domingo, 20 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCVI
Gosta a Ana de dar nas vistas
Mas o que ela dá é bandeira
É do género daqueles artistas
Que sabem o pregão da feira
Está visto que o espalhafato
Lhe é fatia da personalidade
Para mais tem falta de tacto
Não lhe assiste a civilidade
Foge-lhe o pé para o chinelo
Quando ambiciona ter razão
E até chega a roupa ao pêlo
De quem lhe faça acusação
Provérbio provado rimado - MDCCCV
Dei casa ao pobre do Inácio
Que pedia um tecto e pão
Mas o gajo com ingratidão
Desdenhou do meu palácio
Reclamando da minha sopa
Ele disse com ar de desdém
Falta-lhe sal e brio também
Condiz bem com a tua roupa
Do meu sofá tomou posse
Fazendo do braço almofada
E de resto não fez mais nada
Como se um fidalgo ele fosse
Pedi-lhe que o lixo levasse
E quase lhe deu um enfarte
Ter trabalho não faz parte
Nem que a casa desabasse
Teimou que a sala era fria
E exigindo um aquecedor
Armou-se muito em estupor
Cheio de soberba e mania
Pareceu-me tão destituído
De vergonha e até de pudor
Não sabendo ser um senhor
Foi pobre e mal agradecido
sábado, 19 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCIV
Tu estás sempre a protelar
Com uma cara de preguiça
E já cansado ao acordar
Fazes de adiar premissa
Que a tua frase favorita
É amanhã o mais tardar
E todos vêem que é fita
Estás apenas a atrasar
Se não fazes o que queres
Não penses estar tramado
Vai fazendo o que puderes
Que assim fazes um bocado
E o que podes fazer hoje
Faz a sério e com afã
Sem lamentar o que foge
Não deixes para amanhã
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCCIII
Querida não faças barulho
E abafa já esses gemidos
Embora me dêem orgulho
As paredes têm ouvidos
Não gosto de dar barraca
Acordar todos os vizinhos
Por isso fecha a matraca
Pára com os teus risinhos
Provérbio provado rimado - MDCCCII
Diz-me com quem andas
E eu dir-te-ei quem tu és
Tens a mania que mandas
Nos rios onde há jacarés
Se tiveres por companhia
Várias famintas piranhas
Vai passar-te essa mania
Ao veres as suas manhas
Aprenderás por osmose
A teres ruins intenções
E a nova linha que cose
As tuas futuras acções
Tu serás rude e maldoso
Num gesto de imitação
Colérico e até rancoroso
Se não te for de feição
Mas se os invés imitares
Os sapos e as borboletas
Tu serás melhor se ficares
Nessas águas mais quietas
Com quem nadares no rio
Tu vais ser mais parecido
Não escolhas um desvio
Onde te encontres cingido
Afasta-te dos predadores
Que são uma má influência
E elege nos teus arredores
O que te trará sapiência
Prefere estar rodeado
De calma e de bondade
Serás mais afortunado
Por conhecer a amizade
E eu dir-te-ei quem tu és
Tens a mania que mandas
Nos rios onde há jacarés
Se tiveres por companhia
Várias famintas piranhas
Vai passar-te essa mania
Ao veres as suas manhas
Aprenderás por osmose
A teres ruins intenções
E a nova linha que cose
As tuas futuras acções
Tu serás rude e maldoso
Num gesto de imitação
Colérico e até rancoroso
Se não te for de feição
Mas se os invés imitares
Os sapos e as borboletas
Tu serás melhor se ficares
Nessas águas mais quietas
Com quem nadares no rio
Tu vais ser mais parecido
Não escolhas um desvio
Onde te encontres cingido
Afasta-te dos predadores
Que são uma má influência
E elege nos teus arredores
O que te trará sapiência
Prefere estar rodeado
De calma e de bondade
Serás mais afortunado
Por conhecer a amizade
Provérbio provado rimado - MDCCCI
Quem diz a verdade crua
Sem a máscara da praxe
Prefere ser posto na rua
Se esperarem que se abaixe
Mas a mentira é estimada
Se o antro é de impostura
Há quem bata em retirada
Por não aguentar a agrura
Para longe bate as asas
Dá assim aos calcanhares
À procura de outras casas
Onde ninguém se dê ares
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCC
Se fosse a época da apanha
E tivessem de vergar a mola
Havia de ver muita manha
Tal como no tempo da escola
Havendo batata para apanhar
Haveria desculpas aos molhos
Como forma de assim recusar
E atirar areia para os olhos
Não estaria cá tanta gente
Se lavoura fosse esta casa
Estaria vazia certamente
Depois de baterem a asa
Provérbio provado rimado - MDCCXCIX
O Luís não é bom de assoar
E é difícil alguém o levar
Porque ele é muito teimoso
Para além de ser rancoroso
Se lhe vires ranho no nariz
Deixa lá sossegado o Luís
Para não acordar o vulcão
Que vai ser a sua reacção
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCVIII
Tens algum trunfo escondido
