Provérbios Provados noutras casas:

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXXIII

No mundo ninguém é perfeito 
Basta que se vá pondo a jeito 
Muitos erros todos cometemos 
E com eles depois aprendemos 

Face a todo o tipo de perigos 
Não adianta infligir-se castigos 
Porque enfim uma passada má 
Qualquer ser humano a dá 


Provérbio provado rimado - MDCXXXII

O Alexandre é um cozinheiro 
Faz um belo prato de carneiro 
Que não sabe a sebo e a ranço 
Nem ele admitiria o falhanço 

O segredo do chef na cozinha 
É ele exagerar na mãozinha 
Com que põe na comida tempero
O Alexandre actua com esmero

E se algum cliente se queixa 
Ele vai repetir sempre a deixa 
Quem deseja o arroz sem sal
Que vá directo para o hospital 


Provérbio provado rimado - MDCXXXI

Quer seja exposto ou escondido 
O de dentro é sempre o pior 
O mais duro e o mais sofrido 
O que causa o maior dissabor 

Porque enfim as dores internas
Somatizam como um reflector 
Até geram tremuras nas pernas 
Subindo pelo corpo um calor 

Para o próprio o caso é feio
Tira o brilho à vida e a cor
Pouco dói todo o mal alheio
O penoso é mesmo o interior 



Provérbio provado rimado - MDCXXX

É um pássaro tão refinado 
Exprime-se num belo trinado
Exigente e também caprichoso 
Não desiste e é muito teimoso 

Guarda um enorme desgosto 
Olha que papagaio indisposto 
Faz supor que sofre bastante 
Por não ser deveras importante 

Reclamando luxos e benesses
Em cantos que parecem preces 
Quer obter mimos especiais 
Que não são sequer essenciais 

O papagaio até teme maleitas 
Por não ter amêndoas confeitas
Tantas febres e achaques assim 
Vão trazer-lhe proveitos no fim 


Provérbio provado rimado - MDCXXIX

Palavras são boas de dizer 
Todavia são más de cumprir 
Pois que fácil é prometer 
Até uma situação surgir 

Frases que lançam promessas 
O certo é que as leve o vento 
Já que são ditas às pressas 
Não honram o sentimento 

Portanto não enchem barriga 
São vãs e por dentro tão ocas 
Quem vá cair nessa cantiga 
Irá enfrentar cenas loucas 

Sem obras são tiros sem balas
Se juntas são como as cerejas 
E quando finalmente te calas
Já disseste mais do que desejas 


Provérbio provado rimado - MDCXXVIII

Quando conheci o Alberto 
Não foi na minha cantiga 
Armou-se logo em esperto 
Atirou-se à minha amiga 

Senti-me tão posta de lado 
Sem ter a quem dar carinho 
E o Alberto todo emproado 
Por ela está pelo beicinho 

O que ele não desconfia 
É que a Elsa faz colecção 
De homens e tem alergia 
Ao início de uma relação 

Então o Alberto há-de dar 
O tempo por muito perdido 
E talvez até possa voltar 
Para mim todo arrependido 

Eu perdoo mas não esqueço 
Que não repita a brincadeira 
Digo-lhe sabendo que mereço 
Alberto há mais quem queira 


Provérbio provado rimado - MDCXXVII

Simulas não estar interessado 
Com essa expressão tão ausente 
Mas não é por estares ocupado 
Só dás uma de ser indiferente 

Se acaso à fala nos damos 
Tu só me ofereces desdém 
E dessa forma não chegamos 
A ir um pouco mais além 

Quanto mais tu me criticas 
Assim mesmo pra contrariar 
Mais eu capto as tuas dicas
Quem desdenha quer comprar 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXVI

Uma mãezinha devotada
Um pai tão trabalhador 
Nessa casa remediada
Eras o mais malfeitor 

A própria mãe venderias
Se isso trouxesse lucro 
E consternado chorarias
Bem ao pé do seu sepulcro 

E quando fosse a leitura 
Dos quinhões do testamento 
Novamente nessa altura 
Fingirias um tormento 

