Provérbios Provados noutras casas:

sábado, 27 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXXI

Tu chamaste-me vaidosa

E também superficial 

Sabendo que és invejosa 

Não lhe dou atenção total 


Porém fica lá um resquício 

Dos betardos que lançaste 

Que provoca quiçá malefício

E faz-me sentir um traste 


Essa dúvida vai remoendo 

Tornando-me mais insegura 

E a coisa segue em crescendo 

Batendo-me noutra altura 


Foi apenas uma opinião 

Largada com muito despeito 

Que além de operar fricção 

Me ficou cravada no peito 


Logo há duas alternativas 

Nenhuma será a mais certa 

Surgem em vias rotativas 

Mostrando à vez uma oferta 


Então para a frente empurro 

Aceitando os traços do Eu 

Por saber que as vozes de burro 

É difícil que cheguem ao céu 


(Ilustração: José Alves)



Provérbio provado rimado - MDLXX

Às vezes não compreendo 
O modo de ser mais alheio 
Que aponta o dedo tremendo 
E mostra também o do meio 

Deito-me então a pensar 
Que não é um acto correcto 
Os defeitos de fora apontar 
No que na gente é secreto 

Portanto no que toca a mim 
Gostava que fosse diferente 
Houvesse abertura sem fim 
Nos corredores da mente 

E falassem então do que penso 
Pensassem também no que falo 
Sem um dedo hirto e tenso 
Soubessem porque me calo 

Assim caladinha converso 
Com os botões da camisa 
Que expõem um uso diverso 
E me fazem ser mais concisa 

Falando com os meus botões 
Eu faço caretas ao espelho 
E quando prevejo aflições 
Peço aos botões um conselho 

Não é que um simples botão 
Seja melhor que um amigo 
Mas ouço a voz da razão 
Falando a sério comigo 


Provérbio provado rimado - MDLXIX

Fecunde-se a opinião 
Principalmente a alheia 
Cada um tem a sua razão 
E dela a barriga tão cheia 

Porque a pessoa progride 
Na viagem que traz na retina 
Aos outros não deve pevide 
Nem sequer precisa de ardina 

Que lhe anuncie os fracassos 
Enquanto os sucessos esquece 
Que faça da espera compassos 
Comentando o que lhe acontece 

E fazendo o papel de arauto 
Da desgraça e até da tristeza 
De cada vez que um incauto 
Lá perde mais uma certeza 

Ao prever o desastre iminente 
Com o credo na boca ele passa 
Afinal o que é simplesmente 
É ser um arauto da desgraça 


Provérbio provado rimado - MDLXVIII

Quem é o tipo de marmanjo 
Que insiste em rodear-te?
É lobo com cara de anjo 
E traz a auréola à parte 

É o género de predador 
Que mais parece um falcão 
Investindo com tanto vigor 
Quer ganhar total atenção 

Anseia que a ele te rendas 
Com extrema facilidade 
Impondo-te várias agendas 
Para agires em conformidade 

Não espera obter resistência 
A tudinho o que ele deseja 
E até vê muita pertinência 
Em que te dês de bandeja 


Provérbio provado rimado - MDLXVII

Tu és um gajo pedante 
Estás tão saturado de ar 
Achas que és importante 
E um dia podes rebentar 

Crês que o teu peso é maior 
Do que o comum dos mortais 
E julgas-te um ser superior 
Mais apto do que os demais 

Conviver à tua altura 
Já foi uma fé que perdi 
Por não aturar a postura 
De quem está cheio de si 


Provérbio provado rimado - MDLXVI

Amor a quem tanto concedo 
A minha constante oferta 
Que até chega a dar medo 
Estar sempre de perna aberta 

Muitas vezes estás indisponível 
E eu tão parva espero sentada 
O teu desdém é de um nível 
Que me deixa super frustrada 

Não tenho o tempo do mundo 
Para estar por ti a aguardar 
E porque eu sei lá no fundo 
Não termos pernas pra andar 


Provérbio provado rimado - MDLXV

Por onde tu andas amor?
Em que longínquo hemisfério?
As saudades do teu sabor 
São para mim um mistério 

No meu íntimo mal te provei 
O que com certeza te espanta 
Já que o dia em que te beijei 
Deixou-me um nó na garganta 


