De cada vez que tu erras
A lição que retiras é nula
Dessa forma só te enterras
Não sabes ser quem calcula
Se deparas com uma situação
Em que poderás dar-te mal
Não controlas essa tentação
De ir lá direitinho ao local
Parece que o alvo tem mel
Ou que não te sabes conter
Ao entrar nesse carrossel
Onde irás decerto sofrer
Com a cabeça toda à roda
Ficas rapidamente grogue
Ignorando onde pára a moda
Ou até que alguém interrogue
Quando a volta chega ao fim
Não resistes a entrar de novo
Mostrando-te parvo assim
Por isso eu não me comovo
Porque insustes em repetir
Aquilo que já deu errado
Teimoso por querer persistir
Só sabes chover no molhado
segunda-feira, 22 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Provérbio provado rimado - MCDXCIII
Quando no caminho resvalas
O mais certo é caíres a seguir
E por entre veredas e valas
Pensarás então em desistir
Mas cair não é só prejuízo
Pois também ensina a erguer
Levantar e subir é preciso
Para assim continuar a viver
Pouco tempo depois percorrido
Nova queda virá de surpresa
E percebes após teres caído
Que te reerguerás de certeza
Quanto mais zangado ficares
Com os saltos que traz o destino
Importância darás aos azares
Que acontecem no teu casino
Já que viver é jogar à batota
Com o medo todo disfarçado
E assim prosseguindo na rota
Somar mais horas ao passado
Tão intensa e por vezes sofrida
Oscilando entre sorte e perigo
O melhor é que gozes a vida
Porque não a levarás contigo
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Provérbio provado rimado - MCDXCII
Se tu gostas de coleccionar
Dispensa os bens materiais
Aquilo que tu deves guardar
São relíquias mais especiais
Na mente arrecada instantes
Em que então viveste a sério
Memórias mais interessantes
Para compôr o teu hemisfério
Guarda a colecção de momentos
Num dos corredores da memória
Valem mais do que testamentos
São as balizas da tua história
É somente o que tu levarás
E que deixarás em herança
O melhor do que foste capaz
Vai escrever a tua lembrança
Nem carros nem propriedades
Te darão mais propósito ao ser
Ou trarão mais possibilidades
Na estrada que irás percorrer
O melhor que tu podes legar
É a rota que foi percorrida
E não tem de ser exemplar
Ou ter só degraus de subida
E se desbarataste o sucesso
Ao olhos desta sociedade
É porque afinal o progresso
Está trocado na prioridade
Se apenas tu arrecadaste
Tens de somas a conta cheia
Foi porque apenas valorizaste
Engrossar o teu pé de meia
Mas depois no descanso final
O pé está como outros gelado
Todo o saldo fica residual
Assim não serás lembrado
O futuro no seu despontar
Enche palcos de novas cores
Do passado só vai recordar
Coisas simples e pormenores
Dispensa os bens materiais
Aquilo que tu deves guardar
São relíquias mais especiais
Na mente arrecada instantes
Em que então viveste a sério
Memórias mais interessantes
Para compôr o teu hemisfério
Guarda a colecção de momentos
Num dos corredores da memória
Valem mais do que testamentos
São as balizas da tua história
É somente o que tu levarás
E que deixarás em herança
O melhor do que foste capaz
Vai escrever a tua lembrança
Nem carros nem propriedades
Te darão mais propósito ao ser
Ou trarão mais possibilidades
Na estrada que irás percorrer
O melhor que tu podes legar
É a rota que foi percorrida
E não tem de ser exemplar
Ou ter só degraus de subida
E se desbarataste o sucesso
Ao olhos desta sociedade
É porque afinal o progresso
Está trocado na prioridade
Se apenas tu arrecadaste
Tens de somas a conta cheia
Foi porque apenas valorizaste
Engrossar o teu pé de meia
Mas depois no descanso final
O pé está como outros gelado
Todo o saldo fica residual
Assim não serás lembrado
O futuro no seu despontar
Enche palcos de novas cores
Do passado só vai recordar
Coisas simples e pormenores
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Provérbio provado rimado - MCDXCI
