quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Provérbio citado (LAHIRI)

« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».

In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri