Provérbios Provados noutras casas:

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCCVII

Há a ideia que a pressa
É a inimiga da perfeição
E é normal que esqueça
A cautela e a ponderação

É facto bem comprovado
Que dispensa argumentos
Quem é muito apressado
Vai estragar os momentos

Engolir sem antes mastigar
Não permite sentir o sabor
Isso não é viver mas tragar
A postos para o dissabor

 

domingo, 20 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCCVI


Gosta a Ana de dar nas vistas
Mas o que ela dá é bandeira
É do género daqueles artistas
Que sabem o pregão da feira

Está visto que o espalhafato
Lhe é fatia da personalidade
Para mais tem falta de tacto
Não lhe assiste a civilidade

Foge-lhe o pé para o chinelo
Quando ambiciona ter razão
E até chega a roupa ao pêlo
De quem lhe faça acusação 


Provérbio provado rimado - MDCCCV

Dei casa ao pobre do Inácio 
Que pedia um tecto e pão 
Mas o gajo com ingratidão 
Desdenhou do meu palácio 

Reclamando da minha sopa 
Ele disse com ar de desdém 
Falta-lhe sal e brio também 
Condiz bem com a tua roupa 

Do meu sofá tomou posse 
Fazendo do braço almofada 
E de resto não fez mais nada 
Como se um fidalgo ele fosse

Pedi-lhe que o lixo levasse 
E quase lhe deu um enfarte 
Ter trabalho não faz parte 
Nem que a casa desabasse

Teimou que a sala era fria 
E exigindo um aquecedor 
Armou-se muito em estupor 
Cheio de soberba e mania 

Pareceu-me tão destituído 
De vergonha e até de pudor 
Não sabendo ser um senhor 
Foi pobre e mal agradecido 


sábado, 19 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCCIV

Tu estás sempre a protelar 
Com uma cara de preguiça 
E já cansado ao acordar 
Fazes de adiar premissa 

Que a tua frase favorita 
É amanhã o mais tardar 
E todos vêem que é fita 
Estás apenas a atrasar 

Se não fazes o que queres 
Não penses estar tramado 
Vai fazendo o que puderes 
Que assim fazes um bocado 

E o que podes fazer hoje 
Faz a sério e com afã
Sem lamentar o que foge
Não deixes para amanhã 


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCCIII

Querida não faças barulho 
E abafa já esses gemidos
Embora me dêem orgulho 
As paredes têm ouvidos 

Não gosto de dar barraca 
Acordar todos os vizinhos
Por isso fecha a matraca 
Pára com os teus risinhos 


Provérbio provado rimado - MDCCCII

Diz-me com quem andas
E eu dir-te-ei quem tu és
Tens a mania que mandas
Nos rios onde há jacarés

Se tiveres por companhia
Várias famintas piranhas
Vai passar-te essa mania
Ao veres as suas manhas

Aprenderás por osmose
A teres ruins intenções
E a nova linha que cose
As tuas futuras acções

Tu serás rude e maldoso
Num gesto de imitação
Colérico e até rancoroso
Se não te for de feição

Mas se os invés imitares
Os sapos e as borboletas
Tu serás melhor se ficares
Nessas águas mais quietas

Com quem nadares no rio
Tu vais ser mais parecido
Não escolhas um desvio
Onde te encontres cingido

Afasta-te dos predadores
Que são uma má influência
E elege nos teus arredores
O que te trará sapiência

Prefere estar rodeado
De calma e de bondade
Serás mais afortunado
Por conhecer a amizade

 

Provérbio provado rimado - MDCCCI

Quem diz a verdade crua
Sem a máscara da praxe 
Prefere ser posto na rua 
Se esperarem que se abaixe

Mas a mentira é estimada
Se o antro é de impostura
Há quem bata em retirada 
Por não aguentar a agrura

Para longe bate as asas
Dá assim aos calcanhares 
À procura de outras casas 
Onde ninguém se dê ares


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCC

Se fosse a época da apanha 
E tivessem de vergar a mola 
Havia de ver muita manha 
Tal como no tempo da escola 

Havendo batata para apanhar 
Haveria desculpas aos molhos 
Como forma de assim recusar 
E atirar areia para os olhos 

Não estaria cá tanta gente 
Se lavoura fosse esta casa 
Estaria vazia certamente 
Depois de baterem a asa


Provérbio provado rimado - MDCCXCIX

O Luís não é bom de assoar 
E é difícil alguém o levar 
Porque ele é muito teimoso 
Para além de ser rancoroso 

Se lhe vires ranho no nariz 
Deixa lá sossegado o Luís 
Para não acordar o vulcão 
Que vai ser a sua reacção 


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXCVIII

Tens algum trunfo escondido 
Por baixo do que aparentas 
Para teres no cargo ascendido 
Enquanto desculpas inventas

Alto e bom som há quem diga 
Que subiste na horizontal 
Por não engolir a cantiga 
Do teu esforço profissional 


Provérbio provado rimado - MDCCXCVII

Diz a nossa voz popular 
Com a boca cheia de fado 
Habituada a só agourar
Com o bolso despovoado

Há males que vêm por bem 
Repete assim muitas vezes 
Embora não sobre vintém 
Em nenhum dos doze meses 

O mal nunca desaparece 
E o bem acumula atrasos 
Dessa forma o ditado parece 
Negar-se a cumprir prazos 



terça-feira, 8 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXCVI

A saudade é um abraço
Que ainda não aconteceu
No meio da falta de espaço
Que o gesto só favoreceu

E tal como aquele aperta
Sente-se bem a pressão
E fica a saudade deserta 
De logo retomar a união 


Provérbio provado rimado - MDCCXCV

O seu nome era Frederico 
Tinha alcunha de beto rico 
Era tão magrinho e franzino 
Desde que era pequenino 

As marcas no seu vestuário 
Suprimiam o ar ordinário 
Mas era um dez réis de gente 
Embora lhe fosse indiferente 

Sem ter nunca fome de nada 
Nem sopa ou sequer feijoada 
E tão cheio de tédio e fastio 
O seu aspecto não era sadio

Um dia caiu num desmaio 
Que parecia um badagaio
Deu ao pobre do Frederico 
Nessa hora um grande fanico
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXCIV

Já está carunchoso o Alcino 
Pois já lhe murchou a beleza 
Recorda os tempos de menino
Com melancolia e tristeza 

Carrega o peso dos Janeiros
Que aos anos já está rendido 
Por senti-los os derradeiros
Fica o Alcino deprimido 

Está com os pés para a cova 
Ele sente-se feito num caco
E nenhuma surpresa é nova 
Porque já é um velho macaco 

É uma raposa com sabedoria 
A chegar ao ocaso da vida 
E o que o próprio afligia 
Agora tem menos medida 

Um homem entrado nos anos 
A que chamam terceira idade 
E tal como os outros humanos 
Não dispensa a sua liberdade 

Num instante está na fronteira 
Foi tão rápida a vida diacho
O Alcino é como a bananeira 
Que já não consegue dar cacho


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Provérbio provado fiado

 Quando o Senhor Arlindo começou a trabalhar na mercearia estava muito longe de ser um senhor. Era só um miúdo pobre, de buço ralo, que tivera de fazer pela vida demasiado cedo. Fosse como fosse, sabia as letras e os números suficientes para dar conta do recado.

As suas primeiras tarefas tinham-se resumido a carregar os cestos das compras das freguesas até às respectivas casas, umas porque se queixavam de um joelho ali, outras de um ombro acolá. A freguesia apreciava a companhia e o treco-lareco daquele puto sempre tão desenrascado.

Agora já fazia parte da mobília, o Senhor Arlindo. E tinha até um tarefeiro, um miúdo à sua semelhança, que lhe fazia alguns recados.
Praticamente toda a população da aldeia se aviava no seu estabelecimento, uma vez que a vila ainda distava um bom par de quilómetros e a taberna do Rufino, que vendia macarrão, açúcar e feijão a peso, não era concorrência que esse nome merecesse. O merceeiro - Lindo para os amigos - gabava-se de ter à disposição da clientela os melhores legumes e frutos da região.
As pessoas entravam na mercearia para comprar, mas também para dar à língua: havia sempre alguém com quem trocar duas de letra.
Claro que havia um rol. O Arlindo tinha um caderno que ia preenchendo com a sua caligrafia demorada e uns números muito bem desenhados.


