quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Provérbio citado (DESAI)

« Quando Sai começou a interessar-se pelo amor, começou a interessar-se pelos assuntos do coração das outras pessoas; assim, passou a importunar o cozinheiro com perguntas sobre o juiz e a sua esposa.
O cozinheiro declarou:
- Quando eu vim trabalhar para a casa, todos os criados antigos me disseram que a morte da sua avó fez do seu avô um homem cruel. Ela era uma grande dama, nunca elevava a voz aos criados. Como ele a amava! Aliás, era uma relação tão profunda que nos revirava o estômago, pois era algo demasiado grande para ser contemplado por qualquer outra pessoa.
- Ele amava-a assim tanto? - Sai ficou atónita.
- Devia amar – respondeu o cozinheiro. - Mas dizem que não o demonstrava.
- Talvez não a amasse? - aventou ela então.
- Morda a língua, sua malvada. Retire o que disse! - gritou o cozinheiro. - Claro que ele a amava.
- Então, como podiam os criados saber?
O cozinheiro refletiu um pouco, pensou na sua própria mulher.
- Tem razão – admitiu ele. - Ninguém sabia realmente, mas também naquela altura ninguém dizia nada. Mas saiba, menina, que existem muitas formas de demonstrar amor e não só à maneira do cinema, que é a única forma que a menina conhece. É uma rapariga muito tola. O maior amor é aquele que nunca é demonstrado.
(...)»

In A herança do vazio – Kiran Desai

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Provérbio na barra do tribunal

Falando sobre a corrupção em geral, e falando de Portugal em particular, e em particular dos negócios sujos que proliferam desde a economia à política até ao futebol, trago um singelo provérbio que poderá ajudar no acelerar dos processos judiciais:

- Tanto peca o que segura o saco como o que para dentro mete

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Provérbio provado endinheirado

Ora bem, o início desta história dá-se com esta escriba começando por confessar que a escutou como verdadeira. Não vão os caros leitores pensar que a inventou: apenas a adulterou e acrescentou o seu cunho em certas partes, na sua forma idealizada de como se recorda de a ter ouvido.

Começamos então por cerca dos anos 30, 40, do século passado, quando a Dona Elvira, residente numa freguesia encavalitada nos montes lá para os lados da Lousã, acolheu três padres – costume típico na época – que vinham de pregar de outra freguesia. A tia Vira, assim conhecida pelos vizinhos, cedeu aos padres uma casa vazia que tinha à beira da estrada. Dizia-se na aldeia que os padres vinham fugidos do Brasil e de certeza traziam nos bolsos uma invulgar fortuna, pois ergueram nos anos seguintes uma tal igreja como a não tinha a sede de concelho, e organizavam festas tais que vinha povo das aldeias mais longínquas assistir às procissões, bailaricos e foguetórios.

Foram passando os anos nesta história, até que o destino dos padres se foi desenrolando. Um deles acabou por regressar ao Brasil e por lá morreu às mãos de com quem tinha contas a ajustar e o quis apanhar; um outro foi morto naqueles caminhos sombrios da aldeia, numa noite sem luar, à navalha e à sucapa que é como actuam os bandidos; o último morreu de velho, pois se já não era novo quando chegou, assim ficou meio apatetado e sem conhecimento da realidade.

Aqui se recapitulam os factos: os padres vieram e foram, tia Vira já morreu sem herdeiros directos, a casa foi cedendo sem mais préstimo e um dia o telhado ruiu...

E recomeçamos mais tarde, já nos anos 80, quando a Câmara Municipal resolve mandar limpar os caminhos das estradas nacionais. Abrir valas, cortar mato, desbastar silvas, trabalho duro de limpeza em que, numa tarde de suor, encontramos três funcionários trabalhando junto à casa quase desfeita à beira da estrada. Já não sabem se é do excesso de calor ou são os pontos luminosos da casa que brilhando ao sol quase os cegam. Acercam-se e encontram caixas já desfeitas que haviam resvalado do sotão quando o telhado abateu. Um tesouro inominável, diz-se, porque ninguém o viu: moedas de ouro e de prata e jóias em grande quantidade. O saque dos padres portugueses no Brasil.

