pacotitos de merchandising.
Não tardou a juntar-se a um grupo de corridas, formado informalmente, que começava às 6 da manhã percorrendo sempre a mesma rota, e ao qual se iam juntando mais e mais pessoas pelo caminho. Acordava cedo, energético, previamente excitado com as ancas, rabos e seios que abanavam e saltitavam todas as manhãs à sua volta. Sem querer tinha vindo substituir o Filipe, antigo camarada das manhãs, que estava encostado com uma hérnia.
Nem de propósito, nessa manhã o Manuel dirigiu-se-lhe numa conversa assim:
Sabes com quem falei ontem? Com o Filipe. Qual Filipe? O da hérnia. Está, está; está melhor das costas e a organizar a meia maratona deste fim de semana. Se ele vem? Diz que vem de muletas, se for preciso. É tudo pela causa, claro! Ah, ok, sim, é um rio que querem betonar. Ora, porquê!, para fechar o rio, ordenar as margens e porque acho que cheira mal como o caralho, desculpa lá a linguagem. O movimento está contra, o Filipe diz que descaracteriza a paisagem, e além disso quando vierem as chuvas vai haver inundações como o… muitas inundações, mesmo! Contamos contigo, certo? Mas porquê? Pois, a família é o mais importante de tudo. Com a família não se pode falhar.

No Sábado pela fresquinha, ao Fábio apetecia-lhe ir sozinho à corrida mas, como não queria melindrar ninguém, evitou os percursos habituais e introduziu-se, já com a t-shirt laranjão vestida e disfarçado de boné e óculos escuros, no fim da partida onde iam chegando os retardatários. Lá no início estava o Filipe, bem disposto e até disposto a correr pela causa.
Já tinha começado a corrida quando chegou o Manuel com duas louras jeitosas de t-shirt laranjão. A Marlene já fazia parte do grupo e trazia uma amiga nova. O Manuel tirou-lhe as medidas e pôs-se numa conversa assim:
Querem começar já a correr? Podemos ir primeiro só a caminhar para aquecer, e conversar um bocado. Marisa, não é? Quer uma água?, está fresca… Pronto, a senhora é que sabe. Menina? Combinado então, tratamo-nos por tu. O rio? Não sei, nunca lá passei, mas assinei a petição no Livro das Caras, claro! O Filipe é que está a organizar isso, ele costumava correr connosco, mas a saúde, sabes?, deve estar por aí sentado a ver a corrida passar. Quem, Marlene? Ah, o Fábio tinha um almoço de família, não podia vir. Onde? O Fábio, onde? Olha-me este!, que descaramento, a mentir-me com quantos dentes tinha na boca, eu arranco-lhe um a esse filho da… Olhem que as pessoas… Deixem, vamos ignorar e começar mas é a correr. Veem quem vai a correr lá à frente? Não é que é o maluco do Filipe? Venham, vamos apanhá-lo!


- Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Provérbio citado (CARVALHO)

«(...) Durante toda a noite, assistimos àquela actividade formigueira de que nos chegavam ecos longínquos de estranhos cânticos, ritmados ao som de tambores. Ao amanhecer, os campos estavam quase limpos de cadáveres e a chusma de mouros parecia mais adelgaçada, não tanto pelas perdas que houvessem sofrido, mas porque, por cada um que ficou, outro teria partido a talas os campos ou a procurar melhor sorte mais além. raras e desconvictas eram as investidas contra as muralhas. Pareciam ter optado por um cerco prolongado, sem que alguém pudesse perceber que vantagem teriam nisso. Pobremente acampados, debaixo de coberturas de pele, continuavam a fazer ressoar os tambores que retumbavam nos ares. Um assomo da brisa trazia-nos, de vez em quando, os seus cantares, em coro. No mais, era um estendido e miserável acampamento de nómadas. Nós cremámos os nossos mortos, com o cerimonial mínimo. À música dolente que ondulava ao longe, respondia a cidade com os gemidos das carpideiras, o toque das flautas cerimoniais, e o lamento dos familiares dos mortos.
Ao segundo dia, pela hora sétima, Calpúrnio veio visitar as muralhas, com alguma pompa, acompanhado por Ápito e outros decênviros. Caminhando a pé, a seu lado, logo atrás dos lictores, Airhan, de armadura de ferro e elmo à cinta, trazia ao ombro alforges com dinheiro que ia distribuindo aos combatentes. Escravos de Calpúrnio já tinham percorrido as ruas, dispensando espórtulas aos familiares de mortos e feridos, de acordo com a categoria social de cada um: mais aos ricos, menos aos menos.
(...) »

In Um deus passeando pela brisa da tarde - Mário de Carvalho