As palavras são o substrato
De um futuro que vai ocorrer
Quer seja o discurso abstracto
Ou concreto no que quer dizer
Sobre elas se diz que o vento
As leva a todas sem excepção
Fazendo com que o juramento
Perca assim uma real intenção
Mas apesar desse tal pormenor
Bem escolhidas fazem diferença
E até causam no interlocutor
Sensação de alguma pertença
Não deixes nenhuma estagnada
Como uma bola na tua garganta
Torna aquela que for libertada
Numa frase que a todos espanta
Já que apenas custa a primeira
E outras tantas a secundarão
Que a palavra sendo verdadeira
Suscita sempre uma reacção
Não escondas o que tu desejas
Com nuances falsas por detrás
As palavras são como as cerejas
Depois duma vem já outra atrás
Provérbio provado rimado - MDCXC
Quando os problemas ignoras
Um par de desculpas decoras
Esperando que desapareçam
De ti por milagre se esqueçam
Ao fugires dessas situações
Não irás encontrar soluções
Enterrando a cabeça na areia
Como quem o mar alto receia
Provérbio provado rimado - MDCLXXXIX
O Inácio ficou tão confuso
Ao perder mais um parafuso
Pois estes já não abundavam
Só o Tico e o Teco restavam
Não querendo mostrar-se tolinho
Nem sequer causar burburinho
Para não pôr a mulher mais fula
Ficou mudo tal como uma lula
Ao tentar passar despercebido
O Inácio foi muito atingido
Ele os pés pelas mãos meteu
E no fim mais tolo pareceu
Provérbio provado rimado - MDCLXXXVIII
A essência supera a fachada
E a imagem que é projectada
Pois quem age naturalmente
Está ao nível da boa gente
As almas que apenas parecem
Por usar máscaras esquecem
Que um dia elas podem cair
Logo a real pessoa exibir
A verdade constrói confiança
E há mais coisas que alcança
Transparência na comunicação
Passa ideias com mais precisão
Poupar na frase e não no acto
Não a gastando ao desbarato
Na acção mostrar obra feita
Vai evitar qualquer desfeita
O louvor da autenticidade
Vai potenciar a felicidade
Sem dúvida mais vale sê-lo
Do que somente parecê-lo
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Provérbio provado rimado - MDCLXXXVII
Por não aguentar como eras
Pus um grande ponto final
Nos ponteiros e nas esperas
Do relógio de ponto mensal
A montanha russa de antes
Que me trazia tão inquieta
Por ser composta de instantes
Só me deixava incompleta
Recordo os nossos momentos
Com o peito cheio de saudades
Porque ao ter semeado ventos
Depois só colhi tempestades
Provérbio provado rimado - MDCLXXXVI
Tens o teu próprio gabinete
Onde atendes com ar de frete
Salientando a porta aberta
No que é afinal uma treta
Tens a cara da esfinge de cera
Que mais impassível não era
Do que tu com o teu ar distante
No deserto que é o teu semblante
E muito dificilmente delegas
Para assim dividir as colegas
Fazendo o que te dá na gana
Que varia a cada semana
Com tal modo autoritário
Ninguém pode dizer o contrário
Pois às tropas cavaco não dás
Porque nem disso és capaz
Provérbio provado rimado - MDCLXXXV
Sempre a postos para o retrato
Tu não desejas o anonimato
Aparecendo a qualquer custo
Apesar de não teres um tusto
Como um alpinista social
Pões-te a jeito para o pedestal
Ensaiando um sorriso fingido
És um típico caso perdido
Sempre oco e deveras postiço
Apresentas um lindo serviço
Ao esconder o quão inferior
É no fundo o teu real valor
Nesse jogo sujo do espelho
Tu fazes parte do aparelho
Por seres afinal um vendido
Que gosta de ser corrompido
Tu não desejas o anonimato
Aparecendo a qualquer custo
Apesar de não teres um tusto
Como um alpinista social
Pões-te a jeito para o pedestal
Ensaiando um sorriso fingido
És um típico caso perdido
Sempre oco e deveras postiço
Apresentas um lindo serviço
Ao esconder o quão inferior
É no fundo o teu real valor
Nesse jogo sujo do espelho
Tu fazes parte do aparelho
Por seres afinal um vendido
Que gosta de ser corrompido
