sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Provérbio provado cansado

De Samuel podia dizer-se que terminara a Quarta Classe com distinção, se estivéssemos a falar doutros tempos. Saltemos, porém, umas décadas adiante e digamos que se encontra no Ensino Básico 2, que também já teve o nome de Ciclo Preparatório.
Contrariamente ao que pode deixar supor o título e a introdução, o Samuel é um menino enérgico, moderno, que tecla como quem escreve, uma espécie de cromo adepto da ginástica física e mental. Traja-se na moda e é popular - os óculos míopes não dão azo a alcunhas: os outros rapazes tomam-no por desportista bom aluno e não por o bom aluno desportista.
Contrariamente ao que pode deixar supor o parágrafo anterior, não vamos contar o primeiro amor do Samuel pois ainda não se tomou de amores verdadeiramente, se estivéssemos a usar expressões doutros tempos.
Adaptou-se bem à passagem da sua querida, já tão no passado, velha professora Eugénia – reformada mesmo no fim do seu primário, mortificada pelas reduções do salário provocadas pela Crise -, para passar a ter vários professores divididos por temas.
Corre-lhe então ao Samuel a vida particularmente bem no meio estudantil em que se movimenta, não fosse uma coisa que o atormenta: detesta trabalhos de grupo. Claro que Samuel nunca o diz, só às vezes à mãe, única pessoa passível de ouvir coisas destas sem o julgar por egoísta, demasiado ambicioso ou pouco generoso com os colegas, as mães compreendem estas coisas e os colegas não.
Quando surge um trabalho de grupo logo se impacienta, normalmente tem azar nos cooperantes que lhe calham em sorte: isto de ser popular tem as suas desvantagens. Combinam em casa de alguém, cortam frases dos motores de busca à toa enquanto enviam sms à toa, e deixam o trabalho todo para o bom do Samuel. Porque o Samuel nessa tarde prescinde dos treinos do futebol porque se recusa a apresentar um trabalho à toa. Não assina Samuel Silvestre à toa, mesmo que os outros nomes só estejam para ali para enfeitar. É sempre assim nos trabalhos de grupo, fica depois só e não aproveita quase nada da sessão de trabalho em comum. Então dedica-se, pesquisa referências na internet, mas principalmente em enciclopédias, vai à biblioteca se preciso; em suma, cansa-se.
No dia da entrega dos trabalhos, os colegas olham meio apalermados para o resultado e tomam os louros, reconhecidos:

- Cansa quem dá, não cansa quem toma

Provérbio citado (ASSIS)

«
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar… (…)»

In Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis


P.S. – Post livre de preconceitos de citação, e quiçá acrescentando o início do capítulo seguinte – para provar que nem tudo é provérbio:
«
Talvez suprima o capítulo anterior; entre outros motivos, há aí nas últimas linhas, uma frase muito parecida com despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro.
(…)»

sábado, 11 de setembro de 2010

Provérbio faminto (2 em 1)

A Maria da Aparecida vivia obcecada pela comida. Acordava a pensar no pequeno-almoço, e só depois de com uma lauta ceia saciada é que se achava deitada.
Além das diabruras do filho adolescente com nome bíblico, todas as suas conversas versavam sobre o verbo comer, usado sempre como substantivo. E se gostava de conversar a Aparecida! – assunto de boca era tudo na vida.
Repetia incessantemente que era necessário comer para poder trabalhar bem, para descansar bem, para pensar bem, acompanhando as frases com bolachas que devorava a cada pausa que encontrava. E continuando de vezada a maçada, descrevia ao ínfimo pormenor o jantar do dia anterior: como a cebola tinha descascado para o refogado, o frango desfiado ou na maionese havia pecado. Sim, porque a Aparecida queria emagrecer mas não conseguia e rejubilava secretamente quando reparava nalguma das colegas a engordar, elogiando-as por estarem com “um ar mais saudável”.
Como almoçava sempre no local de trabalho, na pequena sala equipada de micro-ondas, aborrecia toda a gente com o tema costumeiro: as saudades que tinha dos petiscos da sua ilha que às vezes os familiares lhe enviavam; ai, que boa que estava a comidinha!, e como era uma dádiva de Deus. A Maria da Aparecida era testemunha de Jeová por isso rejeitava a Santíssima Trindade e nem lhe falassem em santos. Caso contrário, seria um santo do Comer o da sua devoção e até lhe dedicaria um altar pagão. E se acaso gostasse de ler algo mais além dos seus folhetos evangélicos para a digestão, o título Comer, orar, amar era decerto da sua predilecção.
Pela tarde a Aparecida aparecia à hora do lanche para cobiçar o que estavam comendo as colegas, pedia “dentadinhas” sem qualquer vergonha, e fazia-se convidada para as acompanhar ao café onde apontava com gula as vitrinas para que lhe pagassem um bolinho.
E ao fim do dia, à saída do trabalho, encaminhava-se directamente ao supermercado, não sem antes mencionar o que iria comprar para o jantar, toda bem-disposta.

