Provérbios Provados noutras casas:

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXV

O coração da Efigénia
É igual a um catavento
Aparece sem fazer vénia 
E vai-se sem um lamento 

Marca a direcção do norte 
Mas a agulha está avariada 
Por isso entrega-se à sorte 
Que é sempre tão inesperada

Podendo ganhar ou perder 
Nunca sabe de antemão 
Se vai um amor receber 
Ou se é mais uma decepção 

Ignora os mapas traçados
Pela mais salutar coerência 
Esperando que os apaixonados
Tenham o mínimo de decência 

Recusa quaisquer fronteiras 
Impostas pelo bom senso 
As fraquezas são passageiras
Contudo o afecto é intenso 

Nela mesma não tem mão 
Ela é ao equilíbrio avessa
Ama mais com o seu coração 
Não usando pra isso a cabeça 


Provérbio provado rimado - MDCLXIV

Deixaste-me a ver navios 
Sentada sozinha no molhe
Por causa dos meus desvarios 
Mas delírios ninguém escolhe 

Bem sei que sou complicada 
Inconstante e até rabugenta 
Por vezes bastante aluada 
Porém noutras super atenta 

Eu só escolho dar atenção 
Àquilo que me enriquece 
Tu assim já sabes a razão 
Se quiseres de novo aparece 


Provérbio provado num verso branco - CLVI

Entre inúmeras vozes monótonas
Ideias que transportam a nenhures 
Ouço a repetição monocórdica
De conselhos que não comprei 
- Qualquer sugestão é sempre injusta 

Seguro nos dentes uma reacção 
Que me alimente a sobrevivência 
E vou engolindo uma fila de sapos 
Um a um todos de seguida 
- Os cabrões são indigestos


Provérbio provado rimado - MDCLXIII

Morreste hoje à beira da praia 
Tendo falhado por um niquinho
Mas já conheço os da tua laia 
Guarda para outra esse beicinho 

Ficaste aquém tão perto do fim 
Por um pentelho seco de velha 
Marcando a tua ausência em mim 
Apenas porque te deu na telha
 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXII


Não guardes no peito o que o tempo curou
Nem chores o rasto que o vento apagou
O que foi espinho é somente memória
Um texto já findo nessa tua história

Deixa o cansaço finar-se na estrada
O destino vem com a nova jornada
Tão longe daqueles velhos espinhos
Pois águas passadas não movem moinhos 


Provérbio provado num verso branco - CLV

Não alcanço a razão por que derrete o alcatrão 
Por debaixo do meu termómetro congelado 
Nem o porquê da cadência dos ponteiros 
Progredir a um ritmo que me é desconhecido 

A cada aurora abro as janelas da casa que sou aqui 
E o vento sopra como sempre sopra
Antes de se abrir a mais uma tempestade 

Não receio contudo a ventania e saio na sua direcção 
Numa busca incessante de respostas nas passagens 
Que cruzam as esquinas que proporcionam encontros

Carrego o passado às costas num cansaço corcunda 
Numa tentativa vã de ler nos que passam
Um resto amável de rara afeição 

Em todos os ecrãs da cidade a realidade obedece a um guião 
Onde os comportamentos se conformam perante regulamentos 
E o eixo do mundo gira a uma velocidade 
Superior à minha capacidade de entendimento 

Então prossigo numa prece pagã
Às nuvens que destapam o amanhã 
Ao chão que me segura o corpo 
Desenhando um ângulo de noventa graus 
Com o diafragma apertado 
E lágrimas cobardes na sua evasão 
Corro atrás do prejuízo sem intervalos 
Numa urgência de adivinhar o que lá vem 

Nenhum futuro assenta apenas num molde individual 


Provérbio provado rimado - MDCLXI

A sorte que ocorre na vida 
Não se ampara na vertical 
Toda a gente é surpreendida
Por ter uma curva cervical 

Não se apresenta alinhada
Ou direitinha como um fuso 
Aparece em pose alquebrada
E até lhe falta um parafuso

É tão caprichosa essa sorte 
Volúvel e bastante mimada 
Iludindo o fraco e o forte 
Como uma ponte derrubada

Que impede qualquer acesso 
Restringe ainda a progressão 
Faz sempre atrasar o começo 
Lançando só mais confusão 

Por hábito faz o que quer
À deriva é assim patareca
Desse modo só faz padecer
Suportar tal sorte marreca 



