Provérbios Provados noutras casas:

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXI

Tu és fino que nem um rato
Parece que não partes um prato
És tão sonso que faz impressão
Ver o teu fingimento em acção

Com esse ar de jogo de batota
O teu riso depois da anedota
É postiço e é também ardiloso
Aparentas estar sempre no gozo
 

Provérbio provado encornado

Casaram na capela da terra dela num sábado de Junho, ao meio dia no pico do sol, na presença de uma centena de convidados
A cerimónia foi interminável: o padre Bartolomeu arrastou a homilia o mais que pôde, reinterpretando vagarosamente as alíneas e entrelinhas do Evangelho. Tanto prolongou a dita, que a suada audiência em desespero não lhe adivinhava fim à vista.
Foi então que o prior, raposa velha na observação da linguagem corporal dos fiéis, se dignou concluí-la, passando directamente para o diálogo antes do consentimento com as perguntas da praxe. Seguiram-se-lhe os votos. Nesse momento, tão aguardado pela plateia, os noivos uniram as mãos direitas e declararam a sua aceitação.

- Eu, Inocêncio Cornélio, recebo-te por minha esposa, Maria Teodora, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

A tímida Teodora secundou o noivo na intenção, tal como era esperado, e o padre Bartolomeu dispôs-se a finalizar a cerimónia, selando a união.

- Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu.

E, pronto, a boda dera-se sem grandes sobressaltos. Houve quem criticasse o vestido da noiva, a mesa de sobremesas e a função em geral. Houve quem bebesse mais do que a conta, chamando o Gregório para cima da fatiota melhorada. Tudo normal.

Após uma curta lua de mel, e tal como previsto no contrato, começou a vida marital propriamente dita.
Os pombinhos passaram a arrulhar num tom diferente. Já não estavam sempre de acordo. As suas questões rodeavam o orçamento apertado e a chegada dos filhos. Ao passo que o Inocêncio era poupado e queria muito ser pai de um casalinho, Teodora gostava de esbanjar e não tinha pressa nenhuma de cuidar das crias.
Rapidamente, o marido fez a leitura do cenário: a namorada fora uma, a mulher era outra. Teodora mudara como da água para o vinho. Mas o Inocêncio amava-a e tinha prometido, perante Deus e os homens, continuar a amá-la.

Comemoraram um ano de casados, comemoraram dois, e Teodora estava cada vez mais distante.
Entretanto, a notícia já corria pelas ruas da aldeia, à boca pequena. Nomeava-se o Zé Perpétuo Alfaiate, o caixeiro viajante que passara a andar mais vezes por aquelas estradas e até o filho do padeiro cujo acne da puberdade desaparecera de repente. As gentes sussuravam, desgostosas: Vai ser o último a saber, coitadinho do Inocêncio Cornélio.


- Coitadinho é corno




Provérbio provado rimado - MDCLXX

Completei cinquenta de idade 
E bem longe vai a mocidade 
Com as ideias já meio turvas 
Ainda estou aí para as curvas 

Muita lenha há para queimar 
Enquanto eu topar cá andar 
Com o corpo perto da reforma 
E a cabeça dormindo na forma 

O que me caracteriza a mente 
É a natureza intermitente 
Mas quando ela ferve e bomba 
Produz estas rimas de arromba


terça-feira, 12 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXIX

É leve o fardo em ombro alheio 
Somente o próprio é muito pesado 
Por se conhecer como é o recheio 
Todo se transporta em duplicado 

Cada pormenor se percebe gigante 
Sendo sempre errada a proporção 
Que faz a desdita mais importante 
E torna difícil qualquer intenção 


Provérbio provado rimado - MDCLXVIII

Por causa da cabeça de vento 
Esqueces no seguinte momento 
Apesar de na agenda apontares
As tarefas mais elementares

Dizer apenas que és distraída 
É uma frase super comedida
Para não te chamar aluada 
Sem ter foco e desconcentrada 

Quem tiver de pedir-te um favor 
À partida já sente um pavor 
Que tu percas a concentração 
E ao mesmo não dês atenção 

Por perderes o fio à meada 
Pareces por vezes limitada 
Que te esvoaça o pensamento 
Bloqueando-te o discernimento