Os herdeiros indirectos, atiçados pela história que se contava, apresentaram queixa na polícia, onde um basbaque cofiando a bigodaça tomou notas e garantiu que os trabalhadores iam ser “espremidos” para falarem. Que sumo foi esse não se sabe, mas a coisa foi arquivada por falta de provas.

O tesouro ficou na imaginação das gentes e nunca nada foi encontrado na posse destes três homens. Até que um belo dia, um deles comprou uma moto potente e espetou-se numa curva apertada dos montes; o outro comprou um carro de alta cilindrada que enfiou numa árvore na sua primeira ida a Coimbra; o terceiro vive amargurado, e nem à boleia... só de comboio.


- Dinheiro de padre e brasileiro não chega a terceiro

sábado, 25 de outubro de 2014

Provérbio provado sentado

A professora tentava a todo o custo manter-nos sentados. Todos sentados, cada um em seu lugar, sem levantar para espreitar o recreio, sem idas inventadas à casa de banho, sem arremesso de bolas de papel ao quadro e uns aos outros. Sentados, a ouvir histórias passadas de outros continentes. Sentados, compostos, sem bocejos. Sentados, de preferência calados. E se a coisa às vezes descambava, a professora de repente gritava: - Todos sentados!

- Quem não se sente não é filho de boa gente

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Provérbio citado (CRUZ)

«(...)
Mulhermente, Lola crescera para ser muito atraente, ao ponto de parecer uma evolução estética da humanidade. A evolução é isso mesmo: uma pessoa sabe que evoluiu quando à sua volta só vê macacos. Lola desenvolveu esse espaço poético que é o seu corpo, tudo com grande elegância. Enquanto ela o fazia, os homens à sua volta desenvolviam a acuidade visual e, quando ela passava, permitia que apanhassem torcicolos. Mas não se prendia a nenhum, até que um dia apareceu o imbecil certo. Demora muito até que aconteça e a maior parte das mulheres não tem essa sorte. A maior parte casa-se simplesmente com o imbecil errado.
O encontro dos dois deu-se numa das festas em que a sua mãe já não era convidada (…). Plácido haveria de se tornar noivo de Lola, depois de dois anos de namoro. Ele era um rapaz bem-parecido, alto, de ombros largos e com grande capacidade para calar-se a si mesmo. Na noite em que se conheceram, ele quase não falou. O perigo disto é bem conhecido. Há um provérbio que o afirma claramente: o néscio, por se calar, passa por sábio. (...)»


In A carne de Deus : aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites - Afonso Cruz

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Provérbio citado (JORGE)

«(...)
Isabela retomou a senda poluída da Marginal. A ventania havia feito secar ervas cor de palha, amontoado resíduos inqualificáveis, pendurado nas abas das acácias sacos de plástico desfeitos e desbotados. Ela seguia as superfícies de pedra, as sombras das vivendas recatadas, a estreita senda entre o asfalto e as ervas, unindo as pernas para não ser atropelada nem tropeçar nos pastos, muito direita, de modo a não deixar cair a tolha e o saco que por vezes punha sobre a cabeça, podendo assim ziguezaguear entre obstáculos concretos e imaginados. Com as mãos na cintura, ou os braços abertos, levantados no ar, Isabela divertia-se, desequilibrava-se, retomava o seu prumo, seguia. Só depois deveria entrar num caminho de areia, e aí, à sombra duns prédios altos, escondida no resto do que fora um antigo quintal, ainda com redes de pescador na porta e nas janelas, ficava a casa onde a avó a esperava, sempre ralhando com ela - «Por que não me ajudas, por que não ficas em casa? Para onde vais? Com quem andas? A mim não me enganas tu! Um dia vais e não voltas mais, com essas pernas nuas.» Depois, choramingava um pouco e punha a comida na mesa. Isabela sentava-se à mesa depois do duche, com o cabelo a pingar sobre a toalha - «Está bem, Vó, amanhã eu fico...» Não ficava. Mas, apesar de tudo, a avó mantinha secretas esperanças em relação à neta.
A sua maior ambição decorria da interpretação que fazia duma espécie de parábola dos talentos, muito sua, repetindo todas as manhãs que cada um poderia ser feliz se soubesse usar o que Deus lhe tinha dado. «A felicidade está no peito de cada um!» - dizia, fazendo ressoar, no meio do próprio peito, uma pancada seca. (...)»


Miss beijo

In O belo adormecido – Lídia Jorge

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Provérbio citado (COUPLAND)

«(...)
Wade levou o telefone para a varanda. Inspirou várias vezes e fez uma chamada que esperaria não ter de fazer. Ligou a uma pessoa com quem tinha tido relações profissionais.
- Daqui fala o Norm.
- Norm... é o Wade.
- O Wade Drummond? Boa, boa... que é que tens feito, meu?
- Isto e aquilo. Agora sou casado, Norm. Não tarda nada, tenho um filho, uma caravana e tudo o mais.
- Tu, um homem de família?
- Pfff... todos os bonecos de neve do inferno a derreter numa coluna de fumo.
- A família é uma coisa boa, Wade.
- Havias de ver a minha família. Somos todos psicóticos.
- Todas as famílias são psicóticas, Wade. Todos temos basicamente a mesma família... só que as famílias têm todas uma configuração diferente. Vem conhecer os meus sogros uma noite destas. De onde estás a ligar?
(…)
Passaram alguns minutos a pôr a conversa em dia, e depois seguiu-se um silêncio incómodo numa conversa de homens.
- Norm. Estou a precisar de dinheiro.
Um silêncio.
- Bem, todos precisamos.
- Tive de pedir um empréstimo do Tony «The Tiger» em Carson City para uma clínica de fertilidade que custou um balúrdio. A minha mulher e eu tivemos de ir à Europa tentar um processo novo. Cinquenta mil.
- Cinquenta mil? O que é que custou cinquenta mil dólares?
Talvez seja melhor ir direito ao assunto.
- Norm, sou seropositivo. Há uma clínica em Milão que recolhe sémen e coloca-o numa centrifugadora, e as partículas virais mais leves sobem e deixam a parte inferior limpa.
Norm permaneceu em silêncio.
- Okay. Certo. Já ouvi imensas histórias. Essa é muito boa.
- Não é nenhuma história... é a verdade.
- Mas mesmo assim precisas de massa.
- Exacto.
- Já sabes como é, Wade: quanto maior o risco, maior a recompensa.
(...)»


In Todas as famílias são psicóticas – Douglas Coupland

Provérbio provado desempoeirado

Há dias assim como este em que acordo com uma enorme energia, sabes, quase como se fosse um entusiasmo proibido. O corpo relaxado, bem descansado, o peso que de repente voou dos ombros, a cervical sem um nó, a lombar toda vertical, a respiração limpa, os pulmões oxigenados, o rei na barriga, o coração batendo num ritmo satisfeito, compassado... e isto de tal modo que consigo sentir todos os tecidos, as trocas celulares e as terminações nervosas. Visto-me, penteio-me, sorrio-me ao espelho e nenhuma pedra no sapato. É isto que somos, Cecília, humanos maravilhosos pulsando de vida a cada dia e em cada gesto que traçamos uma rede de possibilidades bela e infinita. Hoje estou capaz de cantar ou até pintar: coisas que normalmente não sei fazer, mas hoje sei e posso. Da vida quero tirar nabos da púcara, tendo sempre presente no presente que nada é permanente.

Findo o monólogo num tom entre alegre e espalha brasas, Cecília fez um breve silêncio, olhou a sogra de soslaio resignada, e perguntou: esqueceste-te de tomar os comprimidos da manhã, não foi, Jorge?

