Provérbios Provados noutras casas:

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLIX

Nos já partilhámos cuecas
Depois de lavadas e secas
E também nasceres do sol
A horas de estar no lençol

Tantas vivências conjuntas
Respostas e até perguntas
Com lágrimas e muito riso
Às vezes com pouco juízo

Eu podia assim continuar
Para a nossa história relatar
Mas seria afinal um cliché
E mais palavras para quê?


Provérbio provado rimado - MDCCXLVIII

Tu pareces um deus grego 
Tal qual Adónis ou Apoio 
Com esta massagem ao ego 
Aproveito para te dar colo

Dizer que és bem parecido 
Está longe de ser mentira 
Mas não fiques convencido 
Por teres uma cara tão gira 

És muito bem proporcionado 
E tens uma figura invejável 
Mereces até ser idolatrado
Porém isso é pouco saudável 

Eu termino agora o discurso 
Ou senão nunca mais acaba 
E farei uma figura de urso 
Com o queixo a escorrer baba


terça-feira, 28 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLVII

O tempo é sempre o melhor
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor

Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento

Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo 


Provérbio provado rimado - MDCCXLVI

O trabalho é apenas trabalho
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes

E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque

Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida

 

Provérbio provado rimado - MDCCXLV

O Arménio é dos que não caga
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita

Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima 


Provérbio provado rimado - MDCCXLIV

Tu és um empata fodas
E nem sequer és de modas
Não te ralas se atrapalhas
Ao te intrometeres ao calhas

És a nata no meio do leite 
Não traz o que se aproveite 
Se percebes que estás a mais 
Só te vais nos instantes finais 

É preciso mostrarem-te a hora
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste


Provérbio provado rimado - MDCCXLIII

Será que ainda estás acordado
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu

E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração 


Provérbio provado rimado - MDCCXLII

Dizem que levo a peito
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração

Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira

Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério 




Provérbio provado rimado - MDCCXLI

Por seres muito jeitosa e linda
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes

Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito

Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta

Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam


Provérbio provado desafinado

A ideia nascera de uma conversa do seu defunto pai com o irmão mais velho, tio de Carlos, que ocupara o lugar de chefe de família quando o pai de ambos se finara.
 O tio Justiniano era um sapateiro à antiga, dos bons, e quando vira o irmão em palpos de aranha, sem conseguir descortinar no filho uma vocação, logo se predispusera a ajudar sem pestanejar ou sequer pensar duas vezes.
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.

Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.

Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...

Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.

Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?

Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.

Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!


- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão? 

Provérbio provado rimado - MDCCXL

Se me achas uma mais-valia 
Mas me deixas na ignorância 
Pensa assim no bom que seria 
Validares a minha importância 

E dizeres então alto e bom som
Que sou competente e que gostas
Sem qualquer lamúria no tom
De me dar palmadinhas nas costas 

Não me farias de todo um favor 
Já que esse elogio eu mereço 
Para conhecer o meu valor 
Sendo digna do teu apreço 




segunda-feira, 27 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIX

Põe o lobo mau a redigir 
Uma lei do código penal
E depressa irás descobrir 
Como defende o seu igual 

Vai mudar os regulamentos 
Para que os que devoram ovelhas
Possam estar desse crime isentos 
Não cheguem a levar nas orelhas 

É assim mesmo na governação 
Que a política é um jogo sujo 
Apadrinha quem está de feição 
E quem a concordar é sabujo

Quando alguém se faz militante
Deve estar ciente que engraxar
É postura do mais importante 
Se quiser vir um dia a liderar

Vai lambendo cus à medida 
Que sobe degraus dois a dois 
E com a ideologia esbatida
Já nem olha para trás depois 

A vaidade alheia alimenta
E defende o próprio interesse 
Faz o que o aparelho sustenta 
Indiferente ao que o povo padece 

