sexta-feira, 22 de maio de 2009

Provérbios provados espaçados

Sim, eu sei que tudo são recordações… e que não prometi provérbios periódicos, mas também não previ uma ausência de tantos meses!

E já em baixo segue uma história em capítulos, “repescada” dos arquivos do Ventoinha, à qual acrescentei agora o 4ª capítulo para terminar(?) a saga nupcial do Mendes.

Boa noite e bons provérbios :)

Provérbio Provado em Capítulos - I

Desde tenra idade conhecido por "filho do Mendes", a dada altura passaram a chamá-lo apenas Mendes, tal como seu pai e o seu avô antes dele. Estranhamente, nenhum tinha realmente por apelido Mendes, mas esse era um costume antigo de Vila Bela. Já o seu melhor amigo e companheiro de brincadeiras de infância era conhecido por Zé Sapateiro, negócio que nunca prosperou na família, que detinha há várias gerações uma taberna. O verdadeiro nome do Mendes na verdade não nos interessa.
O Mendes vendia enciclopédias por toda a concelhia na sua velha carrinha. Tarefa ingrata, a do Mendes, vender palavras a retalho a gentes mais habituadas às pedras e à lavoura. Nem mesmo os livros de orações e de culinária, nem sequer os mapas das colheitas, conseguiam entusiasmar a clientela. Ficavam a olhá-lo em silêncio, coçando a cabeça hesitantes, enquanto o Mendes explicava a importância das obras numa torrente de frases. Não lhes passava pela ideia gastar dinheiro naquilo e o desconforto era enorme por não perceberem o palavreado. Por isso, evitavam-no. Quando se sentia pelas aldeias o troar da carripana, logo se estendia a notícia e os largos das igrejas esvaziavam-se como que por encanto... E não fosse a proximidade com os santos, quase se poderia dizer que aparecera o diabo em forma de gente. Os homens abandonavam os baralhos e os copos três e as mulheres corriam a fechar janelas e portas, mesmo se em hora de aleluias.

- Falai no Mendes e à porta o tendes

Provérbio Provado em Capítulos - II

Como não há regra sem excepção, não é assim tão exacto dizer que toda a gente por essas terras evitava o Mendes e dele fugia como do diabo. Em Vila Bela o Mendes tinha uma cliente fidelíssima, tão bela de seu nome como a vila, que era a Belinha da retrosaria. A Belinha manifestara desde criança uma forte apetência para a leitura, mas infelizmente não houvera dinheiro na família para ela poder ir estudar para a Cidade Grande. O pai, o Tó Marmeleiro, que era alfaiate, até costumava dizer: "Tomara eu que a miúda não gostasse tantos dos livros, que havia de tornar-se uma bela costureira".
Foi assim que Belinha começou a trabalhar na retrosaria familiar e enquanto enrolava carrinhos de linhas e desfiava meadas, sonhava-se a tecer o manto do Tempo com as ninfas gregas. Grande parte do seu salário destinava-se à mercadoria da carripana do Mendes. Ele trazia-lhe livros por encomenda, desdobrava-se em ofertas de revistas e atenções. Tó Marmeleiro começou a desconfiar das constantes aparições do Mendes e do seu palavreado complicado, via como a Belinha se derretia ao ponto de falar com voz de mel e um dia, à hora de fechar a retrosaria, chamou-a à parte e disse-lhe:

- Podes casar com quem quiseres contanto que cases com o primo Manel

Provérbio Provado em Capítulos - III

Finalmente o Mendes chegou à conclusão de que com o Tó Marmeleiro não faria dinheiro. Quando muito faria farinha com a Belinha, moradora de Vila Bela. Mas só lhe restava fermentar-lhe a imaginação com umas quantas antologias poéticas e outros tantos romances de cordel para sobremesa do primo Manel. O meio era rural, mas não tão arcaico que se chegasse a vias de facto de duelos e coisas que tal, e Belinha acatava, pacata, o Conselho Familiar que, encabeçado pelo tio Fragata, deliberava a propósito da sua futura descendência. Vila Bela situava-se longe do mar e o tio era Fragata só de alcunha, pois na realidade era caçador, e apreciava nos machos mais a capacidade de recolecção do Neolítico que o fraseado do Romantismo. Indicava o primo Manel, salientando as suas qualidades de varejador na apanha da azeitona mas, adivinhando a predilecção da Belinha pelo palavroso Mendes, murmurava para o compadre Marmeleiro:

- Tenhamos a perdiz, depois se tratará do molho

Provérbio Provado em Capítulos - IV

Assegurado que estava o futuro noivado entre primos, o tio Fragata chamou a si a tarefa de investigar os predicados do Mendes, que tinha por hábito conduzir-se irregularmente pelos eixos da concelhia, passando sem remorsos das juntas de freguesia para os mais afastados montes.
Foi dar com ele numa tarde quente, alapado na carripana à sombra, suado, desgostoso: vinha da Biblioteca Municipal. Fizera a derradeira tentativa de vender as colecções caras, obras de referência luxuosamente encadernadas; mas aquela casa tão pouco convidativa, este calor e parece que chovia lá dentro, sabe?, o empregado também invernoso e a velhota num canto junto ao catálogo manual, como uma peça da decoração, tricotando as fichas numa reza de “ponto espaço traço espaço”. Se penso naquele arquivo a acumular mofo por cima do mercado de peixe, provisório desde o tempo da Maria Castanha, dá-me cá um desgosto… Suado, desgostoso, o Mendes murmurava: acho que tenho de mudar de ramo, estabelecer-me com um negócio em loja, uma papelaria, cadernos, carimbos, cautelas, uns livros e enciclopédias, claro está! E posso ter uma loja perto da retrosaria da Belinha, posso cumprimentá-la todos os dias, respeitando o seu noivado, claro está!
Ao tio Fragata deu-lhe pena do Mendes, adivinhando um futuro promissor para este homem possuído de amor. Quase comovido, pesou as virtudes dos futuros esponsais de sua afilhada e foi quando a balança lhe pendeu mais para o cheiro do dinheiro dos carimbos do Mendes que da azeitona do primo Manel. Deixa lá, até ao lavar dos cestos é vindima, e quando nos debruçarmos à vinha já és tu o noivo da prima Belinha. Descansa que eu falo com o compadre Marmeleiro:


- Um bom conselheiro alumia como um candeeiro