Provérbio provado rimado - MDLXIV

Parecia existir empatia 
Misturada com muita tesão 
O João gostou da Maria 
E a Maria gostou do João 

Mas diante de um compromisso 
O João fez marcha-atrás 
Não queria entrar logo nisso 
Por pensar que não era capaz 

No que toca à Maria tão doce 
Tal qual um gato escaldado 
Deixou que a coisa assim fosse 
Só promessa de um namorado 

Em face do fraco empenho 
E da expectativa a morrer 
Fazia-lhes falta um desenho 
Que dissesse como proceder 

Então nem houve começo 
Tão pouco chegaram à cama 
Restou um sóbrio apreço 
E os dois ficaram pela rama 


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXIII

O cérebro é tão bonito 
Que todos o deviam ter
Porém não fiques aflito 
Não vás logo esmorecer

Por isso persiste e estuda 
Que decerto irás progredir 
Pois na vida tudo muda 
Não queiras só subsistir 


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXII

Nem sei sequer se és giro 
Mas essa ideia eu prefiro 
Vou imaginar-te um galã 
Sem remelas pela manhã 

E quando um dia te vir 
Irei mirar-te a sorrir 
Constatando com emoção 
Que tu és um grande pão 


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLXI

Se te passa a perna o futuro 
Erguendo-te em volta um muro 
Tu és minado pela ansiedade 
De não querer viver pla metade 

De facto o futuro dá medo 
Não é pra ninguém segredo 
E é um país tão distante 
Onde tu irás doravante 

Quando tu quiseres mentir 
Fala do tempo que há-de vir 
É argumento que não convence 
Que o futuro a Deus pertence 


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Provérbio provado hospedado

A Eva era prima do Miguel. Não o era por afinidade directa: as avós de ambos é que haviam sido, elas sim, primas direitas. 
Ou seja, a Eva não pertencia ao núcleo familiar do Miguel, mas não era uma prima demasiado afastada, o que o tinha obrigado a dar-lhe a mão num caso de necessidade e era, aquele caso, caso para isso.

A bolha imobiliária rebentara como um fogo de artifício, primeiramente lento e espaçado e depois firme e prolongado. 
Pequenos foguetes irrompiam, estalando aqui e ali numa progressão matemática, enchendo os bairros do cheiro a pólvora seca. Começavam por ser estalidos discretos mas, à medida que o fogo se desenvolvia, iam fazendo mais e mais barulho e produzindo mais e mais impacto.
Os habitantes foram então atirados para as periferias; periferias, essas, que acabariam também um dia por rebentar.

Foi no decorrer desta espécie de estágio para o estado de sítio que a Eva passou a ocupar o quarto de hóspedes vago em casa do primo.
Vago é como quem diz: a divisão funcionara, até àquela data, como quarto da tralha. Metade da dita tralha foi deslocada para a garagem; a outra metade, de utilidade ainda mais duvidosa, foi deitada no lixo pelo Miguel sem dó nem piedade.
Mas a Dorinda acarinhava aquele montão de objectos: afinal era a sua tralha!

Após ter assistido ao despejar dos seus balangandãs nos contentores, preparou-se para tomar a Eva de ponta ainda nem a rapariga era chegada.
No primeiro dia, rebolou excessivamente os olhos mal a viu. Foi pouco amável para a Eva. No segundo foi antipática e no terceiro desabrida.
A outra não se mancava, virando lentamente as costas às investidas da mulher do primo. Recolhia-se ao quarto de hóspedes onde ficava, pelo menos, dez minutos a alisar as pregas da colcha para acalmar.

Veio o final do Inverno, depois chegou a Primavera e, na altura em que as primeiras flores roxas dos jacarandás começavam a atapetar as ruas, a Eva pediu para falar em privado com o primo.
Foram até ao jardim. Eva lamuriava-se, atemorizada com o preço das rendas que, desde o primeiro disparo, nunca mais tinham parado de aumentar.
Sabes o Ezequiel?, e ia inquirindo o primo, Foi despejado, vê lá tu! E, com ele, também a namorada e o Pavlov, o husky siberiano. Tens de os ajudar, primo, afinal de contas pertencem à nossa família!, enquanto o Miguel se interrogava se se veria forçado a recolher a parentela em quinto grau.

