sábado, 1 de agosto de 2009

Provérbio apático

O Augusto era jardineiro num palácio, um palácio verdadeiro com jardins como os de Versailles. Pertencia há muitos anos “aos quadros”, sendo como eles bolorento e por restaurar. Não seria certamente Augusto a polir-lhes brilhos doutras épocas: era um tipo que se limitava a cumprir calendário, as sebes sempre bem aparadas - isso ninguém lhe podia apontar! -, mas amorfo e sem opinião em consonância com a lusa placidez do funcionário público.

Diz que a Pousada, sim, muito bonita, a cozinha sempre impecável para os jantares de Estado, quem sabe um cozinheiro de Versailles, vêm Presidentes de outros países, que vos passe muito de fugida, senhores, a cantaria a apodrecer, os dourados todos baços, o acervo mal cuidado, mas atentem nestes jardins como os de Versailles, vejam que sebes bem aparadas, senhores!, não reparem nos quadros, estamos quase quase na reforma, chega a sexta-feira e vamos para a terra, o cabrito, o medronho e o queijo de cabra, e ála que se faz tarde, não maçamos ninguém.

- Quem vier atrás que feche a porta

Provérbio citado (PESSOA)

« (...)
É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

"Não se pode comer um bolo sem o perder."
(...)»
In O livro do desassossego - Fernando Pessoa


P.S. – Post livre de preconceitos heteronímicos, e quiçá convocando os outros todos que também habitavam nos planetas do Fernando Pessoa.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Provérbio etário

O convento ficava do outro lado da cidade, depois do rio. Nem todas as raparigas podiam ir a casa ao fim de semana; umas pela distância, outras por mau comportamento. Claro que para as que iam a casa a vigilância era quase tão apertada como no colégio, mas à segunda-feira havia sempre histórias para contar, em sussurros entrecortados por guinchinhos. Todas gostavam muito de fardas e não estamos a falar dos Pupilos do Exército.
Marisa dava-se bem com as colegas, mas com as freiras era outra história, principalmente com as que insistiam em tirar-lhe o S ao nome. Entre as de que gostava, havia a Irmã da Encarnação, espartana e moçambicana, que caminhava muito rígida e raramente falava, mas quando o fazia era sábia e concisa; a Irmã da Visitação, anafada e gulosa, que visitava regularmente as caixas de Pastéis de Tentúgal, e como não era avarenta os distribuía também pelas alunas; e a Irmã de Fátima que mais correctamente se poderia chamar Maria da Reclusão, pois só aparecia à hora da missa e não chateava ninguém.
Todos os dias havia uma aula de Educação Moral e Religiosa dada pela Irmã da Anunciação, a única que tinha um sorriso bondoso e muita paciência. Era já no ano seguinte que as alunas iriam desembocar num liceu misto, por isso não se cansava de anunciar cuidados:

- Dos quinze para os dezasseis, raparigas vós bem sabeis

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Provérbio que começa com uma promessa

Prometeu-lhe desde o início que se separava da mulher, era só até os miúdos serem mais crescidinhos, e depois é que ia ser!, com o anel no dedo e apresentada à família, mundos e fundos, o Sol e a Lua. Passaram-se dois anos e meio nisto e começou a impacientar-se, o Zé do Talho a enviar-lhe sinais, a convidá-la para jantar para lhe poder aparecer noutra roupa mais composta e limpa; a mulher do outro a desconfiar, a fazer-lhe birrinhas, ameaças parvas, chantagens com os putos pelo meio. Foi então que ele lá tomou uma atitude. Não ainda o anel, que promessas só as de Cristo, já se sabe. Primeiro montou-lhe uma loja em Espanha e em seguida alugou-lhe apartamento. Dali de Badajoz era um pulinho à fronteira e assim afastava-se o touro da arena. Mas com o passar do tempo foi deixando de a visitar, os filhos cresceram, acabaram o liceu, e o anel permanecia no dedo da outra. Um dia não apareceu mais, ela já não precisava do dinheiro dele, a loja prosperava. Toda a vida desejara ter uma loja em Espanha e olhava orgulhosa as letras pintadas na montra: “Paula Decorações”, assim mesmo, que os clientes tanto eram portugueses como espanhóis. Até já tinha uma empregada para a ajudar, era finalmente patroa.


- Vão-se os anéis, ficam-se os dedos

terça-feira, 9 de junho de 2009

Provérbios provados às crianças no Expresso

O Expresso lançou uma colecção de livros para contar às crianças os provérbios portugueses de sempre. As histórias são bem escritas, as ilustrações belíssimas, e trazem um CD com música e a narração da história.
O primeiro provérbio, lançado pelo jornal no Dia da Criança, já aqui foi provado. O segundo volume “Tal pai, tal filho”, faz-me lembrar o meu cunhado e o seu Francisco. Extremamente parecidos fisicamente, na muita criatividade, e no léxico precoce com laivos de gaguez, quando com pressa de dizer tudo de uma assentada. No próximo Sábado sairá o neo-clássico “Quem tem boca vai a Roma”, e já agora quem tem dinheiro acrescento - adorava voltar a essa cidade fascinante onde só estive por um dia.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Provérbio autobiográfico

Costumo dizer que fui concebida no "Verão quente de 75" para justificar a natureza impetuosa. Quando nasci em Fevereiro de 76, chamaram-me Margarida e, por me terem dado apenas um nome próprio, muita gente me trata por diminutivos. Na infância e adolescência fui boa aluna, muito dada à leitura e pouco ao desporto, introspectiva embora sociável, características que mantenho. Vivia em Queluz, e na idade em que se escolhe uma área do conhecimento fiquei baralhada, optei pelas ciências porque gostava muito de Biologia, embora lamentasse a perda da História e da Geografia. Mas foi a Matemática que me trocou as voltas e levou-me para o Porto aos 18 anos. O curso era de Ciências agrárias, na praça a que carinhosamente chamam "os leões",e foi o 1º de 3 cursos superiores que não terminei, isto dito assim para progredir na história. Fui tendo trabalhos temporários, pois a fonte familiar secou no meio dos devaneios estudantis, até que desisti da Fisioterapia e comecei a trabalhar mais a sério, em agências de viagens e num atelier de design, produção artística e literária. Por essa altura estive num concurso de TV, era o "Um contra todos", que na cadeira derrubava os 50 na plateia; consegui responder às perguntas e acumulei uma maquia considerável. Depois resolvi estudar, podem rir!, e tirei o curso de técnica profissional de biblioteca e documentação, fiz 3 estágios e continuo sem trabalho na área. Já vivi em família, com amigos, com quase desconhecidos, junta, sozinha, no meio dos meus sobrinhos. Gosto de silêncio quando leio e nesses momentos, como noutros, gosto do meu canto sossegado. Apesar deste aparente silêncio, quando falo, falo muito, gosto de conversar, e rio muito, mesmo nunca tendo posto o aparelho nos dentes, e fumo e bebo, e tenho a voz grave e, dizem, radiofónica. Mas não sei cantar, nem desenhar, e nunca fui atleta. Sou alta e o meu nariz é bonito. E não gosto só de ler e de provérbios, também gosto de música e de cinema. E gostava de viajar mais porque há tanto a descobrir. Tenho três sobrinhos no coração, dois livros na gaveta e um antúrio a florir num vaso, por isso acho que não vou morrer já.


- Vida gemida, vida comprida

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Provérbios provados espaçados

Sim, eu sei que tudo são recordações… e que não prometi provérbios periódicos, mas também não previ uma ausência de tantos meses!

E já em baixo segue uma história em capítulos, “repescada” dos arquivos do Ventoinha, à qual acrescentei agora o 4ª capítulo para terminar(?) a saga nupcial do Mendes.

Boa noite e bons provérbios :)

Provérbio Provado em Capítulos - I

Desde tenra idade conhecido por "filho do Mendes", a dada altura passaram a chamá-lo apenas Mendes, tal como seu pai e o seu avô antes dele. Estranhamente, nenhum tinha realmente por apelido Mendes, mas esse era um costume antigo de Vila Bela. Já o seu melhor amigo e companheiro de brincadeiras de infância era conhecido por Zé Sapateiro, negócio que nunca prosperou na família, que detinha há várias gerações uma taberna. O verdadeiro nome do Mendes na verdade não nos interessa.
O Mendes vendia enciclopédias por toda a concelhia na sua velha carrinha. Tarefa ingrata, a do Mendes, vender palavras a retalho a gentes mais habituadas às pedras e à lavoura. Nem mesmo os livros de orações e de culinária, nem sequer os mapas das colheitas, conseguiam entusiasmar a clientela. Ficavam a olhá-lo em silêncio, coçando a cabeça hesitantes, enquanto o Mendes explicava a importância das obras numa torrente de frases. Não lhes passava pela ideia gastar dinheiro naquilo e o desconforto era enorme por não perceberem o palavreado. Por isso, evitavam-no. Quando se sentia pelas aldeias o troar da carripana, logo se estendia a notícia e os largos das igrejas esvaziavam-se como que por encanto... E não fosse a proximidade com os santos, quase se poderia dizer que aparecera o diabo em forma de gente. Os homens abandonavam os baralhos e os copos três e as mulheres corriam a fechar janelas e portas, mesmo se em hora de aleluias.

- Falai no Mendes e à porta o tendes

Provérbio Provado em Capítulos - II

Como não há regra sem excepção, não é assim tão exacto dizer que toda a gente por essas terras evitava o Mendes e dele fugia como do diabo. Em Vila Bela o Mendes tinha uma cliente fidelíssima, tão bela de seu nome como a vila, que era a Belinha da retrosaria. A Belinha manifestara desde criança uma forte apetência para a leitura, mas infelizmente não houvera dinheiro na família para ela poder ir estudar para a Cidade Grande. O pai, o Tó Marmeleiro, que era alfaiate, até costumava dizer: "Tomara eu que a miúda não gostasse tantos dos livros, que havia de tornar-se uma bela costureira".
Foi assim que Belinha começou a trabalhar na retrosaria familiar e enquanto enrolava carrinhos de linhas e desfiava meadas, sonhava-se a tecer o manto do Tempo com as ninfas gregas. Grande parte do seu salário destinava-se à mercadoria da carripana do Mendes. Ele trazia-lhe livros por encomenda, desdobrava-se em ofertas de revistas e atenções. Tó Marmeleiro começou a desconfiar das constantes aparições do Mendes e do seu palavreado complicado, via como a Belinha se derretia ao ponto de falar com voz de mel e um dia, à hora de fechar a retrosaria, chamou-a à parte e disse-lhe:

- Podes casar com quem quiseres contanto que cases com o primo Manel

Provérbio Provado em Capítulos - III

Finalmente o Mendes chegou à conclusão de que com o Tó Marmeleiro não faria dinheiro. Quando muito faria farinha com a Belinha, moradora de Vila Bela. Mas só lhe restava fermentar-lhe a imaginação com umas quantas antologias poéticas e outros tantos romances de cordel para sobremesa do primo Manel. O meio era rural, mas não tão arcaico que se chegasse a vias de facto de duelos e coisas que tal, e Belinha acatava, pacata, o Conselho Familiar que, encabeçado pelo tio Fragata, deliberava a propósito da sua futura descendência. Vila Bela situava-se longe do mar e o tio era Fragata só de alcunha, pois na realidade era caçador, e apreciava nos machos mais a capacidade de recolecção do Neolítico que o fraseado do Romantismo. Indicava o primo Manel, salientando as suas qualidades de varejador na apanha da azeitona mas, adivinhando a predilecção da Belinha pelo palavroso Mendes, murmurava para o compadre Marmeleiro:

- Tenhamos a perdiz, depois se tratará do molho

Provérbio Provado em Capítulos - IV

Assegurado que estava o futuro noivado entre primos, o tio Fragata chamou a si a tarefa de investigar os predicados do Mendes, que tinha por hábito conduzir-se irregularmente pelos eixos da concelhia, passando sem remorsos das juntas de freguesia para os mais afastados montes.
Foi dar com ele numa tarde quente, alapado na carripana à sombra, suado, desgostoso: vinha da Biblioteca Municipal. Fizera a derradeira tentativa de vender as colecções caras, obras de referência luxuosamente encadernadas; mas aquela casa tão pouco convidativa, este calor e parece que chovia lá dentro, sabe?, o empregado também invernoso e a velhota num canto junto ao catálogo manual, como uma peça da decoração, tricotando as fichas numa reza de “ponto espaço traço espaço”. Se penso naquele arquivo a acumular mofo por cima do mercado de peixe, provisório desde o tempo da Maria Castanha, dá-me cá um desgosto… Suado, desgostoso, o Mendes murmurava: acho que tenho de mudar de ramo, estabelecer-me com um negócio em loja, uma papelaria, cadernos, carimbos, cautelas, uns livros e enciclopédias, claro está! E posso ter uma loja perto da retrosaria da Belinha, posso cumprimentá-la todos os dias, respeitando o seu noivado, claro está!
Ao tio Fragata deu-lhe pena do Mendes, adivinhando um futuro promissor para este homem possuído de amor. Quase comovido, pesou as virtudes dos futuros esponsais de sua afilhada e foi quando a balança lhe pendeu mais para o cheiro do dinheiro dos carimbos do Mendes que da azeitona do primo Manel. Deixa lá, até ao lavar dos cestos é vindima, e quando nos debruçarmos à vinha já és tu o noivo da prima Belinha. Descansa que eu falo com o compadre Marmeleiro:


- Um bom conselheiro alumia como um candeeiro