A saudade é um abraço
Que ainda não aconteceu
No meio da falta de espaço
Que o gesto só favoreceu
E tal como aquele aperta
Sente-se bem a pressão
E fica a saudade deserta
De logo retomar a união
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCV
O seu nome era Frederico
Tinha alcunha de beto rico
Era tão magrinho e franzino
Desde que era pequenino
As marcas no seu vestuário
Suprimiam o ar ordinário
Mas era um dez réis de gente
Embora lhe fosse indiferente
Sem ter nunca fome de nada
Nem sopa ou sequer feijoada
E tão cheio de tédio e fastio
O seu aspecto não era sadio
Um dia caiu num desmaio
Que parecia um badagaio
Deu ao pobre do Frederico
Nessa hora um grande fanico
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCIV
Já está carunchoso o Alcino
Pois já lhe murchou a beleza
Recorda os tempos de menino
Com melancolia e tristeza
Carrega o peso dos Janeiros
Que aos anos já está rendido
Por senti-los os derradeiros
Fica o Alcino deprimido
Está com os pés para a cova
Ele sente-se feito num caco
E nenhuma surpresa é nova
Porque já é um velho macaco
É uma raposa com sabedoria
A chegar ao ocaso da vida
E o que o próprio afligia
Agora tem menos medida
Um homem entrado nos anos
A que chamam terceira idade
E tal como os outros humanos
Não dispensa a sua liberdade
Num instante está na fronteira
Foi tão rápida a vida diacho
O Alcino é como a bananeira
Que já não consegue dar cacho
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Provérbio provado fiado
Quando o Senhor Arlindo começou a trabalhar na mercearia estava muito longe de ser um senhor. Era só um miúdo pobre, de buço ralo, que tivera de fazer pela vida demasiado cedo. Fosse como fosse, sabia as letras e os números suficientes para dar conta do recado.
As suas primeiras tarefas tinham-se resumido a carregar os cestos das compras das freguesas até às respectivas casas, umas porque se queixavam de um joelho ali, outras de um ombro acolá. A freguesia apreciava a companhia e o treco-lareco daquele puto sempre tão desenrascado.
Agora já fazia parte da mobília, o Senhor Arlindo. E tinha até um tarefeiro, um miúdo à sua semelhança, que lhe fazia alguns recados.Praticamente toda a população da aldeia se aviava no seu estabelecimento, uma vez que a vila ainda distava um bom par de quilómetros e a taberna do Rufino, que vendia macarrão, açúcar e feijão a peso, não era concorrência que esse nome merecesse. O merceeiro - Lindo para os amigos - gabava-se de ter à disposição da clientela os melhores legumes e frutos da região.
As pessoas entravam na mercearia para comprar, mas também para dar à língua: havia sempre alguém com quem trocar duas de letra.
Claro que havia um rol. O Arlindo tinha um caderno que ia preenchendo com a sua caligrafia demorada e uns números muito bem desenhados.
Numa tarde quente, uma daquelas tardes em que o Verão sabe mesmo ser Verão, o Arlindo polia com desvelo a casca dos pêros Casanova que haviam chegado de manhã, quando entrou o Toninho a correr, com a boina descaída e as calças arregaçadas.
- Atão, viva, ó Lindo! Faz-me cá um farnel de queijinho do monte e um chouriço jeitoso para levar para a vinha que já vou perseguindo a hora.
O Arlindo ergueu os olhos sem pressa enquanto continuava a esfregar os pêros.
- Sejas bem-vindo, ó Toninho! Espera lá um carito que a pressa é inimiga da perfeição. Deixa-me ir buscar a faca boa.
O Toninho mirou ansioso, pelo canto do olho, os ponteiros do relógio da igreja defronte.
- Avia-te, homem! Que a Maria está à espera no tractor com uma cara de poucos amigos que até mete medo aos lobos da serra.
O Arlindo dispôs as fatias do queijo e as rodelas grossas do chouriço num papel pardo que seguidamente atou com um cordel.
- Pronto, aqui tens a merenda. São seis euros e noventa cêntimos. Mostra lá esse maço de notas!
O Toninho deitou as mãos aos bolsos, apalpou-os e encarou o Arlindo; ficara, de repente, lívido, sem pinga de sangue no rosto.
- Chiça, pá... ó colhão! Ó Lindo, por pouca sorte não trouxe o dinheiro que ficou nas outras calças que a mulher largou ao lado do tanque hoje de manhã. Olha qu'esta! Aponta aí no teu caderno, Lindo.
O Arlindo cruzou os braços desconfiado. O Toninho era bem conhecido por teatreiro e embusteiro. Mas o caderno não fazia perguntas e o dono da venda também não. Sacou um lápis bem afiado da orelha e tomou nota da parcela em dívida. As cores regressaram às faces do Toninho que lhe sorriu agradecido.
