Vi-me grego para alcançar
Um pouco da tua atenção
Era teu costume dispensar
Tudo o que fosse interação
E foi por ver-me tão grego
Que foi tão difícil resistir
Elevou a vontade não nego
Assim eu não quis desistir
O assomo da dificuldade
Pode fazer o desejo maior
No meu caso a pura verdade
É que fez despontar o amor
sábado, 22 de agosto de 2026
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXXV
O teu grande sonho é mandar
Numa tropa que te obedeça
E assim se percebe o teu ar
Até para quem não te conheça
Que és autoritária está visto
Que disso mesmo fazes gala
Enquanto eu atónita assisto
Só se faz silêncio na sala
Tu não tens noção do ridículo
Que é ver-te nessa tua pose
Pois não passas dum folículo
Mas levar contigo é dose
Por dentro até me contorço
Para não ir de ti reclamar
E prefiro arrepios no dorso
Do que nas orelhas levar
Provérbio provado rimado - MDCCLXXIV
Tu costumas fazer omeletes
Que não levam ovos sequer
Inventas tudo o que prometes
Para que ninguém vá requerer
Para ti não há impossíveis
Se forem os outros a fazer
Até mesmo as tarefas falíveis
Todos terão de empreender
Mas deixares-te de teorias
Isso é que eu gostava de ver
O que na prática tu farias
Sem poderes os ovos comer
Provérbio provado rimado - MDCCLXXIII
Se desejam que eu me cale
O mais certinho é que fale
Do que esperam faço o oposto
Sou do contra com muito gosto
Se eu me sinto injustiçada
Vão encontrar-me danada
E é tão certo como o destino
Que vai acontecer desatino
Provérbio provado rimado - MDCCLXXII
Bate-me à porta um pedinte
Com conversa muito mansa
Pede um euro mas quer vinte
Mas de mim nada ele alcança
Ele mendiga para o jantar
Também prá renda da casa
E eu respondo sem hesitar
Tem lá paciência e baza
Há quem peça o dia inteiro
Com desculpa bem estudada
Querem ver o meu dinheiro
Mas o bolso não tem nada
Então eu acabei de descobrir
Mais um provérbio a provar
Que contra o vício de pedir
Há a virtude de não dar
Provérbio provado rimado - MDCCLXXI
Para esta expressão há versões
Que reúnem alguns palavrões
Mas eu não quero ser afastada
E ver a minha casa bloqueada
Por isso vou portar-me bem
E ser correcta como convém
Deixo então ao vosso critério
Porque são um público sério
Escusam de esconder o riso
As vossas risadas autorizo
Nesta casa o bonito bonito
São as músicas do Tozé Brito
Provérbio provado rimado - MDCCLXX
Tu surgiste cheia de pica
Com tudo o que isso implica
E foi tão fácil de constatar
Que tinhas talento a dobrar
Competência pra dar e vender
E vontade de muito aprender
Assim beliscaste as alminhas
Que são ruins e mesquinhas
E por teres passado no teste
Mais sombra tu lhes fizeste
Ainda por esbanjares simpatia
Tiveram cólicas e até azia
Tu não sucumbiste à graxa
Nem arreganhaste a tacha
Ao fazeres bem o teu serviço
Foste penalizada por isso
Não ficaste presa nessa bolha
E quiseram fazer-te a folha
Mantiveste a pestana aberta
Mostrando que eras esperta
Como não torceste quebraste
A dada altura tu desanimaste
Por não seres assim valorizada
Vais bater um dia em retirada
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Provérbio provado num verso branco - CLX
Sempre que os olhos descobrem um novo dia
Abre-se uma nova janela de par em par
Que permite mais um par de possibilidades
E até pode parecer uma janela repetida
Ou ser o caminho proposto semelhante
Mas é sem dúvida uma nova proposta de saída
O antes que se abriu entretanto já se fechou
O ontem não volta e o amanhã não espera
Uma hora são sessenta minutos
Embora uma hora possa passar num pestanejar
E sessenta minutos durarem uma eternidade
Por isso são tão necessários os relógios:
O tempo não sabe bem a quantas anda
Provérbio provado rimado - MDCCLXIX
Tu andas armado ao pingarelho
Sempre disposto para a chalaça
Então é melhor ouvires o conselho