O que aprende ao tomar partido 
É a ser tão competente a lamber
As botas de quem foi escolhido
Para que uma nação vá reger 

Faz menção de se pôr na fila 
E de ser o melhor concorrente 
Enquanto directrizes compila
Para quando ele for presidente 

Quem pela sua bitola alinhar 
Quando um dia cantar vitória 
Não se vai esquecer de engraxar 
E de novo se repete a história 

Pois sempre haverá lambe botas
Lambe cus que são engraxadores
E que assim desconhecem derrotas 
Estão no pódio com os vencedores 


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXVIII

Um embrulho às três pancadas 
Sem um laço ou uma fita rosa 
Pode esconder coisas variadas 
E uma oferta bem generosa 

Quando o gesto falha o alvo 
O bolo queima e a frase sai torta 
Fica lá fundo no peito a salvo
O carinho que afinal importa 

Não se mede o amor em moedas
Nem a amizade em perfeição 
Para combater atitudes azedas
O que conta sempre é a intenção 



Provérbio provado rimado - MDCCXXXVII

Queres sempre botar faladura 
Mesmo quando é má altura 
E fazes um discurso soturno
Seja este ou não oportuno 

Faz-te falta ter mais noção 
Do instante em que a multidão 
Já está farta do tema comprido 
Que teimas lançar-lhe ao ouvido 

Tens de identificar o momento 
Em que precisas enfim de parar
Que a plateia não está a contento 
E pouco lhe falta para bocejar 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXVI

Esta actual juventude 
Gosta muito de ajuizar 
Mas não há nessa atitude 
Muitas ganas de trabalhar 

Os velhos no fim da vida 
Querem mandar na tradição 
Mas a coisa sendo espremida 
Passa pouco de vã intenção 

Ao juntar as duas gerações 
O desfecho não é promissor 
Pois abundam tantas reacções 
Cada um quer levar a melhor 

Pretendem ter ambos razão 
Mas esse fosso geracional
Só aumenta mais a divisão 
Muito mais do que era ideal 

Têm tanto ainda a aprender 
Lenha verde e velho gogo 
O que costuma acontecer 
É muito fumo e pouco fogo 


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXV

Nem tudo o que parece sagrado 
Esconde dentro uma salvação 
E pode estar muito iluminado 
Mas o brilho é só uma ilusão 

O conceito do que é o divino 
Depende do deus que se adora 
E até um monge beneditino
Pode pôr as mangas de fora 

Há que olhar para o pregador 
E para as virtudes que sustenta 
Porque o mijo do senhor prior 
Não é composto de água benta 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXIV

Playboy de trazer por casa 
Tem lábia para dar e vender 
Não resiste a arrastar a asa
Se por ele passa uma mulher 

Seja alta baixa ou gordinha 
O macho não se faz rogado 
E vá acompanhada ou sozinha 
Sempre um piropo é lançado 

Para conversar está disposto 
Também para trocar galhardetes 
Vai rodeando o sexo oposto 
Até que elas lhe atirem piretes

Tão firme não larga a labita
De qualquer rabo de saias
A uma feia ele chama bonita 
Pois todas servem de cobaias 

Pratica um tipo de assédio 
Que chega quase a molestar 
Mesmo que lhe mostrem o médio 
Não há meio de se pôr a andar 

Nesse acto de tanta insistência 
As fêmeas respondem fugindo 
Que lhes dê o Senhor paciência 
E perceba que não é bem-vindo 

Furioso ao ser dispensado 
Vai faltar-lhes então ao respeito 
Por ficar muito ressabiado
Vai dizer que se põem a jeito


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIII

Estou farta das tuas bocas 
Das insinuações indirectas 
Se me queixo tu não te tocas
E respondes com uma careta

Vejo que te estás nas tintas 
Porque os ombros encolhes
E prossegues fazendo fintas 
Essa é a atitude que escolhes

