Um a um, os filhos acabaram por partir. O mais velho trocara a vida rude da agricultura por uma ainda mais rude a operar uma máquina de moldes de cutelaria. Casara. Tivera dois filhos. A única filha trocara o lar onde crescera desde criança até mulher por um novo lar onde cumpriria o papel de única nora. Casara. Tivera dois filhos. O filho mais novo, o mais curioso e ambicioso dos três, fora procurar a fronteira mais próxima e depois, não contente com um, cruzara mais um par de países. A Cremilde não sabia se tinha chegado a casar ou a ser pai.
Todo o seu semblante se animava e o futuro passava a ter um propósito quando antecipava a visita dos netos. Nos dias que precediam a chegada da criançada, dedicava-se a preparar a sua vinda. Lavava tapetes e lençóis com afinco, retirava das superfícies qualquer suspeita de pó, confeccionava compotas de frutos variados e até ia apanhar flores ao quintal da vizinha Silvina que depois dispunha em jarras pela casa fora.
Os netos costumavam ficar vários dias aos seus cuidados e o que a avó dedicada mais temia era que apanhassem alguma doença durante esse período. Por isso, mal pressentia uns raios de sol, corria a abrir as janelas de todas as assoalhadas de par em par.
- Casa onde entra o sol não entra o médico
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