Lágrimas de crocodilo 
Deitarias ao recordar 
De semblante já tranquilo 
A harmonia familiar 

Desde que tu empochasses
Sem qualquer tipo de esforço 
E uns cobres tu ganhasses
Terias nenhum remorso


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Provérbio provado rimado- MDCXXVI

O Zé gosta de ser solteirão 
Nas mulheres não faz distinção 
Escolhendo em cima da hora 
Aquela que finge que adora 

Só lhe interessa o seu proveito 
Pelas moças tem pouco respeito 
Faz-se sempre de desentendido 
Depois de se ver bem servido 

O Zé não quer compromissos
Ele livra-se assim de enguiços
Abdicando de ter mais controlo 
Pensa o Zé que tem pouco de tolo 

Então ele perde a melhor parte 
A amizade e o sexo com arte 
Na verdade quer e não quer 
Não sabe o que anda a perder 

De noite dorme tão frustrado 
Por não ter ninguém ao seu lado 
De manhã com a tenda armada 
Acorda o Zé sem namorada 



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Provérbio provado clonado

Há homens a quem a fortuna vai assoprado as palhinhas. Mas há mais aprendizes que mestres, mais ingratos que sapatos, mais marés que marinheiros e mais Marias na terra. 
Não, os homens não são mesmo todos iguais.  Há quem se aponte o dedo e quem se ria de si ao espelho. E quem seja pródigo nas desculpas; são como as cerejas, não é verdade? 
Também como as desculpas os homens: atrás de um vem outro e preferem andar em pares que, quando prevenidos valem por quatro, quando atrevidos duram tanto como uma garrafa de vinho. 

Segundo se diz, à boca cheia, andou Deus a clonar costelas para os alinhar assim em par à sua imagem e semelhança. O que não está lá muito bem claro é a quem pertencia a costela duplicada. Também se diz, aqui à boca pequena, que a costela original era, na verdade, de uma mulher, tal como mulher era Deus. 
E há mais, amigos. Isto não sabemos com certeza, não viemos cá levantar polémicas. O que ouvimos é que o machismo resolveu a questão colocando-lhe um agá maiúsculo no nome. Veio o Diabo e soprou. 
Mas homem morto não fala, não temos como confirmar nada disto.  Só Deus nunca morreu. 


- O homem põe e Deus dispõe 

Provérbio provado do raciocínio demorado

Sebastião come tudo, tudo, tudo. Felizmente, possui um metabolismo aceleradíssimo e consegue decompor as calorias ainda mal lhe atravessaram a glote: sobra pouco para o intestino assimilar.  
Lamentavelmente, o seu aceleramento metabólico dá-se todo ao nível do sistema digestivo: os neurónios não acompanham a corrida e o pensamento é lento como a passada de um caracol pastelão, sendo capaz de dar cabo da paciência a um santo.  Parece exagero?  Mas não: só mesmo por milagre se aguenta uma conversa inteirinha com o Sebastião. 
Ele prolonga os ditongos, arrasta as palavras, faz pausas infinitas entre frases. O interlocutor menos avisado vai aguardando que conclua qualquer das ideias - uma que seja! -, mas é debalde: o raciocínio do Sebastião não progride. 
Creio sinceramente que se dará conta de que agasta quem com ele tenta dialogar; acho mesmo que tem essa noção, é impossível que não lhe passe pela massa cinzentona. 
Porém, por tantas vezes se perder na argumentação, é capaz de dar valentes secas com apreciações da tanga, prolongando até ao limite a chamada conversa de chacha. 
O discurso do Sebastião consegue ser a amálgama mais pastosa de frases feitas e ideias rebatidas de que há memória. Ou seja, para resumir a coisa, não se aprende rigorosamente nada.  Uma picada de mosca tsé-tsé é capaz de dar menos sonolência. 