Mas não vou perder a cabeça 
Nem me vou passar dos carretos 
Espero só que a raiva arrefeça 
Com uns truques muito concretos 

E enquanto tu fazes piadas 
Com o intuito de provocar 
Por mim elas são ignoradas 
Para ti eu estou-me a cagar 

Guarda os comentários mordazes
E as tuas alusões zombeteiras
Há pessoas que não são capazes 
De te ouvir sem perder as estribeiras 

Furiosas por serem picadas
Não aguentam tanto remoque
Tão cansadas de alfinetadas
Pode dar-lhes depois o amoque


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXII

Tu escuta os mais idosos 
Mesmo se são teimosos 
E até se forem birrentos 
Desligados ou desatentos 

Sempre a darem opiniões 
Às quais juntam palavrões 
Mas tu tenta ter paciência 
Pondo a mão na consciência 

Não sabes o que te espera 
Quando acabar a Primavera 
E deres por ti num Outono 
Enferrujado e com sono 

Por isso tu escuta o que dizem 
Mesmo que de aparelhos precisem
Está provado que o cão velho 
Quando ladra dá bom conselho


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXI

Por hoje eu fecho a porta 
Apesar da empena torta 
E por ora arrumo a caneta 
Cansada de ser uma poeta 

Mas não vou embora de vez 
Continuo a escrever pra vocês 
Aguardai e não desesperais
Prometo que amanhã há mais 


Provérbio provado rimado - MDCCXXX

Mostras a típica postura 
De quem evita a decisão 
Esperas a melhor altura 
A fim de obter projecção 

E praticas a ambiguidade 
Usas frases contraditórias
Destapando pela metade 
As sentenças obrigatórias

O teu objectivo é agradar 
Ao mesmo tempo à gente 
E por isso não vais opinar 
Se surge um tópico quente 

Pela frente apoias as frentes 
Os dois lados duma discussão 
Ao passo que tu entre dentes 
Já murmuras outra opinião 

Podem ser atitudes opostas 
De dois cantos das barricadas
Que ambas têm razão apostas
Considerando as duas erradas 

E por não assumires posição 
Desconheces o que é firmeza 
Vais por onde os outros vão 
Sem ter um grama de certeza 

Essa falta dum compromisso 
Aprova qualquer argumento 
E tu não és confiável por isso 
Pois te prestas ao fingimento 

Sempre a jogar nos dois lados 
Vais tentando avivar o fogo 
Assim não enterras machados 
Com esse teu género de jogo 

És daqueles que não explicam
Tão pouco jamais se revoltam
Porque vais com os que ficam 
E até esperas pelos que voltam 


Provérbio provado rimado - MDCCXXIX

Ó Adérito tu volta filho 
Por mim estás perdoado 
Já me esqueci do sarilho 
Que arranjaste há bocado 

Adérito não te demores
Larga o que estás a fazer 
Mesmo que não decores
As frases que deves trazer 

Perdoo-te a falta de jeito 
Que caracteriza o teu gesto 
E a pouca noção do preceito 
Que o torne menos funesto

Também te desculpo ainda 
O não seres mais carinhoso 
E dou a conversa por finda 
Para tu não ficares receoso 

No fundo eu sou bom coração 
Sinto que mais vale perdoar 
Do que não desculpar uma acção 
E entender que é melhor castigar 


terça-feira, 14 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXVIII

Não percebo se és limitado 
Ou se és apenas desleixado 
Ou tens défice de vitaminas 
Dado o modo como raciocinas

Tu não entendes à primeira 
Nem à segunda ou à terceira 
E porque paciência não tenho 
É melhor fazer-te um desenho 


Provérbio provado rimado - MDCCXXVII

Ao chegar com uma comitiva 
E uma pose deveras altiva 
Trazes certa atitude postiça
De beata saída da missa 

Trazes uma cruz ao pescoço 
Na boca um sorriso insosso 
E cheia de lábia e de manha 
Inauguras a tua campanha 