Dorinda exasperou-se quase até ao fanico. Não pode ser, Miguel, qualquer dia até a tua avó morta quer vir morar aqui connosco! O marido suspirou, encolheu os ombros e foi atender a campainha.
Entraram os primos de mala e cuia com o seu cão asmático pela trela. A dona da casa engoliu em seco. Não disse palavra.
A antipatia para com Eva fora afinal uma brincadeira de crianças: agora a Dorinda era ostensivamente silenciosa enquanto os olhos lhe chispavam. Sentia-se que a qualquer momento podia entrar em erupção.

Ainda assim, aguentou todo o fim de semana sem piar. Mas na segunda-feira despertou irada. Enervou-se mais ainda ao vislumbrar pequenos tufos de pêlo de cão que esvoaçavam por toda a casa. A sua casa!
Expulsou os últimos intrusos aos brados, aproveitando também para encaminhar a Eva para a porta de saída. Os primos mal tiveram tempo de reunir os seus pertences durante a fuga.

Bateu estridentemente com a porta da rua. Inspirou muito fundo para depois despejar todo o ar numa nortada. Virou-se então para o marido: Miguel, os hóspedes são como o peixe, a partir do terceiro dia começam a cheirar mal.


- Hóspede e pescada aos três dias enfada 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLX

Se não tiveres um espelho 
Nunca vês as tuas orelhas 
E ignoras logo o conselho 
Que canta o coro das velhas 

E mesmo de régua na mão 
Não contas os fios de cabelo 
Pois será uma coisa em vão 
Como a agulha e o camelo 

Se tentares o bicho passar 
Pelo estreito buraco da dita 
É tão certo que até ao bisar 
Só possas achar a desdita 

Tarefa inglória e inútil 
Que dispensa a repetição 
Qualquer tentativa é fútil 
Porque nunca irá de feição 

Que é muito mais fácil que passe 
Um camelo pelo fundo da agulha 
Que um rico por mais que tentasse 
Logo entrar na divina patrulha 

É uma frase do livro sagrado 
Escrita pelo apóstolo Mateus 
Para quem estava apostado 
De entrar no reino de Deus 




Provérbio provado rimado - MDLIX

Esta coisa de não empreender 
Por ter medo do que acontecer 
Sei que é apenas cobardia 
E não vivo o que porviria 

Apesar de ser assim esquiva 
Por vezes roço a tentativa 
E num filme ao vivo alinho 
Ou até num jantar com vinho 

Mas sempre se revela precoce 
E muito melhor se não fosse 
Suceder o que foi sucedido 
Antes de tu teres aparecido 

Eu ainda não te conheço 
Contudo já de ti me despeço 
Porque antes de te desvendar 
Eu já estou de ti a escapar 

No fim das contas o que dói 
É dizer É tão bom não foi?
Por isso desculpa por hoje 
Este jogo do toca e foge 


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLVIII

O Luís é muito envergonhado 
Mas no fundo é um assanhado 
Lança a escada tirando a seguir 
Para depois do mapa sumir 

Sem saber o que ele pretende 
Nenhuma fêmea o compreende
E por causa desse enorme medo 
O Luís fica a chuchar no dedo 

Não sei se aprende o Luís 
Fica imensamente infeliz 
Refugia-se assim na bebida 
Por lhe faltar amor na vida 

Ele então dirige-se ao bar 
Para whisky novo emborcar 
Prestes a que lhe dê o fanico 
Por não ter molhado o bico 

Que o bico está seco e caído 
Por estar de paixão suprimido 
Ele só o molhou num sentido 
Após ter dez shots bebido 


Provérbio provado rimado - MDLVII

Todos julgam pela aparência 
Ninguém segundo a essência 
Mas não entendo a permissa 
Que mais se afigura preguiça 

Total falta de curiosidade 
Que somente mira metade 
Com os demais não vai fundo 
Ao ser e ao que tem de profundo 

A aparência é só o início 
Não exige qualquer sacrifício 
E então não se deve julgar 
Sem sentir o sangue a pulsar 


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDLVI

Eu não me considero exigente 
Porém sou muito impaciente 
E por isso levada da breca 
Quando me estão a dar seca 

Até ponho a mão na consciência 
Mas falta-me logo a paciência 
E prefiro vomitar na retrete 
A fazer qualquer tipo de frete