Numa tarde quente, uma daquelas tardes em que o Verão sabe mesmo ser Verão, o Arlindo polia com desvelo a casca dos pêros Casanova que haviam chegado de manhã, quando entrou o Toninho a correr, com a boina descaída e as calças arregaçadas.
- Atão, viva, ó Lindo! Faz-me cá um farnel de queijinho do monte e um chouriço jeitoso para levar para a vinha que já vou perseguindo a hora.
O Arlindo ergueu os olhos sem pressa enquanto continuava a esfregar os pêros.
- Sejas bem-vindo, ó Toninho! Espera lá um carito que a pressa é inimiga da perfeição. Deixa-me ir buscar a faca boa.
O Toninho mirou ansioso, pelo canto do olho, os ponteiros do relógio da igreja defronte.
- Avia-te, homem! Que a Maria está à espera no tractor com uma cara de poucos amigos que até mete medo aos lobos da serra.
O Arlindo dispôs as fatias do queijo e as rodelas grossas do chouriço num papel pardo que seguidamente atou com um cordel.
- Pronto, aqui tens a merenda. São seis euros e noventa cêntimos. Mostra lá esse maço de notas!
O Toninho deitou as mãos aos bolsos, apalpou-os e encarou o Arlindo; ficara, de repente, lívido, sem pinga de sangue no rosto.
- Chiça, pá... ó colhão! Ó Lindo, por pouca sorte não trouxe o dinheiro que ficou nas outras calças que a mulher largou ao lado do tanque hoje de manhã. Olha qu'esta! Aponta aí no teu caderno, Lindo.
O Arlindo cruzou os braços desconfiado. O Toninho era bem conhecido por teatreiro e embusteiro. Mas o caderno não fazia perguntas e o dono da venda também não. Sacou um lápis bem afiado da orelha e tomou nota da parcela em dívida. As cores regressaram às faces do Toninho que lhe sorriu agradecido.
- Amanhã mesmo, quando regressar da feira da vila, trago-te o dinheiro direitinho em trocado, palavra de honra, Lindinho! E agora tenho de abalar. Não ouves a minha Maria a buzinar como uma desalmada? Já vou levar nas orelhas, olá se vou!
O Arlindo ainda lhe atirou um recado, já Toninho alcançara a saída.
- Vê lá se o teu amanhã é mesmo amanhã! O teu amanhã costuma demorar três semanas a chegar cá acima à Beira.
O Toninho deu um passo atrás para lhe devolver um sorriso maroto e a frase:


- Deus te pague que eu não tenho trocos 

Provérbio provado rimado - MDCCXCIII

Se quem sabe faz a hora 
E não espera acontecer
Vai lutar aqui e agora 
Para além de prometer 

E assim vai arregaçar 
As mangas sem excepção 
Para não se contentar 
Ou ficar em frustração 

Enquanto as duas arregaça
Não se limita a tal gesto 
Põe ainda as mãos na massa 
Preparado para o resto 

Está totalmente a postos 
Para a vida enfrentar 
E então quaisquer desgostos
Não o vão amedrontar 



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXCII

Foi assim a brincar a brincar 
Que alguém criou a expressão 
De uma macaca a procriar 
Com a sua própria filiação 

E além de ser um incesto 
Que vai absolver o filhote 
Deve ser um coito indigesto 
Levar do filho no pacote 

Qual teria pois sido a ideia 
De expor dessa forma a macaca
Que vivia tão feliz na aldeia 
Sem jamais ter dado barraca 

Posso imaginar os rumores 
Que nesse acto têm origem 
Que andam pelos arredores 
E toda a macacada afligem 

É muito fácil levar à ruína 
De repente uma reputação 
Sem saber o que a origina
Além de um intento gozão

Então é o fim da macacada 
Não está cada um no seu galho
E foi tanto barulho por nada 
Que à mãe arranjou enxovalho

Com imensa piada que havia 
Para exemplo de brincadeira 
Lixou-se a macaca que queria 
Estar à sombra da bananeira 


Provérbio provado rimado - MDCCXCI

O teu narigão é enorme 
Não é que seja disforme 
Mas é por ser mal educado 
Mete-se onde não é chamado 

Por teres o nariz comprido 
Tu és bastante intrometido 
E vais as conversas estragar 
Por as quereres antecipar

Alguém que te corte o pio
Descobre que é um desafio 
Mostrar-te qual é o lugar 
Onde deves a bola baixar 