Sempre que surges em directo 
Gostas de inventar novo repto 
Para que assim não esqueçam
E essa tua oratória enalteçam

No debate não mostras fleuma
Provocas constante celeuma 
E quando perdes a dianteira 
Mais pareces uma barraqueira

No teu estágio curto de vedeta
Antecipas tal como um profeta 
A eficácia das tuas medidas 
Quando e se forem admitidas

Com uma firme voz de comando 
Vais com promessas acenando 
E evitando os temas profundos 
Tu prometes mundos e fundos 




Provérbio provado do poeta alegado

Tal como de médico e de louco, também de poeta todos temos um pouco. E será mesmo só um pouco? Talvez um pouco mais do que um pouco apenas, que a veia poética é uma pulsão que produz sempre quociente.

Mas afinal o que tolhe esses poetas potenciais? A ditadura da coerência. A imposição dum procedimento. O procedimento que há-de permitir o estilo.  A confusão entre o estilo e a própria voz. A vida a que chamam real que não cede espaço a fantasias. Mas principalmente a vergonha. Ou melhor, o receio da vergonha antes que sequer ela assome. O medo do ridículo acena com um purgatório constante.

Chega a ser curioso que não se questionem a norma e a imposição sociais que acabam também por conter uma percentagem de erro e até de abstração.
Um dia, quando tudo for estatística, amparar a mediana será uma tentação.

Recuperando a meada, esticado que vai o fio no percurso, existe então uma veia poética universal inexplorada pela humanidade?
A fala do corpo não pode reclamar exclusividade; a voz interior, essa sim!, assina qualquer desejo com maior expressividade.

Os indivíduos continuam a surpreender-se com o rumo que seguem os próprios pensamentos quando a realidade extravasa o molde. São momentos de assombro e de convívio entre o temor e o espanto.
Para além das primeiras impressões, manda a óptica. Ter retina não basta. O sobrolho não se franze com linhas iguais em todos os olhos. Pestanas e sobrancelhas não dependem de compassos pré-determinados.
O modo de ver de cada pessoa muda as ocorrências para que melhor sirvam às circunstâncias.

Enquanto o médico e o louco têm uma receita para todas as questões, o poeta não apresenta soluções. Quando muito, imprime ncvos ritmos às perspectivas de quem o lê.
De cada vez que a leitura de um verso destapa uma nova estrada para um pensamento antigo, ocorrendo uma sensação de familiaridade ou identificação, não vale a pena procurar mais: é então que ocorre poesia.



- De poeta e de louco todos temos um pouco 

sábado, 11 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXVI

O que a gente leva da vida 
É somente a vida que se leva 
Para que não seja esquecida 
É conveniente que se escreva 

Que se registem os momentos 
Bons ou maus ou assim assim 
Letras livres de julgamentos
Que pouco interessam no fim 


Provérbio provado rimado - MDCCXXV

A Fátima não tem descanso 
Nunca o seu gesto é manso
E em cada jornada é normal 
Ter sempre tensa a cervical 

Por agruras do seu calendário 
É tão apertado o seu horário 
E nessa rotina de lufa-lufa
Não pode ser flor de estufa 

Sempre a operar várias frentes 
Vai murmurando entre dentes 
Que não ganha soldo de bombeira 
Nem lhe pagam por cada rasteira

Ela anda em modo de corrida 
Não conhece outro tipo de vida 
Pois no fundo é muito receptiva 
A andar em grande roda-viva 


Provérbio provado rimado - MDCCXXIV

Há pessoas que não são capazes 
De manter a bocarra fechada 
Julgam-se dessa forma sagazes
Mas colocam a gente indignada 

Desbocadas em qualquer contexto 
Perdem sempre uma boa ocasião 
De assim calarem um pretexto 
Que os fez ter cada má intenção 

Não se julgue que é coisa pouca 
De desculpas ficar à míngua 
Que se o peixe morre pela boca 
Muita gente morre pela língua 