E por não cumprires a bitola 
Pensam que bates mal da tola
Com a fama de miolo frouxo 
És uma cabeça de alho chocho 


Provérbio provado rimado - MDCLXVII

É sabido que deitar cedo 
Dá saúde e não é segredo 
Então quando batem as dez 
Mete na cama os teus pés 

Para que outros não espantes 
Lava os pés uns minutos antes 
Ou terás mau chulé e má fama
Na hora de vestires o pijama 

Depois de lavares os presuntos
Não te percas noutros assuntos 
Lembra-te de os dentes lavar 
Para o hálito não te assombrar 

E assim calmo e tão lavadinho
Adormecerás num instantinho
De manhã todo fresco despertas
E de novo o relógio tu acertas

Como manda o despertador 
Todo o dia tu és cumpridor 
Plos ponteiros és controlado 
Por seres rapaz bem mandado

 

sábado, 9 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXVI

Se por vezes tu tentas ditar
Quais as regras do teu futuro 
E quais são os passos a dar
Antevendo que seja seguro 

Podes tal desejo ignorar 
Por ser absurdo e cretino
E aprender assim a acatar
Ninguém foge ao seu destino 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXV

O coração da Efigénia
É igual a um catavento
Aparece sem fazer vénia 
E vai-se sem um lamento 

Marca a direcção do norte 
Mas a agulha está avariada 
Por isso entrega-se à sorte 
Que é sempre tão inesperada

Podendo ganhar ou perder 
Nunca sabe de antemão 
Se vai um amor receber 
Ou se é mais uma decepção 

Ignora os mapas traçados
Pela mais salutar coerência 
Esperando que os apaixonados
Tenham o mínimo de decência 

Recusa quaisquer fronteiras 
Impostas pelo bom senso 
As fraquezas são passageiras
Contudo o afecto é intenso 

Nela mesma não tem mão 
Ela é ao equilíbrio avessa
Ama mais com o seu coração 
Não usando pra isso a cabeça 


Provérbio provado rimado - MDCLXIV

Deixaste-me a ver navios 
Sentada sozinha no molhe
Por causa dos meus desvarios 
Mas delírios ninguém escolhe 

Bem sei que sou complicada 
Inconstante e até rabugenta 
Por vezes bastante aluada 
Porém noutras super atenta 

Eu só escolho dar atenção 
Àquilo que me enriquece 
Tu assim já sabes a razão 
Se quiseres de novo aparece 


Provérbio provado num verso branco - CLVI

Entre inúmeras vozes monótonas
Ideias que transportam a nenhures 
Ouço a repetição monocórdica
De conselhos que não comprei 
- Qualquer sugestão é sempre injusta 

Seguro nos dentes uma reacção 
Que me alimente a sobrevivência 
E vou engolindo uma fila de sapos 
Um a um todos de seguida 
- Os cabrões são indigestos


Provérbio provado rimado - MDCLXIII

Morreste hoje à beira da praia 
Tendo falhado por um niquinho
Mas já conheço os da tua laia 
Guarda para outra esse beicinho 

Ficaste aquém tão perto do fim 
Por um pentelho seco de velha 
Marcando a tua ausência em mim 
Apenas porque te deu na telha
 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXII


Não guardes no peito o que o tempo curou
Nem chores o rasto que o vento apagou
O que foi espinho é somente memória
Um texto já findo nessa tua história

Deixa o cansaço finar-se na estrada
O destino vem com a nova jornada
Tão longe daqueles velhos espinhos
Pois águas passadas não movem moinhos 


Provérbio provado num verso branco - CLV

Não alcanço a razão por que derrete o alcatrão 
Por debaixo do meu termómetro congelado 
Nem o porquê da cadência dos ponteiros 
Progredir a um ritmo que me é desconhecido 

A cada aurora abro as janelas da casa que sou aqui 
E o vento sopra como sempre sopra
Antes de se abrir a mais uma tempestade 

Não receio contudo a ventania e saio na sua direcção 
Numa busca incessante de respostas nas passagens 
Que cruzam as esquinas que proporcionam encontros

Carrego o passado às costas num cansaço corcunda 
Numa tentativa vã de ler nos que passam
Um resto amável de rara afeição 

Em todos os ecrãs da cidade a realidade obedece a um guião 
Onde os comportamentos se conformam perante regulamentos 
E o eixo do mundo gira a uma velocidade 
Superior à minha capacidade de entendimento 

