Provérbios Provados noutras casas:

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXXVII

Por não aguentar como eras
Pus um grande ponto final 
Nos ponteiros e nas esperas
Do relógio de ponto mensal 

A montanha russa de antes 
Que me trazia tão inquieta 
Por ser composta de instantes 
Só me deixava incompleta 

Recordo os nossos momentos 
Com o peito cheio de saudades 
Porque ao ter semeado ventos 
Depois só colhi tempestades



Provérbio provado rimado - MDCLXXXVI

Tens o teu próprio gabinete 
Onde atendes com ar de frete 
Salientando a porta aberta 
No que é afinal uma treta 

Tens a cara da esfinge de cera
Que mais impassível não era 
Do que tu com o teu ar distante 
No deserto que é o teu semblante 

E muito dificilmente delegas
Para assim dividir as colegas 
Fazendo o que te dá na gana
Que varia a cada semana 

Com tal modo autoritário 
Ninguém pode dizer o contrário 
Pois às tropas cavaco não dás 
Porque nem disso és capaz 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXV

Sempre a postos para o retrato
Tu não desejas o anonimato
Aparecendo a qualquer custo
Apesar de não teres um tusto

Como um alpinista social
Pões-te a jeito para o pedestal
Ensaiando um sorriso fingido
És um típico caso perdido

Sempre oco e deveras postiço
Apresentas um lindo serviço
Ao esconder o quão inferior
É no fundo o teu real valor

Nesse jogo sujo do espelho
Tu fazes parte do aparelho
Por seres afinal um vendido
Que gosta de ser corrompido

 

Provérbio provado rimado - MDCLXXXIV

Há um verbo muito irregular
Na nossa língua portuguesa
E nem todos sabem conjugar
O mesmo com toda a clareza

Sempre na terceira pessoa
Por pessoa afinal não ter
E não deve ser dito à toa
Se não se sabe como fazer

Também auxilia o vizinho
Se outro lhe estiver colado
Nesse caso não anda sozinho
Há-de ser bem posicionado

Se tiver o mesmo sentido
Que tem o verbo existir
É no singular proferido
Ou num erro se irá cair

Devem ter já adivinhado
A que verbo eu me refiro
Que é de usar com cuidado
Para não disparar um tiro

Para terminar o suspense
Qual é ele eu já revelarei
Por ser verbo que pertence
Como excepção a uma lei

Falei tanto do verbo haver
Como se supõe que aparece
Foi apenas para esclarecer
Se acaso dúvidas houvesse 



Provérbio provado rimado - MDCLXXXIII

O enredo já estava estudado 
Por um cérebro peregrino 
Que ordena que vá mastigado 
Como manda o bom figurino

Para que ninguém questione
O contrato que foi estabelecido 
E que de forma cega funcione
Mesmo se este foi mal parido 

É esperado que não interrogue
Que assine por baixo de cruz 
E que mais privilégios rogue 
Provando assim o que o seduz 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXII

És parecido com uma parede 
Colocada no meio do caminho 
Que a outros o curso impede 
E te torna um gajo mesquinho 

Não passas dum estorvo gigante 
Um obstáculo e até um enguiço 
Convencido que és importante 
Vais levar um chá de sumiço 

Que afinal pouca gente aguenta 
O teu modo de ser tão cretino
E nenhuma amizade sustenta
Qualquer corte se é repentino 

Então vai e não tenhas pressa 
Que o regresso não é desejado 
A tua rigidez não interessa 
E é difícil sentir-se apegado 

Talvez dessa forma aprendas
A não ser barreira inflexível 
E sem necessitar de legendas 
Te tornes num ser disponível 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXI

Tu não louves até que proves
Estes Provérbios Provados
E não lendo não me demoves
De os escrever inventados

Porque esta casinha recebe
Neuras más e boas alegrias
E quem as consome percebe
Como vão correndo os dias

Tantas vezes é a salvação
Que faz seguir com alento
Enchendo-me o coração
Quando o leitor é atento

Então meus caros amigos
Nas imagens não se detenham
Pois são apenas os postigos
As entradas que se desenham

Para os versos e para os textos
Para os mundos que eu invento
Os ditados são só pretextos
São gatilhos para o talento

Que o possuo eu não afirmo
Que a inspiração não basta
Mas acima de tudo confirmo
A matéria que é muito vasta

E assim sendo vou continuar
A escrever e a ser insistente
Pois beber da fonte popular
Não deixa ninguém indiferente 


Provérbio provado rimado - MDCLXXX

Levaste um par de patins
E um pontapé nos tintins
Perdeste de vez a coragem
Ao perceber a mensagem