Haverá outro galo que canta 
Apesar de tu teres garganta 
Vê se encaixas que este cenário 
Não são contas do teu rosário 


Provérbio provado rimado - MDCCXC

O chefe dá os dias santos 
E também as noites de luar
Não se comove com prantos 
Se antes não os autorizar 

Comanda com mão de ferro 
Segurando a batuta na mão 
Por não tolerar nenhum erro
Origina sempre uma tensão 

Dá o bom tempo e a chuva 
Tal como a entidade divina 
A sua chapada é sem luva 
Enquanto assim discrimina 

As rédeas primeiras são suas 
Ele faz andar a carruagem 
Desenha o traçado das ruas 
Pois é quem escolhe a viagem 

Os outros têm de o seguir 
E calados então obedecer 
Não pode sequer omitir 
Que pretende tudo reger

E assim pondo e dispondo 
Dita o rumo das manobras 
No meio do gesto hediondo 
Alimenta o silvo das cobras

Não sabe ser a autoridade 
Não basta a faca e o queijo 
São sinal de arbitrariedade
E também de falta de pejo



terça-feira, 25 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXXXIX

Há quem goste de aproveitar 
O caos quando está pra durar 
E goze a sombra dos momentos 
Para assim retirar proventos

Enquanto acumulam valores 
São chamados de pescadores 
Que pescam em águas turvas 
E sabem deitar-se nas curvas 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXVIII

São argumentos sem peso
Pois não têm sequer validade 
Desde logo merecem desprezo 
Só demonstram incapacidade 

Se alguém se tomar de razões 
Para assim defender as que dá 
Nunca vai descobrir soluções 
Para as razões de caracacá






Provérbio provado rimado - MDCCLXXVII

Eles são os soldados da paz
Atentos a qualquer urgência 
Olham em frente e para trás 
Respondem a cada emergência 

Estão nos quartéis a postos 
Aguardando pedidos urgentes 
E cobertos de cinza nos rostos 
Acodem a salvar as gentes 

Ofício de carácter honrado 
Que exige muita vocação 
Pois ser da paz um soldado 
Não é ter de riqueza ambição 

Há quem não sendo bombeiro
Tenha um trabalho similar 
E assim passe o dia inteiro 
Com imensos fogos pra apagar 


sábado, 22 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXXVI

Vi-me grego para alcançar
Um pouco da tua atenção
Era teu costume dispensar
Tudo o que fosse interação

E foi por ver-me tão grego
Que foi tão difícil resistir
Elevou a vontade não nego
Assim eu não quis desistir

O assomo da dificuldade
Pode fazer o desejo maior
No meu caso a pura verdade
É que fez despontar o amor 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXXV

O teu grande sonho é mandar 
Numa tropa que te obedeça 
E assim se percebe o teu ar
Até para quem não te conheça

Que és autoritária está visto 
Que disso mesmo fazes gala
Enquanto eu atónita assisto
Só se faz silêncio na sala 

Tu não tens noção do ridículo 
Que é ver-te nessa tua pose 
Pois não passas dum folículo
Mas levar contigo é dose 

Por dentro até me contorço
Para não ir de ti reclamar 
E prefiro arrepios no dorso
Do que nas orelhas levar 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXIV

Tu costumas fazer omeletes 
Que não levam ovos sequer 
Inventas tudo o que prometes 
Para que ninguém vá requerer 

Para ti não há impossíveis 
Se forem os outros a fazer 
Até mesmo as tarefas falíveis 
Todos terão de empreender

Mas deixares-te de teorias 
Isso é que eu gostava de ver 
O que na prática tu farias 
Sem poderes os ovos comer


Provérbio provado rimado - MDCCLXXIII

Se desejam que eu me cale
O mais certinho é que fale
Do que esperam faço o oposto 
Sou do contra com muito gosto 

Se eu me sinto injustiçada
Vão encontrar-me danada 
E é tão certo como o destino 
Que vai acontecer desatino


Provérbio provado rimado - MDCCLXXII

Bate-me à porta um pedinte 
Com conversa muito mansa
Pede um euro mas quer vinte 
Mas de mim nada ele alcança 

Ele mendiga para o jantar 
Também prá renda da casa 
E eu respondo sem hesitar
Tem lá paciência e baza 