Quando certas palavras proferem
Estão em busca duma justificação 
E por tais desígnios esconderem 
É difícil que obtenham perdão 




Provérbio provado rimado - MDCCXXIII

Vejam bem o caro Rafael 
Já merecia o prémio Nobel 
Por ter escrito de antemão 
Um relato de desilusão 

Ao ter gizado esse enredo 
Deu-lhe um arrepio de medo 
E então decorou entrevistas 
Para evitar dar nas vistas 

Tendo cada gesto estudado 
Desejou jamais ser enganado 
E ao mostrar tal comportamento 
Não soube aproveitar o momento 

Foi assim que o nosso Rafael 
Representou um lindo papel 
Afinal ele um Óscar merecia 
Porque em cada acto fingia

Quando chegou a despedida 
Deu um doce e depois foi à vida 
Não fez nada do que prometeu 
E no fim foi um ar que lhe deu 



Provérbio provado rimado - MDCCXXII

A saudade pode até ressonar 
Se o amor se vira para o lado 
É o seu modo de reclamar 
Ao ver que este foi adiado 

Mas se a insónia experimentar 
Não precisa de ser despertado 
Que a saudade é preciso lembrar 
É o amor que ficou acordado 

Sempre alerta e em pose de dar 
Não exige ser recompensado 
Saudade e amor estão a par
Se este último for demorado 

Se parece que está a ensaiar 
Por não ter o texto decorado 
Tem um modo de improvisar 
Que o faz ser mal aproveitado 

O que irá no futuro causar 
Por agora é um caso ignorado 
Contudo se a saudade ajudar 
Ao vivo será bem desfrutado 


Provérbio provado rimado - MDCCXXI

É uma história muito antiga 
Que está repleta de intriga
Pois há que razões inventar 
Para as guerras justificar 

No mapa de tal geografia 
Só o poder tem primazia 
Como um jogo de tabuleiro 
Ganha quem arrisca primeiro 

Há só um objectivo final 
É arrecadar o vil metal 
E essa ambição tudo come
Do prato de quem passa fome 

São incríveis os vários álibis
Que constroem esses perfis 
Dos que pegam no microfone 
Com trejeitos dum cicerone 

E faltando tanto à verdade 
São modelos da falsidade 
Mostram que em tempo de guerra 
O que há mais é mentira na terra 




Provérbio provado rimado - MDCCXX

Ninguém atina com a razão 
De pareceres tão porcalhão 
Mas no fundo és um doente 
Em ti o achaque é frequente 

Tu sofres de dores constantes 
Queixas-te em muitos instantes 
E por isso o teu corpo achacoso
Jamais se apresenta cheiroso 

Toma todos os dias um banho 
Ou terás um cheiro estranho 
Como uma cebola nos sovacos 
Que se entranha nos casacos 

Os teus pés têm odor a queijo 
Assim ninguém te dá um beijo 
Todo o corpo te cheira a mofo
Quem se abeira tem de ter estofo

E o perfume do teu cabelo 
É igual ao bafo do camelo 
Precisa de imenso champô 
Mas toda a gente se calou

Não há quem tenha coragem 
De te transmitir a mensagem 
Ou então dar-te um sabonete 
Para usares depois da retrete 



Provérbio provado rimado - MDCCXIX

A cada ser humano sobram
As próprias interrogações 
Dispensa quando lhe cobram
E impõem outras condições 

Porque ele é dono e senhor 
Da sua entrada da frente 
E não vai incluir o favor 
De abri-la a toda a gente 

Tudo isto eu mesma intuí
Agindo com bons modos 
Afinal cada um sabe de si 
Só Deus é que sabe de todos 


sexta-feira, 10 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXVIII

Esse teu discurso tem brilho 
Debitas chavões em chorrilho 
Se começas não sabes parar 
Tu não aprendes a dialogar 

