segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Provérbio provado rimado - XV

Não pagam dívidas as tristezas
Disso não duvides com certezas
Que os tristes são pobres p'la certa
Desconhecem a alegria d'oferta

Não aquecem se há gentilezas
Os amigos não reúnem às mesas
Sua alma sucumbe deserta
Por não q'rerem uma vida incerta

Apoquentam-se com miudezas
Quando vagueiam p'las redondezas
Com a alma em constante alerta
Comprimida numa f'rida aberta

Pois nem todos têm as mesmas riquezas
Como eu com grandes e francesas
É por isso que agradeço a esperta
Original e q'rida amiga Berta

Provérbio provado rimado - XIV

De noite todos são pardos
Têm medo de água fria
E são ásperos como cardos
Quando rompe a monotonia

Deitam-se na almofada
Fazem contas de cabeça
Dos sonhos não lembram nada
Nem ninguém que os mereça

Vivem sem respirar fundo
Morrem sem deixar lembrança
E continua igual o mundo
Com eles não houve dança

Sobre talvez um lamento
Alguém os há-de chorar
Mas faltou o sentimento
Por não ousarem amar

Provérbio provado rimado - XIII

O piropo se é engraçado
Até um sorriso arranca
Porém quando é depravado
Merece uma resposta franca

Tem mais fama que proveito
O desgraçado do trolha
Mas por vezes lá diz a preceito
Uma frase feita à sua escolha

Em cima do andaime profere
O ditote és boa comó milho
E conquanto até se esmere
Só arranja um grande sarilho

Provérbio provado rimado - XII

Às vezes a boca não calo
Se a mostarda me chega ao nariz
Sem filtros tudo tal qual falo
Aquilo que ninguém nunca diz

As calças recuso baixar
Não tenho truques na manga
Quem quer em mim poder mandar
Cuidado que solto a franga

Se há coisa que mais detesto
É quem não sabe dar a cara
E manda dizer pelo resto
Pois cobardemente não encara

E assim a medo delega
Apoiada em gente nefasta
Os fracos sobrecarrega
Há que dizer-lhe um basta

Provérbio provado rimado -XI

Rir é o melhor remédio
Para enfrentar a manhã
Afasta bem qualquer tédio
E esquece o diário afã

Permite soltar as risadas
Que enterram a ansiedade
E até acreditar em fadas
Que não conhecem maldade

Rir de tudo e um par de botas
Da quinta pata do cavalo
E das estúpidas anedotas
Que se contam no intervalo

É uma espécie de placebo
Que faz mais bem que mal
No focinho do cão o sebo
Que alimenta o animal

Pois mesmo a piada veloz
Tem muito efeito na gente
Afasta o piegas e atroz
Simular intransigente

E é melhor ainda rir
Da sua própria pessoa
Para assim poder fugir
Da seriedade à toa

Provérbio provado rimado - X

No dia em que a égua pariu
Nesse instante o cavalo fugiu
Logo se sentiu abandonada
No estábulo assim foi deixada

Olhou tristonha o filhote
Apertado com um garrote
Que sozinho tentava fugir
Sabendo que ia cair

No campo andavam vindimas
Que ali reuniam as primas
Foi naquela época da uva
Que tirou o cavalinho da chuva

Do macho teve sempre saudade
Mesmo até ter passado da idade
Pois no coração ninguém manda
Isso lhe disse a prima Vanda

Provérbio provado rimado - IX

Há pessoas que realmente
Têm mesmo muita lata
E de repente à gente
Dizem a palavra que mata

Provérbio provado rimado - VIII

Normal é quando se esconde
Uma pulga atrás da orelha
Porque o cochicho está onde
Se encontra a beata da velha

Segredinhos são apanágio
De gente muito calhandreira
E propagam-se por contágio
Basta começar a primeira

P'la frente cerram os lábios
Fazendo um gesto com a mão
E vomitam provérbios sábios
Enquanto simulam compaixão

Pior é que muitas vezes passam
Por serem cordatas e discretas
Mas boas reputações devassam
Com suas mordazes indirectas

Provérbio provado rimado - VII

Foi o gato que comeu a língua
E o deixou p'ra sempre em silêncio
Ficou portanto à míngua
De palavras o pobre Inocêncio