Provérbio provado rimado - MDCLXXXIV
Há um verbo muito irregular
Na nossa língua portuguesa
E nem todos sabem conjugar
O mesmo com toda a clareza
Sempre na terceira pessoa
Por pessoa afinal não ter
E não deve ser dito à toa
Se não se sabe como fazer
Também auxilia o vizinho
Se outro lhe estiver colado
Nesse caso não anda sozinho
Há-de ser bem posicionado
Se tiver o mesmo sentido
Que tem o verbo existir
É no singular proferido
Ou num erro se irá cair
Devem ter já adivinhado
A que verbo eu me refiro
Que é de usar com cuidado
Para não disparar um tiro
Para terminar o suspense
Qual é ele eu já revelarei
Por ser verbo que pertence
Como excepção a uma lei
Falei tanto do verbo haver
Como se supõe que aparece
Foi apenas para esclarecer
Se acaso dúvidas houvesse
Na nossa língua portuguesa
E nem todos sabem conjugar
O mesmo com toda a clareza
Sempre na terceira pessoa
Por pessoa afinal não ter
E não deve ser dito à toa
Se não se sabe como fazer
Também auxilia o vizinho
Se outro lhe estiver colado
Nesse caso não anda sozinho
Há-de ser bem posicionado
Se tiver o mesmo sentido
Que tem o verbo existir
É no singular proferido
Ou num erro se irá cair
Devem ter já adivinhado
A que verbo eu me refiro
Que é de usar com cuidado
Para não disparar um tiro
Para terminar o suspense
Qual é ele eu já revelarei
Por ser verbo que pertence
Como excepção a uma lei
Falei tanto do verbo haver
Como se supõe que aparece
Foi apenas para esclarecer
Se acaso dúvidas houvesse
Provérbio provado rimado - MDCLXXXIII
O enredo já estava estudado
Por um cérebro peregrino
Que ordena que vá mastigado
Como manda o bom figurino
Para que ninguém questione
O contrato que foi estabelecido
E que de forma cega funcione
Mesmo se este foi mal parido
É esperado que não interrogue
Que assine por baixo de cruz
E que mais privilégios rogue
Provando assim o que o seduz
Provérbio provado rimado - MDCLXXXII
És parecido com uma parede
Colocada no meio do caminho
Que a outros o curso impede
E te torna um gajo mesquinho
Não passas dum estorvo gigante
Um obstáculo e até um enguiço
Convencido que és importante
Vais levar um chá de sumiço
Que afinal pouca gente aguenta
O teu modo de ser tão cretino
E nenhuma amizade sustenta
Qualquer corte se é repentino
Então vai e não tenhas pressa
Que o regresso não é desejado
A tua rigidez não interessa
E é difícil sentir-se apegado
Talvez dessa forma aprendas
A não ser barreira inflexível
E sem necessitar de legendas
Te tornes num ser disponível
Provérbio provado rimado - MDCLXXXI
Tu não louves até que proves
Estes Provérbios Provados
E não lendo não me demoves
De os escrever inventados
Porque esta casinha recebe
Neuras más e boas alegrias
E quem as consome percebe
Como vão correndo os dias
Tantas vezes é a salvação
Que faz seguir com alento
Enchendo-me o coração
Quando o leitor é atento
Então meus caros amigos
Nas imagens não se detenham
Pois são apenas os postigos
As entradas que se desenham
Para os versos e para os textos
Para os mundos que eu invento
Os ditados são só pretextos
São gatilhos para o talento
Que o possuo eu não afirmo
Que a inspiração não basta
Mas acima de tudo confirmo
A matéria que é muito vasta
E assim sendo vou continuar
A escrever e a ser insistente
Pois beber da fonte popular
Não deixa ninguém indiferente
Estes Provérbios Provados
E não lendo não me demoves
De os escrever inventados
Porque esta casinha recebe
Neuras más e boas alegrias
E quem as consome percebe
Como vão correndo os dias
Tantas vezes é a salvação
Que faz seguir com alento
Enchendo-me o coração
Quando o leitor é atento
Então meus caros amigos
Nas imagens não se detenham
Pois são apenas os postigos
As entradas que se desenham
Para os versos e para os textos
Para os mundos que eu invento
Os ditados são só pretextos
São gatilhos para o talento
Que o possuo eu não afirmo