Numa destas ocasiões, já fartinho de tanta potassa, o Adérito virou a cabeça na sua direcção e disparou: Ó homem de Deus, tu vê lá se fazes um resumo, vê lá se te decides mas é, caneco!, estou prestes a perder toda a paciência contigo! 
Mau grado a agressividade latente na voz do amigo, o Sebastião nem pestanejou. Inspirou muito devagar, como que para arejar os corredores do cérebro, e uns segundos depois, no que pareceu uma eternidade, saiu-se com esta:


- Quem decide depressa arrepende-se devagar 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXV

És um estafermo obtuso
Cuja convivência recuso
Pois com gente da tua laia
Há que ficar de atalaia

És o tipo pior de teimoso
Tens um know-how duvidoso
Feito à custa de copianço
Por isso és um gajo tanso

Tu és tão burrinho que dói
Mas achas que és um herói
O mais hábil de todo o planeta
Começando pela tua praceta

Pensas que é coisa secreta
Seres uma fraude completa
Contudo eu cedo te topei
Quando a pinta te tirei



sábado, 24 de janeiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXIV

Não tens um pingo sequer 
De humanidade em teu ser 
Por dentro és composta de palha 
Da poeira que traz a limalha 

Praticas tanto o enxovalho 
No teu local de trabalho 
Onde empunhas um chicote
Fazes tudo andar num virote 

Nem és assim tão competente 
Mas isso ninguém o desmente 
Não articulas com cuidado 
O sujeito com o predicado 

Tu negas o que já afirmaste 
As certezas que mal praticaste 
Já que nunca confessas enganos 
Admitir não está nos teus planos 

Um viver assim tão solitário 
Só pode ser um triste fadário 
Pois exibes de aço um arpão 
No lugar desse teu coração 

Normalmente só usas gritar 
Por tu não saberes mandar 
O teu sonho é poder demitir 
Quem à norma não quer aderir 

Simulas um constante zelo 
E pretendes servir de modelo 
Mas és burra todos os dias 
Como é hábito das chefias 

Não arredas um pé do teu posto 
Revelando enorme mau gosto 
Só desejas poder alcançar 
O mais cimeiro patamar 

No entanto o teu medo maior 
É que não te atribuam louvor 
E que um dia lá na biblioteca 
Te descubram de vez a careca 


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXIII

Já sabes que gosto de ti 
Pois já uma vez to escrevi 
E até também já to disse 
Não penses que era tolice 

Apesar de não ter repetido 
Cada vez me és mais querido 
E sem que sobre isso discorra 
Gosto tanto de ti ai que porra 


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXXII

Andaste a empatar-me 
Nos melhores anos da vida 
E sem fazer disso alarme 
Deixei-a ficar esquecida 

Para te fazer a vontade 
De tanto plano abdiquei 
Abdiquei da fertilidade 
E sequer contigo casei 

Depois de me teres despachado 
Não me querias para inimiga 
Puseste assim em marinado 
Uma história que já era antiga 

Até que um dia apareceu 
Uma fulana na tua vida 
Que a dita pois remexeu 
Querendo ser obedecida 

E tu sempre tão valente 
Tão firme das próprias ideias 
Quiseste ficar dependente 
Com ela paredes meias 

Pois no fundo a tua fantasia 
Era ser assim comandado 
E alinhaste com tanta alegria 
Em ser grande pau mandado 




sábado, 10 de janeiro de 2026

Provérbio provado manifestado

A situação não era de agora. A crise já tinha barbas. Eram alvas e suficientemente compridas.
Ainda assim, havia sempre quem acabava de lhe perceber a existência. De descobrir a evidência da crise e da ceifa que ia levando a cabo. Alguém que acordava de repente, assarapantado, para logo de imediato entrar num pesadelo, numa mistura de flashes realistas e contornos mal definidos, como é apanágio desse tipo aparentado do sonho.
De que serviam a manifestação, o apupo, o desacato, a desobediência civil? A crise estava para ficar: mais firme do que nunca, não tinha soalho por onde escorregar.

As pessoas juntavam-se nas ruas. Aleatoriamente em crescendo. E também em enormes grupos organizados que desenhavam cordões humanos rodeando os edifícios ministeriais. Gritavam palavras de ordem, vaiavam o governo, entoavam cânticos de protesto. 
Assim se comportava a maioria. Mas havia sempre indivíduos mais radicais para quem o combate não ia lá com flores e cantorias. Estavam muito zangados. Transportavam pedras e petardos que arremessavam. Lançavam pequenos explosivos caseiros. Chegavam a pegar fogo a pneus de autocarros para impedir a normal circulação nas principais artérias das cidades.
E, apesar destes comportamentos mais excessivos, as gentes manifestavam-se em união. As marchas de protesto traziam um sentimento de força renovada temperada com esperança. O futuro podia ser melhor do que o passado; era essa, aliás, a natureza do porvir: mais renovação do que repetição.

E onde estavam as forças policiais no meio de todos estes tumultos? Andavam no olho do furacão, fardadas e fadadas para acudir a qualquer emergência ou desacato, armadas até aos dentes num exagero de engenhos. Tal parafernália não deixava margem para dúvidas.
Os polícias não hesitariam em ripostar para travar qualquer acto mais aguerrido. Cumpriam o seu papel de garante da ordem, acatando ordens superiores sem se questionarem. 
Quando, eventualmente, nas raras ocasiões em que alguns se interrogavam no calor das barricadas, o seu instinto segredava-lhes que o lado de lá estava coberto de razão. Eram humanos, caramba, eram do povo, caramba!
No entanto, rapidamente, os pensamentos voltavam a encarrilhar-se-lhes e avancavam equipados de capacetes, escudos e coletes, munidos de bastões, gás lacrimogéneo e dardos de eletrochoque. Progrediam num formato de parede compacta para carregar nos manifestantes. Fracturavam membros e cabeças e faziam detenções de modo aparatoso. 
Os cidadãos eram alinhados no chão, o nariz no asfalto e os punhos rodeados por algemas. Os jornalistas e repórteres de imagem eram outros que, na sua sede de notícias, no meio da confusão, apanhavam porrada que fervia.

As manifestações chegavam a durar dias seguidos, as noites iluminadas pelas altas labaredas das fogueiras de pneus que projectavam os seus clarões nos edifícios.
Não é difícil concluir que os hospitais se colocavam em constante alerta. Médicos, enfermeiros, bombeiros e maqueiros não tinham mãos a medir. As ambulâncias não paravam de chegar.



- Entre mortos e feridos alguém há-de escapar 

Provérbio provado rimado - MDCXXI

A beleza sem inteligência 
Serve apenas de decoração 
Enfeite que não tem essência 
Abre a porta à desilusão 

Ao ter de optar entre as duas 
Que se exclua logo a beleza 
Pois dela estão cheias as ruas 
E a beleza não se põe à mesa 

É melhor escolher a segunda 
Já que a ignorância exultante 
Nada em si tem de profunda 
A mente é mais estimulante 


Provérbio provado rimado - MDCXX

Ainda não chegámos à Madeira 
Mas é esse o nosso destino 
Onde a situação derradeira 
Vai acabar num desatino 

O descontrole será total 
Os limites serão excedidos 
E por isso o mais racional 
É os mapas serem revertidos 

Não importa o plano primeiro 
Nem adianta fazer beicinho 
Talvez o acto mais certeiro 
É que arrepiemos caminho 


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCXIX

Por que entra o cão na igreja?
Por estar a porta aberta 
E quem ora ali só deseja 
Que aconteça a coisa certa 

Fiquem humanos com humanos 
E os animais com os animais 
Já que a mistura dá enganos 
Podem ladrar sobre os missais 

E por que sabe o diabo tanto?
Mais por velho do que por diabo 
Nem sequer reage com espanto 
Tudo imita ao fim e ao cabo 

Que não entre ele atrás do cão 
Para as beatas apoquentar 
Ou instala-se tal confusão 
Os santos vão cair do altar 


Provérbio provado rimado - MDCXVIII

Quem tem dinheiro tem parentes 
Em maior número que as mães
E todos lhe mostram os dentes 
Num disfarce de charlatães 

Que o rico é muito engraxado 
Limpam-lhe o cu e os sapatos 
E cobiçando o viver abastado 
Querem tanto mostrar-se gratos 

Pensam na vindoura divisão 
Já lhe vão engomando a mortalha 
Enquanto sonham com o quinhão 
Que querem garantir que lhes calha