E se já era muito calado
Mais ainda pôde acontecer
De ter o pescoço dobrado
E os olhos ao chão oferecer

Esta pequena história nos ensina
Que o que aparenta tragédia
Apesar de ser pequenina
Tem ternura acima da média

Provérbio provado rimado - VI

Quem não  tem esqueletos no armário
Que atire a primeira pedra
Isso é porque o imaginário
De boas ideias não medra

Macaquinhos na cabeça
E no sótão muitos baús
É bem normal não se esqueça
Que a originalidade seduz

Provérbio provado rimado - V

Um take away queria abrir
Não sabia se pizza ou se tostas
P'ra depois poder fugir
Com uma perna às costas

Evasão era a palavra chave
Para um paraíso fiscal
E a ASAE era um entrave
No meio de tal chavascal

Foi assim que no fim da história
Deu um grande tiro no pé
Que só deixou a memória
Do sapato a cheirar a chulé

Provérbio provado rimado - IV

Rimando escreveu os dez cantos
E compôs os épicos Lusíadas
Junto ao rei enfeitou-se de prantos
Como p'ra ganhar olimpíadas

Soube criar o Adamastor
E o feio velho do Restelo
São personagens com fervor
Que inventou cheio de zelo

E quando o Vasco da Gama
Se abeirou da Ilha dos amores
Acendeu-se em seus homens a chama
Ficaram a ferver com calores

Em vida perdeu um olho
Jaz agora nos Jerónimos
E ao fim do dia um ferrolho
Afasta os olhares anónimos

Assim conseguiu perdurar
E dar origem a expressões
Em nossa memória vai ficar
O ir chatear o Camões

Provérbio provado rimado - III

Quando toca o despertador
Por engano fora da hora
Nem sei se frio se calor
Acordo logo com os pés de fora

Provérbio provado rimado - II

A verdade nada mais que a verdade
Com a mão na Bíblia a jurar
Mesmo ainda na puberdade
Do momento não se podem livrar

Com o coração a arder num fogo
São sempre logo apanhados
E têm de abrir o jogo
Inclusive p'ra carros roubados

É muito bonito o juiz
E o advogado é ainda mais
Antecipam o que o réu diz
Em circunstâncias ideais

P'lo menos é assim na América
Naqueles filmes de Hollywood
Cheios de gente histérica
Que demonstra apenas virtude

Provérbio provado rimado - I

Hoje só me apetece estar
Quieta à sombra da bananeira
Ou com sais de banho ficar
Duas longas horas na banheira

Com um copo de vinho ao lado
E um comprido livro p'ra ler
Ter o corpo todo relaxado
Para descansar do viver


Provérbios provados rimados

Hoje começa uma nova série  (ou será saga?) dos Provérbios provados. Embora não vá deixar de me dedicar à prosa, apanhei a boleia das rimas que me andam a bailar na cabeça sem limite de velocidade. Serão todos em verso e far-se-ão acompanhar das ilustrações da Junkhead, que nem faz ideias o quanto os seus "bonecos" me têm inspirado. É deixá-la!, como dizia a minha avó, que deve ter mais que fazer do que ler quadras esgalhadas a metro.
Façam-me uma visita, pois serão sempre muito bem vindos. E também sempre, como é que é?, sempre a considerar-vos.

Ilustrações retiradas de:
www.behance.net

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Provérbio pária da má culinária