- Amanhã mesmo, quando regressar da feira da vila, trago-te o dinheiro direitinho em trocado, palavra de honra, Lindinho! E agora tenho de abalar. Não ouves a minha Maria a buzinar como uma desalmada? Já vou levar nas orelhas, olá se vou!
O Arlindo ainda lhe atirou um recado, já Toninho alcançara a saída.
- Vê lá se o teu amanhã é mesmo amanhã! O teu amanhã costuma demorar três semanas a chegar cá acima à Beira.
O Toninho deu um passo atrás para lhe devolver um sorriso maroto e a frase:
- Deus te pague que eu não tenho trocos
Provérbio provado rimado - MDCCXCIII
Se quem sabe faz a hora
E não espera acontecer
Vai lutar aqui e agora
Para além de prometer
E assim vai arregaçar
As mangas sem excepção
Para não se contentar
Ou ficar em frustração
Enquanto as duas arregaça
Não se limita a tal gesto
Põe ainda as mãos na massa
Preparado para o resto
Está totalmente a postos
Para a vida enfrentar
E então quaisquer desgostos
Não o vão amedrontar
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCII
Foi assim a brincar a brincar
Que alguém criou a expressão
De uma macaca a procriar
Com a sua própria filiação
E além de ser um incesto
Que vai absolver o filhote
Deve ser um coito indigesto
Levar do filho no pacote
Qual teria pois sido a ideia
De expor dessa forma a macaca
Que vivia tão feliz na aldeia
Sem jamais ter dado barraca
Posso imaginar os rumores
Que nesse acto têm origem
Que andam pelos arredores
E toda a macacada afligem
É muito fácil levar à ruína
De repente uma reputação
Sem saber o que a origina
Além de um intento gozão
Então é o fim da macacada
Não está cada um no seu galho
E foi tanto barulho por nada
Que à mãe arranjou enxovalho
Com imensa piada que havia
Para exemplo de brincadeira
Lixou-se a macaca que queria
Estar à sombra da bananeira
Provérbio provado rimado - MDCCXCI
O teu narigão é enorme
Não é que seja disforme
Mas é por ser mal educado
Mete-se onde não é chamado
Por teres o nariz comprido
Tu és bastante intrometido
E vais as conversas estragar
Por as quereres antecipar
Alguém que te corte o pio
Descobre que é um desafio
Mostrar-te qual é o lugar
Onde deves a bola baixar
Haverá outro galo que canta
Apesar de tu teres garganta
Vê se encaixas que este cenário
Não são contas do teu rosário
Provérbio provado rimado - MDCCXC
O chefe dá os dias santos
E também as noites de luar
Não se comove com prantos
Se antes não os autorizar
Comanda com mão de ferro
Segurando a batuta na mão
Por não tolerar nenhum erro
Origina sempre uma tensão
Dá o bom tempo e a chuva
Tal como a entidade divina
A sua chapada é sem luva
Enquanto assim discrimina
As rédeas primeiras são suas
Ele faz andar a carruagem
Desenha o traçado das ruas
Pois é quem escolhe a viagem
Os outros têm de o seguir
E calados então obedecer
Não pode sequer omitir
Que pretende tudo reger
E assim pondo e dispondo
Dita o rumo das manobras
No meio do gesto hediondo
Alimenta o silvo das cobras
Não sabe ser a autoridade
Não basta a faca e o queijo
São sinal de arbitrariedade
E também de falta de pejo
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXXXIX
Há quem goste de aproveitar
O caos quando está pra durar
E goze a sombra dos momentos
Para assim retirar proventos
Enquanto acumulam valores
São chamados de pescadores
Que pescam em águas turvas
E sabem deitar-se nas curvas
Provérbio provado rimado - MDCCLXXVIII
São argumentos sem peso
Pois não têm sequer validade
Desde logo merecem desprezo
Só demonstram incapacidade
Se alguém se tomar de razões
Para assim defender as que dá
Nunca vai descobrir soluções
Para as razões de caracacá
Provérbio provado rimado - MDCCLXXVII
Eles são os soldados da paz
Atentos a qualquer urgência
Olham em frente e para trás
Respondem a cada emergência
Estão nos quartéis a postos
Aguardando pedidos urgentes
E cobertos de cinza nos rostos
Acodem a salvar as gentes
Ofício de carácter honrado
Que exige muita vocação
Pois ser da paz um soldado
Não é ter de riqueza ambição
Há quem não sendo bombeiro
Tenha um trabalho similar
E assim passe o dia inteiro
Com imensos fogos pra apagar
sábado, 22 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXXVI
Vi-me grego para alcançar
Um pouco da tua atenção
Era teu costume dispensar