Por isso tu não regresses
A implorar mais benesses
Pois já foste dispensado
E és um caso arquivado


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXIX

Aqueles que só reescrevem
Perdem todo o fio à meada
E nesse caminho perdem
A ideia como foi esgalhada

Não criam apenas retocam
Apagam e fazem diferente 
E grande chatice provocam 
Com o seu texto suplente


Provérbio provado envergonhado

Desde miúdo que era assim: introvertido e metido consigo. Nem no início da passagem para a idade adulta tinha conseguido perder o acanhamento que lhe tolhia os gestos. A sua timidez era de tal forma evidente que produzia o efeito contrário ao pretendido: dava nas vistas. 

Em redor, todos o acicatavam e lhe pediam com insistência: Não sejas tão preso, solta-te!; todos lhe asseguravam: Olha que assim não arranjas namorada, espantas a caça! ; todos lhe davam cabo da cabeça com esse Etc e tal. 
Mas o Guilherme não sabia, não podia, não conseguia, em suma, comportar-se de outro modo. As faces coravam-se-lhe mais do que uma malga de verde tinto espumoso, as mãos escorriam mais suor do que uma barragem a vazar acima da cota. 

Enfim, o Guilherme e a desgraça perfeita eram mais próximos do que o polegar e o indicador. Será um exagero? Não é um exagero. 

Ele preferia deixar que as chamadas fossem para o atendedor e a sua casa era o seu lugar favorito onde podia ler e ouvir música sem ser interpelado. O seu melhor amigo vivia lá em casa: era o gato Alfredo. Fazia a maior parte das compras na Internet para assim evitar as superfícies comerciais. E era o rei das boas desculpas que lhe permitiam contornar convites para sair. 

Como vêem, não se trata de exagero: o Guilherme era o cúmulo da pessoa envergonhada. Em nada ajudava o facto de evidenciar um acne persistente que teimava em não se despedir. Também não ajudava aquela penugem no bigode que demorava em se transformar numa barba a sério. 

E, assim, o Guilherme, com a sua cara de puto imberbe cheia de borbulhas com pus, com os seus livros, o seu gato e as chamadas por atender, perdia cada vez mais oportunidades de convívio. 



- Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXVIII

Há gente que é como dinheiro 
E escorrega tão fácil na mão 
Que merecia o fim derradeiro 
De ser retirada de circulação 

Gente falsa e sem honestidade 
Que o real se recusa engolir 
Porque dá trabalho a verdade 
E o que dela se tem de assumir 

Nessa forma de sobreviver 
Ora são crentes ora são ateus 
Capazes de jurar e prometer
Que o próprio Deus não é Deus 


Provérbio provado rimado - MDCLXXVII

Ainda mal começaste a falar 
E já estou deveras cansado 
Nunca vi ninguém chatear 
Como tu quando vais lançado 

A primeira frase começas
E logo a partir dela divagas
Em ideias vizinhas tropeças 
Enquanto o raciocínio apagas

E eu que não fiz nenhum mal 
Tenho de cumprir esta pena
Mas que seca tão descomunal 
É levar com a tua cantilena 

Repetes sem parar um refrão 
E fatigas-me tanto o ouvido 
Vai mas é dar banho ao cão 
Que o bicho fica agradecido 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXVI

Quando alguém se sente sozinho 
E insiste em ficar nesse estado 
À espera que lhe dêem colinho
O melhor é que espere sentado 


Provérbio provado rimado - MDCLXXV

Tu és giro todos os dias
Ao ver-te tenho arritmias
Os pulmões ficam vazios
Na espinha sinto arrepios

Esbelto e proporcionado
És muito bem apessoado
Pões-me a cabeça a andar
À roda sem nunca parar


Provérbio provado rimado - MDCLXXIV

As mãos fazem e desfazem
Com pouco brio ou coragem
E enquanto a direita é o gesto
A esquerda esconde o resto

Pois um lado oculto contém
A que não resiste ninguém
Nela habita o tal Satanás
Que torna o ser mais voraz

O vai devagar transformando
E a mão direita ignorando
Fica em si mesmo focado
Esquece ter sido ajudado

Só conhece a própria razão
Que concede com cinismo
Descurando que a ingratidão
É a mão esquerda do egoísmo


domingo, 17 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXIII

Para viveres bem a vida
Não tenhas a voz tremida
Diz sempre a tua verdade
Com toda a simplicidade

Quem muito quer agradar
Acaba por se enganar
Quando é falso o elogio
Quem o proferiu fingiu

Não te vendas por favor
Nem sejas um bajulador
Já que o gesto imparcial
Faz-te um ser fenomenal

Caminha de rosto erguido
Sem o olhar corrompido
Se não queres ser odiado 
Não te faças adulado 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXII

Pessoas que estão sempre sérias 
Não mostram sequer um sorriso 
A quem lhes contar certas lérias 
Pois do riso é ausente o juízo 

Nem o mais singular disparate 
Os dois lábios lhes faz descolar 
Prescindem de qualquer debate 
Antes mesmo de ele começar 

Não demonstram abertura 
Para partilhar sentimentos 
Defendendo que não é altura 
Querem estar da dádiva isentos 

Nunca oferecem de si a porção 
Que as faça ficar vulneráveis 
Transmitindo uma ideia então 
De que os outros são descartáveis 

Tal como não dão não recebem
Cada gesto de borla oferecido 
Que é grátis nem se apercebem
A indiferença é o seu apelido 

Praticam a estudada distância 
Onde abraços estão interditos 
Quem observa essa arrogância 
Julga-os humanos esquisitos

Não há réstia de humanidade 
Em tamanha atitude fechada 
Permanente indisponibilidade 
Onde a mão está cheia de nada 

Desconhecem a frase amável 
Que as palavras só boas são 
E este é argumento inegável 
Se for bom também o coração 


Provérbio provado rimado - MDCLXXI

Tu és fino que nem um rato
Parece que não partes um prato
És tão sonso que faz impressão
Ver o teu fingimento em acção

Com esse ar de jogo de batota
O teu riso depois da anedota
É postiço e é também ardiloso
Aparentas estar sempre no gozo
 

Provérbio provado encornado

Casaram na capela da terra dela num sábado de Junho, ao meio dia no pico do sol, na presença de uma centena de convidados
A cerimónia foi interminável: o padre Bartolomeu arrastou a homilia o mais que pôde, reinterpretando vagarosamente as alíneas e entrelinhas do Evangelho. Tanto prolongou a dita, que a suada audiência em desespero não lhe adivinhava fim à vista.
Foi então que o prior, raposa velha na observação da linguagem corporal dos fiéis, se dignou concluí-la, passando directamente para o diálogo antes do consentimento com as perguntas da praxe. Seguiram-se-lhe os votos. Nesse momento, tão aguardado pela plateia, os noivos uniram as mãos direitas e declararam a sua aceitação.

- Eu, Inocêncio Cornélio, recebo-te por minha esposa, Maria Teodora, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

A tímida Teodora secundou o noivo na intenção, tal como era esperado, e o padre Bartolomeu dispôs-se a finalizar a cerimónia, selando a união.

- Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu.

E, pronto, a boda dera-se sem grandes sobressaltos. Houve quem criticasse o vestido da noiva, a mesa de sobremesas e a função em geral. Houve quem bebesse mais do que a conta, chamando o Gregório para cima da fatiota melhorada. Tudo normal.

Após uma curta lua de mel, e tal como previsto no contrato, começou a vida marital propriamente dita.
Os pombinhos passaram a arrulhar num tom diferente. Já não estavam sempre de acordo. As suas questões rodeavam o orçamento apertado e a chegada dos filhos. Ao passo que o Inocêncio era poupado e queria muito ser pai de um casalinho, Teodora gostava de esbanjar e não tinha pressa nenhuma de cuidar das crias.
Rapidamente, o marido fez a leitura do cenário: a namorada fora uma, a mulher era outra. Teodora mudara como da água para o vinho. Mas o Inocêncio amava-a e tinha prometido, perante Deus e os homens, continuar a amá-la.

Comemoraram um ano de casados, comemoraram dois, e Teodora estava cada vez mais distante.
Entretanto, a notícia já corria pelas ruas da aldeia, à boca pequena. Nomeava-se o Zé Perpétuo Alfaiate, o caixeiro viajante que passara a andar mais vezes por aquelas estradas e até o filho do padeiro cujo acne da puberdade desaparecera de repente. As gentes sussuravam, desgostosas: Vai ser o último a saber, coitadinho do Inocêncio Cornélio.


- Coitadinho é corno




Provérbio provado rimado - MDCLXX

Completei cinquenta de idade 
E bem longe vai a mocidade 
Com as ideias já meio turvas 
Ainda estou aí para as curvas 

Muita lenha há para queimar 
Enquanto eu topar cá andar 
Com o corpo perto da reforma 
E a cabeça dormindo na forma 

O que me caracteriza a mente 
É a natureza intermitente 
Mas quando ela ferve e bomba 
Produz estas rimas de arromba