- Os mentirosos deviam ter boa memória

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Provérbio provado empoeirado

Há dias assim como este em que experimento um enorme cansaço existencial, sabes, sinto que viver não posso e morrer não quero, um rotundo zero à esquerda, não, dois ou três ou mais zeros. Somos pequenos seres mesquinhos na poeira do universo, vivendo e aprendendo neste microcosmos que nos corrói a alma. É isto que somos, Cecília, seres pequeninos preocupados com miudezas, com o tempo que faz, as contas do supermercado, o relógio no pulso, pensando que os miseráveis laços que tecemos com os outros fazem algum sentido. No entanto temos mais olhos que barriga, num orgulho renascentista desmedido, vendendo ideias de porta em porta e supondo que adquirimos conhecimento e mundividência. Tira mas é o cavalinho da chuva e fica escutando enquanto ela cai!

Findo o monólogo soprado com raiva, Cecília fez um breve silêncio, resignada, e perguntou: já tomaste os comprimidos da manhã, Jorge?

- Do pó vieste, ao pó voltarás

domingo, 4 de maio de 2014

Provérbio com preço – II

Marcava germanicamente as reuniões para as oito da manhã e ai de quem chegasse atrasado. A explicação balbuciada em frente aos colegas, greve nos transportes, furo nos pneus, criança com febres, um menos redondo na caderneta, tenha santa paciência!, julga que temos toda a manhã por sua conta?
Ao atrasado sentado de pouco lhe adiantava cara de quem comeu e não gostou, o chefe é que tinha a faca e o queijo na mão. Despachava rapidamente a ordem de trabalhos, distribuía tarefas, enérgico, com fôlego de gato com medo que o mundo se acabe.
Vivia no agora, na acção, na optimização do tempo e do trabalho com lucro, muito lucro. Desprezava as pessoas que parece que tinham raiva de quem inventou o trabalho, uns molengas sem préstimo e sem noção de que o relógio enche o bolso a um homem.

- Tempo é dinheiro

P. S. - Post livre de preconceitos bancários, e quiçá teorizando que, se tempo é dinheiro, paguemos então as nossas dívidas com o tempo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Provérbio provado desconfiado – II

Deixámos João a conhecer Vitória como a palma da mão. A coisa desenrolou-se muitíssimo devagar: conversas prolongadas em esplanadas, voltinhas a apanhar ar, insinuações veladas. Ter confiança na Vitória foi meia batalha ganha, mas mesmo só meia. Encetaram um namoro demasiado sossegado, até que ela acabou o curso, regressou à terra e casou-se à pressa com um amigo de infância.
Tais acontecimentos deixaram João devastado, teria de ser doravante ainda mais desconfiado. E assim se deixou andar, até conhecer Liliana num bar. Caiu-lhe literalmente no colo. O oposto de Vitória: Liliana era mundana, baixa, voluptuosa, madura. Cuidada, maquilhada, de unha pintada, nesse dia usava laranja – que descobriu depois ser a sua cor favorita. Conversaram, dançaram, cada gesto de Liliana um convite irrecusável, cada frase uma piada, um fluir irrepetível das horas; Liliana ia directa ao assunto. Encetaram de imediato uma relação toda baseada na atracção, e logo se amaram sem se conhecerem.
Mas pouco tempo passado já Liliana manifestava insatisfação em relação a João. Pequenas inseguranças atingiam proporções gigantescas. Se lhe perguntava: achas que ponha este vestido?, a resposta certa não era sim nem não, mas uma área cinzenta algures no meio porque nunca tinha trapos suficientes; se sim, nem queres saber; se não, és um insensível e estou mais gorda, não estou? - só o laranja era uma cor que lhe melhorava o humor. Se olhava em redor em espaços com gente (qualquer um fora de casa), logo era acusado de estar a mirar esta ou aquela, quando na verdade apenas via quem passava, o velhote com o cão, mas que disparate é este? Liliana mantinha-o numa teia de amuos e lágrimas seguidas de reconciliações. João começou a perceber que as lágrimas de mulher parece que valem muito e custam-lhe pouco: como as lágrimas dos crocodilos.
Uma noite, farto de Liliana e dos traumas do seu passado, bateu com a porta aliviado.