Que a inspiração não basta
Mas acima de tudo confirmo
A matéria que é muito vasta
E assim sendo vou continuar
A escrever e a ser insistente
Pois beber da fonte popular
Não deixa ninguém indiferente
Provérbio provado rimado - MDCLXXX
Levaste um par de patins
E um pontapé nos tintins
Perdeste de vez a coragem
Ao perceber a mensagem
Por isso tu não regresses
A implorar mais benesses
Pois já foste dispensado
E és um caso arquivado
E um pontapé nos tintins
Perdeste de vez a coragem
Ao perceber a mensagem
Por isso tu não regresses
A implorar mais benesses
Pois já foste dispensado
E és um caso arquivado
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Provérbio provado rimado - MDCLXXIX
Aqueles que só reescrevem
Perdem todo o fio à meada
E nesse caminho perdem
A ideia como foi esgalhada
Não criam apenas retocam
Apagam e fazem diferente
E grande chatice provocam
Com o seu texto suplente
Provérbio provado envergonhado
Desde miúdo que era assim: introvertido e metido consigo. Nem no início da passagem para a idade adulta tinha conseguido perder o acanhamento que lhe tolhia os gestos. A sua timidez era de tal forma evidente que produzia o efeito contrário ao pretendido: dava nas vistas.
Em redor, todos o acicatavam e lhe pediam com insistência: Não sejas tão preso, solta-te!; todos lhe asseguravam: Olha que assim não arranjas namorada, espantas a caça! ; todos lhe davam cabo da cabeça com esse Etc e tal.
Mas o Guilherme não sabia, não podia, não conseguia, em suma, comportar-se de outro modo. As faces coravam-se-lhe mais do que uma malga de verde tinto espumoso, as mãos escorriam mais suor do que uma barragem a vazar acima da cota.
Enfim, o Guilherme e a desgraça perfeita eram mais próximos do que o polegar e o indicador. Será um exagero? Não é um exagero.
Ele preferia deixar que as chamadas fossem para o atendedor e a sua casa era o seu lugar favorito onde podia ler e ouvir música sem ser interpelado. O seu melhor amigo vivia lá em casa: era o gato Alfredo. Fazia a maior parte das compras na Internet para assim evitar as superfícies comerciais. E era o rei das boas desculpas que lhe permitiam contornar convites para sair.
Como vêem, não se trata de exagero: o Guilherme era o cúmulo da pessoa envergonhada. Em nada ajudava o facto de evidenciar um acne persistente que teimava em não se despedir. Também não ajudava aquela penugem no bigode que demorava em se transformar numa barba a sério.
E, assim, o Guilherme, com a sua cara de puto imberbe cheia de borbulhas com pus, com os seus livros, o seu gato e as chamadas por atender, perdia cada vez mais oportunidades de convívio.
- Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Provérbio provado rimado - MDCLXXVIII
Há gente que é como dinheiro
E escorrega tão fácil na mão
Que merecia o fim derradeiro
De ser retirada de circulação
Gente falsa e sem honestidade
Que o real se recusa engolir
Porque dá trabalho a verdade
E o que dela se tem de assumir
Nessa forma de sobreviver
Ora são crentes ora são ateus
Capazes de jurar e prometer
Que o próprio Deus não é Deus
Provérbio provado rimado - MDCLXXVII
Ainda mal começaste a falar
E já estou deveras cansado
Nunca vi ninguém chatear
Como tu quando vais lançado
A primeira frase começas
E logo a partir dela divagas
Em ideias vizinhas tropeças
Enquanto o raciocínio apagas
E eu que não fiz nenhum mal
Tenho de cumprir esta pena
Mas que seca tão descomunal
É levar com a tua cantilena
Repetes sem parar um refrão
E fatigas-me tanto o ouvido
Vai mas é dar banho ao cão
Que o bicho fica agradecido
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Provérbio provado rimado - MDCLXXVI
Quando alguém se sente sozinho
E insiste em ficar nesse estado
À espera que lhe dêem colinho
O melhor é que espere sentado
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