sexta-feira, 6 de junho de 2014

Provérbio citado (JORGE)

«(...)
Isabela retomou a senda poluída da Marginal. A ventania havia feito secar ervas cor de palha, amontoado resíduos inqualificáveis, pendurado nas abas das acácias sacos de plástico desfeitos e desbotados. Ela seguia as superfícies de pedra, as sombras das vivendas recatadas, a estreita senda entre o asfalto e as ervas, unindo as pernas para não ser atropelada nem tropeçar nos pastos, muito direita, de modo a não deixar cair a tolha e o saco que por vezes punha sobre a cabeça, podendo assim ziguezaguear entre obstáculos concretos e imaginados. Com as mãos na cintura, ou os braços abertos, levantados no ar, Isabela divertia-se, desequilibrava-se, retomava o seu prumo, seguia. Só depois deveria entrar num caminho de areia, e aí, à sombra duns prédios altos, escondida no resto do que fora um antigo quintal, ainda com redes de pescador na porta e nas janelas, ficava a casa onde a avó a esperava, sempre ralhando com ela - «Por que não me ajudas, por que não ficas em casa? Para onde vais? Com quem andas? A mim não me enganas tu! Um dia vais e não voltas mais, com essas pernas nuas.» Depois, choramingava um pouco e punha a comida na mesa. Isabela sentava-se à mesa depois do duche, com o cabelo a pingar sobre a toalha - «Está bem, Vó, amanhã eu fico...» Não ficava. Mas, apesar de tudo, a avó mantinha secretas esperanças em relação à neta.
A sua maior ambição decorria da interpretação que fazia duma espécie de parábola dos talentos, muito sua, repetindo todas as manhãs que cada um poderia ser feliz se soubesse usar o que Deus lhe tinha dado. «A felicidade está no peito de cada um!» - dizia, fazendo ressoar, no meio do próprio peito, uma pancada seca. (...)»


Miss beijo

In O belo adormecido – Lídia Jorge