domingo, 1 de novembro de 2026
Provérbio provado do gato enroscado
O Duarte, de pé no centro da sala, brincava com o molho das chaves. Repetia as frases habituais
de fim de tarde, à medida que se adensava o crepúsculo. O que vamos fazer para o jantar?, Vens comigo ao supermercado?, Fizeste a lista das compras?
Bárbara não esboçou qualquer gesto de aprovação. Limitou-se a continuar parada, com o comando da televisão na mão esquerda e uma esferográfica na direita que traçava círculos no ar. Não, não fizera a lista, respondeu finalmente ao marido.
Há mais de um mês que sentia alienada sem que adivinhasse uma razão. Habitualmente comunicativa e vibrante, havia caído numa apatia confusa e sentia-se sem energia para falar com Duarte, que não parecia dar por nada.
Do sofá, tirou vagarosamente as medidas ao marido. Era aquela rotina morna que estava a devorá-la por dentro, a vida conjugal sem história digna de filme, o sexo repetitivo e sem ardor.
O gato Migalhas, arredio como os felinos tão bem sabem ser, andava por ali perto nas suas voltas. Ao contrário do que era habitual, foi encostar-se às pernas da dona. Como ela não se mexesse, saltou-lhe para o colo e enroscou-se, fitando-a com firmeza com os claros olhos hipnotizantes.
O Duarte continuava parado no meio da sala, à espera. Ficou assim uns dois minutos, que a Bárbara pareceram uma eternidade. Ao ver que a mulher o mirava sem reacção, perguntou O que tens?
- O gato comeu-te a língua?
Provérbio provado rimado - MDCCCXVIII
Tenho os nervos já no limite
E perdi todo o meu apetite
A razão de tamanho fastio
É estar a pacatez por um fio
Estou bem prestes a explodir
Com o que me dirão a seguir
Por em lume brando ter estado
Sinto-me em ponto de rebuçado
Provérbio provado rimado - MDCCCXVII
Quando o amor chega ao fim
Se percebe que é como jardim
Que não foi cada dia cuidado
Sem que o par tenha reparado
Esqueceram-se os dois de podar
Ramos mortos e as flores regar
E após o desleixo nessa altura
Está visto que se deu a ruptura
Porque o apelo não é infinito
Nem o outro é sempre bonito
O amor tem de ter alimento
Ou será de estímulo isento
Há amores que duram vidas
Se estão as vontades unidas
E se existe carinho e respeito
Todavia nenhum é perfeito
Gostava de saber o segredo
Pra poder repetir esse enredo
E alcançar quase a felicidade
Que traria uma cara-metade
Mas tal como a mãe natureza
É processo sem grande certeza
Há que ouvir o que ela nos diz
Quando o plano é ser-se feliz
Na curva que dispõe o ouvido
Fica aquele mistério resolvido
A felicidade está só em semear
Que o colher vai um dia acabar
E a memória dessa sementeira
Pode durar uma vida inteira
A ideia é que se faça crescer
Todo o fruto em vez de colher
Provérbio provado rimado - MDCCCXVI
Ignoras que o mundo é lento
Que não dança a teu contento
No seu ritmo existe a pausa
Não se move por tua causa
Com a pressa da luz alcançares
Como forma da vida salvares
Não entendes que cada estação
Se transforma com mansidão
Vê que o próprio ciclo lunar
Por várias fases vai passar
E a lua cresce tão paciente
Apesar de dizerem que mente
E até que se cumpra inteira
A lua é do sol uma parceira
Cresce mirra e põe-se vazia
Pois não fica cheia num dia
sábado, 31 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCXV
Não me fodas a cabeça
Fico bera num instante
Sem cumprir a promessa
De ser jamais deselegante
Dirás que me falta berço
Que não tenho educação
Haverá quem com um terço
Mo queira passar prá mão
Pensando que me arrependo
E assim redimo os pecados
Mas rezar eu não pretendo
Nem se eles forem perdoados
Sou tão imperfeita e falível
Ou detestas ou me adoras
Posso ser meiga ou irascível
Dependendo quais as horas
Não estou a fazer campanha
Nem me quero candidatar
Não tenho suficiente manha
Nem eu me deixo hipotecar
O que disse acima no início
Sem temer uma reprimenda
É uma existência sem o vício
De ignorar qualquer contenda
Sou bem capaz de responder
Só pelo prazer das querelas
Tu vê lá no que te vais meter
Ou então protege as canelas
Provérbio provado rimado - MDCCCXIV
Nessa escola onde tu andaste
Nem o mais néscio superaste
Repara que o meu aluno pior
Até foi depois o teu professor
Como tal ó meu caro menino
Tem lá calma e tu põe-te fino
Que é desnecessário ensinar
Uma missa um padre a rezar
Pois não foi ontem que nasci
Ando há bastante tempo aqui
E aqui é tão escusado tentar
Esse esforço para me enganar
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Provérbio provado de um galinheiro acanhado
Na pequena quinta da Dona Etelvina havia um espacinho para tudo.
