Provérbios Provados noutras casas:

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Provérbio provado com cuidado - II

Nunca tivera um emprego que emprego se chamasse, mas à Cremilde nunca faltara trabalho. Tivera cinco filhos, mas apenas três vingaram. Por mais que o tentasse evitar, não foram poupados às dores de crescimento. Ela também não fora, nem o haviam sido os seus antepassados: naquelas terras onde viviam era o tempo das sementeiras que marcava o tempo do relógio.
Um a um, os filhos acabaram por partir. O mais velho trocara a vida rude da agricultura por uma ainda mais rude a operar uma máquina de moldes de cutelaria. Casara. Tivera dois filhos. A única filha trocara o lar onde crescera desde criança até mulher por um novo lar onde cumpriria o papel de única nora. Casara. Tivera dois filhos. O filho mais novo, o mais curioso e ambicioso dos três, fora procurar a fronteira mais próxima e depois, não contente com um, cruzara mais um par de países. A Cremilde não sabia se tinha chegado a casar ou a ser pai.

Todo o seu semblante se animava e o futuro passava a ter um propósito quando antecipava a visita dos netos. Nos dias que precediam a chegada da criançada, dedicava-se a preparar a sua vinda. Lavava tapetes e lençóis com afinco, retirava das superfícies qualquer suspeita de pó, confeccionava compotas de frutos variados e até ia apanhar flores ao quintal da vizinha Silvina que depois dispunha em jarras pela casa fora.
Os netos costumavam ficar vários dias aos seus cuidados e o que a avó dedicada mais temia era que apanhassem alguma doença durante esse período. Por isso, mal pressentia uns raios de sol, corria a abrir as janelas de todas as assoalhadas de par em par.


- Casa onde entra o sol não entra o médico 

Provérbio provado rimado - MDCVII

Nem tudo o que luz é ouro 
Nem tudo o que balança cai 
Por isso protege o teu couro 
Para depois não gritares ai 

Não te fies nas aparências 
Há um fruto além da casca 
E desconfia das evidências 
Ou então vais ver-te à rasca 

E quando te vierem acenar 
Com amostras do paraíso 
Poderás então gargalhar 
Dizer-lhes que tenham juízo 


sábado, 27 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDCVI

O que dizem os meus olhos?
Que estou farta de trambolhos 
De homens lentos e carentes 
Da vida a sós descontentes 

Também há o tipo tarado 
Que quer sexo consumado 
Tão cheio de pressa e tesão 
Não mostra nenhuma emoção 

Estou perdida nesse ermo 
Onde não há meio termo 
Vou ficar quieta na toca 
Cada cavadela sua minhoca 

Eu cá vou parar de escavar 
Já perdi a fé de encontrar 
O tal gesto verdadeiro 
Que não seja interesseiro 


Provérbio provado rimado - MDCV

Qualquer chefe que se preze 
Muito emprenha pelos ouvidos 
Conquanto assim menospreze 
Os que não são os preferidos 

E também faz do seu gabinete 
Uma espécie de confessionário 
Achando que não é um frete 
Escutar cada novo fadário 

Nessa tal porta fazem fila 
Para queixinhas vomitar 
E dali ninguém desopila 
Sem intrigas várias largar 

Vão lançando no ar suspeições 
Que não têm pingo de verdade 
E através de dissimulações 
Desejam mais notoriedade 

Até que o chefe constata 
Que tem sido injusto talvez 
Já que a gente mais pacata 
Não implora pela sua vez 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDCIV

Para longe tu podes fugir 
Sem sequer calcular a distância 
Estás-te apenas a querer iludir 
Ao alimentares essa ânsia 

Isso não te permite acalmar 
Deixa-te somente agitado 
Sentes um aperto ao respirar 
Tens medo de ficar perturbado 

Nessa altura só queres escapar 
E esconder-te como a avestruz 
Quando vês a vida a complicar 
Foges como o diabo da cruz 


Provérbio provado rimado - MDCIII

Quem me dera a mim amar 
Sendo enfim correspondido 
Só me resta porém soluçar 
Se me encontro arrependido 

Um balanço maior dou ao passo 
Do que a perna que está disponível 
E redunda no fim em fracasso 
O que antes pensei concebível 

Por ser muito precipitado 
E tantas vezes irrealista 
Se defino um alvo afastado 
Mais me lanço a essa pista 

E se ajo de forma imprudente
Não me posso depois queixar 
Por pôr sempre o carro à frente 
Dos bois que o deviam levar 


