domingo, 16 de maio de 2010

Provérbio sonolento

Quase uma da manhã e ainda passa o 113 para Belém quase cheio. Ainda passa o autocarro do Alegro quase cheio de pessoas quase tristes, ensimesmadas. Passam táxis contornando a rotunda, ligeiros como cruzeiros. Um movimento excessivo pela noite fora.
Os carros insistem em estacionar em transgressão, ainda que vários lugares legais disponíveis. Deles saem raparigas de ar enfastiado, transidas de um frio mal disfarçado, corpinho bem feito, transportando telemóveis de última geração, sempre colados à mão que transporta a mala. É engraçado como todas as idades aderem a estes telefones e o manusear constante, talvez na esperança de serem eternamente considerados a “última geração”.

Tudo isto como se espreitasse na minha janela num dia de insónia, mas tudo mentira: há muito que passeio pelo terceiro sono, depois da habitual e criteriosa aplicação do gel para as varizes e do creme para as mãos gretadas pelos detergentes, a minha última rotina da noite na solitária paz doméstica. Já quase a meio do mês e o senhor arquitecto sempre a atrasar o cheque, com ar de gozão: “Deixe lá, Guilhermina, mais cedo o recebe, mais cedo o gasta…”. Não fossem os poucos estudos e as contas para pagar, eu dizia-lhe das boas…

- Quando a desgraça dormir ninguém a desperte

Provérbio lupino

- RETIRADO DO COISAS QUE TAL -

Acordava nessas manhãs de Inverno sentindo-se um pouco Lobo das Estepes. Nas horas do despertar julgava-se muito mais Lobo, soltando breves grunhidos. Mas depois durante o dia achava-se deprimido, oprimido até, quase soterrado pela ideia humana que de si fazia. À noite esse lado lupino regressava mais evidente, quase a arregaçar os caninos, e piorando com a madrugada. Como que arriscaria esboçar umas quantas teorias sobre o binómio homem-lobo, não fosse o facto de ainda estar a meio do livro. Nessas manhãs estugava o passo a caminho da estação de comboios do subúrbio e, na viagem, o livro adormecia na pasta enquanto a barriga repousava no cinto. À noite se tivesse sorte, encontraria melhor companhia para a almofada que o Hermann Hesse. Se tivesse sorte... e desde que não dissesse à jovem rapariga diante de si: " Pois, sou eu. Sou uma pessoa que tenho metade de homem e metade de Lobo, ou que julga ser assim."

- Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele

Provérbio citado (VERÍSSIMO)

«(…)
- Meu caro Cel. Vacariano, o senhor ouviu o meu discurso. Se eleito, pretendo seguir à risca tudo quanto tenho prometido ao povo durante esta campanha memorável.
- Pois é, mas as pessoas quando chegam «lá em cima» em geral mudam, esquecem as promessas feitas nos discursos e nas entrevistas. Noutras palavras, tenho medo de que o senhor atire a sua vassoura para um canto e não varra a casa.
- Pois é, coronel, se o senhor pensa assim vai ter uma surpresa. Pretendo usar a vassoura, e com muito vigor. Agora, o meu caro amigo pode discordar de mim na definição da palavra «sujeira». O que me parece sujo pode parecer-lhe limpo e vice-versa. Mas de uma coisa pode ficar certo: no meu governo não pretendo ter compadres nem afilhados. Pensarei com a minha cabeça, governarei com as minhas ideias e os meus ideais, serei senhor da minha vontade. Não tenho compromissos com partidos políticos ou grupos económicos ou financeiros.
- Pois se assim é, não temos motivos para apreensões… não é? Mas eu gostaria que o senhor me fizesse uma promessa, agora.
A coisa soava como um pedido de pagamento adiantado por um apoio eleitoral.
Jânio mirou longamente o dono da casa e depois ergueu-se:
- Meu amigo, nenhum candidato que se preze pode fazer a quem quer que seja promessas particulares de ordem política, financeira, económica ou de qualquer outra natureza. Meu compromisso é com o povo brasileiro, não só com os que me elegerem como também com os que votarem contra mim.
- O senhor pode me achar desconfiado, doutor, mas aqui na fronteira temos um ditado muito bom:

O diabo sabe muito mais por velho do que por diabo.
(...)»

In Incidente em Antares – Erico Veríssimo

Provérbios provados espaçados – II

Trago sempre um provérbio no bolso mas quase nunca no blog. Pelo menos não nos últimos meses. Que me perdoem os que como eu gostam de provérbios ou aqueles que gostam de os ver provados nas curtas histórias que imagino.
Por falar em inventar descobri um livro curiosíssimo de nome Provérbios pós-modernos, que foram mesmo criados pelo autor, e que achei delicioso. Nas suas palavras na nota introdutória, Tomás Lourenço, antropólogo, justifica-se desta forma: «(…) estamos numa sociedade aberta (…), permeável à tradição, mas também sujeita ao processo e aculturação global, onde não há limitação para a evolução das técnicas e da criatividade. Assim, limitei-me a inventar os provérbios a que chamei de pós-modernos, porque se inserem na pós-modernidada cultural, e numa sociedade pós-industrial. (…)» [p.9]
A devida reverência ao autor que idealizou estes provérbios capazes de proporcionar fartas gargalhadas. Doravante passarão a figurar alegremente neste blog, paredes meias com os provérbios mais ancestrais e dos vários cantos do mundo.

Bom Domingo e bons provérbios :)