quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Provérbio citado (MÁRAI)

« (...) A Kristóf podia confiar-se tudo. Não era preciso convencê-lo de nada, pois, desde a mais tenra infância, estava imbuído dos princípios que norteiam o entendimento da vida social. O velho juiz  sabia que também Kristóf queria salvar a sociedade - não era necessário discutir isso com ele, a tal ponto o entusiasmo, a fé e a convicção emanavam da sua pessoa, de cada uma das suas palavras. Poder-se-ia confiar-lhe a sociedade... Mas o velho juiz observava o jovem juiz num ar de reflexão crítica, atrás da cortina de fumo do cigarro. «Tem o seu excesso de formalismo» pensou. «É pura correcção. Nunca o vi com uns copos, nunca lhe ouvi uma palavra descuidada.» O juiz estava quase nos setenta, já vira muito, vira a nudez moral dos homens, pior do que a nudez física, e julgava conhecê-los. Observava a «correcção» de Kristóf com uma certa preocupação. «Só se cuida assim quem se vigia.» (...)»

In Divórcio em Buda - Sándor Márai

sábado, 15 de outubro de 2016

Provérbio incontestável

Na primeira, mesmo logo na primeira vez, acho que não correu lá muito bem. Foi tudo às apalpadelas, com pouca luz, tacteando a medo: um receio muito vivo de poder chocar sensibilidades, os lábios juntando-se hesitantes na dança envergonhada dos corpos. Nem a eito, nada feito.
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.

- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Provérbio citado (LUÍS)

« (...) Criava simpatias entre a criadagem; armada em conselheira, ouvia, toda saturada de lógica e espírito piedoso, as práticas das serventes rebeldes. Por elas, conhecia o escândalo de alcova, as misérias domésticas, as longas histórias de família, que os interesses faziam de uma sordidez de viela. Toda a escorralha podre e inútil daquela burguesia cujos nervos amoleciam na fartura, cujo orgulho não era mais que um histerismo de populaça que se embriaga e se rebola em colchões de plumas, ela a sepultava na sua alma, colocando-lhe por cima um sinete de sigilo, à semelhança dos campónios que, depois de uma catástrofe, duma batalha, encontram os vasos do templo e os enterram para não serem culpados de violarem coisas sacras. - «A prudência é a mãe dos pequeninos» - costumava dizer. (...)»

In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Provérbio sortudo

Quando nasceu já trazia um sinal dourado no meio da testa, o que fazia prever um futuro auspicioso. Nascendo assim com o cú todo viradinho para a lua, teve uma infância sem cuidados, sem resfriados, mente e espírito sincronizados, uma família funcional e compreensiva, pais companheiros e jardins soalheiros.
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.

- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece