terça-feira, 22 de abril de 2014

Provérbio provado desconfiado

Desta é que foi, quando menos contava, num abrir e fechar de olhos, o João apaixonou-se. Estava na cantina da faculdade quando a viu pela primeira vez, morena e muito alta, comprida e chata como a espada de D. Afonso Henriques, mas ao mesmo tempo com um certo ar discreto, de quem não gosta de comprar barulho. Como se chama?, perguntou, Vitória, responderam-lhe. Apaixonou-se mesmo a sério, bolas!, de mal comer e mau dormir andava olheirento e pálido.
João receava tentar a aproximação com medo da rejeição. Não podia tomar decisões impetuosas, tinha de gizar um plano e manter-se nele de passo seguro com os olhos no futuro; conforme a pergunta assim seria a resposta: se tivesse um dizer idiota Vitória não o toleraria, e desfazer-se-ia a primeira impressão. Teria de ser um conhecerem-se lento, queria ser amigo de Vitória sem pressas, confiar desconfiando, até a conhecer como a palma da mão.

- Confiança na vitória é meia batalha ganha

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Provérbio da despedida

Adeus, tio Zé. Faço agora o luto que não soube fazer pela Sara. Quando ela morreu, creio que há cerca de dois anos e meio, não consegui fazer nada, sabes, a única coisa em que consegui ser um bocadinho corajosa foi não chorar durante as visitas ao hospital, chegava ao elevador e aí, sim, podia chorar e chorava, mas nunca antes.  Quando ela morreu, apertei a pulseira que me deu e no funeral faltaram-me palavras, fui papagueando as frases religiosas que sabia que ela detestava. Creio que há cerca de dois anos e meio, não soube despedir-me da Sara.
Adeus, tio Zé. Se conhecesse os teus gostos de poetas, ler-te-ia um poema nada previsível como o Fim do Mário de Sá-Carneiro, tenho um pressentimento de que havias de detestar essa má escolha. A Sara detestaria que te papagueasse qualquer frase religiosa, e elegeria algo mais do teu agrado, ler-te-ia fumando pois a memória que guardo é essa, sempre nos conheci a ti e a ela e a mim assim, envoltos numa nuvem de fumo a conversar.

- Adeus, mundo, cada vez pior