Ainda assim, havia sempre quem acabava de lhe perceber a existência. De descobrir a evidência da crise e da ceifa que ia levando a cabo. Alguém que acordava de repente, assarapantado, para logo de imediato entrar num pesadelo, numa mistura de flashes realistas e contornos mal definidos, como é apanágio desse tipo aparentado do sonho.
De que serviam a manifestação, o apupo, o desacato, a desobediência civil? A crise estava para ficar: mais firme do que nunca, não tinha soalho por onde escorregar.
As pessoas juntavam-se nas ruas. Aleatoriamente em crescendo. E também em enormes grupos organizados que desenhavam cordões humanos rodeando os edifícios ministeriais. Gritavam palavras de ordem, vaiavam o governo, entoavam cânticos de protesto.
Assim se comportava a maioria. Mas havia sempre indivíduos mais radicais para quem o combate não ia lá com flores e cantorias. Estavam muito zangados. Transportavam pedras e petardos que arremessavam. Lançavam pequenos explosivos caseiros. Chegavam a pegar fogo a pneus de autocarros para impedir a normal circulação nas principais artérias das cidades.
E, apesar destes comportamentos mais excessivos, as gentes manifestavam-se em união. As marchas de protesto traziam um sentimento de força renovada temperada com esperança. O futuro podia ser melhor do que o passado; era essa, aliás, a natureza do porvir: mais renovação do que repetição.
E onde estavam as forças policiais no meio de todos estes tumultos? Andavam no olho do furacão, fardadas e fadadas para acudir a qualquer emergência ou desacato, armadas até aos dentes num exagero de engenhos. Tal parafernália não deixava margem para dúvidas.
Os polícias não hesitariam em ripostar para travar qualquer acto mais aguerrido. Cumpriam o seu papel de garante da ordem, acatando ordens superiores sem se questionarem.
Quando, eventualmente, nas raras ocasiões em que alguns se interrogavam no calor das barricadas, o seu instinto segredava-lhes que o lado de lá estava coberto de razão. Eram humanos, caramba, eram do povo, caramba!
No entanto, rapidamente, os pensamentos voltavam a encarrilhar-se-lhes e avancavam equipados de capacetes, escudos e coletes, munidos de bastões, gás lacrimogéneo e dardos de eletrochoque. Progrediam num formato de parede compacta para carregar nos manifestantes. Fracturavam membros e cabeças e faziam detenções de modo aparatoso.
Os cidadãos eram alinhados no chão, o nariz no asfalto e os punhos rodeados por algemas. Os jornalistas e repórteres de imagem eram outros que, na sua sede de notícias, no meio da confusão, apanhavam porrada que fervia.
As manifestações chegavam a durar dias seguidos, as noites iluminadas pelas altas labaredas das fogueiras de pneus que projectavam os seus clarões nos edifícios.
Não é difícil concluir que os hospitais se colocavam em constante alerta. Médicos, enfermeiros, bombeiros e maqueiros não tinham mãos a medir. As ambulâncias não paravam de chegar.
- Entre mortos e feridos alguém há-de escapar
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