- Cada qual come do que gosta


P.S. – Post livre de preconceitos de decisão, e quiçá adicionando outro provérbio que muito me “deliciou”:
- Barriga cheia toda a noite rabeia, barriga vazia não dá alegria

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Provérbio em saldo

São os saldos a findar e as meninas a aproveitar, as lojas a esvaziar para dar lugar à estação que vai chegar.
E eu sempre pouco a lucrar, que não sou de modas nos dois modos da expressão: tanto no dizer o que me vai na real gana sem tento na língua, como no pouco de montras investigar.
Só procuro quando necessito disto ou daquilo outro (e o meu precisar é parco, pois estimo as peças que tenho porque as adquiri com prazer), e o passo até ao provar segue apenas a direcção de um número. Se não há o 38, e dos pés ao chapéu estamos a falar, nem me digno experimentar. Podem vir as senhoras das lojas: “Olhe que…” ou “Tenho também aqui…” – é escusado, perda de tempo; desejo distância de cubículos, repletos de cabides e opinião alheia, mesmo sabendo que em tempo de saldos não se limpam armas e o 38 sempre escasseia.
Claro que por este teimoso precipitar faço compras menos boas, mas saio de sorriso no rosto, como se regressada da feira carregada de sacos de enxoval. Por isso em tempo de saldos às vezes sou pouco sensata:

- Achou a chita barata, comprou saia e bata

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Nazaré, 1 de Janeiro de 44 - A gente deve lançar a âncora numa praia verdadeira - disse-me hoje um pescador.
»

In Diário, Vol. 3 – Miguel Torga

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Provérbio para uma amiga

Não desejando tirar cores e sabores a outras amigas, a Marta é especial.
Descobri há tempos um provérbio e cheguei a sugerir-lhe que mo escrevesse “por encomenda”, e sendo uma pessoa discreta, não se escusou de todo mas também não exultou propriamente. É essa uma das características da Marta: tem uma fleuma muito calorosa, passe a contradição. E sendo ela discreta, abster-me-ei de discorrer aqui sobre as suas extraordinárias virtudes, o seu admirável apego à vida sem dramas, oferecendo lições de borla aos mais atentos sem no entanto se tornar pedante ou querer vender as suas ideias.
A Marta canta muito bem, é extremamente afinada e tem um timbre jazzístico que muito me agrada. Para além disso, tem uma capacidade de improviso fabulosa; e entre outras, recordo com particular carinho a sua versão do Summertime em português, da qual me lembro apenas de frases soltas, se calhar trocadas pela memória:
" É Verão (…) e o algodão está crescido / O teu pai é riii-co e a tua mãe é bem boa / Por isso, querida, não chores mais… "

E se recordo a tua voz maviosa, recordarás decerto o meu pânico com o regime de contrato da função pública. Por isso acontece, querida Marta, e sem lágrimas, que te devo já vai para um ano um jantar. Planeio encher-te o estômago e o fígado de agradecimentos, e no fim terás de fazer jus ao provérbio que não quiseste escrever:

