sexta-feira, 23 de maio de 2014

Provérbio citado (COUPLAND)

«(...)
Wade levou o telefone para a varanda. Inspirou várias vezes e fez uma chamada que esperaria não ter de fazer. Ligou a uma pessoa com quem tinha tido relações profissionais.
- Daqui fala o Norm.
- Norm... é o Wade.
- O Wade Drummond? Boa, boa... que é que tens feito, meu?
- Isto e aquilo. Agora sou casado, Norm. Não tarda nada, tenho um filho, uma caravana e tudo o mais.
- Tu, um homem de família?
- Pfff... todos os bonecos de neve do inferno a derreter numa coluna de fumo.
- A família é uma coisa boa, Wade.
- Havias de ver a minha família. Somos todos psicóticos.
- Todas as famílias são psicóticas, Wade. Todos temos basicamente a mesma família... só que as famílias têm todas uma configuração diferente. Vem conhecer os meus sogros uma noite destas. De onde estás a ligar?
(…)
Passaram alguns minutos a pôr a conversa em dia, e depois seguiu-se um silêncio incómodo numa conversa de homens.
- Norm. Estou a precisar de dinheiro.
Um silêncio.
- Bem, todos precisamos.
- Tive de pedir um empréstimo do Tony «The Tiger» em Carson City para uma clínica de fertilidade que custou um balúrdio. A minha mulher e eu tivemos de ir à Europa tentar um processo novo. Cinquenta mil.
- Cinquenta mil? O que é que custou cinquenta mil dólares?
Talvez seja melhor ir direito ao assunto.
- Norm, sou seropositivo. Há uma clínica em Milão que recolhe sémen e coloca-o numa centrifugadora, e as partículas virais mais leves sobem e deixam a parte inferior limpa.
Norm permaneceu em silêncio.
- Okay. Certo. Já ouvi imensas histórias. Essa é muito boa.
- Não é nenhuma história... é a verdade.
- Mas mesmo assim precisas de massa.
- Exacto.
- Já sabes como é, Wade: quanto maior o risco, maior a recompensa.
(...)»


In Todas as famílias são psicóticas – Douglas Coupland

Provérbio provado desempoeirado

Há dias assim como este em que acordo com uma enorme energia, sabes, quase como se fosse um entusiasmo proibido. O corpo relaxado, bem descansado, o peso que de repente voou dos ombros, a cervical sem um nó, a lombar toda vertical, a respiração limpa, os pulmões oxigenados, o rei na barriga, o coração batendo num ritmo satisfeito, compassado... e isto de tal modo que consigo sentir todos os tecidos, as trocas celulares e as terminações nervosas. Visto-me, penteio-me, sorrio-me ao espelho e nenhuma pedra no sapato. É isto que somos, Cecília, humanos maravilhosos pulsando de vida a cada dia e em cada gesto que traçamos uma rede de possibilidades bela e infinita. Hoje estou capaz de cantar ou até pintar: coisas que normalmente não sei fazer, mas hoje sei e posso. Da vida quero tirar nabos da púcara, tendo sempre presente no presente que nada é permanente.

Findo o monólogo num tom entre alegre e espalha brasas, Cecília fez um breve silêncio, olhou a sogra de soslaio resignada, e perguntou: esqueceste-te de tomar os comprimidos da manhã, não foi, Jorge?

- Os mentirosos deviam ter boa memória

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Provérbio provado empoeirado

Há dias assim como este em que experimento um enorme cansaço existencial, sabes, sinto que viver não posso e morrer não quero, um rotundo zero à esquerda, não, dois ou três ou mais zeros. Somos pequenos seres mesquinhos na poeira do universo, vivendo e aprendendo neste microcosmos que nos corrói a alma. É isto que somos, Cecília, seres pequeninos preocupados com miudezas, com o tempo que faz, as contas do supermercado, o relógio no pulso, pensando que os miseráveis laços que tecemos com os outros fazem algum sentido. No entanto temos mais olhos que barriga, num orgulho renascentista desmedido, vendendo ideias de porta em porta e supondo que adquirimos conhecimento e mundividência. Tira mas é o cavalinho da chuva e fica escutando enquanto ela cai!

Findo o monólogo soprado com raiva, Cecília fez um breve silêncio, resignada, e perguntou: já tomaste os comprimidos da manhã, Jorge?

- Do pó vieste, ao pó voltarás

domingo, 4 de maio de 2014

Provérbio com preço – II

Marcava germanicamente as reuniões para as oito da manhã e ai de quem chegasse atrasado. A explicação balbuciada em frente aos colegas, greve nos transportes, furo nos pneus, criança com febres, um menos redondo na caderneta, tenha santa paciência!, julga que temos toda a manhã por sua conta?
Ao atrasado sentado de pouco lhe adiantava cara de quem comeu e não gostou, o chefe é que tinha a faca e o queijo na mão. Despachava rapidamente a ordem de trabalhos, distribuía tarefas, enérgico, com fôlego de gato com medo que o mundo se acabe.
Vivia no agora, na acção, na optimização do tempo e do trabalho com lucro, muito lucro. Desprezava as pessoas que parece que tinham raiva de quem inventou o trabalho, uns molengas sem préstimo e sem noção de que o relógio enche o bolso a um homem.

- Tempo é dinheiro

P. S. - Post livre de preconceitos bancários, e quiçá teorizando que, se tempo é dinheiro, paguemos então as nossas dívidas com o tempo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Provérbio provado desconfiado – II

Deixámos João a conhecer Vitória como a palma da mão. A coisa desenrolou-se muitíssimo devagar: conversas prolongadas em esplanadas, voltinhas a apanhar ar, insinuações veladas. Ter confiança na Vitória foi meia batalha ganha, mas mesmo só meia. Encetaram um namoro demasiado sossegado, até que ela acabou o curso, regressou à terra e casou-se à pressa com um amigo de infância.
Tais acontecimentos deixaram João devastado, teria de ser doravante ainda mais desconfiado. E assim se deixou andar, até conhecer Liliana num bar. Caiu-lhe literalmente no colo. O oposto de Vitória: Liliana era mundana, baixa, voluptuosa, madura. Cuidada, maquilhada, de unha pintada, nesse dia usava laranja – que descobriu depois ser a sua cor favorita. Conversaram, dançaram, cada gesto de Liliana um convite irrecusável, cada frase uma piada, um fluir irrepetível das horas; Liliana ia directa ao assunto. Encetaram de imediato uma relação toda baseada na atracção, e logo se amaram sem se conhecerem.
Mas pouco tempo passado já Liliana manifestava insatisfação em relação a João. Pequenas inseguranças atingiam proporções gigantescas. Se lhe perguntava: achas que ponha este vestido?, a resposta certa não era sim nem não, mas uma área cinzenta algures no meio porque nunca tinha trapos suficientes; se sim, nem queres saber; se não, és um insensível e estou mais gorda, não estou? - só o laranja era uma cor que lhe melhorava o humor. Se olhava em redor em espaços com gente (qualquer um fora de casa), logo era acusado de estar a mirar esta ou aquela, quando na verdade apenas via quem passava, o velhote com o cão, mas que disparate é este? Liliana mantinha-o numa teia de amuos e lágrimas seguidas de reconciliações. João começou a perceber que as lágrimas de mulher parece que valem muito e custam-lhe pouco: como as lágrimas dos crocodilos.
Uma noite, farto de Liliana e dos traumas do seu passado, bateu com a porta aliviado.

- Laranja madura em beira de estrada ou é azeda ou é bichada