Tens muita léria e futilidade 
É a marca da personalidade 
À qual falta tanta substância 
Parece capricho de infância 

Porque dá-te muito na veneta
Contares treta atrás de treta 
E assim a cada nova laracha
Provas a conversa de chacha


Provérbio provado rimado - MDCCXVII

Nas alíneas do teu contrato 
Não há nada que salientar 
O teu esforço é dado barato 
Só contigo tu podes contar 

Então sê um peão cumpridor
Sem jamais esperares elogios
Se há prova de que tens valor 
Essa é soma de mais desafios 

E um dia ao estares ausente 
É que a falta te irão sentir 
Não és apenas competente 
Tu és difícil de substituir 

Ao te lançares para a frente 
Doutro emprego que te seduz 
Lembra-te de ser previdente 
Não tornes a assinar de cruz 




Provérbio provado rimado - MDCCXVI

Estou fartinha da tua conversa 
Ultimamente sabe-me a pouco 
Pode ter componente perversa 
Porém o resultado é tão oco

Só o sexo é que tem qualidade 
Mas todavia no dia a seguir 
Sinto que houve apenas metade 
Daquilo que poderia existir 

Com a estima assim decrescente 
Tenho medo de algo te propor 
Por saber que te é indiferente 
Que haja poucas vezes calor 

Já pensei que tu eras medricas 
Por esconderes essa tua afeição 
Mas agora só acho que ficas 
Sem interesse depois da tesão 

Como está é-te mais confortável 
Sem partilhas e sem amarras
Contudo é pra mim questionável
Que desprendas enquanto agarras

Considerei para sempre partir
Para experimentar se falta te faço 
Com receio de então descobrir 
Que jamais existiu esse laço 

Feitas todas as contas não chego
A nenhuma real conclusão 
E neste limbo e desassossego 
Estou mais perto da desilusão 

Os teus silêncios prolongados
Deixam-me muito decepcionada 
Por saber que são planeados 
Para eu não ficar apaixonada 

Eu não sei como não percebeste 
Que esse rumo vem tarde demais 
Ao tirares o que antes me deste 
Fazes estragos monumentais 

Nunca tens a resposta certa 
Não mereces a minha atenção 
Acho uma injustiça completa 
Que me deixes ficar na mão 


Provérbio provado rimado - MDCCXV

Aquele que recebe e chora 
Sem cuidar de quem o ajudou 
Ao virar as costas ignora 
Esquece quem o amparou

É um grande mal agradecido 
Nem sequer percebe o estrago 
De ter posto o outro fodido
E ainda por cima mal pago 


Provérbio provado rimado - MDCCXIV

Quem leva um saco para dar
Leva outro também para trazer
No fundo está só a emprestar
Com um intuito de recolher 


Provérbio provado rimado - MDCCXIII

Topo o teu feitio de ginjeira 
Os trejeitos e as reacções 
Queres tudo à tua maneira 
Mesmo se não há condições 

Antecipo o teu comportamento 
Pois conheço-te a personalidade 
Se pudesses tinhas um regimento 
Para satisfazer cada vontade 

Mas comigo não fazes farinha 
Eu já dei para o teu peditório 
Que eu prefiro ficar sozinha 
E defender o meu território 

Pra malucos aqui não há pão 
Nem colo ou palmadas nas costas 
E é tão escusado pedires perdão 
Estou-me a cagar se não gostas 

Desta vez tu pisaste o risco 
E fizeste uma valente merda 
Tira essa postura de arisco
É mais tua que minha a perda

Tu regressa por donde vieste 
Porque a tua atitude me afasta
Foste parvo e não te contiveste
Já sei bem o que a casa gasta 



Provérbio provado rimado - MDCCXII

Por norma uma confidência
Dá lugar à maledicência 
Muitos não sabem guardar 
Um segredo sem o contar 