Que qualquer dia se torna ameaça
Até pensei nunca mais ser preciso
Quando tu corres como um carapau
Mas é necessário deixar-te o aviso
E aconselhar que te ponhas a pau
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXVIII
Se estás de sentenças deserta
Com mil ideias na algibeira
Lembra-te que de boca aberta
Ou entra mosca ou sai asneira
Sempre que recordares este dito
Vais manter a matraca fechada
Evitas dessa forma um conflito
E passas por pessoa ponderada
Provérbio provado rimado - MDCCLXVII
Tenho fama de ter mau feitio
Mas são só bocas da reacção
Porque aturo muito desvario
De quem quer chamar à atenção
Vendo bem não tenho o proveito
Dum temperamento complicado
Talvez porque nem seja defeito
Só um aspecto pouco tolerado
Que a verdade é dura de ouvir
E por isso a mentira piedosa
É bem mais fácil de admitir
Apesar da índole duvidosa
E já que a reacção é escusada
Neste palco de maus actores
Aprendi a ficar bem calada
Para não colher dissabores
Praticando assim a indulgência
Está guardado no céu um lugar
Até lá Deus me dê paciência
E um paninho para a embrulhar
Provérbio provado num verso branco - CLIX
Quando um estrondo se rasga mais longe do que o tempo
E produz um eco como um gemido vulcânico
Nesse segundo de deslize a sombra do erro
Cobre toda a superfície da terra
Os olhos debruçam-se sobre a ferida
As línguas comentam a queda
E longe dos ecrãs e dos microfones
A vida faz ao tempo o que o tempo faz à vida
As raízes perfuram os solos
A seiva trepa pelos caules
As andorinhas enfeitam os beirais
Ninguém dá pelo suor da Natureza
No seu labor invisível e silencioso
Qualquer bom resultado não escuta aplausos
As bocas apupam com mais facilidade
Do que as mãos se juntam para bater palmas
A destruição é mais visível do que o progresso
Uma árvore que cai faz mais barulho
Do que uma floresta que cresce
Provérbio provado rimado - MDCCLXVI
És parecida com uma mula
Quando finca os pés no chão
Qualquer actividade é nula
Sendo neutra a tua expressão
Em face a essa cara de cera
Nem vivalma irá arriscar
Que possas soltar a megera
E se vá o caldo entornar
Por criares tão firme fronteira
Da qual és tu a própria fiscal
Ninguém vai transpôr a barreira
Onde tu estás de pedra e cal
domingo, 16 de agosto de 2026
Provérbio provado num verso branco - CLVIII
A Natureza sabe o que faz
Por isso a mosca é leve e o leopardo tem pintas
Nenhum animal sem asas tenta o voo
Ou pisa a terra se do mar nasceu
Tudo tem um peso e um rumo exactos
Cada macaco habita no seu galho
O galho é pouso e não fronteira
E é gigante dentro dos próprios limites
Somente o homem deseja o que não tem
E ambiciona o galho do outro homem
Provérbio provado rimado - MDCCLXV
O que é que fica em riste
Sempre que me dás calor?
E ninguém a isso resiste
Se houver desejo e amor?
É um sentimento que cresce
Neste meu peito pecador
Paixão pura que acontece
Assim sem tirar nem pôr
Sempre que me dás calor?
E ninguém a isso resiste
Se houver desejo e amor?
É um sentimento que cresce
Neste meu peito pecador
Paixão pura que acontece
Assim sem tirar nem pôr
Provérbio provado racionado
Fechava sempre a porta que dava para o pátio à hora das refeições, apesar da porta da cozinha estar enfeitada de fitas de plástico coloridas de alto a baixo.
A avó dizia que as tinha colocado para afastar as moscas, mas sempre desconfiei que as fitas às cores cumpriam uma dupla função: afastavam também quaisquer mirones curiosos acerca do que se passava dentro de casa.
A avó detestava mirones, talvez uma herança do fascismo. Muito menos à hora das refeições sem que houvessem sido previamente convidados, talvez uma herança dos tempos de racionamento.
Nos tempos que corriam havia mais sardinhas do que bocas, felizmente. Porém, a avó continuava a fechar a porta enquanto pedia silêncio.
