Caminhava devagar, trazendo, um em cada mão, dois sacos de supermercado de grandes dimensões. Parou por uns segundos à porta do prédio a ganhar fôlego. Depois da íngreme vereda que levava à entrada, teria ainda de subir mais três lances de escadas estreitas.
O Gaudêncio e as suas ideias peregrinas! Naquele corpo de homem, a palavra teimosia atingia uma nova dimensão. Era um autêntico cabeça-dura aquele seu marido, raios o partissem!
A pensar na futura velhice, ela bem alvitrara que escolhessem um prédio com elevador. Outras vozes a secundaram: o irmão mais velho dele - que agora fazia as vezes de chefe de família apos a morte do patriarca -, a cunhada Alice, a prima da cunhada, até a Dona Genoveva da tabacaria. Fora escusado. O Gaudêncio que não, que não, numa obstinação cega, e acabaram por ficar naquele terceiro andar direito, com vista para o jardim a poente e o cemitério a nascente.
As escadas rangiam com o peso dos seus joelhos que rangiam. Chegou finalmente lá acima. Bateu à porta. Esperou. Bateu novamente à porta. Ninguém. Lembrou-se então que o Gaudêncio fazia o turno da noite. Abriu então a porta com a chave e largou no pequeno hall os sacos pesados.
Sentou-se desanimada na mesa da cozinha. Fora a conta do supermercado que a abatera daquela forma. Como era possível tal soma? E nem sequer trouxera carne nem peixe... A renda daquele terceiro direito sem elevador cairia no dia oito na conta bancária conjunta. Seguir-se-ia a água, a luz, o gás e por aí fora. O que iriam comer no resto do mês?
Fechou o caderno das contas e lançou um fósforo ao fogão para aquecer água para o chá. Bebeu-o e nem se sentou no sofá a ver a telenovela. Esticou-se na cama e entregou o corpo ao sono. Afinal, após uma boa noite de sono, qualquer problema parece menor.
- A noite é boa conselheira

