Provérbio provado dum passado enterrado

Deixa-me que te conte o que se passou com a sogra da cunhada da Matilde, a Dona Prazeres, mulher de ancas largas e pavio curto. 
Aproveitando a embalagem das festas - sabes como é, Ano Novo, vida nova -, decidiu no primeiro de Janeiro, que faria daquele o ano da sua renovação.
Vai daí, listou as suas prioridades e foi comprar num impulso um creme de algas que prometia milagres de rápida acção e uma batedeira eléctrica com várias velocidades, cujo barulho se assemelhava a um ar condicionado dos antigos a engasgar.
A Prazeres convenceu-se então, entre dois suspiros inercortados por uma inspiração e expiração profundas, que era escusado remexer no passado e o melhor era deitar fora a chave da gaveta dos remorsos. Para a frente é que é caminho!, dizia ela, enquanto tentava, com um optimismo quase ingénuo no semblante, enfiar-se à força numas calças de ganga de quando ainda não tinha aquela bosguinha saliente e tão inconveniente.
Coitada da Prazeres, bem se lixou: a batedeira deu o berro ao primeiro bater de claras, mandando mais um soufflé para o galheiro, e o creme de algas deixou-lhe a face untosa como brilho de fumeiro.
Olhou-se ao espelho com a braguilha aberta e a cara naquela desgraça; suspendeu a luta com o fecho das calças e deixou a dignidade respirar por instantes, enquanto tentava ignorar a dor ciática.
Claramente, a tal história da reestruturação principiava mal...  Para recomeçar não bastaria reproduzir um começo anterior, certamente não era esse o modelo que lhe impediria mais falhas no futuro.
Rendeu-se então à evidência de que, por muito que desejasse uma estrada larga e livre para avançar em linha reta, o destino é propenso a dar o dito pelo não dito.
Ah, a vida tão madrasta!, que ludribia e prega rasteiras de surpresa sem dizer água-vai...

Não sei como a Prazeres conseguiu, mas lá fez das tripas coração e perdeu sete quilos bem suados. 
O mais importante, contudo, foi afastar de vez o Raimundo da oficina que regressava sempre tão arrependido até fazer merda mais uma vez. Pôs-lhe uns patins, a Prazeres, e não lhe deu mais abébias, ah valente!
Um dia apanhei-a a sair da padaria da Albertina e tentei satisfazer a minha curiosidade: afinal qual era o segredo daquela superação toda? Mas ela respondeu-me apenas, com toda a serenidade de uma brisa estival:

- Para trás mija a burra 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLX

Tu chegas e puxas logo a cadeira 
Que posicionas atrás do balcão 
Sempre é melhor a loja que a jeira
À tua medida porque és mandrião 

Quando assoma um raro freguês 
A contragosto tu lá te levantas
E mal disfarçando esse revés 
A freguesia da loja tu espantas

Ao teu pé esquerdo pedes licença 
Para que faça o direito mexer 
Essa moleza imita uma doença 
Que nem te esforças por esconder

Mais parece que é grande favor 
De cada vez que surge um cliente 
Talvez na loja mande outro senhor 
Tu fazes figura de corpo presente 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Provérbio nocturno - II

 Caminhava devagar, trazendo, um em cada mão, dois sacos de supermercado de grandes dimensões. Parou por uns segundos à porta do prédio a ganhar fôlego. Depois da íngreme vereda que levava à entrada, teria ainda de subir mais três lances de escadas estreitas.

O Gaudêncio e as suas ideias peregrinas! Naquele corpo de homem, a palavra teimosia atingia uma nova dimensão. Era um autêntico cabeça-dura aquele seu marido, raios o partissem!

A pensar na futura velhice, ela bem alvitrara que escolhessem um prédio com elevador. Outras vozes a secundaram: o irmão mais velho dele - que agora fazia as vezes de chefe de família apos a morte do patriarca -, a cunhada Alice, a prima da cunhada, até a Dona Genoveva da tabacaria. Fora escusado. O Gaudêncio que não, que não, numa obstinação cega, e acabaram por ficar naquele terceiro andar direito, com vista para o jardim a poente e o cemitério a nascente.

As escadas rangiam com o peso dos seus joelhos que rangiam. Chegou finalmente lá acima. Bateu à porta. Esperou. Bateu novamente à porta. Ninguém. Lembrou-se então que o Gaudêncio fazia o turno da noite. Abriu então a porta com a chave e largou no pequeno hall os sacos pesados.

Sentou-se desanimada na mesa da cozinha. Fora a conta do supermercado que a abatera daquela forma. Como era possível tal soma? E nem sequer trouxera carne nem peixe... A renda daquele terceiro direito sem elevador cairia no dia oito na conta bancária conjunta. Seguir-se-ia a água, a luz, o gás e por aí fora. O que iriam comer no resto do mês? 

Fechou o caderno das contas e lançou um fósforo ao fogão para aquecer água para o chá. Bebeu-o e nem se sentou no sofá a ver a telenovela. Esticou-se na cama e entregou o corpo ao sono. Afinal, após uma boa noite de sono, qualquer problema parece menor.