- Primeiro aos meus, depois aos alheios
Provérbio provado rimado - MDCCLXIV
Por mais que comas quinoa
E granola até te empazinares
Tu tens de comer muita broa
Para me chegar aos calcanhares
Provérbio provado rimado - MDCCLXIII
Tu possuis o pequeno poder
De quem gosta de tudo prever
O teu grande vício é controlar
O que ao teu redor se passar
Contigo há que ter cuidado
Com o teu modo dissimulado
Pois sóis praticar a sonsice
E resulta sempre em chatice
Tu andas pelos cantos da sala
Para registar qualquer fala
Para de seguida ires chibar
Tens tendência para inventar
Nas tuas pequenas demandas
Nas pontas dos pés tu andas
Com o intuito de surpreender
Alguém que esteja a conviver
E se acaso fores mencionada
Tu até ficas quase aliviada
É assim como falar no diabo
Que logo lhe aparece o rabo
Provérbio provado rimado - MDCCLXXI
O Manel arranja sarna
Para logo depois se coçar
Enquanto a vítima encarna
Não termina de complicar
E afinal são desnecessários
Os problemas que arranja
Só vai encontrar adversários
A contenda para ele é canja
Põe-se a jeito para a guerra
Porque o Manel é belicoso
E qualquer inimigo desterra
Mesmo que ele seja amistoso
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLXI
Embora seja muito orgânica
Já cansa a nossa dinâmica
Dar prioridade ao instante
Torna a situação desgastante
De cada vez que me exprimo
Consciente que me aproximo
Tu bates logo em retirada
E eu fico meio atordoada
Sei que sou a parte que pede
E tu és aquela que não cede
Mas no fundo tão pouco exijo
Escusas de ter um esconderijo
Mais parece que fazes favor
Se me dás migalhas de amor
Sinto até que quase suplico
E dessa forma frustrada fico
Estou farta de andar a brincar
Ao ciclo de avançar e recuar
Neste jogo do gato e do rato
Eu tenho o papel mais ingrato
Provérbio provado rimado - MDCCLX
Por mais que da vida reclames
Continuas preso por arames
Numa situação tão instável
Que se tornou insustentável
Tanta neve contida na bola
É um novelo que te enrola
E te faz rebolar em espiral
Sem um ponto de fuga final
Nesse modo de vida automático
Vais deixando de ser empático
Vais tornar-te numa marioneta
Que habita noutro planeta
Provérbio provado rimado - MDCCLIX
Não te fiaste no ditado
Que a gente cita de cor
Depois do corvo criado
Ele há-de dar-te o pior
No momento em que surgiu
Mais só do que Cristo na cruz
Com as patas a tremer de frio
Tu tentaste mostrar-lhe a luz
Arranjaste-lhe com desvelo
Um ninho muito confortável
Passaste-lhe a mão pelo pêlo
Para que se sentisse estável
Transportaste-o nas palminhas
Foi levado ao colo na estrada
E no fim como já adivinhas
Sentiste no rosto a chapada
Nem sequer luva branca calçou
Em tal gesto de raiva brutal
Ou qualquer gratidão demonstrou
Viu a tua dádiva como trivial
Não devias estar surpreendido
Atendendo aos genes que tem
Por não ter enfim retribuído
Vê somente o que lhe convém
Teus cuidados foram escusados
Já devias saber de antemão
Que após os corvos criados
Um par de olhos te comerão
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLVIII
Por ser burra até mais não
Só cheguei hoje à conclusão
De que nós não temos futuro
Não sei porque ainda te aturo
Não consigo dizer-te um basta
Mas a nossa união é nefasta
Dás-me cabo da auto-estima
Fazendo com que me deprima
Sei que com intenção não o fazes
Mas vê que é preferível que bazes
Se no fundo tu não me acarinhas
E só me dás atenção às mijinhas
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLVII
Juntas machos em reunião
Que respeitam a tua decisão
E que dentro das tuas balizas
Vão beijar o chão que tu pisas
Não são machos na verdade
Mal largaram a puberdade
Um a um os vais hipnotizar
Para que os possas comandar
Tens um jeito de prima-dona
Refastelada na tua poltrona
Com caprichos a toda a hora
Cuja satisfação não demora
Ordenas com impertinência
Dando cabo da paciência
Dos miúdos que te idolatram
E com deferência te tratam
E até que estejas atendida
Aparentas estar desiludida
Sem lágrimas fazes chorinho
Capaz de tremer o beicinho
Quando alguém te contrariar
Tu preferes o burro amarrar
Pois és uma fedelha mimada
Que só quer ser apaparicada
Provérbio provado rimado - MDCCLVI
Se não há ninguém que o faça
Não fiques à espera de ajuda
Tens de pôr a mão na massa
Pois senão nunca nada muda
E quando a mão lá puseres
Não podes voltar mais atrás
Faz o melhor que souberes
Não somente o que satisfaz
Provérbio provado do paraíso disciplinado
A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças.