Provérbio provado rimado - MDCII

Não sei se é o amor que me perde 
Ou sou eu quem perde o amor 
Quando tal ocorre fico verde 
Ou vermelha de tanto rubor 

Já não sei o que à vida faça 
Tenho a cabecinha às voltas 
O amor parece uma trapaça 
Que deixa no fim pontas soltas 


Provérbio provado rimado - MDCI

O Semedo é pouco erudito 
Sendo um tipo rudimentar 
Não possui fraseado bonito 
Não dobra a língua ao falar 

Dizem que é tímido e discreto 
Mas é só falta de instrução 
Esse é o calcanhar secreto 
Que o faz agir com contenção 

Quando um diálogo enceta 
Faz-se muito despercebido 
Evitando a ideia concreta 
É tão vago e indefinido 

Solta as palavras com poupança 
Por estranhar-lhes os significados 
No que diz não tem confiança 
Não deseja meter-se em assados 


Provérbio provado rimado - MDC

Tu és um sujeito atrevido 
Tens um modo pouco polido 
E começas a lançar piropos 
Sempre que estás com os copos 

Vês em cada mulher uma musa 
Que te deixa cheinho de tusa 
Até chamas algumas de flor 
Perguntando se dá para pôr 

Outras vais nomear de boneca 
Para ver se te calha uma queca 
E propões arrastando a asa 
Ó febra junta-te aqui à brasa 

Tantas curvas e tu sem travões 
Começam a faltar-te opções 
É então que tu ficas confuso 
Sem rosca para o teu parafuso 

Se não inventares outro mote 
Vais ficar como o Dom Quixote 
Sempre em busca da tal Dulcineia 
Que não te vá fazer cara feia

Elas pensam que tu és otário 
Porque és um bocado ordinário
Dom Juan de trazer por casa 
Do que esperam fazes tábua rasa 


Provérbio provado rimado - MDXCIX

Vou contar de uma senhora 
Que é muito observadora 
Mas depois não fica calada 
Tudo conta à rapaziada 

Se algo descobre adora 
Ser a principal oradora 
Sem tabus ou sequer freios 
Ela tudo expõe sem rodeios 

Quer sempre saber na hora 
O boato que corre por fora 
Para então concluir ao seu jeito 
Sem ter pelos visados respeito 

Dos conflitos instigadora 
Já nas rixas não se demora 
Afastando-se logo das brigas 
Diz Eu cá não sou de intrigas 


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVIII

Considero que a falsidade 
É um traço da gente maldosa 
Para quem qualquer amizade 
Deve ser coisa tendenciosa 

Os meios amigos pretendem 
De uma união tirar proveito 
Pensando que assim não ofendem 
E que esse é um plano perfeito 

Ao mostrar o gesto duvidoso 
Ainda acham que fazem favor 
Inimigo declarado é perigoso 
Mas o falso amigo é pior 


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVII

Se a divina providência 
Não te fez muito abastado 
Lidarás com a consequência 
De ser só um assalariado 

E até mesmo se fores patrão 
Não esperes outros desenlaces 
Que apesar dessa dedicação 
Alguém te dirá Estudasses 


sábado, 13 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCVI

Aquele que tem ego enorme 

Parece um indivíduo disforme 

Não o considero um amigo 

Pois tanto egoísmo é um perigo 


Ele tudo pretende abraçar 

Com esperança de arrecadar 

Até o que não lhe pertence 

Pensando que alguém convence 


Com medo que no dia seguinte 

Outro mais esperto o finte 

Todo ele é cheio de certezas 

Tem a mania das grandezas 


Mas não lhe dou importância 

Desse ser eu quero distância 

Ou aínda me arranca a pele 

Por achar que é tudo dele 


Que volte para donde veio 

Porque de si está tão cheio 

O seu narcisismo é extremo 

Mais parece coisa do demo 


Crê que é muito experiente 

Porém é somente aparente 

No fundo ainda está verde 

E quem tudo quer tudo perde 




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Provérbio provado rimado - MDXCV

Toda a junta de freguesia 

Devia conquistar empatia 

Mas o presidente e os vogais 

Ocultam interesses pessoais 


Quando há elo paroquial 

Mais se benze esse pessoal 

E quem não rezar ao Senhor 

Vai esperar sentado um favor 


Quem lhes for pedir cultura 

Encontra paredes com altura 

É costume acenar com asfalto 

Ao tomar as urnas de assalto


Não há nada que acrescente 

Mais uns horizontes à gente

Constroem estradas a esmo 

Para fazer só mais do mesmo