quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Provérbio citado (DESAI)

« Quando Sai começou a interessar-se pelo amor, começou a interessar-se pelos assuntos do coração das outras pessoas; assim, passou a importunar o cozinheiro com perguntas sobre o juiz e a sua esposa.
O cozinheiro declarou:
- Quando eu vim trabalhar para a casa, todos os criados antigos me disseram que a morte da sua avó fez do seu avô um homem cruel. Ela era uma grande dama, nunca elevava a voz aos criados. Como ele a amava! Aliás, era uma relação tão profunda que nos revirava o estômago, pois era algo demasiado grande para ser contemplado por qualquer outra pessoa.
- Ele amava-a assim tanto? - Sai ficou atónita.
- Devia amar – respondeu o cozinheiro. - Mas dizem que não o demonstrava.
- Talvez não a amasse? - aventou ela então.
- Morda a língua, sua malvada. Retire o que disse! - gritou o cozinheiro. - Claro que ele a amava.
- Então, como podiam os criados saber?
O cozinheiro refletiu um pouco, pensou na sua própria mulher.
- Tem razão – admitiu ele. - Ninguém sabia realmente, mas também naquela altura ninguém dizia nada. Mas saiba, menina, que existem muitas formas de demonstrar amor e não só à maneira do cinema, que é a única forma que a menina conhece. É uma rapariga muito tola. O maior amor é aquele que nunca é demonstrado.
(...)»

In A herança do vazio – Kiran Desai