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.
Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia.
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade.
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência.
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns.
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:
- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno
Provérbio provado rimado - MDCCLV
Tens de sobra uma indecisão
Que te impede o corpo de andar
E face a tudo tu vais hesitar
Pois nada te corre de feição
O teu gesto é sempre o remendo
Para compôr algum tipo de erro
Vais malhando a frio no ferro
Sem tirar qualquer dividendo
Mais parece que foste enfeitado
Dada essa orfandade de ideias
Todavia tu tens as mãos cheias
Só de angústias do teu passado
Por andares na vida à nora
A correr atrás do prejuízo
Não decifras o que é preciso
Para enriquecer cada hora
Quem o que busca não sabe
Não identifica o que acha
E dessa forma nunca relaxa
Por sentir que nada lhe cabe
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLIV
A poupança gera poupança
Por ser gesto que descansa
Quem não nasce para poupar
Na linha nunca vai andar
Andará num desassossego
Preso a um consumo cego
E o melhor que devia fazer
Era com o poupado aprender
Do que tem ele guarda metade
Para que não o gaste à vontade
Por ter um montante escondido
Não se encontra desprevenido
E até somas sem importância
Guarda para qualquer instância
Pois os bens que são essenciais
Não podem faltar-lhe jamais
Assim ao encher grão a grão
Ele dá uma importante lição
Quem não poupa água nem lenha
Não poupa nada que tenha
Provérbio provado rimado - MDCCLIII
Normalmente falas demais
Disparando ideias banais
Tanta asneira em catadupa
É capaz de me pôr chalupa
Bem queria que abrandasses
E que menos tolices lançasses
Que o teu nível de disparate
Se assemelha ao puro dislate
Em ideias absurdas insistes
E das tolices tu não desistes
Cada um dos teus comentários
Nasce de raciocínios primários
Era bom que tu te calasses
E entre as frases respirasses
Verias que o teu pensamento
Nunca é adequado ao momento
Mas assim que te vês lançado
Tu não podes ser contrariado
E em face dessa tua conduta
É claro que ninguém te escuta
Dessa forma o melhor a fazer
É deixar-te então a discorrer
Tais sentenças tão irracionais
Continua a mandar postais
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Provérbio cavalar
O compadre Anacleto tinha um cavalo velho chamado Cometa. O pobre bicho, coitado, dava dó: magro como um caniço, tinha as costas já muito arqueadas e o pêlo era baço e com peladas como um tapete que serviu a várias gerações.
Para o compadre, o Cometa era a oitava maravilha do mundo. Sempre que ia à venda, gabava-o, não cabendo em si de tanto orgulho:
- Não há nestes arredores um animal com a fibra do meu Cometa! Olhem só para aquele lombo firme, aquelas ancas redondas; que beleza de flanco!
Os presentes entreolhavam-se, mordendo os lábios para suster o riso. O vizinho Manuel da Cerca bem tentava abrir-lhe os olhos:
- Ó homem, o teu cavalo está tão magro que até se lhe conseguem contar as costelas!
O compadre abria os braços de indignação:
- Costelas, Manuel? Aquilo são músculos, tu estás cego? O meu Cometa vende saúde!
Um certo dia, o compadre Anacleto, vaidoso do seu animal, resolveu levá-lo à feira anual concelhia para o exibir. Lavou-lhe os cascos, atou-lhe um laçarote na testa e pôs-se a caminho, puxando o cavalo que lá se ia arrastando atrás do dono muito a custo.
Chegados ao recinto, um feirante, que reparara no esforço do Cometa, abordou o compadre:
- Ó tiozinho, trouxe o bicho para o talho ou para o cemitério?
O compadre sentiu-se ofendido e retorquiu prontamente:
- Cemitério? Isto é carne da boa! O meu cavalo está gordo e apto para o trabalho!
O povo em redor riu a bom rir. Onde todos viam um esqueleto ambulante, o Anacleto via um campeão de raça.