- Bem canta Marta, depois de farta

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 10 de Setembro de 1942 – É fantástico ver o impudor com que este meu amigo mente! E é fantástico ver também, com que bonomia, numa terra de intolerantes como a nossa, este pequeno pecadilho nacional é tolerado. Mas, pensando bem, é natural. Na casa onde não cabem grandes janelas, cabem sempre pequenos postigos…
»

In Diário, Vol. 2 – Miguel Torga

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 – Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.
…Quinto – a sede de amor absoluto que me devora;
Sexto – o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço. Absolvido.
Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo?
Porque não. Porque um homem não se escreve.
»
In Diário, Vol. 1 – Miguel Torga


P.S. – Post livre de preconceitos virtuais, e quiçá supondo que os Diários do Torga se tornariam no melhor blog português, fosse ele um contemporâneo entusiasta da Internet. Apenas desconfio que não seria adepto das redes sociais…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Provérbio a gosto

Há muito que se sentia confortável com a inexistência das mulheres na sua vida. Esse comedimento reflectia-se numa redoma implacável por saber que, ao menos uma que deixasse aproximar-se, viria desnortear a sua linha de pensamentos já tão precária e o afastaria dos projectos que queria a brotar apenas da sua fonte identitária. Assim o faziam as mulheres, mesmo sem intenção, imiscuindo-se aos poucos nos sonhos de um homem e aí tomando raízes. Resolvera-se evitá-las então, permanecendo vigilante no seu propósito, mas a decisão não o impedia de por vezes experimentar uma certa insatisfação.

Foi numa esplanada toda virada aos salpicos do mar que sentiu espalhar-se-lhe pelo corpo devagar uma sensação julgada desaparecida. Era uma tarde muito azul desse Verão tão denso de incêndios por todas as partes. E na sua pele um incêndio também, devastando áreas secas como se mato por desbastar. Foi nesse Verão tão incendiado e espesso de suor que tomou o antídoto do que já não sabia do amor, experimentando um vasto número de mulheres. Só um número nesse Verão, com o mero fim de serventia: o de se aclimatar de novo às mulheres, para vingar todas as que entretanto não lhe haviam interessado e que lhe tinham passado ao lado como um sobreiro descascado.

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Provérbio doente

O António era um hipocondríaco dos sete costados, com eles todos bem colocados para mal dos seus pecados. Um médico de clínica geral para os atestados, mais o dentista, o reumatologista, o endocrinologista, o urologista e outros mais não identificados.
Naquela clínica que oferecia todas as especialidades era sobejamente conhecido, e não apenas pela psicoterapia semanal, pelo constante fazer/levantar exames, indagar por horas de consultas e querer experimentar médicos novos – para ouvir uma segunda opinião, frase que na sua boca se tornara um chavão.
Administrativos, radiologistas, médicos e pessoal das limpezas sem excepção, repartiam-se em frases já rotineiras:
- Bom dia António, em que posso ajudá-lo?
- Olá António, então veio para marcar uma consultinha?
- Boa tarde António, ora por cá de novo, não é verdade?
Na verdade, António não tinha nada de grave. Aqui e ali um valor nas análises normal para a idade. E o psiquiatra continuava a receitar-lhe benzodiepinas porque um aperto no peito não o deixava dormir.

- Nem com cada mal ao médico, nem com cada dúvida ao letrado

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Provérbio com preço

Enviaram-me este texto em formato de diálogo para o e-mail e desconheço a sua autoria, mas achei-lhe graça e lembrou-me imediatamente um provérbio, como não podia deixar de ser :)