Há quem peça o dia inteiro 
Com desculpa bem estudada
Querem ver o meu dinheiro 
Mas o bolso não tem nada 

Então eu acabei de descobrir 
Mais um provérbio a provar
Que contra o vício de pedir 
Há a virtude de não dar 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXI

Para esta expressão há versões 
Que reúnem alguns palavrões 
Mas eu não quero ser afastada 
E ver a minha casa bloqueada 

Por isso vou portar-me bem 
E ser correcta como convém 
Deixo então ao vosso critério 
Porque são um público sério 

Escusam de esconder o riso 
As vossas risadas autorizo
Nesta casa o bonito bonito 
São as músicas do Tozé Brito 


Provérbio provado rimado - MDCCLXX

Tu surgiste cheia de pica 
Com tudo o que isso implica 
E foi tão fácil de constatar 
Que tinhas talento a dobrar 

Competência pra dar e vender 
E vontade de muito aprender 
Assim beliscaste as alminhas 
Que são ruins e mesquinhas

E por teres passado no teste 
Mais sombra tu lhes fizeste 
Ainda por esbanjares simpatia 
Tiveram cólicas e até azia 

Tu não sucumbiste à graxa 
Nem arreganhaste a tacha 
Ao fazeres bem o teu serviço 
Foste penalizada por isso 

Não ficaste presa nessa bolha 
E quiseram fazer-te a folha 
Mantiveste a pestana aberta 
Mostrando que eras esperta 

Como não torceste quebraste 
A dada altura tu desanimaste
Por não seres assim valorizada 
Vais bater um dia em retirada 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLX

Sempre que os olhos descobrem um novo dia 
Abre-se uma nova janela de par em par
Que permite mais um par de possibilidades 

E até pode parecer uma janela repetida 
Ou ser o caminho proposto semelhante 
Mas é sem dúvida uma nova proposta de saída 
O antes que se abriu entretanto já se fechou 
O ontem não volta e o amanhã não espera 

Uma hora são sessenta minutos 
Embora uma hora possa passar num pestanejar 
E sessenta minutos durarem uma eternidade 
Por isso são tão necessários os relógios:
O tempo não sabe bem a quantas anda 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIX

Tu andas armado ao pingarelho 
Sempre disposto para a chalaça 
Então é melhor ouvires o conselho 
Que qualquer dia se torna ameaça 

Até pensei nunca mais ser preciso 
Quando tu corres como um carapau 
Mas é necessário deixar-te o aviso 
E aconselhar que te ponhas a pau


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXVIII

Se estás de sentenças deserta 
Com mil ideias na algibeira 
Lembra-te que de boca aberta 
Ou entra mosca ou sai asneira 

Sempre que recordares este dito 
Vais manter a matraca fechada 
Evitas dessa forma um conflito 
E passas por pessoa ponderada 


Provérbio provado rimado - MDCCLXVII

Tenho fama de ter mau feitio 
Mas são só bocas da reacção 
Porque aturo muito desvario 
De quem quer chamar à atenção 

Vendo bem não tenho o proveito 
Dum temperamento complicado 
Talvez porque nem seja defeito 
Só um aspecto pouco tolerado 

Que a verdade é dura de ouvir 
E por isso a mentira piedosa 
É bem mais fácil de admitir 
Apesar da índole duvidosa 

E já que a reacção é escusada
Neste palco de maus actores 
Aprendi a ficar bem calada 
Para não colher dissabores 

Praticando assim a indulgência 
Está guardado no céu um lugar
Até lá Deus me dê paciência 
E um paninho para a embrulhar 


Provérbio provado num verso branco - CLIX

Quando um estrondo se rasga mais longe do que o tempo 
E produz um eco como um gemido vulcânico
Nesse segundo de deslize a sombra do erro 
Cobre toda a superfície da terra 

Os olhos debruçam-se sobre a ferida 
As línguas comentam a queda 
E longe dos ecrãs e dos microfones 
A vida faz ao tempo o que o tempo faz à vida 

As raízes perfuram os solos
A seiva trepa pelos caules
As andorinhas enfeitam os beirais 
Ninguém dá pelo suor da Natureza 
No seu labor invisível e silencioso 