As espécies vegetais acotovelavam-se em canteiros desenhados sem grande critério: árvores ornamentais e de fruto, arbustos vários, flores garridas, legumes e tubérculos conviviam em alegre anarquia.
Da mesma forma, os diferentes animais dispunham de instalações exíguas e o galinheiro existia paredes meias com a coelheira e a pocilga.
A Etelvina, de idade avançada e um joelho queixoso, ia assistindo devagarinho à transformação da sua quintinha num pedaço de mato.
No galinheiro da Dona Vina o ambiente andava tenso. A Amarela e a Castanha, duas galinhas poedeiras com pedigree, observavam o poleiro principal com desdém.
- Olha-me só aquele triste espectáculo, Castanha - cacarejou a Amarela, enquanto ajeitava a asa esquerda. - O galo Cristas está cada vez mais insuportável. Passa os dias de peito inchado e a bicar a melhor ração mas, quando chega a hora de trabalhar, esquiva-se sempre.
- Nem me digas nada, minha amiga - respondeu a Castanha, limpando o bico na palha. - Hoje de manhã, voltou a dar o alarme do gavião só para instalar a confusão e ver galinhas e pintos a correr de rabo alçado. É mesmo imaturo! E o pior é que a velhinha Vina ainda lhe acha graça...
- Gostava mesmo era de o ver a passar o que nós passamos - acrescentou a Amarela, deitando mais uma acha para a conversa. - Adorava ver aquele Cristas a pôr ovos de dois em dois dias: isso é que era de galo! Assim também eu: é muito fácil reinar quando tudo o que tem de fazer é saltar para a cerca e abrir a goela.
Nisto, o galo Cristas, que tinha apurado o ouvido para dar conta daquele cocorocó todo, ensaiou um voo raso para o meio do pátio, levantando uma nuvem de poeira e palha. Ajeitou as penas do pescoço e ironizou:
- Mulheres... Vocês pensam que a minha vida é tranquila? Sabem o quanto tenho de esforçar as cordas vocais para vos acordar às cinco da manhã? E toda a estratégia diplomática que levo a cabo para que o cão do vizinho não se abeire das nossas instalações? Vocês só têm de pensar nos ovos; já eu tenho a meu cargo toda a geopolítica deste galinheiro!
Ao ouvirem tais sentenças, as duas galinhas entreolharam-se. A Castanha olhou o galo de alto a baixo e, medindo a crista meio torta do rival, rematou assim a querela:
- Olha lá, Cristas, poupa-nos o discurso, sim? Se a gerência deste galinheiro estivesse nas nossas mãos
- Outro galo cantaria
As espécies vegetais acotovelavam-se em canteiros desenhados sem grande critério: árvores ornamentais e de fruto, arbustos vários, flores garridas, legumes e tubérculos conviviam em alegre anarquia.
Da mesma forma, os diferentes animais dispunham de instalações exíguas e o galinheiro existia paredes meias com a coelheira e a pocilga.
A Etelvina, de idade avançada e um joelho queixoso, ia assistindo devagarinho à transformação da sua quintinha num pedaço de mato.
No galinheiro da Dona Vina o ambiente andava tenso. A Amarela e a Castanha, duas galinhas poedeiras com pedigree, observavam o poleiro principal com desdém.
- Olha-me só aquele triste espectáculo, Castanha - cacarejou a Amarela, enquanto ajeitava a asa esquerda. - O galo Cristas está cada vez mais insuportável. Passa os dias de peito inchado e a bicar a melhor ração mas, quando chega a hora de trabalhar, esquiva-se sempre.
- Nem me digas nada, minha amiga - respondeu a Castanha, limpando o bico na palha. - Hoje de manhã, voltou a dar o alarme do gavião só para instalar a confusão e ver galinhas e pintos a correr de rabo alçado. É mesmo imaturo! E o pior é que a velhinha Vina ainda lhe acha graça...
- Gostava mesmo era de o ver a passar o que nós passamos - acrescentou a Amarela, deitando mais uma acha para a conversa. - Adorava ver aquele Cristas a pôr ovos de dois em dois dias: isso é que era de galo! Assim também eu: é muito fácil reinar quando tudo o que tem de fazer é saltar para a cerca e abrir a goela.
