Em redor, todos o acicatavam e lhe pediam com insistência: Não sejas tão preso, solta-te!; todos lhe asseguravam: Olha que assim não arranjas namorada, espantas a caça! ; todos lhe davam cabo da cabeça com esse Etc e tal.
Mas o Guilherme não sabia, não podia, não conseguia, em suma, comportar-se de outro modo. As faces coravam-se-lhe mais do que uma malga de verde tinto espumoso, as mãos escorriam mais suor do que uma barragem a vazar acima da cota.
Enfim, o Guilherme e a desgraça perfeita eram mais próximos do que o polegar e o indicador. Será um exagero? Não é um exagero.
Ele preferia deixar que as chamadas fossem para o atendedor e a sua casa era o seu lugar favorito onde podia ler e ouvir música sem ser interpelado. O seu melhor amigo vivia lá em casa: era o gato Alfredo. Fazia a maior parte das compras na Internet para assim evitar as superfícies comerciais. E era o rei das boas desculpas que lhe permitiam contornar convites para sair.
Como vêem, não se trata de exagero: o Guilherme era o cúmulo da pessoa envergonhada. Em nada ajudava o facto de evidenciar um acne persistente que teimava em não se despedir. Também não ajudava aquela penugem no bigode que demorava em se transformar numa barba a sério.
E, assim, o Guilherme, com a sua cara de puto imberbe cheia de borbulhas com pus, com os seus livros, o seu gato e as chamadas por atender, perdia cada vez mais oportunidades de convívio.
- Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros
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