Os carros, as SCUTs, o Contribuinte e o Estado‏

Contribuinte - Gostava de comprar um carro.
Estado - Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte - Já escolhi tenho que pagar alguma coisa?
Estado - Sim. De acordo com o valor do carro (IVA)
Contribuinte - Ah. Só isso.
Estado - e uma "coisinha" para o por a circular (selo)
Contribuinte - Ah!
Estado - e mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule (ISP)
Contribuinte - mas sem gasolina eu não circulo.
Estado - Eu sei.
Contribuinte - mas eu já pago para circular.
Estado - claro.
Contribuinte - então vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado - também. mas isso é o IVA. o ISP é outra coisa diferente.
Contribuinte - diferente?
Estado - muito. o ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte - porque existe?
Estado - há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petroleo. e você paga.
Contribuinte - só isso?
Estado - Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte - como assim?
Estado - Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte - para o estacionar?
Estado - Exacto.
Contribuinte - Portanto pago para andar e pago para estar parado?
Estado - Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte - Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.
Estado - Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte - Novo?
Estado - é que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte - Pago para você ver se pode cobrar?
Estado - Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte - Mais uma coisinha?
Estado - Para circular em auto-estradas
Contribuinte - mas eu já pago imposto de circulação.
Estado - mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte - Só mais isso?
Estado - Sim. Só mais isso.
Contribuinte - E acabou?
Estado - Sim. Depois de pagar os 25 euros acabou.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros que custa pagar para andar nas auto-estradas.
Contribuinte - Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado - Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros é quanto custa.
Contribuinte - custa o quê?
Estado - Pagar.
Contribuinte - custa pagar?
Estado - sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte - Pagar custa 25 euros?
Estado - Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte - Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado - Imagine que um dia quer...tem que pagar
Contribuinte - tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado - Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte - E se eu não quiser?
Estado - Paga multa.


- Paga o justo pelo pecador

terça-feira, 20 de julho de 2010

Provérbio açucarado

Óscar pertencia àquela linhagem de homens que sabem como falar com as mulheres. Dominava com habilidade a arte de as fazer sentirem-se únicas pois sabia mimá-las com precisão. A sua popularidade residia por isso mesmo no facto de lhes dizer exactamente o que gostariam de ouvir sem exageros; aliás Óscar nunca mentia: por exemplo a uma mulher muito bela podia atirar-lhe confortavelmente com o adjectivo linda ou sexy sem lhe achar desconfiança, mas por outro lado a outra menos favorecida pela natureza os atributos interessante, meiga, ou até fofinha – numa versão menos abonatória, mas igualmente eficaz - funcionavam sempre bem.
Por ser bem-falante e muito observador, controlava com mestria a arte do flirt; mas não exactamente com o intuito de chegar a vias de facto, já que Óscar era casado e muitas das vezes também o eram as suas interlocutoras. Um homem de duas caras, de vários bonés? Talvez não…, o que o movia era um altruísmo todo ele dedicado a tornar com elogios o género feminino mais feliz e uma certa vaidade pessoal quando lia nos olhos delas o reconhecimento.

- O que é doce nunca amargou

domingo, 18 de julho de 2010

Provérbio bocal e boçal

Quando pela primeira vez estabeleci contacto com Madalena ela estava integrada num pacote com cerca de vinte caras novas, e como tal não me apercebi imediatamente que era uma personagem digna de figurar num romance. Mas certa de que com ela tenho de conviver diariamente, estacionei facilmente nessa conclusão ao cabo de mais ou menos uma semana, posição em que permaneço e donde me parece difícil que me arrede; resta perceber se o mencionado romance satírico, se trágico, se talvez e apenas só cómico e digno até de algum dó.
Madalena é totalmente destituída de modos e cordialidade, vira a cara para não dar os bons-dias, é rude para quem com ela trabalha, mais brusca ainda no atendimento ao público. Colecciona reclamações no livro que lhes é destinado sem aparente remorso. Madalena come de boca aberta, mesmo quando fala, e nunca a fecha em nenhuma ocasião, é capaz de passar horas a arengar: se enfrenta o computador implica com o rato e trata o teclado à cacetada. Se tem que solicitar algo desconhece a expressão “se faz favor” e não a remata com um “obrigada”. Aliás, Madalena não fala, grunhe; não pede, cospe.
Nem toda a gente tem a mesma opinião de Madalena, há que conhecê-la, há que compreendê-la, dizem-me. Vejo-as aos dois beijinhos logo pela manhã e cheira-me a um afecto conquistado à custa de muitos anos de convívio forçado. Talvez lá chegue um dia, toda a gente com a sua atrabile, os seus dias mais biliosos, há que conhecer-me também, mesmo a Madalena que afirma que nunca mudará por ninguém.
Para já, Madalena detesta-me com a sua forma de repulsão muito visceral, só me dirige a palavra quando me apanha em falta para me rezingar algo como “a menina quando não sabe, pergunta”. Como se eu lhe fosse perguntar alguma coisa, tenho medo que me acerte num olho…