Qualquer bom resultado não escuta aplausos
As bocas apupam com mais facilidade 
Do que as mãos se juntam para bater palmas 
A destruição é mais visível do que o progresso 
Uma árvore que cai faz mais barulho 
Do que uma floresta que cresce 



Provérbio provado rimado - MDCCLXVI

És parecida com uma mula
Quando finca os pés no chão 
Qualquer actividade é nula 
Sendo neutra a tua expressão 

Em face a essa cara de cera
Nem vivalma irá arriscar 
Que possas soltar a megera
E se vá o caldo entornar 

Por criares tão firme fronteira 
Da qual és tu a própria fiscal 
Ninguém vai transpôr a barreira 
Onde tu estás de pedra e cal 


domingo, 16 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLVIII

A Natureza sabe o que faz 
Por isso a mosca é leve e o leopardo tem pintas 
Nenhum animal sem asas tenta o voo
Ou pisa a terra se do mar nasceu 

Tudo tem um peso e um rumo exactos 
Cada macaco habita no seu galho 
O galho é pouso e não fronteira 
E é gigante dentro dos próprios limites 

Somente o homem deseja o que não tem 
E ambiciona o galho do outro homem 


Provérbio provado rimado - MDCCLXV

O que é que fica em riste
Sempre que me dás calor?
E ninguém a isso resiste
Se houver desejo e amor?

É um sentimento que cresce
Neste meu peito pecador
Paixão pura que acontece
Assim sem tirar nem pôr


Provérbio provado racionado

Fechava sempre a porta que dava para o pátio à hora das refeições, apesar da porta da cozinha estar enfeitada de fitas de plástico coloridas de alto a baixo. 
A avó dizia que as tinha colocado para afastar as moscas, mas sempre desconfiei que as fitas às cores cumpriam uma dupla função: afastavam também quaisquer mirones curiosos acerca do que se passava dentro de casa.
A avó detestava mirones, talvez uma herança do fascismo. Muito menos à hora das refeições sem que houvessem sido previamente convidados, talvez uma herança dos tempos de racionamento. 
Nos tempos que corriam havia mais sardinhas do que bocas, felizmente. Porém, a avó continuava a fechar a porta enquanto pedia silêncio. 


- Primeiro aos meus, depois aos alheios 

Provérbio provado rimado - MDCCLXIV

Por mais que comas quinoa
E granola até te empazinares
Tu tens de comer muita broa
Para me chegar aos calcanhares 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIII

Tu possuis o pequeno poder
De quem gosta de tudo prever
O teu grande vício é controlar 
O que ao teu redor se passar 

Contigo há que ter cuidado 
Com o teu modo dissimulado 
Pois sóis praticar a sonsice
E resulta sempre em chatice 

Tu andas pelos cantos da sala 
Para registar qualquer fala
Para de seguida ires chibar
Tens tendência para inventar 

Nas tuas pequenas demandas 
Nas pontas dos pés tu andas 
Com o intuito de surpreender 
Alguém que esteja a conviver 

E se acaso fores mencionada 
Tu até ficas quase aliviada 
É assim como falar no diabo 
Que logo lhe aparece o rabo 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXI

O Manel arranja sarna 
Para logo depois se coçar 
Enquanto a vítima encarna
Não termina de complicar 

E afinal são desnecessários 
Os problemas que arranja 
Só vai encontrar adversários 
A contenda para ele é canja 

Põe-se a jeito para a guerra 
Porque o Manel é belicoso
E qualquer inimigo desterra
Mesmo que ele seja amistoso 


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXI

Embora seja muito orgânica 
Já cansa a nossa dinâmica 
Dar prioridade ao instante
Torna a situação desgastante 

De cada vez que me exprimo
Consciente que me aproximo
Tu bates logo em retirada 
E eu fico meio atordoada 

Sei que sou a parte que pede 
E tu és aquela que não cede 
Mas no fundo tão pouco exijo 
Escusas de ter um esconderijo 

Mais parece que fazes favor 
Se me dás migalhas de amor 
Sinto até que quase suplico 
E dessa forma frustrada fico 

Estou farta de andar a brincar 
Ao ciclo de avançar e recuar
Neste jogo do gato e do rato 
Eu tenho o papel mais ingrato 


Provérbio provado rimado - MDCCLX

Por mais que da vida reclames 
Continuas preso por arames 
Numa situação tão instável 
Que se tornou insustentável 

