sexta-feira, 10 de junho de 2016

Provérbio indiferente

Nem o Daniel olhava o mundo em seu redor, nem o mundo parecia dar por ele. Passava nos intervalos da chuva se chovia; não apenas por ser excessivamente magro, mas porque passava realmente despercebido, seguindo em frente sem rodar o pescoço, como cão por vinha vindimada.
Não se percebia como tinha vivido assim, até chegar à idade adulta, sem prestar atenção a nada. Nada lhe avivava um brilhozinho nos olhos, nada lhe arrancava um sorriso ou uma palavra cordial. Era completamente desinteressado; não tinha sequer amigos por não saber como se faziam. Nesse sentido não olhava para as mulheres com curiosidade, não olhava sequer para elas pois nunca nenhuma lhe despertara desejo. Também não sentia qualquer empatia pela família; mal punha a chave à porta, fechava-se no quarto para não ter de conversar.
Poderia pensar-se que, por viver assim apartado da realidade, o Daniel teria uma fecunda vida interior. Mas não, ocupava todo o seu tempo disponível a jogar computador: uns jogos de guerra bastante infantis e sempre os mesmos.
Cumpria os mínimos de higiene pessoal, mas tinha um ar sempre desmazelado, emaranhado, às vezes mesmo roto e com nódoas na roupa muito larga. Se não encontrava nada cozinhado, alimentava-se à base de cereais e papas. Não comia fruta, legumes ou peixe.
No mundo interior do Daniel não havia arte. Não era sensível à beleza das imagens e das palavras. Não ouvia nenhum tipo de música nem via televisão. Não praticava desporto nem andava ao ar livre. Não tinha interesses de associativismo, política ou economia. Nunca tinha ouvido falar na dívida pública, no PIB e no NIB, nem sabia o que era uma taxa de juro.
Parecia impossível como era possível viver-se assim: sem levantar um braço para nada. Completamente imprestável, enrascado e, antevia-se, de difícil futuro.

- Quem não sabe é como quem não vê

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