- Laranja madura em beira de estrada ou é azeda ou é bichada

terça-feira, 22 de abril de 2014

Provérbio provado desconfiado

Desta é que foi, quando menos contava, num abrir e fechar de olhos, o João apaixonou-se. Estava na cantina da faculdade quando a viu pela primeira vez, morena e muito alta, comprida e chata como a espada de D. Afonso Henriques, mas ao mesmo tempo com um certo ar discreto, de quem não gosta de comprar barulho. Como se chama?, perguntou, Vitória, responderam-lhe. Apaixonou-se mesmo a sério, bolas!, de mal comer e mau dormir andava olheirento e pálido.
João receava tentar a aproximação com medo da rejeição. Não podia tomar decisões impetuosas, tinha de gizar um plano e manter-se nele de passo seguro com os olhos no futuro; conforme a pergunta assim seria a resposta: se tivesse um dizer idiota Vitória não o toleraria, e desfazer-se-ia a primeira impressão. Teria de ser um conhecerem-se lento, queria ser amigo de Vitória sem pressas, confiar desconfiando, até a conhecer como a palma da mão.

- Confiança na vitória é meia batalha ganha

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Provérbio da despedida

Adeus, tio Zé. Faço agora o luto que não soube fazer pela Sara. Quando ela morreu, creio que há cerca de dois anos e meio, não consegui fazer nada, sabes, a única coisa em que consegui ser um bocadinho corajosa foi não chorar durante as visitas ao hospital, chegava ao elevador e aí, sim, podia chorar e chorava, mas nunca antes.  Quando ela morreu, apertei a pulseira que me deu e no funeral faltaram-me palavras, fui papagueando as frases religiosas que sabia que ela detestava. Creio que há cerca de dois anos e meio, não soube despedir-me da Sara.
Adeus, tio Zé. Se conhecesse os teus gostos de poetas, ler-te-ia um poema nada previsível como o Fim do Mário de Sá-Carneiro, tenho um pressentimento de que havias de detestar essa má escolha. A Sara detestaria que te papagueasse qualquer frase religiosa, e elegeria algo mais do teu agrado, ler-te-ia fumando pois a memória que guardo é essa, sempre nos conheci a ti e a ela e a mim assim, envoltos numa nuvem de fumo a conversar.

- Adeus, mundo, cada vez pior

segunda-feira, 24 de março de 2014

Provérbio citado (ISHIGURO)

« - Li no jornal que vinhas cá – continuou Geoffrey Saunders. - Tenho estado à espera de receber notícias tuas. Enfim, a perguntar-me quando aparecerias. Até comprei uns bolos na pastelaria para ter alguma coisa para te oferecer com uma chávena de chá. No fim de contas, os meus alojamentos podem ser tristonhos, em virtude de ser solteiro e tudo o mais, mas, mesmo assim, espero que as pessoas me visitem de vez em quando e sou capaz de as receber bem. Por isso, quando soube que vinhas cá, saí e comprei diversos bolos para chá. Isso foi anteontem. Ontem achei que ainda estavam apresentáveis, embora o glacé estivesse a ficar um bocadinho para o duro. Mas hoje, como continuaste sem aparecer, deitei-os fora. Uma questão de orgulho, suponho. Quero dizer, tens tido tanto êxito que não queria que partisses a pensar que levo uma vida miserável num quarto alugado, apenas com bolos velhos para oferecer. Por isso, fui à pastelaria e comprei bolos frescos. E arrumei um pouco o meu quarto. Mas não apareceste. Bem, acho que não posso censurar-te. (…) Aconteceu que tive pouca sorte ao amor. Uma data de gente desta cidade julga que sou homossexual. Só porque vivo sozinho num  quarto alugado. A princípio importei-me com isso, mas agora já não. Muito bem, tomam-me erradamente por homossexual. E depois? Sucede que as minhas necessidades são satisfeitas com mulheres. Tu sabes, daquelas a quem pagamos. Perfeitamente adequadas para mim, diria mesmo que algumas delas são pessoas muito decentes. Mesmo assim, passado algum tempo, começamos a desprezá-las e elas começam a desprezar-nos. É inevitável. Conheço a maioria das prostitutas desta cidade. Não quero dizer que tenha dormido com todas elas. De modo algum! Mas conheço-as e elas conhecem-me. Cumprimento muitas delas com uma leve inclinação de cabeça. Se calhar, pensas que levo uma vida miserável. Mas não. É tudo uma questão de como vemos as coisas. (...)»