Quando acabou o liceu com a ajuda das cábulas e da sorte a somar à da Catarina, a colega mais marrona e feiosa da turma, que tinha um fraquinho por ele e um acne persistente e lhe dava explicações de borla com uma paciência infinita, o Sebastião decidiu que não queria ir para a faculdade. Depois duns testes psicotecnicos que não acusaram particular vocação, deparou-se com uma grande indecisão no respeitante ao seu futuro profissional e andou a pastar durante uns meses, dormindo até tarde, ocupando o tempo no café a jogar às setas e deitando-se a altas horas da noite. Mas como o carro não andava a água e o telemóvel não se carregava com feijões, decidiu-se pela solução mais fácil e óbvia para quem não sabe o que fazer da vidinha: o serviço militar. Tinha esperança de por lá poder ficar a bater continências e a arrastar o rabo pelas cadeiras, porém acontece que o Sebastião era um indivíduo indisciplinado, e com pouco amor pela autoridade visível e invisível, e ao cabo de pouco mais de um ano foi amável mas assertivamente convidado a sair. Viu-se novamente sem um objectivo e de algibeiras vazias e, após pensar por um tempo no que queria fazer, optou por um breve curso de culinária. Só que nem um ovo sabia estrelar e não suspeitava que entre refogado e estrugido a diferença estava na latitude. Muito a custo, lá foi queimando etapas e tachos e quando terminou o curso foi-lhe oferecido um estágio num pequeno hotel da Baixa. Logo no primeiro dia teve de acordar com as galinhas e foram elas as cobaias do seu prato de estreia. Mas a coisa correu-lhe mal: a carne estava rija que nem cornos, o molho intragável e o puré tinha grumos, para já não falar que a comida ficou muito salgada. Quando começaram a chegar à cozinha as queixas dos clientes, nem sequer pediu desculpa e ainda soube dizer com a maior das latas:

- Quem não gosta come menos

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Provérbio provado apressado

Quando se conheceram quiseram logo ficar juntos. Acharam-se mutuamente bonitos e excessivamente interessantes. Assim sem tirar nem pôr, ja adivinhavam um tirar e pôr num sexo sem pudor. Era uma intimidade precoce, um pouco aparatosa e até exagerada, composta de confidências demasiado secretas, construídas sem alicerces nas línguas soltas; essas línguas que desejavam unidas num ritmo cadente porém decadente, ora carinhosas ora sôfregas em pulsar apocalíptico. Um desejo muito intenso, mas também um alimento para o coração, descanso de guerreiros já fartos de travessias no deserto avistando miragens duvidosas e aspirando a uma união plena e quase sobrenatural.
Foi um final de tarde mágico que se prolongou noite afora. Contudo, percebiam o tiro no escuro, receavam um tiro no pé. E talvez isentos de fé, repetiam de si para si o provérbio:

- Quanto mais depressa mais devagar

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Provérbio outonal

Amanhecia um céu cinzento: pintavam-no algumas nuvens, também elas cinzentas; o começo do Outono escondera as tímidas nuvens brancas que, ainda há uma semana, enchiam os olhos das crianças de rebanhos imaginários. Mais dia menos dia, haviam de colorir-se as folhas de castanho e começar a cair das árvores, primeiro lentamente, depois muitas de uma vez, atapetando os caminhos; principalmente as dos plátanos, responsáveis por tantas alergias primaveris, desfaleciam agora das copas para irem preencher os herbários das escolas. Na janela gotinhas escorriam melancolia, trazendo a vontade das carícias suaves de um casaco de malha. Era então que os armários se despiam dos tecidos bailarinos do Verão, das sandálias de tiras e dos chapéus de palha, dando lugar a cores mais escuras: tão cinzentas como o cinzento do céu e as nuvens que nessa manhã o habitavam. Restava uma esperança ténue que este Setembro fosse Março e trouxesse a promessa de uma tarde quente, mesmo se o sol envergonhado. Mas não; veio de repente um bando de aves miando, numa corrida veloz porém atrapalhada.

- Gaivotas em terra, tempestade no mar

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Provérbio da gente que mente

Cada vez há mais gente sonsa, sinuosa como a cobra e sem coluna vertebral, ou é quando se envelhece que se começa a reparar mais nisso?
Gente cheia de rodeios e pruridos, de não me toques; uma gente que cala o que pensa e sente porque pode parecer mal, que não se assume e prefere alinhar com a maioria.
Que é hipócrita e sorri pela frente ao passo que, quando vira costas, comenta o que pode e distorce o que não deve para arrasar a originalidade alheia, essa que não se consome com o que dela os outros pensam nem se esforça para manter uma reputação de fachada.
Gente que, quando o tema da conversa é mais sexual, é capaz de dizer compunjidamente Eu cá não meto lá a boca, porque são as sérias que elegem os temas tabu que as outras, criaturas sem moral, teimam em desmascarar.
Uma espécie de gente que é como a comida de hospital, a bufa sem cheiro, cheia da atitude de quem não se solta e se impõe uma ditadura toda composta por regras de pacotilha.
Nos locais de trabalho prolifera este tipinho de gente dissimulada que ambiciona trepar sem para tal ter o devido mérito; e abunda também nas famílias, tentando obter o controlo através duma postura passivo agressiva, capaz de cumular de atenções aquela tia solteirona de quem se é o único herdeiro.
O sonso é o mentiroso mais apto a inscrever-se num grupo de oração para ler a Bíblia e melhor representar o papel de santo.

