segunda-feira, 24 de março de 2014

Provérbio citado (ISHIGURO)

« - Li no jornal que vinhas cá – continuou Geoffrey Saunders. - Tenho estado à espera de receber notícias tuas. Enfim, a perguntar-me quando aparecerias. Até comprei uns bolos na pastelaria para ter alguma coisa para te oferecer com uma chávena de chá. No fim de contas, os meus alojamentos podem ser tristonhos, em virtude de ser solteiro e tudo o mais, mas, mesmo assim, espero que as pessoas me visitem de vez em quando e sou capaz de as receber bem. Por isso, quando soube que vinhas cá, saí e comprei diversos bolos para chá. Isso foi anteontem. Ontem achei que ainda estavam apresentáveis, embora o glacé estivesse a ficar um bocadinho para o duro. Mas hoje, como continuaste sem aparecer, deitei-os fora. Uma questão de orgulho, suponho. Quero dizer, tens tido tanto êxito que não queria que partisses a pensar que levo uma vida miserável num quarto alugado, apenas com bolos velhos para oferecer. Por isso, fui à pastelaria e comprei bolos frescos. E arrumei um pouco o meu quarto. Mas não apareceste. Bem, acho que não posso censurar-te. (…) Aconteceu que tive pouca sorte ao amor. Uma data de gente desta cidade julga que sou homossexual. Só porque vivo sozinho num  quarto alugado. A princípio importei-me com isso, mas agora já não. Muito bem, tomam-me erradamente por homossexual. E depois? Sucede que as minhas necessidades são satisfeitas com mulheres. Tu sabes, daquelas a quem pagamos. Perfeitamente adequadas para mim, diria mesmo que algumas delas são pessoas muito decentes. Mesmo assim, passado algum tempo, começamos a desprezá-las e elas começam a desprezar-nos. É inevitável. Conheço a maioria das prostitutas desta cidade. Não quero dizer que tenha dormido com todas elas. De modo algum! Mas conheço-as e elas conhecem-me. Cumprimento muitas delas com uma leve inclinação de cabeça. Se calhar, pensas que levo uma vida miserável. Mas não. É tudo uma questão de como vemos as coisas. (...)»

In Os inconsolados – Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 12 de março de 2014

Provérbio esbelto

Devem conhecer uma Daniela como esta, uma ainda adolescente que se julga já mulher. A bem entender, Daniela é curvilínea e alta q.b. para ser confundida com uma menina. Nem deixa que a confundam: é moderna, gosta de moda, e pesquisa pela internet e pelas revistas as tendências. O que vestir torna-se um tema importante do dia em demasia. A escola é uma chatice, um enfado, uma seca completa, um revirar de olhos quando se lhe pergunta como vai a dita; mas é pelos seus corredores e pavilhões, numa passerelle maravilhosa, que Daniela desfila com as amigas para deixar mostar as fatiotas em todo o seu esplendor. Sabem de cor o que envergam as suas estrelas favoritas em ocasiões supostamente importantes – por estrelas entenda-se uma amálgama de modelos/actrizes, umas mais cadentes que outras. Gostariam de ser/vestir como elas e, não tendo tal dinheiro nunca suficiente, vasculham lojas atafulhadas de roupa desarrumada com a música a tocar muito alto, para tentar encontrar peças parecidas e principalmente muito mais baratas. Daniela e as amigas fazem gala de passar horas em preparação de festa: quando chegam então e tão excessivamente maquilhadas parecem ter pelo menos mais dez anos.
Devem conhecer uma Daniela como esta, nunca leu um livro – só os resumos – porque a informação está toda na net; aliás, os livros são, tipo, uma grande seca. Sobra-lhe assim o tempo para o que é mais importante para ela, Daniela: navegar pelo Livro das Caras e dos Instantes, onde vê o que interessa/supõe que os seus 847 amigos gostam, onde estão e a fazer o quê e porquê, e as coisas/pessoas que fotografam. Daniela tem a sua página onde se apresenta viçosa e vivaça, em calções curtos e tops de renda no Inverno. Nas fotografias tem os lábios muito pintados e é espalhafatosa nos comentários. Talvez um conflito de informação numa idade tramada, Daniela conseguiu publicar uma destas fotografias com a frase menos moderna de sempre:

- O que é bom é para se ver