In Os inconsolados – Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 12 de março de 2014

Provérbio esbelto

Devem conhecer uma Daniela como esta, uma ainda adolescente que se julga já mulher. A bem entender, Daniela é curvilínea e alta q.b. para ser confundida com uma menina. Nem deixa que a confundam: é moderna, gosta de moda, e pesquisa pela internet e pelas revistas as tendências. O que vestir torna-se um tema importante do dia em demasia. A escola é uma chatice, um enfado, uma seca completa, um revirar de olhos quando se lhe pergunta como vai a dita; mas é pelos seus corredores e pavilhões, numa passerelle maravilhosa, que Daniela desfila com as amigas para deixar mostar as fatiotas em todo o seu esplendor. Sabem de cor o que envergam as suas estrelas favoritas em ocasiões supostamente importantes – por estrelas entenda-se uma amálgama de modelos/actrizes, umas mais cadentes que outras. Gostariam de ser/vestir como elas e, não tendo tal dinheiro nunca suficiente, vasculham lojas atafulhadas de roupa desarrumada com a música a tocar muito alto, para tentar encontrar peças parecidas e principalmente muito mais baratas. Daniela e as amigas fazem gala de passar horas em preparação de festa: quando chegam então e tão excessivamente maquilhadas parecem ter pelo menos mais dez anos.
Devem conhecer uma Daniela como esta, nunca leu um livro – só os resumos – porque a informação está toda na net; aliás, os livros são, tipo, uma grande seca. Sobra-lhe assim o tempo para o que é mais importante para ela, Daniela: navegar pelo Livro das Caras e dos Instantes, onde vê o que interessa/supõe que os seus 847 amigos gostam, onde estão e a fazer o quê e porquê, e as coisas/pessoas que fotografam. Daniela tem a sua página onde se apresenta viçosa e vivaça, em calções curtos e tops de renda no Inverno. Nas fotografias tem os lábios muito pintados e é espalhafatosa nos comentários. Talvez um conflito de informação numa idade tramada, Daniela conseguiu publicar uma destas fotografias com a frase menos moderna de sempre:

- O que é bom é para se ver

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Provérbio convidado inventado

Já tenho pedido a amigos(as) que me escrevam um provérbio, mas sou normalmente enxotada. Hoje a Anabela inventou e ofereceu-me esta pérola – apesar de não querer escrever nenhuma história, ela assegura que está mais que provado:


- O português mesmo quando interessado não gosta de ser engatado

Provérbios provados mencionados

Os provérbios provados foram mencionados no prestigiado Malomil

Quanta honra! Estou inchada de satisfação.
Obrigada, António Araújo!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Provérbio asinino

