A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças.
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.
Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia.
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade.
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência.
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns.
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:
- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno