domingo, 21 de junho de 2015

Provérbio provado viajado

Começou por dizer que nasceu numa aldeia remota, onde só não havia mais miséria porque todo o país vivia na miséria. No final da década de 40, nove aninhos acabados de completar, partiu num transporte marítimo com destino a Lourenço Marques. O que terá motivado essa decisão, que empurrão precipitou tais circunstâncias, o que levou uma criança tão pequena a embarcar sozinha numa viagem tão penosa?

- Oh, por essa altura já eu era um adolescente – respondeu, sem mais adiantar de razões e pormenores.

Contou-me então do dia em que resolveu mudar de nome, uma novíssima identidade para fugir de justiças novas e chaminés velhas.

- De repente, nesse momento, parece que passei a ver tudo de um modo completamente novo. Aí, senti que ia começar de facto a minha grande viagem. Mas conservei o antigo bilhete português, por se acaso algum acaso...

- Foi aí que iniciou as suas travessias por África? E qual era o plano? - encaminhei a conversa para a história que me interessava.

- Foi, sim. Eu não tinha nenhum caminho traçado em mente. Parti de Moçambique para o que era então a Rodésia, hoje Zimbabwe, e daí para a África do Sul. Depois pela Namíbia, direito a Angola, e assim resolvi ir subindo a costa atlântica. É engraçado, sabe, quando estive em Marrocos podia ter regressado ao Portugal natal, mas decidi continuar a contornar África pelo Mediterrâneo com destino ao Egipto, pareceu-me mais interessante – riu-se.

- Sim? - digo, para incentivar a conversa.

- Oh, pois claro, isso nem se pergunta! Naveguei pelo Mar Vermelho até ao verde Índico. Foi uma experiência maravilhosa!

- Viajou sempre sozinho? - tentei dar cabo da ideia do viajante solitário.

- Sempre que pude, sim. É que durante estas viagens atravessei uma época tremenda: presenciei tumultos, convulsões socias, muitas mortes. Só trago a memória dos longos rios, dos desertos, dos animais pela savana e das árvores. As árvores por vezes eram poucas, mas que beleza! A natureza foi a minha melhor companheira. O resto apaguei tudo.

- E quando é que se dá o regresso a Moçambique?

- Fui-me atrasando pela Tanzânia. Tinha algum medo de voltar.

- Porquê, pode dizer-me? - perguntei, baixando levemente a voz.

- Tinham passado uns bons anos e muita porcaria por baixo da ponte. Mas quando cheguei a Maputo e reencontrei aquela cor do sol e aquela cor do barro, soube que estava em casa.

Disse esta frase em tom de despedida, mas ainda acrescentou, do outro lado da linha telefónica, com uma risada esplêndida:

- Mas, olhe, fui ganhando tiques nas várias Áfricas por onde passei. Por exemplo, sou de uma pontualidade britânica!

Não, a entrevista não podia terminar assim... e arrisquei a tirada final.

- Então, e o nome do senhor é mesmo Amílcar?

- Isso, menina, nunca poderá saber. É que afinal


- O mundo dá muita volta e numa delas eu entro