Nisto, o galo Cristas, que tinha apurado o ouvido para dar conta daquele cocorocó todo, ensaiou um voo raso para o meio do pátio, levantando uma nuvem de poeira e palha. Ajeitou as penas do pescoço e ironizou:
- Mulheres... Vocês pensam que a minha vida é tranquila? Sabem o quanto tenho de esforçar as cordas vocais para vos acordar às cinco da manhã? E toda a estratégia diplomática que levo a cabo para que o cão do vizinho não se abeire das nossas instalações? Vocês só têm de pensar nos ovos; já eu tenho a meu cargo toda a geopolítica deste galinheiro!
Ao ouvirem tais sentenças, as duas galinhas entreolharam-se. A Castanha olhou o galo de alto a baixo e, medindo a crista meio torta do rival, rematou assim a querela:
- Olha lá, Cristas, poupa-nos o discurso, sim? Se a gerência deste galinheiro estivesse nas nossas mãos
- Outro galo cantaria
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCXIII
Crês que precisas de espaço
E que não te falta um abraço
Mas podes as armas baixar
Que eu não te vou sufocar
Quando perderes a alergia
À minha frase de bom dia
Então deixarás de sozinho
Trilhar assim teu caminho
Estou longe de ser perfeita
Mas não tenho a mala feita
Não preciso de um provedor
Apenas de carinho e amor
Bem sei que sou apressada
Impaciente e tão precipitada
Contudo o teu ritmo diverso
Faz-me escrever este verso
Terei de respirar bem fundo
Para ter acesso ao mundo
Que fechas a sete chaves
E rodeias de mil entraves
Terei de refrear a passada
Com que inicio a jornada
E aguardar o teu contacto
Se te dispuseres ao acto
Que eu tentarei ser capaz
De efectuar marcha atrás
Tão certa daquilo que faço
Até que tu estreites o laço
E que não te falta um abraço
Mas podes as armas baixar
Que eu não te vou sufocar
Quando perderes a alergia
À minha frase de bom dia
Então deixarás de sozinho
Trilhar assim teu caminho
Estou longe de ser perfeita
Mas não tenho a mala feita
Não preciso de um provedor
Apenas de carinho e amor
Bem sei que sou apressada
Impaciente e tão precipitada
Contudo o teu ritmo diverso
Faz-me escrever este verso
Terei de respirar bem fundo
Para ter acesso ao mundo
Que fechas a sete chaves
E rodeias de mil entraves
Terei de refrear a passada
Com que inicio a jornada
E aguardar o teu contacto
Se te dispuseres ao acto
Que eu tentarei ser capaz
De efectuar marcha atrás
Tão certa daquilo que faço
Até que tu estreites o laço
Provérbio provado rimado - MDCCCXII
Nós vamos crescer devagar
Tal como as árvores fazem
Lançando os ramos no ar
Enquanto a sombra desfazem
Vamos apostar nas raízes
E não nas aves que dançam
Tentando a dois ser felizes
Mais do que nos afiançam
Tal como as árvores altas
Escavam até se enterrar
Vê se não te sobressaltas
Para nós irmos raízes criar
Tal como as árvores fazem
Lançando os ramos no ar
Enquanto a sombra desfazem
Vamos apostar nas raízes
E não nas aves que dançam
Tentando a dois ser felizes
Mais do que nos afiançam
Tal como as árvores altas
Escavam até se enterrar
Vê se não te sobressaltas
Para nós irmos raízes criar
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCXI
Quero conhecer mais e mais
Essas tuas faces desiguais
E eu também desejo saber
O ponto que te faz derreter
Talvez eu devesse ter medo
De desvendar cada segredo
Mas tão perto de ti corajosa
Esqueço-me de ser ansiosa
Não precisas dessa prudência
Que me acorda a impaciência
Ao tratar com pinças e cuidado
O teu gesto parece ensaiado
Essas tuas faces desiguais
E eu também desejo saber
O ponto que te faz derreter
Talvez eu devesse ter medo
De desvendar cada segredo
Mas tão perto de ti corajosa
Esqueço-me de ser ansiosa
Não precisas dessa prudência
Que me acorda a impaciência
Ao tratar com pinças e cuidado
O teu gesto parece ensaiado
sábado, 24 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCX
Eu não quero ser picuinhas
Pôr-me aqui com queixinhas
Mas às vezes eu fico irritada
Com tanta preguiça instalada
Há quem só aprecie a imagem
Assim interprete a mensagem
Sem sequer conseguir abrir
O texto que ponho a seguir