- O olho do dono é que engorda o cavalo
sábado, 1 de agosto de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCLII
Quero deixar de pensar em ti
Perder a tua presença aqui
No corpo todo e na cabeça
Esquecer que foste promessa
Só desejei que fôssemos mais
Do que dois seres individuais
Embora avisasses de antemão
Que não querias uma relação
Mas o nosso laço era evidente
E nenhum de nós o desmente
Porém tu preferiste a cegueira
Que fez do elo uma brincadeira
Tu sempre essa ligação negaste
Os meus sentimentos descuraste
Até que tomei enfim a decisão
Dum ponto final na nossa união
Como o parágrafo perto do fim
Agora posso pensar em mim
De ti fica apenas a recordação
E a dor que sinto no coração
Perder a tua presença aqui
No corpo todo e na cabeça
Esquecer que foste promessa
Só desejei que fôssemos mais
Do que dois seres individuais
Embora avisasses de antemão
Que não querias uma relação
Mas o nosso laço era evidente
E nenhum de nós o desmente
Porém tu preferiste a cegueira
Que fez do elo uma brincadeira
Tu sempre essa ligação negaste
Os meus sentimentos descuraste
Até que tomei enfim a decisão
Dum ponto final na nossa união
Como o parágrafo perto do fim
Agora posso pensar em mim
De ti fica apenas a recordação
E a dor que sinto no coração
Provérbio provado rimado - MDCCLI
Para que tu tenhas opiniões
Não te bastam as convicções
Sempre alguém te virá atacar
Por ser o teu modo de pensar
Alguém de dedinho em riste
Que vive uma existência triste
E é por isso que está revoltado
Desejando sentir-se vingado
Pelo visto saíste-lhe na rifa
Sem que fosse fixada tarifa
E o que ganha como prémio
É ver-se excluído do grémio
A tal rifa estava envenenada
Embora estivesse agregada
Num cesto com outras mais
Com interesses tão pessoais
Não reúnas numa colecção
As rifas num cesto de pão
Que depois vão querer sair
A quem no goto não cair
Provérbio provado rimado - MDCCL
A ficção é uma grande mentira
Que permite contar a verdade
Mas há quem só o real prefira
Por não ter de arriscar vontade
Não conhece qualquer evasão
Vendo cada coisa como ela é
E nesse gesto de obstinação
Vê para crer como São Tomé
Que permite contar a verdade
Mas há quem só o real prefira
Por não ter de arriscar vontade
Não conhece qualquer evasão
Vendo cada coisa como ela é
E nesse gesto de obstinação
Vê para crer como São Tomé
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXLIX
Nos já partilhámos cuecas
Depois de lavadas e secas
E também nasceres do sol
A horas de estar no lençol
Tantas vivências conjuntas
Respostas e até perguntas
Com lágrimas e muito riso
Às vezes com pouco juízo
Eu podia assim continuar
Para a nossa história relatar
Mas seria afinal um cliché
E mais palavras para quê?
Depois de lavadas e secas
E também nasceres do sol
A horas de estar no lençol
Tantas vivências conjuntas
Respostas e até perguntas
Com lágrimas e muito riso
Às vezes com pouco juízo
Eu podia assim continuar
Para a nossa história relatar
Mas seria afinal um cliché
E mais palavras para quê?
Provérbio provado rimado - MDCCXLVIII
Tu pareces um deus grego
Tal qual Adónis ou Apoio
Com esta massagem ao ego
Aproveito para te dar colo
Dizer que és bem parecido
Está longe de ser mentira
Mas não fiques convencido
Por teres uma cara tão gira
És muito bem proporcionado
E tens uma figura invejável
Mereces até ser idolatrado
Porém isso é pouco saudável
Eu termino agora o discurso
Ou senão nunca mais acaba
E farei uma figura de urso
Com o queixo a escorrer baba
terça-feira, 28 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXLVII
O tempo é sempre o melhor
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor
Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento
Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor
Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento
Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo
Provérbio provado rimado - MDCCXLVI
O trabalho é apenas trabalho
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes
E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque
Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes
E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque
Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida
Provérbio provado rimado - MDCCXLV
O Arménio é dos que não caga
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita
Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita
Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima
Provérbio provado rimado - MDCCXLIV
Tu és um empata fodas
E nem sequer és de modas
Não te ralas se atrapalhas
Ao te intrometeres ao calhas
És a nata no meio do leite
Não traz o que se aproveite
Se percebes que estás a mais
Só te vais nos instantes finais
É preciso mostrarem-te a hora
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste
Provérbio provado rimado - MDCCXLIII
Será que ainda estás acordado
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu
E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu
E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração
Provérbio provado rimado - MDCCXLII
Dizem que levo a peito
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração
Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira
Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração
Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira
Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério
Provérbio provado rimado - MDCCXLI
Por seres muito jeitosa e linda
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes
Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito
Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta
Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes
Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito
Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta
Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam
Provérbio provado desafinado
A ideia nascera de uma conversa do seu defunto pai com o irmão mais velho, tio de Carlos, que ocupara o lugar de chefe de família quando o pai de ambos se finara.