Tanta neve contida na bola 
É um novelo que te enrola
E te faz rebolar em espiral 
Sem um ponto de fuga final 

Nesse modo de vida automático 
Vais deixando de ser empático 
Vais tornar-te numa marioneta 
Que habita noutro planeta 


Provérbio provado rimado - MDCCLIX

Não te fiaste no ditado 
Que a gente cita de cor
Depois do corvo criado 
Ele há-de dar-te o pior 

No momento em que surgiu 
Mais só do que Cristo na cruz 
Com as patas a tremer de frio 
Tu tentaste mostrar-lhe a luz 

Arranjaste-lhe com desvelo 
Um ninho muito confortável 
Passaste-lhe a mão pelo pêlo 
Para que se sentisse estável 

Transportaste-o nas palminhas 
Foi levado ao colo na estrada 
E no fim como já adivinhas
Sentiste no rosto a chapada 

Nem sequer luva branca calçou 
Em tal gesto de raiva brutal 
Ou qualquer gratidão demonstrou 
Viu a tua dádiva como trivial 

Não devias estar surpreendido 
Atendendo aos genes que tem 
Por não ter enfim retribuído 
Vê somente o que lhe convém 

Teus cuidados foram escusados 
Já devias saber de antemão 
Que após os corvos criados 
Um par de olhos te comerão



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVIII

Por ser burra até mais não 
Só cheguei hoje à conclusão 
De que nós não temos futuro 
Não sei porque ainda te aturo

Não consigo dizer-te um basta 
Mas a nossa união é nefasta 
Dás-me cabo da auto-estima 
Fazendo com que me deprima

Sei que com intenção não o fazes 
Mas vê que é preferível que bazes
Se no fundo tu não me acarinhas
E só me dás atenção às mijinhas 



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVII

Juntas machos em reunião 
Que respeitam a tua decisão 
E que dentro das tuas balizas 
Vão beijar o chão que tu pisas

Não são machos na verdade 
Mal largaram a puberdade 
Um a um os vais hipnotizar
Para que os possas comandar 

Tens um jeito de prima-dona 
Refastelada na tua poltrona 
Com caprichos a toda a hora 
Cuja satisfação não demora 

Ordenas com impertinência 
Dando cabo da paciência 
Dos miúdos que te idolatram 
E com deferência te tratam

E até que estejas atendida 
Aparentas estar desiludida 
Sem lágrimas fazes chorinho
Capaz de tremer o beicinho 

Quando alguém te contrariar 
Tu preferes o burro amarrar 
Pois és uma fedelha mimada 
Que só quer ser apaparicada 


Provérbio provado rimado - MDCCLVI

Se não há ninguém que o faça 
Não fiques à espera de ajuda
Tens de pôr a mão na massa 
Pois senão nunca nada muda 

E quando a mão lá puseres 
Não podes voltar mais atrás 
Faz o melhor que souberes 
Não somente o que satisfaz





Provérbio provado do paraíso disciplinado

A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças. 
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.

Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia. 
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade. 
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência. 
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns. 
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:


- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno 

Provérbio provado rimado - MDCCLV

Tens de sobra uma indecisão 
Que te impede o corpo de andar 
E face a tudo tu vais hesitar 
Pois nada te corre de feição

O teu gesto é sempre o remendo 
Para compôr algum tipo de erro 
Vais malhando a frio no ferro 
Sem tirar qualquer dividendo 

Mais parece que foste enfeitado 
Dada essa orfandade de ideias 
Todavia tu tens as mãos cheias 
Só de angústias do teu passado 

Por andares na vida à nora 
A correr atrás do prejuízo 
Não decifras o que é preciso 
Para enriquecer cada hora 

Quem o que busca não sabe 
Não identifica o que acha 
E dessa forma nunca relaxa 
Por sentir que nada lhe cabe 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLIV

A poupança gera poupança 
Por ser gesto que descansa
Quem não nasce para poupar 
Na linha nunca vai andar 

Andará num desassossego 
Preso a um consumo cego 
E o melhor que devia fazer 
Era com o poupado aprender 

Do que tem ele guarda metade 
Para que não o gaste à vontade 
Por ter um montante escondido 
Não se encontra desprevenido 