Passou-se isto num lugar nos montes atrás dos montes. A essa aldeiazinha chegou um dia um casal de holandeses à procura de um burro. Isso mesmo, um burro. A Manuela do “Café Nelita” lá foi dizendo, num poucochinho de inglês e gestos de mímica, que sim, que havia um burro. Só um, mas havia. E lá foi mandado buscar o compadre Silvino que veio devagarinho com o seu burro Tó. O casal de holandeses passou do sorriso largo ao sorriso lasso: indecisos, falavam baixo lá no seu dialecto, e deveriam estar examinando o que sabiam todos: o burro era velho e para trabalhar já não servia. Então o casal continuou dialogando em tom surdo, e dirigindo-se num tom mais alto à Nelita, dispôs-se a falar, enquanto ela toda se soprava em onomatopeias e gestos desesperados.
Depois de um bocado naquilo: uns dispersavam, outros chegavam perguntando que se passava, e o Tó defecava; lá a Nelita muito afogueada conseguiu dar conta da holandesa jornada: este casal tinha uma casa de turismo rural, já ali num monte atrás dos montes mais perto. Ora os turistas que vinham para essa casa gostavam de fazer as coisas cá da terra, fazer o pão, o azeite, andar nas vindimas, que lá na terra deles não tinham nada dessas coisas. E agora queriam um burro para dar passeios. O pessoal ficou intrigado, então estes camoines em vez de descansar vinham para trabalhar e andar escanchados num burro? Que o compadre Silvino não se preocupasse, alvitrou a Nelita, viriam buscar o Tó sempre que houvesse ocasião e trá-lo-iam são e salvo depois da passeata. Sem problemas. Bom dinheiro por cada passeio do Tó. O compadre anuiu, mas lá foi avisando que o burro era muito teimoso e que apenas respondia por um chamado muito preciso
     - Ó-ó-ó, bu-u-u-rr-e-e
     seguido de um estalido com a língua. A holandesa tentava, o holandês repetia, a Nelita conseguia, e de repente tudo em largo ria enquanto o Tó zurrava irritado.

Até que chegou a primeira marcação: compadre Silvino mandou Tó engalanado, despedindo-se do holandês com um obrigado. Ao fim do dia, o burro foi devolvido e contada a história por um holandês desiludido: por mais que fizessem, chamassem, cantassem, estalassem a língua, o Tó fincou as patas no chão e dali não saiu. Ninguém nesse dia passeou. Mas o Silvino não se ficou: disse à Nelita que dissesse ao holandês que o burro continuava a ir, sim, mas acompanhado pelo dono, com a idade que tinha já estava cansado e além disso

 - Burro velho não aprende línguas

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Provérbio citado (AGUALUSA)

«Em criança, ainda antes de aprender a ler, passava horas na biblioteca da nossa casa, sentado no chão, a folhear grossas enciclopédias ilustradas, enquanto o meu pai compunha versos árduos, que depois, muito sensatamente destruía. Mais tarde, já na escola, refugiava-me nas bibliotecas para fugir às brincadeiras, sempre brutais, com que os rapazes da minha idade se entretinham. Fui um menino tímido, franzino, alvo fácil da chacota dos outros. Cresci – cresci até um pouco mais do que é comum -, ganhei corpo, mas continuei retraído, avesso a aventuras. Trabalhei durante alguns anos como bibliotecário e creio que fui feliz nessa época. Tenho sido feliz depois disso, inclusive agora, neste pequeno corpo a que fui condenado, enquanto acompanho, num ou noutro romance medíocre, a felicidade alheia. Na grande literatura são raros os amores felizes.(…)»

In O vendedor de passados – José Eduardo Agualusa

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Provérbio citado (SILVA)

«
A minha vida divide-se entre luz e sombra.
Dos vinte aos vinte e nove fui aplaudido
por holofotes em cio, todas as notícias
me queriam conhecer, e em meus braços
decidia-se a beleza ou fealdade das mulheres.
Quinze filmes de sucesso e depois, o desastre:
quatro fracassos consecutivos. O meu rosto,
disseram, passara de moda, ultrapassado
pelas máscaras de gás que atravessaram,
com a guerra, meia Europa, quando o público
desatou a imitar o cinismo dos intelectuais
e a achar ridículo o sensível romantismo
dos meus gestos. Assim se fundiu a minha
auréola, o meu prestígio. Remetido para
as trevas, nunca mais fui perseguido por
fotógrafos, e tudo em meu redor se esvaziou
como um balão abandonado pelo fogo.
No meu funeral, vinte anos depois, nenhuma
apaixonada deu a cara, nenhuma malcasada.
Só então compreendi quão morto estava.
Reflecti, vós que passais, na minha história:
morre duas vezes quem viveu da sua imagem.
»


Vozes apanhadas no chão na igreja de San Miniato al Monte, nº 2

In Erros individuais – José Miguel Silva