- A noite é boa conselheira


terça-feira, 28 de abril de 2026

Provérbio provado rimado MDCLIX

Tal como o carapau és teso 
À bolsa não puxas os cordões 
A um orçamento estás preso 
Tu andas a contar os tostões 

Nalgum dia mais amargurado 
Parece que cumpres um frete 
Depois vês que estás enganado 
És pobrete mas és alegrete 

Já que vives com simplicidade 
Viajas apenas na tua cabeça 
E no fundo a grande verdade 
É que só esse rumo te interessa 


Provérbio provado rimado - MDCLVIII

Se um dia tiveres essa sorte 
Hás-de conhecer a Vanessa 
Quando lhe dá dá-lhe forte 
Mas passa-lhe logo depressa 

Tem pouco filtro a miúda 
É genuína e espontânea 
Sempre que alguém a saúda
Sente empatia instantânea 

Assim sem tirar nem pôr 
Diz tudo aquilo que pensa
Às vezes com algum rancor 
Mostra que é muito intensa 

Cada vez que fica irritada
Ela não repisa a questão 
Segue em frente na estrada 
Esquece logo a irritação 

Contudo é bom que aconteça 
Desabafo ou até confidência
Para que a Vanessa se esqueça 
Sem que disso tenha consciência 

Não fica jamais a remoer
Num fósforo cai a conversa 
Que afinal há mais para viver 
E a atenção dela dispersa



domingo, 26 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLVII

Se vens nunca te demoras 
Só picas o ponto e bazas
Fazer esse jogo tu adoras
Pareces munido de asas

E sempre cheio de pressa 
Tu dizes que é complicado 
Desejando que me esqueça 
Do teu modo tão desligado 

Não tenho tempo sequer
Para logo e então reagir 
Pois chegas e sais a correr 
Sem nada afinal construir 

Já cansada dessa narrativa 
Começo a ficar indiferente 
E tal como tu sou esquiva 
Quando me apareces à frente 

O esforço pequeno que fazes
Dá-te ideia que é exagerado 
E então já prefiro que bazes
Se crês que és mal empregado 

Por isso tu não venhas mais 
Nem mandes mensagens hoje 
Esquece os jogos emocionais 
E o mau hábito do toca-e-foge 


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLVI

Escusas de mil desculpas trazer 
De chegar todo de ouro coberto 
Desta vez não te vou absolver 
Porque já não te quero por perto 

O teu ar de cãozinho perdido 
Já não me comove ou importa
Podes dar o caso por perdido 
Agora é tarde Inês é morta 


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLV

Não desejes para o mês passado
Que se veja logo um resultado
No entanto não te acomodes
Se ver mais à frente tu podes

Tu foge também da ganância
Ou assim terá mais importância
No entanto impede a preguiça
Por princípio errada premissa

Não desperdices tudo num dia
O que falta amanhã te faria
No entanto não sejas sovina
Livra-te dessa má disciplina

Tenta ser coerente portanto
Se encontras tantos no entanto
Saberás que a melhor atitude
É ver sempre no meio a virtude


Provérbio provado rimado - MDCLIV

É um povo de gente aprumada 
Dia-a-dia com a farda engomada 
Mas esconde a grande frustração 
De auferir tão à justa o quinhão 

Intriguista olha muito para o lado 
Com o sobrolho tão desconfiado 
É invejoso e também fatalista
Tem lá dentro uma alma fadista 

Dito povo de brandos costumes 
Que chora baixinho os queixumes 
E é conhecido pela dificuldade 
Com o relógio e a pontualidade 

Improvisa que até se desunha 
Nunca diz não a uma cunha
Por achar que assim lhe é devida 
Uma posição mais favorecida 

Povo de comodismo coberto 
Atirando para o chico-esperto 
E que se arma ao pingarelho 
Apesar de não ter um pentelho

Qualquer um se intitula doutor 
Sem se ter esforçado em rigor 
Tão douto em tapar as fraquezas
Por ter a mania das grandezas


sábado, 11 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLIII

Nada acabar é nada fazer 
Faz uma obrigação suspender 
Até uma data que não chegará 
Os planos voam ao Deus-dará

Esse adiamento é tão repetido 
Pois o empenho está restringido 
Não se prevê nenhuma remessa 
A vida torna-se eterna promessa


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLII

A idade e também a experiência 
Valem mais do que a adolescência
Porque uma realidade adquirida 
É mais sábia do que à partida 

Já a juventude é uma altura 
Onde se pressupõe com fartura 
E se pensa que se sabe tudo 
Mas vê Braga por um canudo 


Provérbio provado rimado - MDCLI

A inveja está sempre em jejum 
Não se alimenta de resto nenhum 
E pouco lhe sobra na realidade 
Por ser fuinha essa é a verdade 

Quem vivencia a inveja emagrece
De mastigar com calma se esquece 
Ao ver a gordura alheia definha
E a prosperidade que se avizinha 

Nesse modo de ser assaz duvidoso 
Lá no fundo é carente o invejoso 
Não quer jamais dar parte de fraco
Tem uma no papo e outra no saco 


Provérbio provado rimado - MDCL

Para não perderes a chance
Tu miraste só de relance
E com muita precipitação
Disseste uma frase em vão

Nesse modo tão superficial
Qualquer sentença é banal
Parece que a massa cinzenta
Quando não sabe inventa

Se tivesses estado calado
Mais sábio terias ficado
Era bom para ti aprender
A olhar com olhos de ver