Tudo o que fosse interação
E foi por ver-me tão grego
Que foi tão difícil resistir
Elevou a vontade não nego
Assim eu não quis desistir
O assomo da dificuldade
Pode fazer o desejo maior
No meu caso a pura verdade
É que fez despontar o amor
Um pouco da tua atenção
Era teu costume dispensar
Tudo o que fosse interação
E foi por ver-me tão grego
Que foi tão difícil resistir
Elevou a vontade não nego
Assim eu não quis desistir
O assomo da dificuldade
Pode fazer o desejo maior
No meu caso a pura verdade
É que fez despontar o amor
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXXV
O teu grande sonho é mandar
Numa tropa que te obedeça
E assim se percebe o teu ar
Até para quem não te conheça
Que és autoritária está visto
Que disso mesmo fazes gala
Enquanto eu atónita assisto
Só se faz silêncio na sala
Tu não tens noção do ridículo
Que é ver-te nessa tua pose
Pois não passas dum folículo
Mas levar contigo é dose
Por dentro até me contorço
Para não ir de ti reclamar
E prefiro arrepios no dorso
Do que nas orelhas levar
Provérbio provado rimado - MDCCLXXIV
Tu costumas fazer omeletes
Que não levam ovos sequer
Inventas tudo o que prometes
Para que ninguém vá requerer
Para ti não há impossíveis
Se forem os outros a fazer
Até mesmo as tarefas falíveis
Todos terão de empreender
Mas deixares-te de teorias
Isso é que eu gostava de ver
O que na prática tu farias
Sem poderes os ovos comer
Provérbio provado rimado - MDCCLXXIII
Se desejam que eu me cale
O mais certinho é que fale
Do que esperam faço o oposto
Sou do contra com muito gosto
Se eu me sinto injustiçada
Vão encontrar-me danada
E é tão certo como o destino
Que vai acontecer desatino
Provérbio provado rimado - MDCCLXXII
Bate-me à porta um pedinte
Com conversa muito mansa
Pede um euro mas quer vinte
Mas de mim nada ele alcança
Ele mendiga para o jantar
Também prá renda da casa
E eu respondo sem hesitar
Tem lá paciência e baza
Há quem peça o dia inteiro
Com desculpa bem estudada
Querem ver o meu dinheiro
Mas o bolso não tem nada
Então eu acabei de descobrir
Mais um provérbio a provar
Que contra o vício de pedir
Há a virtude de não dar
Provérbio provado rimado - MDCCLXXI
Para esta expressão há versões
Que reúnem alguns palavrões
Mas eu não quero ser afastada
E ver a minha casa bloqueada
Por isso vou portar-me bem
E ser correcta como convém
Deixo então ao vosso critério
Porque são um público sério
Escusam de esconder o riso
As vossas risadas autorizo
Nesta casa o bonito bonito
São as músicas do Tozé Brito
Provérbio provado rimado - MDCCLXX
Tu surgiste cheia de pica
Com tudo o que isso implica
E foi tão fácil de constatar
Que tinhas talento a dobrar
Competência pra dar e vender
E vontade de muito aprender
Assim beliscaste as alminhas
Que são ruins e mesquinhas
E por teres passado no teste
Mais sombra tu lhes fizeste
Ainda por esbanjares simpatia
Tiveram cólicas e até azia
Tu não sucumbiste à graxa
Nem arreganhaste a tacha
Ao fazeres bem o teu serviço
Foste penalizada por isso
Não ficaste presa nessa bolha
E quiseram fazer-te a folha
Mantiveste a pestana aberta
Mostrando que eras esperta
Como não torceste quebraste
A dada altura tu desanimaste
Por não seres assim valorizada
Vais bater um dia em retirada
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Provérbio provado num verso branco - CLX
Sempre que os olhos descobrem um novo dia
Abre-se uma nova janela de par em par
Que permite mais um par de possibilidades
E até pode parecer uma janela repetida
Ou ser o caminho proposto semelhante
Mas é sem dúvida uma nova proposta de saída
O antes que se abriu entretanto já se fechou
O ontem não volta e o amanhã não espera
Uma hora são sessenta minutos
Embora uma hora possa passar num pestanejar
E sessenta minutos durarem uma eternidade
Por isso são tão necessários os relógios:
O tempo não sabe bem a quantas anda
Provérbio provado rimado - MDCCLXIX
Tu andas armado ao pingarelho
Sempre disposto para a chalaça
Então é melhor ouvires o conselho
Que qualquer dia se torna ameaça
Até pensei nunca mais ser preciso
Quando tu corres como um carapau
Mas é necessário deixar-te o aviso
E aconselhar que te ponhas a pau
Subscrever:
Mensagens (Atom)


















