Provérbios Provados noutras casas:

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLX

Sempre que os olhos descobrem um novo dia 
Abre-se uma nova janela de par em par
Que permite mais um par de possibilidades 

E até pode parecer uma janela repetida 
Ou ser o caminho proposto semelhante 
Mas é sem dúvida uma nova proposta de saída 
O antes que se abriu entretanto já se fechou 
O ontem não volta e o amanhã não espera 

Uma hora são sessenta minutos 
Embora uma hora possa passar num pestanejar 
E sessenta minutos durarem uma eternidade 
Por isso são tão necessários os relógios:
O tempo não sabe bem a quantas anda 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIX

Tu andas armado ao pingarelho 
Sempre disposto para a chalaça 
Então é melhor ouvires o conselho 
Que qualquer dia se torna ameaça 

Até pensei nunca mais ser preciso 
Quando tu corres como um carapau 
Mas é necessário deixar-te o aviso 
E aconselhar que te ponhas a pau


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXVIII

Se estás de sentenças deserta 
Com mil ideias na algibeira 
Lembra-te que de boca aberta 
Ou entra mosca ou sai asneira 

Sempre que recordares este dito 
Vais manter a matraca fechada 
Evitas dessa forma um conflito 
E passas por pessoa ponderada 


Provérbio provado rimado - MDCCLXVII

Tenho fama de ter mau feitio 
Mas são só bocas da reacção 
Porque aturo muito desvario 
De quem quer chamar à atenção 

Vendo bem não tenho o proveito 
Dum temperamento complicado 
Talvez porque nem seja defeito 
Só um aspecto pouco tolerado 

Que a verdade é dura de ouvir 
E por isso a mentira piedosa 
É bem mais fácil de admitir 
Apesar da índole duvidosa 

E já que a reacção é escusada
Neste palco de maus actores 
Aprendi a ficar bem calada 
Para não colher dissabores 

Praticando assim a indulgência 
Está guardado no céu um lugar
Até lá Deus me dê paciência 
E um paninho para a embrulhar 


Provérbio provado num verso branco - CLIX

Quando um estrondo se rasga mais longe do que o tempo 
E produz um eco como um gemido vulcânico
Nesse segundo de deslize a sombra do erro 
Cobre toda a superfície da terra 

Os olhos debruçam-se sobre a ferida 
As línguas comentam a queda 
E longe dos ecrãs e dos microfones 
A vida faz ao tempo o que o tempo faz à vida 

As raízes perfuram os solos
A seiva trepa pelos caules
As andorinhas enfeitam os beirais 
Ninguém dá pelo suor da Natureza 
No seu labor invisível e silencioso 

Qualquer bom resultado não escuta aplausos
As bocas apupam com mais facilidade 
Do que as mãos se juntam para bater palmas 
A destruição é mais visível do que o progresso 
Uma árvore que cai faz mais barulho 
Do que uma floresta que cresce 



Provérbio provado rimado - MDCCLXVI

És parecida com uma mula
Quando finca os pés no chão 
Qualquer actividade é nula 
Sendo neutra a tua expressão 

Em face a essa cara de cera
Nem vivalma irá arriscar 
Que possas soltar a megera
E se vá o caldo entornar 

Por criares tão firme fronteira 
Da qual és tu a própria fiscal 
Ninguém vai transpôr a barreira 
Onde tu estás de pedra e cal 


domingo, 16 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLVIII

A Natureza sabe o que faz 
Por isso a mosca é leve e o leopardo tem pintas 
Nenhum animal sem asas tenta o voo
Ou pisa a terra se do mar nasceu 

Tudo tem um peso e um rumo exactos 
Cada macaco habita no seu galho 
O galho é pouso e não fronteira 
E é gigante dentro dos próprios limites 

Somente o homem deseja o que não tem 
E ambiciona o galho do outro homem 


Provérbio provado rimado - MDCCLXV

O que é que fica em riste
Sempre que me dás calor?
E ninguém a isso resiste
Se houver desejo e amor?

É um sentimento que cresce
Neste meu peito pecador
Paixão pura que acontece
Assim sem tirar nem pôr


Provérbio provado racionado

Fechava sempre a porta que dava para o pátio à hora das refeições, apesar da porta da cozinha estar enfeitada de fitas de plástico coloridas de alto a baixo. 
A avó dizia que as tinha colocado para afastar as moscas, mas sempre desconfiei que as fitas às cores cumpriam uma dupla função: afastavam também quaisquer mirones curiosos acerca do que se passava dentro de casa.
A avó detestava mirones, talvez uma herança do fascismo. Muito menos à hora das refeições sem que houvessem sido previamente convidados, talvez uma herança dos tempos de racionamento. 
Nos tempos que corriam havia mais sardinhas do que bocas, felizmente. Porém, a avó continuava a fechar a porta enquanto pedia silêncio. 


