terça-feira, 4 de abril de 2017

Provérbio solitário - II

Justino já tinha dobrado os quarenta e continuava solteiro, sem mulher a quem chamar sua. Namorara Zeferina anos a fio numa idade em que recuava ante compromissos maiores e em que nem lhe falassem em constituir família. Zeferina falara, e fora esse o seu bilhete de ida para ir iniciá-la noutra freguesia. Recordava-a agora com a saudade de quem sabe que desperdiçou um grande amor, talvez o único. Ainda outro dia a tinha encontrado acidentalmente na rua, o acaso aos pontapés com a sua ferida aberta instigando à covardia. Não fora capaz de lhe contar do arrependimento: limitara-se a mostrar o melhor sorriso que podia, fixando o olhar torturado num pormenor da calçada, enquanto desejava ser invisível. Ela fora calorosamente desinteressada, narrando-lhe a existência em duas frases: era agora mãe de dois e continuava casada com o José, o primo da Eduarda, ele lembrava-se? E chegou então a fatídica pergunta; que não, respondeu, continuava solteiro - e bom rapaz, acrescentou em graçola - sentindo o olhar dela, subitamente atento, lastimando-o.
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.

- Mais vale só que mal acompanhado

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