- A gente hoje em dia não sabe de quem se fia

P.S. - Post livre de preconceitos de estereótipo, e quiça aconselhando o privilegiar da aproximação às sonsas, pois reza o mito que são as piores.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Provérbio com cheiro e vernáculo

O Fanecas, ou Necas para os amigos, era um gajo porreiro. Tinha lá o seu feitio, convenhamos... muito próprio, mas era o que se pode chamar um grande personagem.
Começava muitas das suas frases por: "Épa, isto pode parecer-te um bocado estranho..." ou "Já sei o que é que vais dizer...", ruminando qualquer coisa do arco da velha pelo meio, e terminando algumas delas com "Olha, são pérolas p’ra porcos, pá" ou "É dar bons vinhos a maus fígados, sabem lá o que é essa merda...".
O estado civil do Fanecas era algo que permanecia um mistério. Casado não era, não existia registo de nenhum acontecimento do género, mas não perdia uma despedida de solteiro. Também não constava que tivesse namorada oficial; claro que os amigos perceberam logo que a Ana Maria era alguém mais especial mas, como não falava nisso, também não lhe perguntavam. Trazia a tiracolo mulheres dos géneros mais diversificados, que iam, e às vezes voltavam, com uma frequência espantosa. Era um predador romântico: chegava a enviar flores e bombons às miúdas giras que apareciam na televisão, na internet, nos bares, esperando uma recompensa mas fingindo não a esperar. Conservava com as mulheres a sua educação da infância: o cuidado no evitar o vernáculo perto da mãe e as caralhadas e risadas que soltava com o pai.
Na política, assumia-se como um gajo do contra. Até nem se importava de levar outra vez com o Isaltino Morais e o Joaquim Raposo na corrida para a câmara de Oeiras, só para poder dizer mal à vontade devidamente fundamentado no passado. Mas não ia votar. Dizia com sarcasmo dos políticos: "É só injustiças de merda, eu não acredito em mentiras pá. ‘Tou-me a cagar p’ra eles todos, são todos uns corruptos. Puta que os pariu mais a recessão..."
O Necas gostava de folhear A bola logo pela manhã ainda cheia de tinta. E gostava de ver a bola com os amigos no café, até porque era forreta e nunca ia ao estádio. "Aqui é mais emocionante, um gajo lá não vê nada.", nunca se sabendo se a emoção lhe surgia com as fresquinhas que despejava ou com a visão mais toldada que disparava para o écran. Nas faltas dos jogadores da sua equipa justificava: "Ele ‘tava a ir à bola, a fazer jogo... e o outro gajo atirou-se pr’ó chão, pá! Qual é o árbitro que não vê esta merda?" O Necas levava as mãos à cabeça quando era golo da outra equipa ao passo que sorria tranquila e desdenhosamente quando a sua marcava.
O Necas era um ex-fumador desejoso de reincidir. Andava numa espécie de liberdade condicional pois havia largado há pouco tempo, e o que ele sofria!... Às vezes abanava a mão incomodado, a afastar o fumo do cigarro dos outros. Mas à noite, já com os copos, apetecia-lhe fumar este mundo e o outro. Ficava para ali a salivar qual canino de Pavlov mas como "um gajo é um animal racional" lá controlava os ímpetos, não deixando de fixar exaustivamente o objecto de desejo.
O Necas era funcionário público. Não gostava de falar do trabalho, a não ser para reclamar do facto de ter de trabalhar. Tinha muitas regalias mas fingia não as ter. Na verdade poder-se-ia dizer que o Necas trabalhava apenas quatro dias úteis, dado que às segundas de manhã e sextas à tarde não fazia a ponta de um corno. Andava a estrebuchar em frequência FDS Mega Hertz – FDS de fim de semana, ou em interpretação livre: "Foda-se, já aqui ‘tou outra vez?" e "Foda-se, o que’é qu’eu ainda aqui ‘tou a fazer?". No regresso das férias ao trabalho emitia em frequência pirata intraduzível.
O Necas tinha as suas particularidades, "Deixem-me cá com as minhas merdas, pá!". Por exemplo, gostava de sumo de mamão e não admitia piadas sobre o assunto. E depois existiam outros temas intocáveis como dizerem-lhe que era sovina, que guardava trocos por vocação, perguntarem-lhe por que é que lhe chamavam Fanecas e qual o seu verdadeiro nome. Mas o que realmente deixava o Necas chateado era dizerem-lhe que cheirava mal dos pés, "Ouve lá, mas tu queres levar uma pêra?". No entanto à noite largava os ténis a espantar o odor na varanda...