- Pela boca morre o peixe

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Provérbio improvável

Conheci Mariana através de uma amiga numa época em que eu estava, por assim dizer, “em alta”. Nessa altura a vida corria-me aparentemente muito bem a vários níveis, e sendo Mariana uma pessoa dada a aparências interessou-se por mim.
Embora não seja este o provérbio a provar, é sabido que as aparências iludem, mesmo a própria realidade a que vamos chamando vida a cada momento.
Fosse então por eu erradamente lhe transmitir essa impressão, fosse Mariana impressionável ou até interesseira, convivemos algumas (poucas) vezes nessa espécie de turbilhão devaneador em que eu vivia. As solicitações eram despropositadas e desproporcionadas à confiança que não existia; e assim que Mariana começou a perceber que não encaixava nos seus padrões de camarilha, deixou bruscamente de me convidar. Posso adivinhar que não possuísse tão elevados preceitos sobre o que está ou deixa de estar na moda, que não encaixasse nos seus hábitos de vida mais saudável, posso até suspeitar que deixei de lhe interessar quando percebeu que eu estava afinal, por assim dizer, “na mó de baixo”.
Praticamente todos os conhecimentos em cadeia dessa época, tal como do nada surgiram, logo se desvaneceram, falíveis e perecíveis. Isto incomodou-me até perceber que as pessoas querem que nos pareçamos com quem imaginaram que somos, ou talvez até – e indo mais longe – eu mesma me quis parecer com aquela com quem me queria parecer, sendo essa eu mesma.
E para não continuar em discurso circular, e me aproximar perigosamente do vão filosofar, nem sempre é amigo da verdade, o provérbio que hoje vim provar:

- Amigo do meu amigo, meu amigo é

Provérbio provado num poema atrevido

«Primeiro é abraçá-la e apalpá-la,
e num instante com beijos entretê-la.
Primeiro é provocá-la e encendê-la,
depois lutar com ela e derrubá-la.

Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.
Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.

Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce dá fome verdadeira.

Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira


Anónimo ( Séc. XVI )
Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro


P.S. – Post livre de preconceitos moralistas, e quiçá assinando-se anónimo para não ser lançado à fogueira junto com o verso.

domingo, 16 de maio de 2010

Provérbio sonolento

Quase uma da manhã e ainda passa o 113 para Belém quase cheio. Ainda passa o autocarro do Alegro quase cheio de pessoas quase tristes, ensimesmadas. Passam táxis contornando a rotunda, ligeiros como cruzeiros. Um movimento excessivo pela noite fora.
Os carros insistem em estacionar em transgressão, ainda que vários lugares legais disponíveis. Deles saem raparigas de ar enfastiado, transidas de um frio mal disfarçado, corpinho bem feito, transportando telemóveis de última geração, sempre colados à mão que transporta a mala. É engraçado como todas as idades aderem a estes telefones e o manusear constante, talvez na esperança de serem eternamente considerados a “última geração”.

Tudo isto como se espreitasse na minha janela num dia de insónia, mas tudo mentira: há muito que passeio pelo terceiro sono, depois da habitual e criteriosa aplicação do gel para as varizes e do creme para as mãos gretadas pelos detergentes, a minha última rotina da noite na solitária paz doméstica. Já quase a meio do mês e o senhor arquitecto sempre a atrasar o cheque, com ar de gozão: “Deixe lá, Guilhermina, mais cedo o recebe, mais cedo o gasta…”. Não fossem os poucos estudos e as contas para pagar, eu dizia-lhe das boas…

- Quando a desgraça dormir ninguém a desperte

Provérbio lupino

- RETIRADO DO COISAS QUE TAL -

Acordava nessas manhãs de Inverno sentindo-se um pouco Lobo das Estepes. Nas horas do despertar julgava-se muito mais Lobo, soltando breves grunhidos. Mas depois durante o dia achava-se deprimido, oprimido até, quase soterrado pela ideia humana que de si fazia. À noite esse lado lupino regressava mais evidente, quase a arregaçar os caninos, e piorando com a madrugada. Como que arriscaria esboçar umas quantas teorias sobre o binómio homem-lobo, não fosse o facto de ainda estar a meio do livro. Nessas manhãs estugava o passo a caminho da estação de comboios do subúrbio e, na viagem, o livro adormecia na pasta enquanto a barriga repousava no cinto. À noite se tivesse sorte, encontraria melhor companhia para a almofada que o Hermann Hesse. Se tivesse sorte... e desde que não dissesse à jovem rapariga diante de si: " Pois, sou eu. Sou uma pessoa que tenho metade de homem e metade de Lobo, ou que julga ser assim."

- Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele

Provérbio citado (VERÍSSIMO)

«(…)
- Meu caro Cel. Vacariano, o senhor ouviu o meu discurso. Se eleito, pretendo seguir à risca tudo quanto tenho prometido ao povo durante esta campanha memorável.
- Pois é, mas as pessoas quando chegam «lá em cima» em geral mudam, esquecem as promessas feitas nos discursos e nas entrevistas. Noutras palavras, tenho medo de que o senhor atire a sua vassoura para um canto e não varra a casa.
- Pois é, coronel, se o senhor pensa assim vai ter uma surpresa. Pretendo usar a vassoura, e com muito vigor. Agora, o meu caro amigo pode discordar de mim na definição da palavra «sujeira». O que me parece sujo pode parecer-lhe limpo e vice-versa. Mas de uma coisa pode ficar certo: no meu governo não pretendo ter compadres nem afilhados. Pensarei com a minha cabeça, governarei com as minhas ideias e os meus ideais, serei senhor da minha vontade. Não tenho compromissos com partidos políticos ou grupos económicos ou financeiros.
- Pois se assim é, não temos motivos para apreensões… não é? Mas eu gostaria que o senhor me fizesse uma promessa, agora.
A coisa soava como um pedido de pagamento adiantado por um apoio eleitoral.
Jânio mirou longamente o dono da casa e depois ergueu-se:
- Meu amigo, nenhum candidato que se preze pode fazer a quem quer que seja promessas particulares de ordem política, financeira, económica ou de qualquer outra natureza. Meu compromisso é com o povo brasileiro, não só com os que me elegerem como também com os que votarem contra mim.
- O senhor pode me achar desconfiado, doutor, mas aqui na fronteira temos um ditado muito bom:

O diabo sabe muito mais por velho do que por diabo.
(...)»

In Incidente em Antares – Erico Veríssimo

Provérbios provados espaçados – II

Trago sempre um provérbio no bolso mas quase nunca no blog. Pelo menos não nos últimos meses. Que me perdoem os que como eu gostam de provérbios ou aqueles que gostam de os ver provados nas curtas histórias que imagino.
Por falar em inventar descobri um livro curiosíssimo de nome Provérbios pós-modernos, que foram mesmo criados pelo autor, e que achei delicioso. Nas suas palavras na nota introdutória, Tomás Lourenço, antropólogo, justifica-se desta forma: «(…) estamos numa sociedade aberta (…), permeável à tradição, mas também sujeita ao processo e aculturação global, onde não há limitação para a evolução das técnicas e da criatividade. Assim, limitei-me a inventar os provérbios a que chamei de pós-modernos, porque se inserem na pós-modernidada cultural, e numa sociedade pós-industrial. (…)» [p.9]
A devida reverência ao autor que idealizou estes provérbios capazes de proporcionar fartas gargalhadas. Doravante passarão a figurar alegremente neste blog, paredes meias com os provérbios mais ancestrais e dos vários cantos do mundo.

Bom Domingo e bons provérbios :)