Nesta casa há uma intenção
Não se trata duma colecção
Reúne expressões e ditados
Tal como foram inventados
É um lugar de escrita criativa
De poemas ou de narrativa
Onde os provérbios são mote
E são produzidos em lote
Portanto vamos lá perder
Só uns minutinhos a ler
E então depois comentar
Se a prova vos agradar
Senão eu tenho a sensação
Que falo apenas para a mão
E assim não é fixe caneco
Sinto que falo para o boneco
Pôr-me aqui com queixinhas
Mas às vezes eu fico irritada
Com tanta preguiça instalada
Há quem só aprecie a imagem
Assim interprete a mensagem
Sem sequer conseguir abrir
O texto que ponho a seguir
Nesta casa há uma intenção
Não se trata duma colecção
Reúne expressões e ditados
Tal como foram inventados
É um lugar de escrita criativa
De poemas ou de narrativa
Onde os provérbios são mote
E são produzidos em lote
Portanto vamos lá perder
Só uns minutinhos a ler
E então depois comentar
Se a prova vos agradar
Senão eu tenho a sensação
Que falo apenas para a mão
E assim não é fixe caneco
Sinto que falo para o boneco
Provérbio provado rimado - MDCCCIX
Uma vida de sacrifício
Igual à dos pais e avós
Não lhes trará benefício
Não os fará menos sós
Assim desacompanhados
São logo atirados às feras
Não admira que frustrados
Tomem medidas severas
E ergam alto as gargantas
Que façam manifestações
E queiram obter às tantas
Muito melhores condições
Têm poucas perspectivas
Os sonhos não vão além
As opções são subjetivas
Assim não vive ninguém
São jovens e são imaturos
Dizem outros da reacção
Preferem vê-los inseguros
Longe do cerne da questão
Igual à dos pais e avós
Não lhes trará benefício
Não os fará menos sós
Assim desacompanhados
São logo atirados às feras
Não admira que frustrados
Tomem medidas severas
E ergam alto as gargantas
Que façam manifestações
E queiram obter às tantas
Muito melhores condições
Têm poucas perspectivas
Os sonhos não vão além
As opções são subjetivas
Assim não vive ninguém
São jovens e são imaturos
Dizem outros da reacção
Preferem vê-los inseguros
Longe do cerne da questão
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCVIII
Mantenho a mente em forma
Com cinquenta e tal reflexões
Cada dia respeito esta norma
Para estar em boas condições
Tal ginástica para a cabeça
É a semente para a velhice
Para que assim não esqueça
Sem memória é uma chatice
Que no meu ginásio principal
Há estantes e não aparelhos
É uma Biblioteca Municipal
Onde cheira a livros velhos
Faço lá exercícios bastantes
Passo a mão nas lombadas
E namoro livro nas estantes
Leio frases que são contadas
Eu acabo por me apaixonar
Se me agrada uma narrativa
E esse título vou requisitar
Quando o enredo me motiva
O que acontece de seguida
Pode ser uma boa surpresa
Existir uma ideia escondida
Rodeada de imensa beleza
Era bom que todos lessem
É a minha convicção sincera
Que as surpresas acontecem
Quando menos delas se espera
Com cinquenta e tal reflexões
Cada dia respeito esta norma
Para estar em boas condições
Tal ginástica para a cabeça
É a semente para a velhice
Para que assim não esqueça
Sem memória é uma chatice
Que no meu ginásio principal
Há estantes e não aparelhos
É uma Biblioteca Municipal
Onde cheira a livros velhos
Faço lá exercícios bastantes
Passo a mão nas lombadas
E namoro livro nas estantes
Leio frases que são contadas
Eu acabo por me apaixonar
Se me agrada uma narrativa
E esse título vou requisitar
Quando o enredo me motiva
O que acontece de seguida
Pode ser uma boa surpresa
Existir uma ideia escondida
Rodeada de imensa beleza
Era bom que todos lessem
É a minha convicção sincera
Que as surpresas acontecem
Quando menos delas se espera
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCVII
Há a ideia que a pressa
É a inimiga da perfeição
E é normal que esqueça
A cautela e a ponderação
É facto bem comprovado
Que dispensa argumentos
Quem é muito apressado
Vai estragar os momentos
Engolir sem antes mastigar
Não permite sentir o sabor
Isso não é viver mas tragar
A postos para o dissabor
É a inimiga da perfeição
E é normal que esqueça