O tio Justiniano era um sapateiro à antiga, dos bons, e quando vira o irmão em palpos de aranha, sem conseguir descortinar no filho uma vocação, logo se predispusera a ajudar sem pestanejar ou sequer pensar duas vezes.
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.
Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.
Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...
Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.
Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?
Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.
Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!
- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.
Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.
Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...
Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.
Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?
Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.
Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!
- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?
Provérbio provado rimado - MDCCXL
Se me achas uma mais-valia
Mas me deixas na ignorância
Pensa assim no bom que seria
Validares a minha importância
E dizeres então alto e bom som
Que sou competente e que gostas
Sem qualquer lamúria no tom
De me dar palmadinhas nas costas
Não me farias de todo um favor
Já que esse elogio eu mereço
Para conhecer o meu valor
Sendo digna do teu apreço
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXIX
Põe o lobo mau a redigir
Uma lei do código penal
E depressa irás descobrir
Como defende o seu igual
Vai mudar os regulamentos
Para que os que devoram ovelhas
Possam estar desse crime isentos
Não cheguem a levar nas orelhas
É assim mesmo na governação
Que a política é um jogo sujo
Apadrinha quem está de feição
E quem a concordar é sabujo
Quando alguém se faz militante
Deve estar ciente que engraxar
É postura do mais importante
Se quiser vir um dia a liderar
Vai lambendo cus à medida
Que sobe degraus dois a dois
E com a ideologia esbatida
Já nem olha para trás depois
A vaidade alheia alimenta
E defende o próprio interesse
Faz o que o aparelho sustenta
Indiferente ao que o povo padece
O que aprende ao tomar partido
É a ser tão competente a lamber
As botas de quem foi escolhido
Para que uma nação vá reger
Faz menção de se pôr na fila
E de ser o melhor concorrente
Enquanto directrizes compila
Para quando ele for presidente
Quem pela sua bitola alinhar
Quando um dia cantar vitória
Não se vai esquecer de engraxar
E de novo se repete a história
Pois sempre haverá lambe botas
Lambe cus que são engraxadores
E que assim desconhecem derrotas
Estão no pódio com os vencedores
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXVIII
Um embrulho às três pancadas
Sem um laço ou uma fita rosa
Pode esconder coisas variadas
E uma oferta bem generosa
Quando o gesto falha o alvo
O bolo queima e a frase sai torta
Fica lá fundo no peito a salvo
O carinho que afinal importa
Não se mede o amor em moedas
Nem a amizade em perfeição
Para combater atitudes azedas
O que conta sempre é a intenção
Provérbio provado rimado - MDCCXXXVII
Queres sempre botar faladura
Mesmo quando é má altura
E fazes um discurso soturno
Seja este ou não oportuno
Faz-te falta ter mais noção
Do instante em que a multidão
Já está farta do tema comprido
Que teimas lançar-lhe ao ouvido
Tens de identificar o momento
Em que precisas enfim de parar
Que a plateia não está a contento
E pouco lhe falta para bocejar
Provérbio provado rimado - MDCCXXXVI
Esta actual juventude
Gosta muito de ajuizar
Mas não há nessa atitude
Muitas ganas de trabalhar
Os velhos no fim da vida
Querem mandar na tradição
Mas a coisa sendo espremida
Passa pouco de vã intenção
Ao juntar as duas gerações
O desfecho não é promissor
Pois abundam tantas reacções
Cada um quer levar a melhor
Pretendem ter ambos razão
Mas esse fosso geracional
Só aumenta mais a divisão
Muito mais do que era ideal
