Aproveitando a embalagem das festas - sabes como é, Ano Novo, vida nova -, decidiu no primeiro de Janeiro, que faria daquele o ano da sua renovação.
Vai daí, listou as suas prioridades e foi comprar num impulso um creme de algas que prometia milagres de rápida acção e uma batedeira eléctrica com várias velocidades, cujo barulho se assemelhava a um ar condicionado dos antigos a engasgar.
A Prazeres convenceu-se então, entre dois suspiros inercortados por uma inspiração e expiração profundas, que era escusado remexer no passado e o melhor era deitar fora a chave da gaveta dos remorsos. Para a frente é que é caminho!, dizia ela, enquanto tentava, com um optimismo quase ingénuo no semblante, enfiar-se à força numas calças de ganga de quando ainda não tinha aquela bosguinha saliente e tão inconveniente.
Coitada da Prazeres, bem se lixou: a batedeira deu o berro ao primeiro bater de claras, mandando mais um soufflé para o galheiro, e o creme de algas deixou-lhe a face untosa como brilho de fumeiro.
Olhou-se ao espelho com a braguilha aberta e a cara naquela desgraça; suspendeu a luta com o fecho das calças e deixou a dignidade respirar por instantes, enquanto tentava ignorar a dor ciática.
Claramente, a tal história da reestruturação principiava mal... Para recomeçar não bastaria reproduzir um começo anterior, certamente não era esse o modelo que lhe impediria mais falhas no futuro.
Rendeu-se então à evidência de que, por muito que desejasse uma estrada larga e livre para avançar em linha reta, o destino é propenso a dar o dito pelo não dito.
Ah, a vida tão madrasta!, que ludribia e prega rasteiras de surpresa sem dizer água-vai...
Vai daí, listou as suas prioridades e foi comprar num impulso um creme de algas que prometia milagres de rápida acção e uma batedeira eléctrica com várias velocidades, cujo barulho se assemelhava a um ar condicionado dos antigos a engasgar.
A Prazeres convenceu-se então, entre dois suspiros inercortados por uma inspiração e expiração profundas, que era escusado remexer no passado e o melhor era deitar fora a chave da gaveta dos remorsos. Para a frente é que é caminho!, dizia ela, enquanto tentava, com um optimismo quase ingénuo no semblante, enfiar-se à força numas calças de ganga de quando ainda não tinha aquela bosguinha saliente e tão inconveniente.
Coitada da Prazeres, bem se lixou: a batedeira deu o berro ao primeiro bater de claras, mandando mais um soufflé para o galheiro, e o creme de algas deixou-lhe a face untosa como brilho de fumeiro.
Olhou-se ao espelho com a braguilha aberta e a cara naquela desgraça; suspendeu a luta com o fecho das calças e deixou a dignidade respirar por instantes, enquanto tentava ignorar a dor ciática.
Claramente, a tal história da reestruturação principiava mal... Para recomeçar não bastaria reproduzir um começo anterior, certamente não era esse o modelo que lhe impediria mais falhas no futuro.
Rendeu-se então à evidência de que, por muito que desejasse uma estrada larga e livre para avançar em linha reta, o destino é propenso a dar o dito pelo não dito.
Ah, a vida tão madrasta!, que ludribia e prega rasteiras de surpresa sem dizer água-vai...
Não sei como a Prazeres conseguiu, mas lá fez das tripas coração e perdeu sete quilos bem suados.
O mais importante, contudo, foi afastar de vez o Raimundo da oficina que regressava sempre tão arrependido até fazer merda mais uma vez. Pôs-lhe uns patins, a Prazeres, e não lhe deu mais abébias, ah valente!
Um dia apanhei-a a sair da padaria da Albertina e tentei satisfazer a minha curiosidade: afinal qual era o segredo daquela superação toda? Mas ela respondeu-me apenas, com toda a serenidade de uma brisa estival:
- Para trás mija a burra
Um dia apanhei-a a sair da padaria da Albertina e tentei satisfazer a minha curiosidade: afinal qual era o segredo daquela superação toda? Mas ela respondeu-me apenas, com toda a serenidade de uma brisa estival:
- Para trás mija a burra
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