A cautela e a ponderação
É facto bem comprovado
Que dispensa argumentos
Quem é muito apressado
Vai estragar os momentos
Engolir sem antes mastigar
Não permite sentir o sabor
Isso não é viver mas tragar
A postos para o dissabor
domingo, 20 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCVI
Gosta a Ana de dar nas vistas
Mas o que ela dá é bandeira
É do género daqueles artistas
Que sabem o pregão da feira
Está visto que o espalhafato
Lhe é fatia da personalidade
Para mais tem falta de tacto
Não lhe assiste a civilidade
Foge-lhe o pé para o chinelo
Quando ambiciona ter razão
E até chega a roupa ao pêlo
De quem lhe faça acusação
Provérbio provado rimado - MDCCCV
Dei casa ao pobre do Inácio
Que pedia um tecto e pão
Mas o gajo com ingratidão
Desdenhou do meu palácio
Reclamando da minha sopa
Ele disse com ar de desdém
Falta-lhe sal e brio também
Condiz bem com a tua roupa
Do meu sofá tomou posse
Fazendo do braço almofada
E de resto não fez mais nada
Como se um fidalgo ele fosse
Pedi-lhe que o lixo levasse
E quase lhe deu um enfarte
Ter trabalho não faz parte
Nem que a casa desabasse
Teimou que a sala era fria
E exigindo um aquecedor
Armou-se muito em estupor
Cheio de soberba e mania
Pareceu-me tão destituído
De vergonha e até de pudor
Não sabendo ser um senhor
Foi pobre e mal agradecido
sábado, 19 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCIV
Tu estás sempre a protelar
Com uma cara de preguiça
E já cansado ao acordar
Fazes de adiar premissa
Que a tua frase favorita
É amanhã o mais tardar
E todos vêem que é fita
Estás apenas a atrasar
Se não fazes o que queres
Não penses estar tramado
Vai fazendo o que puderes
Que assim fazes um bocado
E o que podes fazer hoje
Faz a sério e com afã
Sem lamentar o que foge
Não deixes para amanhã
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCIII
Querida não faças barulho
E abafa já esses gemidos
Embora me dêem orgulho
As paredes têm ouvidos
Não gosto de dar barraca
Acordar todos os vizinhos
Por isso fecha a matraca
Pára com os teus risinhos
Provérbio provado rimado - MDCCCII
Diz-me com quem andas
E eu dir-te-ei quem tu és
Tens a mania que mandas
Nos rios onde há jacarés
Se tiveres por companhia
Várias famintas piranhas
Vai passar-te essa mania
Ao veres as suas manhas
Aprenderás por osmose
A teres ruins intenções
E a nova linha que cose
As tuas futuras acções
Tu serás rude e maldoso
Num gesto de imitação
Colérico e até rancoroso
Se não te for de feição
Mas se os invés imitares
Os sapos e as borboletas
Tu serás melhor se ficares
Nessas águas mais quietas
Com quem nadares no rio
Tu vais ser mais parecido
Não escolhas um desvio
Onde te encontres cingido
Afasta-te dos predadores
Que são uma má influência
E elege nos teus arredores
O que te trará sapiência
Prefere estar rodeado
De calma e de bondade
Serás mais afortunado
Por conhecer a amizade
E eu dir-te-ei quem tu és
Tens a mania que mandas
Nos rios onde há jacarés
Se tiveres por companhia
Várias famintas piranhas
Vai passar-te essa mania
Ao veres as suas manhas
Aprenderás por osmose
A teres ruins intenções
E a nova linha que cose
As tuas futuras acções
Tu serás rude e maldoso
Num gesto de imitação
Colérico e até rancoroso
Se não te for de feição
Mas se os invés imitares
Os sapos e as borboletas
Tu serás melhor se ficares
Nessas águas mais quietas
Com quem nadares no rio
Tu vais ser mais parecido
Não escolhas um desvio
Onde te encontres cingido
Afasta-te dos predadores
Que são uma má influência
E elege nos teus arredores
O que te trará sapiência
Prefere estar rodeado
De calma e de bondade
Serás mais afortunado
Por conhecer a amizade
Provérbio provado rimado - MDCCCI
Quem diz a verdade crua
Sem a máscara da praxe
Prefere ser posto na rua
Se esperarem que se abaixe
Mas a mentira é estimada
Se o antro é de impostura
Há quem bata em retirada
Por não aguentar a agrura
Para longe bate as asas
Dá assim aos calcanhares
À procura de outras casas
Onde ninguém se dê ares
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