Então prossigo numa prece pagã
Às nuvens que destapam o amanhã 
Ao chão que me segura o corpo 
Desenhando um ângulo de noventa graus 
Com o diafragma apertado 
E lágrimas cobardes na sua evasão 
Corro atrás do prejuízo sem intervalos 
Numa urgência de adivinhar o que lá vem 

Nenhum futuro assenta apenas num molde individual 


Provérbio provado rimado - MDCLXI

A sorte que ocorre na vida 
Não se ampara na vertical 
Toda a gente é surpreendida
Por ter uma curva cervical 

Não se apresenta alinhada
Ou direitinha como um fuso 
Aparece em pose alquebrada
E até lhe falta um parafuso

É tão caprichosa essa sorte 
Volúvel e bastante mimada 
Iludindo o fraco e o forte 
Como uma ponte derrubada

Que impede qualquer acesso 
Restringe ainda a progressão 
Faz sempre atrasar o começo 
Lançando só mais confusão 

Por hábito faz o que quer
À deriva é assim patareca
Desse modo só faz padecer
Suportar tal sorte marreca 



Provérbio provado dum passado enterrado

Deixa-me que te conte o que se passou com a sogra da cunhada da Matilde, a Dona Prazeres, mulher de ancas largas e pavio curto. 
Aproveitando a embalagem das festas - sabes como é, Ano Novo, vida nova -, decidiu no primeiro de Janeiro, que faria daquele o ano da sua renovação.
Vai daí, listou as suas prioridades e foi comprar num impulso um creme de algas que prometia milagres de rápida acção e uma batedeira eléctrica com várias velocidades, cujo barulho se assemelhava a um ar condicionado dos antigos a engasgar.
A Prazeres convenceu-se então, entre dois suspiros inercortados por uma inspiração e expiração profundas, que era escusado remexer no passado e o melhor era deitar fora a chave da gaveta dos remorsos. Para a frente é que é caminho!, dizia ela, enquanto tentava, com um optimismo quase ingénuo no semblante, enfiar-se à força numas calças de ganga de quando ainda não tinha aquela bosguinha saliente e tão inconveniente.
Coitada da Prazeres, bem se lixou: a batedeira deu o berro ao primeiro bater de claras, mandando mais um soufflé para o galheiro, e o creme de algas deixou-lhe a face untosa como brilho de fumeiro.
Olhou-se ao espelho com a braguilha aberta e a cara naquela desgraça; suspendeu a luta com o fecho das calças e deixou a dignidade respirar por instantes, enquanto tentava ignorar a dor ciática.
Claramente, a tal história da reestruturação principiava mal...  Para recomeçar não bastaria reproduzir um começo anterior, certamente não era esse o modelo que lhe impediria mais falhas no futuro.
Rendeu-se então à evidência de que, por muito que desejasse uma estrada larga e livre para avançar em linha reta, o destino é propenso a dar o dito pelo não dito.
Ah, a vida tão madrasta!, que ludribia e prega rasteiras de surpresa sem dizer água-vai...

Não sei como a Prazeres conseguiu, mas lá fez das tripas coração e perdeu sete quilos bem suados. 
O mais importante, contudo, foi afastar de vez o Raimundo da oficina que regressava sempre tão arrependido até fazer merda mais uma vez. Pôs-lhe uns patins, a Prazeres, e não lhe deu mais abébias, ah valente!
Um dia apanhei-a a sair da padaria da Albertina e tentei satisfazer a minha curiosidade: afinal qual era o segredo daquela superação toda? Mas ela respondeu-me apenas, com toda a serenidade de uma brisa estival:

- Para trás mija a burra 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLX

Tu chegas e puxas logo a cadeira 
Que posicionas atrás do balcão 
Sempre é melhor a loja que a jeira
À tua medida porque és mandrião 

Quando assoma um raro freguês 
A contragosto tu lá te levantas
E mal disfarçando esse revés 
A freguesia da loja tu espantas

Ao teu pé esquerdo pedes licença 
Para que faça o direito mexer 
Essa moleza imita uma doença 
Que nem te esforças por esconder

Mais parece que é grande favor 
De cada vez que surge um cliente 
Talvez na loja mande outro senhor 
Tu fazes figura de corpo presente 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Provérbio nocturno - II

 Caminhava devagar, trazendo, um em cada mão, dois sacos de supermercado de grandes dimensões. Parou por uns segundos à porta do prédio a ganhar fôlego. Depois da íngreme vereda que levava à entrada, teria ainda de subir mais três lances de escadas estreitas.