Têm uma língua de trapos 
E já mereciam uns sopapos 
Por pôr nas bocas do mundo 
O que era segredo profundo 


Provérbio provado rimado - MDCCXI

Se tu gostas de pôr o carro 
À frente dos bois que o arrastam 
Tem lá calma ou não te agarro
E só dois encontros me bastam 

O segundo já foi suplemento 
Dei-te outra oportunidade 
Para ver se um novo momento 
Me despertava uma vontade 

Mas foi tal a falta de interesse 
Não senti qualquer tipo de chama
Como se eu fechada estivesse 
Perante um prenúncio de cama 


Provérbio provado rimado - MDCCX

O demónio anda contigo 
Faz do teu corpo abrigo 
E até se imiscui na cabeça 
Pois ele é uma bela peça 

Faz de ti um ser agitado 
Belicoso e muito irritado 
Em breve tu levas o troco 
Por teres o diabo no corpo 


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCIX

Eu nunca aprendi nada 
Jogando só pelo seguro 
Mais quero ficar espantada 
E tirar da frente esse muro 

Eu prefiro ir à confiança 
E deixar o medo para trás 
Como outrora quando criança 
De tudo me pensava capaz 

E agora na idade adulta 
Em que a vida é instantânea
Espero não levar uma multa 
Por me manter espontânea 


Provérbio provado rimado - MDCCVIII

Se às vezes te cai a ficha
É quando o destino te lixa
E a sorte não te acarinha
Paciência é assim a vidinha


Provérbio provado rimado - MDCCVII

Não digas mal dos demais
Mesmo nos actos banais
Guarda a tua língua afiada
É melhor ter a boca calada

Tão pouco te vás enfadar
Com o que alguém te contar
Mais atrevido que quem diz
É quem chega a mostarda ao nariz 


sábado, 4 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCVI

O tempo por mais que refiles
É o teu calcanhar de Aquiles 
A idade é o que te atormenta 
Pois queres chegar aos oitenta 

Só um número é diz o povo 
Que se soma a um ano novo 
Não te assina a identidade 
Ou quem és face à sociedade 

Esquece esse teu ponto fraco 
Que te põe os nervos num caco
E não menosprezes a velhice 
Como se fosse grande chatice 

Porque até o Aquiles sofreu 
O que talvez não mereceu 
E apesar de sentir a derrota 
Em Tróia ele não fez batota 

Ficou preso pelo calcanhar 
Que a deusa não quis largar 
Ao ficar assim tão vulnerável 
O desfecho foi inevitável 


Provérbio provado rimado - MDCCV

Ó compadre se tens fome
Tens as tripas a roncar
Procura o que se come
Para a fome contentar

Um cozido à portuguesa
Com orelha e com focinho
Já te arruma a fraqueza
Ao fazer par com o vinho

Porém tu talvez prefiras
Um bom prato de feijoada
Que num ápice tu viras
Se ela for bem apurada

Deixa os feijões de lado
Puxa a cadeira para cá
Toma bacalhau dourado
Outro igual assim não há

Se queres peixe há choco
Bem frito ou com tinta
Que te vai saber a pouco
E te obriga a usar cinta

Não reclames camarada
E pede uma francesinha
Com o picante atestada
O mais forte da cozinha

Seja carne peixe ou pão
O que vier é que morre
Para teres uma refeição
Que o estômago te forre

Se no final houver ceia
Não te será indiferente
Já que a barriga cheia
Faz o coração contente 



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCIV

Não entendo o que tu esperas
Com tamanho ataque frequente 
Tu desejas lançar-me às feras 
Mas porém eu fico indiferente 

Assim ficas a falar tu sozinha 
Ignoro as tuas provocações 
E a resposta é ficar na minha 
Não dou pasto às tuas questões 

Logo não te devo um só chavo
Um euro ou sequer um tostão 
Contudo deves-me o agravo
Ao vir com sete pedras na mão