Provérbios Provados noutras casas:

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Provérbio provado encornado

Casaram na capela da terra dela num sábado de Junho, ao meio dia no pico do sol, na presença de uma centena de convidados
A cerimónia foi interminável: o padre Bartolomeu arrastou a homilia o mais que pôde, reinterpretando vagarosamente as alíneas e entrelinhas do Evangelho. Tanto prolongou a dita, que a suada audiência em desespero não lhe adivinhava fim à vista.
Foi então que o prior, raposa velha na observação da linguagem corporal dos fiéis, se dignou concluí-la, passando directamente para o diálogo antes do consentimento com as perguntas da praxe. Seguiram-se-lhe os votos. Nesse momento, tão aguardado pela plateia, os noivos uniram as mãos direitas e declararam a sua aceitação.

- Eu, Inocêncio Cornélio, recebo-te por minha esposa, Maria Teodora, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

A tímida Teodora secundou o noivo na intenção, tal como era esperado, e o padre Bartolomeu dispôs-se a finalizar a cerimónia, selando a união.

- Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu.

E, pronto, a boda dera-se sem grandes sobressaltos. Houve quem criticasse o vestido da noiva, a mesa de sobremesas e a função em geral. Houve quem bebesse mais do que a conta, chamando o Gregório para cima da fatiota melhorada. Tudo normal.

Após uma curta lua de mel, e tal como previsto no contrato, começou a vida marital propriamente dita.
Os pombinhos passaram a arrulhar num tom diferente. Já não estavam sempre de acordo. As suas questões rodeavam o orçamento apertado e a chegada dos filhos. Ao passo que o Inocêncio era poupado e queria muito ser pai de um casalinho, Teodora gostava de esbanjar e não tinha pressa nenhuma de cuidar das crias.
Rapidamente, o marido fez a leitura do cenário: a namorada fora uma, a mulher era outra. Teodora mudara como da água para o vinho. Mas o Inocêncio amava-a e tinha prometido, perante Deus e os homens, continuar a amá-la.

Comemoraram um ano de casados, comemoraram dois, e Teodora estava cada vez mais distante.
Entretanto, a notícia já corria pelas ruas da aldeia, à boca pequena. Nomeava-se o Zé Perpétuo Alfaiate, o caixeiro viajante que passara a andar mais vezes por aquelas estradas e até o filho do padeiro cujo acne da puberdade desaparecera de repente. As gentes sussuravam, desgostosas: Vai ser o último a saber, coitadinho do Inocêncio Cornélio.


- Coitadinho é corno




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