Têm tanto ainda a aprender
Lenha verde e velho gogo
O que costuma acontecer
É muito fumo e pouco fogo
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXV
Nem tudo o que parece sagrado
Esconde dentro uma salvação
E pode estar muito iluminado
Mas o brilho é só uma ilusão
O conceito do que é o divino
Depende do deus que se adora
E até um monge beneditino
Pode pôr as mangas de fora
Há que olhar para o pregador
E para as virtudes que sustenta
Porque o mijo do senhor prior
Não é composto de água benta
Provérbio provado rimado - MDCCXXXIV
Playboy de trazer por casa
Tem lábia para dar e vender
Não resiste a arrastar a asa
Se por ele passa uma mulher
Seja alta baixa ou gordinha
O macho não se faz rogado
E vá acompanhada ou sozinha
Sempre um piropo é lançado
Para conversar está disposto
Também para trocar galhardetes
Vai rodeando o sexo oposto
Até que elas lhe atirem piretes
Tão firme não larga a labita
De qualquer rabo de saias
A uma feia ele chama bonita
Pois todas servem de cobaias
Pratica um tipo de assédio
Que chega quase a molestar
Mesmo que lhe mostrem o médio
Não há meio de se pôr a andar
Nesse acto de tanta insistência
As fêmeas respondem fugindo
Que lhes dê o Senhor paciência
E perceba que não é bem-vindo
Furioso ao ser dispensado
Vai faltar-lhes então ao respeito
Por ficar muito ressabiado
Vai dizer que se põem a jeito
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXIII
Estou farta das tuas bocas
Das insinuações indirectas
Se me queixo tu não te tocas
E respondes com uma careta
Vejo que te estás nas tintas
Porque os ombros encolhes
E prossegues fazendo fintas
Essa é a atitude que escolhes
Mas não vou perder a cabeça
Nem me vou passar dos carretos
Espero só que a raiva arrefeça
Com uns truques muito concretos
E enquanto tu fazes piadas
Com o intuito de provocar
Por mim elas são ignoradas
Para ti eu estou-me a cagar
Guarda os comentários mordazes
E as tuas alusões zombeteiras
Há pessoas que não são capazes
De te ouvir sem perder as estribeiras
Furiosas por serem picadas
Não aguentam tanto remoque
Tão cansadas de alfinetadas
Pode dar-lhes depois o amoque
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXII
Tu escuta os mais idosos
Mesmo se são teimosos
E até se forem birrentos
Desligados ou desatentos
Sempre a darem opiniões
Às quais juntam palavrões
Mas tu tenta ter paciência
Pondo a mão na consciência
Não sabes o que te espera
Quando acabar a Primavera
E deres por ti num Outono
Enferrujado e com sono
Por isso tu escuta o que dizem
Mesmo que de aparelhos precisem
Está provado que o cão velho
Quando ladra dá bom conselho
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Provérbio provado rimado - MDCCXXXI
Por hoje eu fecho a porta
Apesar da empena torta
E por ora arrumo a caneta
Cansada de ser uma poeta
Mas não vou embora de vez
Continuo a escrever pra vocês
Aguardai e não desesperais
Prometo que amanhã há mais
Provérbio provado rimado - MDCCXXX
Mostras a típica postura
De quem evita a decisão
Esperas a melhor altura
A fim de obter projecção
E praticas a ambiguidade
Usas frases contraditórias
Destapando pela metade
As sentenças obrigatórias
O teu objectivo é agradar
Ao mesmo tempo à gente
E por isso não vais opinar
Se surge um tópico quente
Pela frente apoias as frentes
Os dois lados duma discussão
Ao passo que tu entre dentes
Já murmuras outra opinião
Podem ser atitudes opostas
De dois cantos das barricadas
Que ambas têm razão apostas
Considerando as duas erradas
E por não assumires posição
Desconheces o que é firmeza
Vais por onde os outros vão
Sem ter um grama de certeza
Essa falta dum compromisso
Aprova qualquer argumento
E tu não és confiável por isso
Pois te prestas ao fingimento
Sempre a jogar nos dois lados
Vais tentando avivar o fogo
Assim não enterras machados
Com esse teu género de jogo
És daqueles que não explicam
Tão pouco jamais se revoltam
Porque vais com os que ficam
E até esperas pelos que voltam
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