E até somas sem importância 
Guarda para qualquer instância 
Pois os bens que são essenciais 
Não podem faltar-lhe jamais 

Assim ao encher grão a grão 
Ele dá uma importante lição 
Quem não poupa água nem lenha 
Não poupa nada que tenha 



Provérbio provado rimado - MDCCLIII

Normalmente falas demais 
Disparando ideias banais 
Tanta asneira em catadupa 
É capaz de me pôr chalupa

Bem queria que abrandasses
E que menos tolices lançasses
Que o teu nível de disparate 
Se assemelha ao puro dislate

Em ideias absurdas insistes 
E das tolices tu não desistes 
Cada um dos teus comentários 
Nasce de raciocínios primários 

Era bom que tu te calasses
E entre as frases respirasses
Verias que o teu pensamento 
Nunca é adequado ao momento 

Mas assim que te vês lançado 
Tu não podes ser contrariado 
E em face dessa tua conduta 
É claro que ninguém te escuta 

Dessa forma o melhor a fazer 
É deixar-te então a discorrer 
Tais sentenças tão irracionais 
Continua a mandar postais 




quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Provérbio cavalar

O compadre Anacleto tinha um cavalo velho chamado Cometa. O pobre bicho, coitado, dava dó: magro como um caniço, tinha as costas já muito arqueadas e o pêlo era baço e com peladas como um tapete que serviu a várias gerações. 
Para o compadre, o Cometa era a oitava maravilha do mundo. Sempre que ia à venda, gabava-o, não cabendo em si de tanto orgulho:
- Não há nestes arredores um animal com a fibra do meu Cometa! Olhem só para aquele lombo firme, aquelas ancas redondas; que beleza de flanco! 
Os presentes entreolhavam-se, mordendo os lábios para suster o riso. O vizinho Manuel da Cerca bem tentava abrir-lhe os olhos:
- Ó homem, o teu cavalo está tão magro que até se lhe conseguem contar as costelas! 
O compadre abria os braços de indignação:
- Costelas, Manuel? Aquilo são músculos, tu estás cego? O meu Cometa vende saúde! 

Um certo dia, o compadre Anacleto, vaidoso do seu animal, resolveu levá-lo à feira anual concelhia para o exibir. Lavou-lhe os cascos, atou-lhe um laçarote na testa e pôs-se a caminho, puxando o cavalo que lá se ia arrastando atrás do dono muito a custo. 
Chegados ao recinto, um feirante, que reparara no esforço do Cometa, abordou o compadre:
- Ó tiozinho, trouxe o bicho para o talho ou para o cemitério? 
O compadre sentiu-se ofendido e retorquiu prontamente:
- Cemitério? Isto é carne da boa! O meu cavalo está gordo e apto para o trabalho! 
O povo em redor riu a bom rir. Onde todos viam um esqueleto ambulante, o Anacleto via um campeão de raça. 


- O olho do dono é que engorda o cavalo 

sábado, 1 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLII

Quero deixar de pensar em ti
Perder a tua presença aqui
No corpo todo e na cabeça
Esquecer que foste promessa

Só desejei que fôssemos mais
Do que dois seres individuais
Embora avisasses de antemão
Que não querias uma relação

Mas o nosso laço era evidente
E nenhum de nós o desmente
Porém tu preferiste a cegueira
Que fez do elo uma brincadeira

Tu sempre essa ligação negaste
Os meus sentimentos descuraste
Até que tomei enfim a decisão
Dum ponto final na nossa união

Como o parágrafo perto do fim
Agora posso pensar em mim
De ti fica apenas a recordação
E a dor que sinto no coração
 


Provérbio provado rimado - MDCCLI

Para que tu tenhas opiniões 
Não te bastam as convicções 
Sempre alguém te virá atacar 
Por ser o teu modo de pensar 

Alguém de dedinho em riste 
Que vive uma existência triste 
E é por isso que está revoltado 
Desejando sentir-se vingado 

Pelo visto saíste-lhe na rifa 
Sem que fosse fixada tarifa 
E o que ganha como prémio 
É ver-se excluído do grémio 

A tal rifa estava envenenada
Embora estivesse agregada
Num cesto com outras mais 
Com interesses tão pessoais 

Não reúnas numa colecção 
As rifas num cesto de pão 
Que depois vão querer sair 
A quem no goto não cair