sábado, 3 de outubro de 2015

Provérbio corrido

O Fábio decidiu largar o ferro todos os dias no ginásio quando se pôs de moda a febre das correrias. Preparou convenientemente a troca de um desporto pelo outro: dirigiu-se a uma mega loja especializada e dispôs-se a comprar todo um arsenal de equipamento, desde roupa colorida e ténis novos a gadgets que contam quilómetros, ritmos cardíacos e só falta fazerem também os alongamentos. Mudou também o alinhamento musical que o passou a acompanhar sempre, e agora ouvia músicas alegres e ritmadas, que lhe tornavam o espírito mais leve e tremendamente positivo.
Todos os fins de semana havia pequenas maratonas que, por vezes, se assemelhavam a manifestações de sindicato, dado que a maioria dos corredores se deixavam apenas caminhar vestidos de igual. Havia sempre um qualquer motivo solidário e por isso se compravam uns sacos com t-shirts mal impressas e dois pacotitos de merchandising.
Não tardou a juntar-se a um grupo de corridas, formado informalmente, que começava às 6 da manhã percorrendo sempre a mesma rota, e ao qual se iam juntando mais e mais pessoas pelo caminho. Acordava cedo, energético, previamente excitado com as ancas, rabos e seios que abanavam e saltitavam todas as manhãs à sua volta. Sem querer tinha vindo substituir o Filipe, antigo camarada das manhãs, que estava encostado com uma hérnia.
Nem de propósito, nessa manhã o Manuel dirigiu-se-lhe numa conversa assim:
Sabes com quem falei ontem? Com o Filipe. Qual Filipe? O da hérnia. Está, está; está melhor das costas e a organizar a meia maratona deste fim de semana. Se ele vem? Diz que vem de muletas, se for preciso. É tudo pela causa, claro! Ah, ok, sim, é um rio que querem betonar. Ora, porquê!, para fechar o rio, ordenar as margens e porque acho que cheira mal como o caralho, desculpa lá a linguagem. O movimento está contra, o Filipe diz que descaracteriza a paisagem, e além disso quando vierem as chuvas vai haver inundações como o… muitas inundações, mesmo! Contamos contigo, certo? Mas porquê? Pois, a família é o mais importante de tudo. Com a família não se pode falhar.

No Sábado pela fresquinha, ao Fábio apetecia-lhe ir sozinho à corrida mas, como não queria melindrar ninguém, evitou os percursos habituais e introduziu-se, já com a t-shirt laranjão vestida e disfarçado de boné e óculos escuros, no fim da partida onde iam chegando os retardatários. Lá no início estava o Filipe, bem disposto e até disposto a correr pela causa.
Já tinha começado a corrida quando chegou o Manuel com duas louras jeitosas de t-shirt laranjão. A Marlene já fazia parte do grupo e trazia uma amiga nova. O Manuel tirou-lhe as medidas e pôs-se numa conversa assim:
Querem começar já a correr? Podemos ir primeiro só a caminhar para aquecer, e conversar um bocado. Marisa, não é? Quer uma água?, está fresca… Pronto, a senhora é que sabe. Menina? Combinado então, tratamo-nos por tu. O rio? Não sei, nunca lá passei, mas assinei a petição no Livro das Caras, claro! O Filipe é que está a organizar isso, ele costumava correr connosco, mas a saúde, sabes?, deve estar por aí sentado a ver a corrida passar. Quem, Marlene? Ah, o Fábio tinha um almoço de família, não podia vir. Onde? O Fábio, onde? Olha-me este!, que descaramento, a mentir-me com quantos dentes tinha na boca, eu arranco-lhe um a esse filho da… Olhem que as pessoas… Deixem, vamos ignorar e começar mas é a correr. Veem quem vai a correr lá à frente? Não é que é o maluco do Filipe? Venham, vamos apanhá-lo!


- Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo

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