A casa parecia grande, mas era uma ilusão de óptica. O equívoco era facilmente desfeito quando se ia à volta e se via que até era alta, tendo no entanto pouca profundidade. Nela viviam o casal de progenitores, mais cinco filhos e a avó paterna viúva.
Dos cinco descendentes somente um tinha a modéstia no lugar, os demais viviam como se fossem filhos de milionários, desejando para cada um automóvel topo de gama com colunas stereo. Mas o pai não passava de um empregado por conta de outrem, descontente porque mal pago e mal humorado porque descontente. A mãe, essa, era uma moura de trabalho: começava a limpar e a cozinhar assim que se apeava do leito e só parava depois da cozinha arrumada após a ceia.
Nunca se queixava, a mãe. Mas, secretamente, vivia com um desgosto tremendo por ter parido quatro verbos-de-encher com a mania das grandezas. Ao ser sua empregada, pouco educava os quatro preguiçosos que sempre e só mais trabalho diário sabiam acrescentar. Se nem eram sequer capazes de puxar as orelhas à cama a cada manhã, nem vale a pena descrever o reboliço dos seus aposentos, onde se acumulavam peúgas sem par e cuecas sujas pelo chão.
O pai não estava para se chatear e fechava os olhos. A avó também os fechava por ter cegado há oito anos. E só a mãe se desesperava internamente com tal falta de arrumação e limpeza. Vinham as estações umas a seguir às outras, o calor e depois o frio e depois o calor, e a mãe não conseguia inculcar nenhum brio dentro daquelas cabeças ociosas.
Nunca se queixava, a mãe. Até que chegou um dia de Outubro, à hora em que os sinos tocavam uma cantiga de finados, e Mafalda, assim se chamava a mãe, embrulhou uma trouxa de roupa - lavada, entenda-se - e desapareceu do mapa. Estava farta de ser criada dos filhos.
- Mais há quem suje a casa do que quem a varra
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