Provérbios Provados noutras casas:

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVII

Juntas machos em reunião 
Que respeitam a tua decisão 
E que dentro das tuas balizas 
Vão beijar o chão que tu pisas

Não são machos na verdade 
Mal largaram a puberdade 
Um a um os vais hipnotizar
Para que os possas comandar 

Tens um jeito de prima-dona 
Refastelada na tua poltrona 
Com caprichos a toda a hora 
Cuja satisfação não demora 

Ordenas com impertinência 
Dando cabo da paciência 
Dos miúdos que te idolatram 
E com deferência te tratam

E até que estejas atendida 
Aparentas estar desiludida 
Sem lágrimas fazes chorinho
Capaz de tremer o beicinho 

Quando alguém te contrariar 
Tu preferes o burro amarrar 
Pois és uma fedelha mimada 
Que só quer ser apaparicada 


Provérbio provado rimado - MDCCLVI

Se não há ninguém que o faça 
Não fiques à espera de ajuda
Tens de pôr a mão na massa 
Pois senão nunca nada muda 

E quando a mão lá puseres 
Não podes voltar mais atrás 
Faz o melhor que souberes 
Não somente o que satisfaz





Provérbio provado do paraíso disciplinado

A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças. 
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.

Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia. 
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade. 
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência. 
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns. 
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:


- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno 

Provérbio provado rimado - MDCCLV

Tens de sobra uma indecisão 
Que te impede o corpo de andar 
E face a tudo tu vais hesitar 
Pois nada te corre de feição

O teu gesto é sempre o remendo 
Para compôr algum tipo de erro 
Vais malhando a frio no ferro 
Sem tirar qualquer dividendo 

Mais parece que foste enfeitado 
Dada essa orfandade de ideias 
Todavia tu tens as mãos cheias 
Só de angústias do teu passado 

Por andares na vida à nora 
A correr atrás do prejuízo 
Não decifras o que é preciso 
Para enriquecer cada hora 

Quem o que busca não sabe 
Não identifica o que acha 
E dessa forma nunca relaxa 
Por sentir que nada lhe cabe 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLIV

A poupança gera poupança 
Por ser gesto que descansa
Quem não nasce para poupar 
Na linha nunca vai andar 

Andará num desassossego 
Preso a um consumo cego 
E o melhor que devia fazer 
Era com o poupado aprender 

Do que tem ele guarda metade 
Para que não o gaste à vontade 
Por ter um montante escondido 
Não se encontra desprevenido 

E até somas sem importância 
Guarda para qualquer instância 
Pois os bens que são essenciais 
Não podem faltar-lhe jamais 

Assim ao encher grão a grão 
Ele dá uma importante lição 
Quem não poupa água nem lenha 
Não poupa nada que tenha 



Provérbio provado rimado - MDCCLIII

Normalmente falas demais 
Disparando ideias banais 
Tanta asneira em catadupa 
É capaz de me pôr chalupa

Bem queria que abrandasses
E que menos tolices lançasses
Que o teu nível de disparate 
Se assemelha ao puro dislate

Em ideias absurdas insistes 
E das tolices tu não desistes 
Cada um dos teus comentários 
Nasce de raciocínios primários 

Era bom que tu te calasses
E entre as frases respirasses
Verias que o teu pensamento 
Nunca é adequado ao momento 

Mas assim que te vês lançado 
Tu não podes ser contrariado 
E em face dessa tua conduta 
É claro que ninguém te escuta 

Dessa forma o melhor a fazer 
É deixar-te então a discorrer 
Tais sentenças tão irracionais 
Continua a mandar postais 




quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Provérbio cavalar

O compadre Anacleto tinha um cavalo velho chamado Cometa. O pobre bicho, coitado, dava dó: magro como um caniço, tinha as costas já muito arqueadas e o pêlo era baço e com peladas como um tapete que serviu a várias gerações. 
Para o compadre, o Cometa era a oitava maravilha do mundo. Sempre que ia à venda, gabava-o, não cabendo em si de tanto orgulho:
- Não há nestes arredores um animal com a fibra do meu Cometa! Olhem só para aquele lombo firme, aquelas ancas redondas; que beleza de flanco! 
Os presentes entreolhavam-se, mordendo os lábios para suster o riso. O vizinho Manuel da Cerca bem tentava abrir-lhe os olhos:
- Ó homem, o teu cavalo está tão magro que até se lhe conseguem contar as costelas! 
O compadre abria os braços de indignação:
- Costelas, Manuel? Aquilo são músculos, tu estás cego? O meu Cometa vende saúde! 