- Quem tem chulé não sente o cheiro do próprio pé

P.S. - Post livre de preconceitos linguísticos, e quiça adaptando a tradução do correspondente provérbio crioulo guineense: Dun di mal ka ta obi si mal

Provérbio bovino

Vistas bem as coisas, qualquer dia da semana podia ser dia de feira, começando por segunda feira, tropeçando na terça e por ali adiante até à sexta feira. Aos domingos é que nem pensar, que era dia de missa. Os sábados, porém, eram terra de ninguém, onde se trabalhava na terra tanto ou mais que de semana. Mas se, por exemplo, um homem se quisesse ir embebedar para a tasca do Álvaro ou simplesmente alapar o rabo nos bancos do largo vendo quem passava, ninguém teria nada a obstar, desde que tomasse o seu banho semanal.

Vamos então à cantiga: calhava na vila a feira ser a quinta feira, se bem que nem todo o mês tivesse a sua feira na dita quinta quinta feira. Todo o espaço se aproveitava e de tudo um pouco se apregoava da origem ao produto final, desde que não corresse mal. Assim, não apenas se vendia a couve, como também a semente que a houve, e mais a maçã viçosa e o pesticida que a fez saborosa. Vendia-se a vaca e tudo o que dela saía: o leite que se mungia depois que ela mugia. O boi vinha para o prato, e do porco nascia o courato. Quanto ao ovo e à galinha é uma discussão antiga, guerra que não vamos travar, pois do que aqui se trata é o que cada um vem comprar.
Acompanhemos o ti Zé da Aparecida a fechar o negócio da vida, já entrega o envelope com as notas gastas de tão contadas, contente do vendedor o estar a tratar por senhor, e ei-los no aperto de mão, dando por encerrada a questão. Era uma vaca leiteira, não era uma vaca qualquer. Leite, manteiguinha, já sabemos a ladainha. Mas voltando à vaca fria, é tudo trinta e um de boca; afinal o compadre é sogro da afilhada e a comadre ainda é prima afastada.
O ti Zé torna a casa satisfeito, sonhando tamanho proveito. Mas dali a uns dias a expectativa é gorada, quando a esposa indignada se acerca contrariada:

- A vaca da minha vizinha dá mais leite do que a minha

terça-feira, 4 de abril de 2017

Provérbio solitário - II

Justino já tinha dobrado os quarenta e continuava solteiro, sem mulher a quem chamar sua. Namorara Zeferina anos a fio numa idade em que recuava ante compromissos maiores e em que nem lhe falassem em constituir família. Zeferina falara, e fora esse o seu bilhete de ida para ir iniciá-la noutra freguesia. Recordava-a agora com a saudade de quem sabe que desperdiçou um grande amor, talvez o único. Ainda outro dia a tinha encontrado acidentalmente na rua, o acaso aos pontapés com a sua ferida aberta instigando à covardia. Não fora capaz de lhe contar do arrependimento: limitara-se a mostrar o melhor sorriso que podia, fixando o olhar torturado num pormenor da calçada, enquanto desejava ser invisível. Ela fora calorosamente desinteressada, narrando-lhe a existência em duas frases: era agora mãe de dois e continuava casada com o José, o primo da Eduarda, ele lembrava-se? E chegou então a fatídica pergunta; que não, respondeu, continuava solteiro - e bom rapaz, acrescentou em graçola - sentindo o olhar dela, subitamente atento, lastimando-o.
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.

- Mais vale só que mal acompanhado