Por baixo do que aparentas
Para teres no cargo ascendido
Enquanto desculpas inventas
Alto e bom som há quem diga
Que subiste na horizontal
Por não engolir a cantiga
Do teu esforço profissional
Provérbio provado rimado - MDCCXCVII
Diz a nossa voz popular
Com a boca cheia de fado
Habituada a só agourar
Com o bolso despovoado
Há males que vêm por bem
Repete assim muitas vezes
Embora não sobre vintém
Em nenhum dos doze meses
O mal nunca desaparece
E o bem acumula atrasos
Dessa forma o ditado parece
Negar-se a cumprir prazos
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCVI
A saudade é um abraço
Que ainda não aconteceu
No meio da falta de espaço
Que o gesto só favoreceu
E tal como aquele aperta
Sente-se bem a pressão
E fica a saudade deserta
De logo retomar a união
Que ainda não aconteceu
No meio da falta de espaço
Que o gesto só favoreceu
E tal como aquele aperta
Sente-se bem a pressão
E fica a saudade deserta
De logo retomar a união
Provérbio provado rimado - MDCCXCV
O seu nome era Frederico
Tinha alcunha de beto rico
Era tão magrinho e franzino
Desde que era pequenino
As marcas no seu vestuário
Suprimiam o ar ordinário
Mas era um dez réis de gente
Embora lhe fosse indiferente
Sem ter nunca fome de nada
Nem sopa ou sequer feijoada
E tão cheio de tédio e fastio
O seu aspecto não era sadio
Um dia caiu num desmaio
Que parecia um badagaio
Deu ao pobre do Frederico
Nessa hora um grande fanico
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCIV
Já está carunchoso o Alcino
Pois já lhe murchou a beleza
Recorda os tempos de menino
Com melancolia e tristeza
Carrega o peso dos Janeiros
Que aos anos já está rendido
Por senti-los os derradeiros
Fica o Alcino deprimido
Está com os pés para a cova
Ele sente-se feito num caco
E nenhuma surpresa é nova
Porque já é um velho macaco
É uma raposa com sabedoria
A chegar ao ocaso da vida
E o que o próprio afligia
Agora tem menos medida
Um homem entrado nos anos
A que chamam terceira idade
E tal como os outros humanos
Não dispensa a sua liberdade
Num instante está na fronteira
Foi tão rápida a vida diacho
O Alcino é como a bananeira
Que já não consegue dar cacho
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Provérbio provado fiado
Quando o Senhor Arlindo começou a trabalhar na mercearia estava muito longe de ser um senhor. Era só um miúdo pobre, de buço ralo, que tivera de fazer pela vida demasiado cedo. Fosse como fosse, sabia as letras e os números suficientes para dar conta do recado.
As suas primeiras tarefas tinham-se resumido a carregar os cestos das compras das freguesas até às respectivas casas, umas porque se queixavam de um joelho ali, outras de um ombro acolá. A freguesia apreciava a companhia e o treco-lareco daquele puto sempre tão desenrascado.
Agora já fazia parte da mobília, o Senhor Arlindo. E tinha até um tarefeiro, um miúdo à sua semelhança, que lhe fazia alguns recados.Praticamente toda a população da aldeia se aviava no seu estabelecimento, uma vez que a vila ainda distava um bom par de quilómetros e a taberna do Rufino, que vendia macarrão, açúcar e feijão a peso, não era concorrência que esse nome merecesse. O merceeiro - Lindo para os amigos - gabava-se de ter à disposição da clientela os melhores legumes e frutos da região.
As pessoas entravam na mercearia para comprar, mas também para dar à língua: havia sempre alguém com quem trocar duas de letra.
Claro que havia um rol. O Arlindo tinha um caderno que ia preenchendo com a sua caligrafia demorada e uns números muito bem desenhados.
Numa tarde quente, uma daquelas tardes em que o Verão sabe mesmo ser Verão, o Arlindo polia com desvelo a casca dos pêros Casanova que haviam chegado de manhã, quando entrou o Toninho a correr, com a boina descaída e as calças arregaçadas.
- Atão, viva, ó Lindo! Faz-me cá um farnel de queijinho do monte e um chouriço jeitoso para levar para a vinha que já vou perseguindo a hora.
O Arlindo ergueu os olhos sem pressa enquanto continuava a esfregar os pêros.
- Sejas bem-vindo, ó Toninho! Espera lá um carito que a pressa é inimiga da perfeição. Deixa-me ir buscar a faca boa.
O Toninho mirou ansioso, pelo canto do olho, os ponteiros do relógio da igreja defronte.
- Avia-te, homem! Que a Maria está à espera no tractor com uma cara de poucos amigos que até mete medo aos lobos da serra.
O Arlindo dispôs as fatias do queijo e as rodelas grossas do chouriço num papel pardo que seguidamente atou com um cordel.