Um certo dia, o compadre Anacleto, vaidoso do seu animal, resolveu levá-lo à feira anual concelhia para o exibir. Lavou-lhe os cascos, atou-lhe um laçarote na testa e pôs-se a caminho, puxando o cavalo que lá se ia arrastando atrás do dono muito a custo. 
Chegados ao recinto, um feirante, que reparara no esforço do Cometa, abordou o compadre:
- Ó tiozinho, trouxe o bicho para o talho ou para o cemitério? 
O compadre sentiu-se ofendido e retorquiu prontamente:
- Cemitério? Isto é carne da boa! O meu cavalo está gordo e apto para o trabalho! 
O povo em redor riu a bom rir. Onde todos viam um esqueleto ambulante, o Anacleto via um campeão de raça. 


- O olho do dono é que engorda o cavalo 

sábado, 1 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLII

Quero deixar de pensar em ti
Perder a tua presença aqui
No corpo todo e na cabeça
Esquecer que foste promessa

Só desejei que fôssemos mais
Do que dois seres individuais
Embora avisasses de antemão
Que não querias uma relação

Mas o nosso laço era evidente
E nenhum de nós o desmente
Porém tu preferiste a cegueira
Que fez do elo uma brincadeira

Tu sempre essa ligação negaste
Os meus sentimentos descuraste
Até que tomei enfim a decisão
Dum ponto final na nossa união

Como o parágrafo perto do fim
Agora posso pensar em mim
De ti fica apenas a recordação
E a dor que sinto no coração
 


Provérbio provado rimado - MDCCLI

Para que tu tenhas opiniões 
Não te bastam as convicções 
Sempre alguém te virá atacar 
Por ser o teu modo de pensar 

Alguém de dedinho em riste 
Que vive uma existência triste 
E é por isso que está revoltado 
Desejando sentir-se vingado 

Pelo visto saíste-lhe na rifa 
Sem que fosse fixada tarifa 
E o que ganha como prémio 
É ver-se excluído do grémio 

A tal rifa estava envenenada
Embora estivesse agregada
Num cesto com outras mais 
Com interesses tão pessoais 

Não reúnas numa colecção 
As rifas num cesto de pão 
Que depois vão querer sair 
A quem no goto não cair 


Provérbio provado rimado - MDCCL

A ficção é uma grande mentira
Que permite contar a verdade
Mas há quem só o real prefira
Por não ter de arriscar vontade

Não conhece qualquer evasão
Vendo cada coisa como ela é
E nesse gesto de obstinação
Vê para crer como São Tomé 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLIX

Nos já partilhámos cuecas
Depois de lavadas e secas
E também nasceres do sol
A horas de estar no lençol

Tantas vivências conjuntas
Respostas e até perguntas
Com lágrimas e muito riso
Às vezes com pouco juízo

Eu podia assim continuar
Para a nossa história relatar
Mas seria afinal um cliché
E mais palavras para quê?


Provérbio provado rimado - MDCCXLVIII

Tu pareces um deus grego 
Tal qual Adónis ou Apoio 
Com esta massagem ao ego 
Aproveito para te dar colo

Dizer que és bem parecido 
Está longe de ser mentira 
Mas não fiques convencido 
Por teres uma cara tão gira 

És muito bem proporcionado 
E tens uma figura invejável 
Mereces até ser idolatrado
Porém isso é pouco saudável 

Eu termino agora o discurso 
Ou senão nunca mais acaba 
E farei uma figura de urso 
Com o queixo a escorrer baba


terça-feira, 28 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLVII

O tempo é sempre o melhor
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor

Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento

Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo 


Provérbio provado rimado - MDCCXLVI

O trabalho é apenas trabalho
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes

E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque

Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida

 

Provérbio provado rimado - MDCCXLV

O Arménio é dos que não caga
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita

Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima 


Provérbio provado rimado - MDCCXLIV

Tu és um empata fodas
E nem sequer és de modas
Não te ralas se atrapalhas
Ao te intrometeres ao calhas

És a nata no meio do leite 
Não traz o que se aproveite 
Se percebes que estás a mais 
Só te vais nos instantes finais 

É preciso mostrarem-te a hora
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste


Provérbio provado rimado - MDCCXLIII

Será que ainda estás acordado
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu

E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração 


Provérbio provado rimado - MDCCXLII

Dizem que levo a peito
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração

Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira

Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério 




Provérbio provado rimado - MDCCXLI

Por seres muito jeitosa e linda
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes

Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito

Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta

Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam


Provérbio provado desafinado

A ideia nascera de uma conversa do seu defunto pai com o irmão mais velho, tio de Carlos, que ocupara o lugar de chefe de família quando o pai de ambos se finara.
 O tio Justiniano era um sapateiro à antiga, dos bons, e quando vira o irmão em palpos de aranha, sem conseguir descortinar no filho uma vocação, logo se predispusera a ajudar sem pestanejar ou sequer pensar duas vezes.
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.

Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.

Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...

Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.

Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?

Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.

Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!


- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?