O Gaudêncio e as suas ideias peregrinas! Naquele corpo de homem, a palavra teimosia atingia uma nova dimensão. Era um autêntico cabeça-dura aquele seu marido, raios o partissem!

A pensar na futura velhice, ela bem alvitrara que escolhessem um prédio com elevador. Outras vozes a secundaram: o irmão mais velho dele - que agora fazia as vezes de chefe de família apos a morte do patriarca -, a cunhada Alice, a prima da cunhada, até a Dona Genoveva da tabacaria. Fora escusado. O Gaudêncio que não, que não, numa obstinação cega, e acabaram por ficar naquele terceiro andar direito, com vista para o jardim a poente e o cemitério a nascente.

As escadas rangiam com o peso dos seus joelhos que rangiam. Chegou finalmente lá acima. Bateu à porta. Esperou. Bateu novamente à porta. Ninguém. Lembrou-se então que o Gaudêncio fazia o turno da noite. Abriu então a porta com a chave e largou no pequeno hall os sacos pesados.

Sentou-se desanimada na mesa da cozinha. Fora a conta do supermercado que a abatera daquela forma. Como era possível tal soma? E nem sequer trouxera carne nem peixe... A renda daquele terceiro direito sem elevador cairia no dia oito na conta bancária conjunta. Seguir-se-ia a água, a luz, o gás e por aí fora. O que iriam comer no resto do mês? 

Fechou o caderno das contas e lançou um fósforo ao fogão para aquecer água para o chá. Bebeu-o e nem se sentou no sofá a ver a telenovela. Esticou-se na cama e entregou o corpo ao sono. Afinal, após uma boa noite de sono, qualquer problema parece menor.


- A noite é boa conselheira


terça-feira, 28 de abril de 2026

Provérbio provado rimado MDCLIX

Tal como o carapau és teso 
À bolsa não puxas os cordões 
A um orçamento estás preso 
Tu andas a contar os tostões 

Nalgum dia mais amargurado 
Parece que cumpres um frete 
Depois vês que estás enganado 
És pobrete mas és alegrete 

Já que vives com simplicidade 
Viajas apenas na tua cabeça 
E no fundo a grande verdade 
É que só esse rumo te interessa 


Provérbio provado rimado - MDCLVIII

Se um dia tiveres essa sorte 
Hás-de conhecer a Vanessa 
Quando lhe dá dá-lhe forte 
Mas passa-lhe logo depressa 

Tem pouco filtro a miúda 
É genuína e espontânea 
Sempre que alguém a saúda
Sente empatia instantânea 

Assim sem tirar nem pôr 
Diz tudo aquilo que pensa
Às vezes com algum rancor 
Mostra que é muito intensa 

Cada vez que fica irritada
Ela não repisa a questão 
Segue em frente na estrada 
Esquece logo a irritação 

Contudo é bom que aconteça 
Desabafo ou até confidência
Para que a Vanessa se esqueça 
Sem que disso tenha consciência 

Não fica jamais a remoer
Num fósforo cai a conversa 
Que afinal há mais para viver 
E a atenção dela dispersa



domingo, 26 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLVII

Se vens nunca te demoras 
Só picas o ponto e bazas
Fazer esse jogo tu adoras
Pareces munido de asas

E sempre cheio de pressa 
Tu dizes que é complicado 
Desejando que me esqueça 
Do teu modo tão desligado 

Não tenho tempo sequer
Para logo e então reagir 
Pois chegas e sais a correr 
Sem nada afinal construir 

Já cansada dessa narrativa 
Começo a ficar indiferente 
E tal como tu sou esquiva 
Quando me apareces à frente 

O esforço pequeno que fazes
Dá-te ideia que é exagerado 
E então já prefiro que bazes
Se crês que és mal empregado 

Por isso tu não venhas mais 
Nem mandes mensagens hoje 
Esquece os jogos emocionais 
E o mau hábito do toca-e-foge