Provérbios Provados noutras casas:

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLVIII

Tu pareces um deus grego 
Tal qual Adónis ou Apoio 
Com esta massagem ao ego 
Aproveito para te dar colo

Dizer que és bem parecido 
Está longe de ser mentira 
Mas não fiques convencido 
Por teres uma cara tão gira 

És muito bem proporcionado 
E tens uma figura invejável 
Mereces até ser idolatrado
Porém isso é pouco saudável 

Eu termino agora o discurso 
Ou senão nunca mais acaba 
E farei uma figura de urso 
Com o queixo a escorrer baba


terça-feira, 28 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLVII

O tempo é sempre o melhor
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor

Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento

Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo 


Provérbio provado rimado - MDCCXLVI

O trabalho é apenas trabalho
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes

E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque

Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida

 

Provérbio provado rimado - MDCCXLV

O Arménio é dos que não caga
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita

Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima 


Provérbio provado rimado - MDCCXLIV

Tu és um empata fodas
E nem sequer és de modas
Não te ralas se atrapalhas
Ao te intrometeres ao calhas

És a nata no meio do leite 
Não traz o que se aproveite 
Se percebes que estás a mais 
Só te vais nos instantes finais 

É preciso mostrarem-te a hora
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste


Provérbio provado rimado - MDCCXLIII

Será que ainda estás acordado
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu

E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração 


Provérbio provado rimado - MDCCXLII

Dizem que levo a peito
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração

Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira

Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério 




Provérbio provado rimado - MDCCXLI

Por seres muito jeitosa e linda
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes

Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito

Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta

Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam


Provérbio provado desafinado

A ideia nascera de uma conversa do seu defunto pai com o irmão mais velho, tio de Carlos, que ocupara o lugar de chefe de família quando o pai de ambos se finara.
 O tio Justiniano era um sapateiro à antiga, dos bons, e quando vira o irmão em palpos de aranha, sem conseguir descortinar no filho uma vocação, logo se predispusera a ajudar sem pestanejar ou sequer pensar duas vezes.
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.

Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.

Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...

Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.

Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?

Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.

Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!


- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão? 

Provérbio provado rimado - MDCCXL

Se me achas uma mais-valia 
Mas me deixas na ignorância 
Pensa assim no bom que seria 
Validares a minha importância 

E dizeres então alto e bom som
Que sou competente e que gostas
Sem qualquer lamúria no tom
De me dar palmadinhas nas costas 

Não me farias de todo um favor 
Já que esse elogio eu mereço 
Para conhecer o meu valor 
Sendo digna do teu apreço 




segunda-feira, 27 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIX

Põe o lobo mau a redigir 
Uma lei do código penal
E depressa irás descobrir 
Como defende o seu igual 

Vai mudar os regulamentos 
Para que os que devoram ovelhas
Possam estar desse crime isentos 
Não cheguem a levar nas orelhas 

É assim mesmo na governação 
Que a política é um jogo sujo 
Apadrinha quem está de feição 
E quem a concordar é sabujo

Quando alguém se faz militante
Deve estar ciente que engraxar
É postura do mais importante 
Se quiser vir um dia a liderar

Vai lambendo cus à medida 
Que sobe degraus dois a dois 
E com a ideologia esbatida
Já nem olha para trás depois 

A vaidade alheia alimenta
E defende o próprio interesse 
Faz o que o aparelho sustenta 
Indiferente ao que o povo padece 

O que aprende ao tomar partido 
É a ser tão competente a lamber
As botas de quem foi escolhido
Para que uma nação vá reger 

Faz menção de se pôr na fila 
E de ser o melhor concorrente 
Enquanto directrizes compila
Para quando ele for presidente 

Quem pela sua bitola alinhar 
Quando um dia cantar vitória 
Não se vai esquecer de engraxar 
E de novo se repete a história 

Pois sempre haverá lambe botas
Lambe cus que são engraxadores
E que assim desconhecem derrotas 
Estão no pódio com os vencedores 


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXVIII

Um embrulho às três pancadas 
Sem um laço ou uma fita rosa 
Pode esconder coisas variadas 
E uma oferta bem generosa 

Quando o gesto falha o alvo 
O bolo queima e a frase sai torta 
Fica lá fundo no peito a salvo
O carinho que afinal importa 

Não se mede o amor em moedas
Nem a amizade em perfeição 
Para combater atitudes azedas
O que conta sempre é a intenção 



Provérbio provado rimado - MDCCXXXVII

Queres sempre botar faladura 
Mesmo quando é má altura 
E fazes um discurso soturno
Seja este ou não oportuno 

Faz-te falta ter mais noção 
Do instante em que a multidão 
Já está farta do tema comprido 
Que teimas lançar-lhe ao ouvido 

Tens de identificar o momento 
Em que precisas enfim de parar
Que a plateia não está a contento 
E pouco lhe falta para bocejar 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXVI

Esta actual juventude 
Gosta muito de ajuizar 
Mas não há nessa atitude 
Muitas ganas de trabalhar 

Os velhos no fim da vida 
Querem mandar na tradição 
Mas a coisa sendo espremida 
Passa pouco de vã intenção 

Ao juntar as duas gerações 
O desfecho não é promissor 
Pois abundam tantas reacções 
Cada um quer levar a melhor 

Pretendem ter ambos razão 
Mas esse fosso geracional
Só aumenta mais a divisão 
Muito mais do que era ideal 

Têm tanto ainda a aprender 
Lenha verde e velho gogo 
O que costuma acontecer 
É muito fumo e pouco fogo 


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXV

Nem tudo o que parece sagrado 
Esconde dentro uma salvação 
E pode estar muito iluminado 
Mas o brilho é só uma ilusão 

O conceito do que é o divino 
Depende do deus que se adora 
E até um monge beneditino
Pode pôr as mangas de fora 

Há que olhar para o pregador 
E para as virtudes que sustenta 
Porque o mijo do senhor prior 
Não é composto de água benta 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXIV

Playboy de trazer por casa 
Tem lábia para dar e vender 
Não resiste a arrastar a asa
Se por ele passa uma mulher 

Seja alta baixa ou gordinha 
O macho não se faz rogado 
E vá acompanhada ou sozinha 
Sempre um piropo é lançado 

Para conversar está disposto 
Também para trocar galhardetes 
Vai rodeando o sexo oposto 
Até que elas lhe atirem piretes

Tão firme não larga a labita
De qualquer rabo de saias
A uma feia ele chama bonita 
Pois todas servem de cobaias 

Pratica um tipo de assédio 
Que chega quase a molestar 
Mesmo que lhe mostrem o médio 
Não há meio de se pôr a andar 

Nesse acto de tanta insistência 
As fêmeas respondem fugindo 
Que lhes dê o Senhor paciência 
E perceba que não é bem-vindo 

Furioso ao ser dispensado 
Vai faltar-lhes então ao respeito 
Por ficar muito ressabiado
Vai dizer que se põem a jeito


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIII

Estou farta das tuas bocas 
Das insinuações indirectas 
Se me queixo tu não te tocas
E respondes com uma careta

Vejo que te estás nas tintas 
Porque os ombros encolhes
E prossegues fazendo fintas 
Essa é a atitude que escolhes

Mas não vou perder a cabeça 
Nem me vou passar dos carretos 
Espero só que a raiva arrefeça 
Com uns truques muito concretos 

E enquanto tu fazes piadas 
Com o intuito de provocar 
Por mim elas são ignoradas 
Para ti eu estou-me a cagar 

Guarda os comentários mordazes
E as tuas alusões zombeteiras
Há pessoas que não são capazes 
De te ouvir sem perder as estribeiras 

Furiosas por serem picadas
Não aguentam tanto remoque
Tão cansadas de alfinetadas
Pode dar-lhes depois o amoque


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXII

Tu escuta os mais idosos 
Mesmo se são teimosos 
E até se forem birrentos 
Desligados ou desatentos 

Sempre a darem opiniões 
Às quais juntam palavrões 
Mas tu tenta ter paciência 
Pondo a mão na consciência 

Não sabes o que te espera 
Quando acabar a Primavera 
E deres por ti num Outono 
Enferrujado e com sono 

Por isso tu escuta o que dizem 
Mesmo que de aparelhos precisem
Está provado que o cão velho 
Quando ladra dá bom conselho


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXI

Por hoje eu fecho a porta 
Apesar da empena torta 
E por ora arrumo a caneta 
Cansada de ser uma poeta 

Mas não vou embora de vez 
Continuo a escrever pra vocês 
Aguardai e não desesperais
Prometo que amanhã há mais 


Provérbio provado rimado - MDCCXXX

Mostras a típica postura 
De quem evita a decisão 
Esperas a melhor altura 
A fim de obter projecção 

E praticas a ambiguidade 
Usas frases contraditórias
Destapando pela metade 
As sentenças obrigatórias

O teu objectivo é agradar 
Ao mesmo tempo a gente 
E por isso não vais opinar 
Se surge um tópico quente 

Pela frente apoias as frentes 
Os dois lados duma discussão 
Ao passo que tu entre dentes 
Já murmuras outra opinião 

Podem ser atitudes opostas 
Dos dois cantos da barricada 
Que ambas têm razão apostas
Considerando as duas erradas 

E por não assumires posição 
Desconheces o que é firmeza 
Vais por onde os outros vão 
Sem ter um grama de certeza 

Essa falta dum compromisso 
Aprova qualquer argumento 
E tu não és confiável por isso 
Pois te prestas ao fingimento 

Sempre a jogar nos dois lados 
Vais tentando avivar o fogo 
Assim não enterras machados 
Com esse teu género de jogo 

És daqueles que não explicam
Tão pouco jamais se revoltam
Porque vais com os que ficam 
E até esperas pelos que voltam