sábado, 29 de agosto de 2015

Provérbio previsto

Não conseguia lembrar-se exactamente desde quando - talvez dois, três meses - mas ele andava diferente. Atrasava-se muito agora, ele sempre tão pontual. E, quando não se atrasava, desmarcava à última hora, ele sempre tão correcto e educado. Ora era um almoço com um cliente, ora reuniões com os colegas para discutir propostas. Demorava-se até tarde no emprego, ele sempre tão apologista de que não se podia viver apenas para trabalhar.

Trabalhar, trabalhar, não trabalhava. E o mais certo era que nem sequer o fizesse bem: andava de cabeça completamente desvairada e doente de paixão pela estagiária. Saíam a meio do dia para o motel, e depois de jantarem voltavam ao motel, onde os tomavam por mais um casalinho atrevido. Passaram-se quatro meses nisto, até que a situação se tornou insustentável.

Depois da maldita conversa, ele baixou os olhos e nunca mais foi capaz de a encarar directamente.Não lhe faltava mais nada: triste e divorciada. Andou um mês a chorar pelos cantos; porra, que só lhe vinham as recordações saborosas para aumentar o padecimento. Até que um dia entrou lá em casa, num aparatoso sobressalto, a amiga Ana. Subiu os estores, puxou as cortinas, pôs a água a correr para o duche e pegou numas calças e t-shirt lavadas:
- Anda lá, mexe-te, e seca já essa merda dessas lágrimas que nunca mais param de correr!

- Ferida molhada, ferida infectada

domingo, 23 de agosto de 2015

Provérbio provado santificado

Aqueles eram os dias entre a apanha do figo e da uva, e embora as nuvens escondessem teimosas o sol, ele queimava. Às vezes punha-se um tempo muito abafado, carregado de ventos quentes, que dava dores de cabeça. A Avó em casa dizia: Está aqui, está a pôr-se a trovejar; o Avô na várzea dizia: Vamos embora, que vem lá trovoada. Então voltávamos ligeiros e ao passar ao São João, onde ficava a tele escola com o seu catavento altaneiro que nesses dias rodopiava sem destino, vínhamos por ali abaixo que assim como assim todos os santos ajudam. Chegados a casa já estava a Avó numa prece baixinha, uma reza que tentou várias vezes ensinar-me. Eu, garota, reagia ao drama fugindo a esconder-me debaixo da cama, donde só saía quando voltava a bonança.
São recordações tão vívidas que, ainda hoje, tremo ao som do trovão e começa-se a desenhar-se a canção da qual só me lembro o início: "Santa Bárbara bendita, no céu está escrita, leva lá para bem longe esta trovoada..."

- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja

sábado, 15 de agosto de 2015

Provérbio divino

Chegado que era Agosto lá na aldeia, não havia sequer espaço para estacionar uma agulha, tal era a afluência de famílias que chegavam de todo o país e também do estrangeiro. Quando apareciam, logo começava a trinar o sino anunciando a festa anual. Os filhos da terra vinham esbaforidos das cidades, ansiando beber inspiração, consolo, fraternidade, eu sei lá, naquele verde a perder de vista.
Nesse Verão estava muitíssimo calor, mas para o final da tarde adensava-se uma neblina carregada de ventania e trovoada. O arvoredo todo se abanava e remexia, e pequenos ramos e folhas volteavam caprichosamente ao sabor do anoitecer. Dormia-se mal tal era o vendaval.. Dadas estas circunstâncias climatéricas, foi mais que certo que chegado o dia da festa tudo estivesse por preparar. Mas esta gente nascida no meio das pedras era tão rija quanto elas, e iria ter a sua festa desse lá por onde desse.
Coordenaram-se então movimentos: uns carregaram madeiros para improvisar um palco, outros montaram um bar sem águas correntes sobrepondo pedras de xisto, e depois foi só alçar as barraquinhas velhinhas da tia Aida e das sobrinhas, numa as famosas filhozes e noutra a quermesse "Sai sempre" - e saía.
Acercou-se depois o mais beato mulherio enfeitando com flores os andores, e um grupo de pacóvios transportando cada um seu instrumento num arremedo de tocata. Apenas um deles sabia de música, os outros marcavam mais ou menos a compasso os ferrinhos, a concertina, o cavaquinho, a gaita de beiços e duas guitarras desafinadas.
Dispondo-se em cena os actores lá arrancou a procissão, dispersa numa amálgama de santíssimos, estandartes mal engalanados e rezas desafinadas. Foi por ali fora dar três voltas à capelinha do monte e regressou.
Tivéssemos ido também, atentos e sóbrios, e talvez pensássemos que é este culto meio acabrunhado, porém superficial. O que iria na cabeça dos que, com olhos baixos, carregavam estatuetas com a tinta meio comida às quais se loam orações? Em que pensariam enquanto percorriam aquele caminho soprando cantorias, e por dentro palavras há muito ansiosas por partir? Fazer luto ou de conta que ainda há esperança? Talvez alguns desconfiassem que este Deus não é afinal magnânimo, nem sequer omnisciente, ou teria evitado uma data de tretas. Ou é castigador, o que não abona muito a seu favor. Ou então dorme demais e se calhar é um pouquito inseguro.

- Deus é grande e o mato é maior