- Primeiro aos meus, depois aos alheios 

Provérbio provado rimado - MDCCLXIV

Por mais que comas quinoa
E granola até te empazinares
Tu tens de comer muita broa
Para me chegar aos calcanhares 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIII

Tu possuis o pequeno poder
De quem gosta de tudo prever
O teu grande vício é controlar 
O que ao teu redor se passar 

Contigo há que ter cuidado 
Com o teu modo dissimulado 
Pois sóis praticar a sonsice
E resulta sempre em chatice 

Tu andas pelos cantos da sala 
Para registar qualquer fala
Para de seguida ires chibar
Tens tendência para inventar 

Nas tuas pequenas demandas 
Nas pontas dos pés tu andas 
Com o intuito de surpreender 
Alguém que esteja a conviver 

E se acaso fores mencionada 
Tu até ficas quase aliviada 
É assim como falar no diabo 
Que logo lhe aparece o rabo 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXI

O Manel arranja sarna 
Para logo depois se coçar 
Enquanto a vítima encarna
Não termina de complicar 

E afinal são desnecessários 
Os problemas que arranja 
Só vai encontrar adversários 
A contenda para ele é canja 

Põe-se a jeito para a guerra 
Porque o Manel é belicoso
E qualquer inimigo desterra
Mesmo que ele seja amistoso 


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXI

Embora seja muito orgânica 
Já cansa a nossa dinâmica 
Dar prioridade ao instante
Torna a situação desgastante 

De cada vez que me exprimo
Consciente que me aproximo
Tu bates logo em retirada 
E eu fico meio atordoada 

Sei que sou a parte que pede 
E tu és aquela que não cede 
Mas no fundo tão pouco exijo 
Escusas de ter um esconderijo 

Mais parece que fazes favor 
Se me dás migalhas de amor 
Sinto até que quase suplico 
E dessa forma frustrada fico 

Estou farta de andar a brincar 
Ao ciclo de avançar e recuar
Neste jogo do gato e do rato 
Eu tenho o papel mais ingrato 


Provérbio provado rimado - MDCCLX

Por mais que da vida reclames 
Continuas preso por arames 
Numa situação tão instável 
Que se tornou insustentável 

Tanta neve contida na bola 
É um novelo que te enrola
E te faz rebolar em espiral 
Sem um ponto de fuga final 

Nesse modo de vida automático 
Vais deixando de ser empático 
Vais tornar-te numa marioneta 
Que habita noutro planeta 


Provérbio provado rimado - MDCCLIX

Não te fiaste no ditado 
Que a gente cita de cor
Depois do corvo criado 
Ele há-de dar-te o pior 

No momento em que surgiu 
Mais só do que Cristo na cruz 
Com as patas a tremer de frio 
Tu tentaste mostrar-lhe a luz 

Arranjaste-lhe com desvelo 
Um ninho muito confortável 
Passaste-lhe a mão pelo pêlo 
Para que se sentisse estável 

Transportaste-o nas palminhas 
Foi levado ao colo na estrada 
E no fim como já adivinhas
Sentiste no rosto a chapada 

Nem sequer luva branca calçou 
Em tal gesto de raiva brutal 
Ou qualquer gratidão demonstrou 
Viu a tua dádiva como trivial 

Não devias estar surpreendido 
Atendendo aos genes que tem 
Por não ter enfim retribuído 
Vê somente o que lhe convém 

Teus cuidados foram escusados 
Já devias saber de antemão 
Que após os corvos criados 
Um par de olhos te comerão



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVIII

Por ser burra até mais não 
Só cheguei hoje à conclusão 
De que nós não temos futuro 
Não sei porque ainda te aturo

Não consigo dizer-te um basta 
Mas a nossa união é nefasta 
Dás-me cabo da auto-estima 
Fazendo com que me deprima

Sei que com intenção não o fazes 
Mas vê que é preferível que bazes
Se no fundo tu não me acarinhas
E só me dás atenção às mijinhas 



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVII

Juntas machos em reunião 
Que respeitam a tua decisão 
E que dentro das tuas balizas 
Vão beijar o chão que tu pisas

Não são machos na verdade 
Mal largaram a puberdade 
Um a um os vais hipnotizar
Para que os possas comandar 

Tens um jeito de prima-dona 
Refastelada na tua poltrona 
Com caprichos a toda a hora 
Cuja satisfação não demora 

Ordenas com impertinência 
Dando cabo da paciência 
Dos miúdos que te idolatram 
E com deferência te tratam

E até que estejas atendida 
Aparentas estar desiludida 
Sem lágrimas fazes chorinho
Capaz de tremer o beicinho 

Quando alguém te contrariar 
Tu preferes o burro amarrar 
Pois és uma fedelha mimada 
Que só quer ser apaparicada 


Provérbio provado rimado - MDCCLVI

Se não há ninguém que o faça 
Não fiques à espera de ajuda
Tens de pôr a mão na massa 
Pois senão nunca nada muda 

E quando a mão lá puseres 
Não podes voltar mais atrás 
Faz o melhor que souberes 
Não somente o que satisfaz





Provérbio provado do paraíso disciplinado

A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças. 
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.

Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia. 
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade. 
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência. 
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns. 
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:


- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno 

Provérbio provado rimado - MDCCLV

Tens de sobra uma indecisão 
Que te impede o corpo de andar 
E face a tudo tu vais hesitar 
Pois nada te corre de feição

O teu gesto é sempre o remendo 
Para compôr algum tipo de erro 
Vais malhando a frio no ferro 
Sem tirar qualquer dividendo 

Mais parece que foste enfeitado 
Dada essa orfandade de ideias 
Todavia tu tens as mãos cheias 
Só de angústias do teu passado 

Por andares na vida à nora 
A correr atrás do prejuízo 
Não decifras o que é preciso 
Para enriquecer cada hora 

Quem o que busca não sabe 
Não identifica o que acha 
E dessa forma nunca relaxa 
Por sentir que nada lhe cabe