- Pronto, aqui tens a merenda. São seis euros e noventa cêntimos. Mostra lá esse maço de notas!
O Toninho deitou as mãos aos bolsos, apalpou-os e encarou o Arlindo; ficara, de repente, lívido, sem pinga de sangue no rosto.
- Chiça, pá... ó colhão! Ó Lindo, por pouca sorte não trouxe o dinheiro que ficou nas outras calças que a mulher largou ao lado do tanque hoje de manhã. Olha qu'esta! Aponta aí no teu caderno, Lindo.
O Arlindo cruzou os braços desconfiado. O Toninho era bem conhecido por teatreiro e embusteiro. Mas o caderno não fazia perguntas e o dono da venda também não. Sacou um lápis bem afiado da orelha e tomou nota da parcela em dívida. As cores regressaram às faces do Toninho que lhe sorriu agradecido.
- Amanhã mesmo, quando regressar da feira da vila, trago-te o dinheiro direitinho em trocado, palavra de honra, Lindinho! E agora tenho de abalar. Não ouves a minha Maria a buzinar como uma desalmada? Já vou levar nas orelhas, olá se vou!
O Arlindo ainda lhe atirou um recado, já Toninho alcançara a saída.
- Vê lá se o teu amanhã é mesmo amanhã! O teu amanhã costuma demorar três semanas a chegar cá acima à Beira.
O Toninho deu um passo atrás para lhe devolver um sorriso maroto e a frase:
- Deus te pague que eu não tenho trocos
Provérbio provado rimado - MDCCXCIII
Se quem sabe faz a hora
E não espera acontecer
Vai lutar aqui e agora
Para além de prometer
E assim vai arregaçar
As mangas sem excepção
Para não se contentar
Ou ficar em frustração
Enquanto as duas arregaça
Não se limita a tal gesto
Põe ainda as mãos na massa
Preparado para o resto
Está totalmente a postos
Para a vida enfrentar
E então quaisquer desgostos
Não o vão amedrontar
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXCII
Foi assim a brincar a brincar
Que alguém criou a expressão
De uma macaca a procriar
Com a sua própria filiação
E além de ser um incesto
Que vai absolver o filhote
Deve ser um coito indigesto
Levar do filho no pacote
Qual teria pois sido a ideia
De expor dessa forma a macaca
Que vivia tão feliz na aldeia
Sem jamais ter dado barraca
Posso imaginar os rumores
Que nesse acto têm origem
Que andam pelos arredores
E toda a macacada afligem
É muito fácil levar à ruína
De repente uma reputação
Sem saber o que a origina
Além de um intento gozão
Então é o fim da macacada
Não está cada um no seu galho
E foi tanto barulho por nada
Que à mãe arranjou enxovalho
Com imensa piada que havia
Para exemplo de brincadeira
Lixou-se a macaca que queria
Estar à sombra da bananeira
Provérbio provado rimado - MDCCXCI
O teu narigão é enorme
Não é que seja disforme
Mas é por ser mal educado
Mete-se onde não é chamado
Por teres o nariz comprido
Tu és bastante intrometido
E vais as conversas estragar
Por as quereres antecipar
Alguém que te corte o pio
Descobre que é um desafio
Mostrar-te qual é o lugar
Onde deves a bola baixar
Haverá outro galo que canta
Apesar de tu teres garganta
Vê se encaixas que este cenário
Não são contas do teu rosário
Provérbio provado rimado - MDCCXC
O chefe dá os dias santos
E também as noites de luar
Não se comove com prantos
Se antes não os autorizar
Comanda com mão de ferro
Segurando a batuta na mão
Por não tolerar nenhum erro
Origina sempre uma tensão
Dá o bom tempo e a chuva
Tal como a entidade divina
A sua chapada é sem luva
Enquanto assim discrimina
As rédeas primeiras são suas
Ele faz andar a carruagem
Desenha o traçado das ruas
Pois é quem escolhe a viagem
Os outros têm de o seguir
E calados então obedecer
Não pode sequer omitir
Que pretende tudo reger
E assim pondo e dispondo
Dita o rumo das manobras
No meio do gesto hediondo
Alimenta o silvo das cobras
Não sabe ser a autoridade
Não basta a faca e o queijo
São sinal de arbitrariedade
E também de falta de pejo
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXXXIX
Há quem goste de aproveitar
O caos quando está pra durar
E goze a sombra dos momentos
Para assim retirar proventos
Enquanto acumulam valores
São chamados de pescadores
Que pescam em águas turvas
E sabem deitar-se nas curvas
Provérbio provado rimado - MDCCLXXVIII
São argumentos sem peso
Pois não têm sequer validade
Desde logo merecem desprezo
Só demonstram incapacidade
Se alguém se tomar de razões
Para assim defender as que dá
Nunca vai descobrir soluções
Para as razões de caracacá
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