Provérbios Provados noutras casas:

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Provérbio provado envergonhado

Desde miúdo que era assim: introvertido e metido consigo. Nem no início da passagem para a idade adulta tinha conseguido perder o acanhamento que lhe tolhia os gestos. A sua timidez era de tal forma evidente que produzia o efeito contrário ao pretendido: dava nas vistas. 

Em redor, todos o acicatavam e lhe pediam com insistência: Não sejas tão preso, solta-te!; todos lhe asseguravam: Olha que assim não arranjas namorada, espantas a caça! ; todos lhe davam cabo da cabeça com esse Etc e tal. 
Mas o Guilherme não sabia, não podia, não conseguia, em suma, comportar-se de outro modo. As faces coravam-se-lhe mais do que uma malga de verde tinto espumoso, as mãos escorriam mais suor do que uma barragem a vazar acima da cota. 

Enfim, o Guilherme e a desgraça perfeita eram mais próximos do que o polegar e o indicador. Será um exagero? Não é um exagero. 

Ele preferia deixar que as chamadas fossem para o atendedor e a sua casa era o seu lugar favorito onde podia ler e ouvir música sem ser interpelado. O seu melhor amigo vivia lá em casa: era o gato Alfredo. Fazia a maior parte das compras na Internet para assim evitar as superfícies comerciais. E era o rei das boas desculpas que lhe permitiam contornar convites para sair. 

Como vêem, não se trata de exagero: o Guilherme era o cúmulo da pessoa envergonhada. Em nada ajudava o facto de evidenciar um acne persistente que teimava em não se despedir. Também não ajudava aquela penugem no bigode que demorava em se transformar numa barba a sério. 

E, assim, o Guilherme, com a sua cara de puto imberbe cheia de borbulhas com pus, com os seus livros, o seu gato e as chamadas por atender, perdia cada vez mais oportunidades de convívio. 



- Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros 

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