Provérbios Provados noutras casas:

sábado, 22 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXXVI

Vi-me grego para alcançar
Um pouco da tua atenção
Era teu costume dispensar
Tudo o que fosse interação

E foi por ver-me tão grego
Que foi tão difícil resistir
Elevou a vontade não nego
Assim eu não quis desistir

O assomo da dificuldade
Pode fazer o desejo maior
No meu caso a pura verdade
É que fez despontar o amor 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXXV

O teu grande sonho é mandar 
Numa tropa que te obedeça 
E assim se percebe o teu ar
Até para quem não te conheça

Que és autoritária está visto 
Que disso mesmo fazes gala
Enquanto eu atónita assisto
Só se faz silêncio na sala 

Tu não tens noção do ridículo 
Que é ver-te nessa tua pose 
Pois não passas dum folículo
Mas levar contigo é dose 

Por dentro até me contorço
Para não ir de ti reclamar 
E prefiro arrepios no dorso
Do que nas orelhas levar 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXIV

Tu costumas fazer omeletes 
Que não levam ovos sequer 
Inventas tudo o que prometes 
Para que ninguém vá requerer 

Para ti não há impossíveis 
Se forem os outros a fazer 
Até mesmo as tarefas falíveis 
Todos terão de empreender

Mas deixares-te de teorias 
Isso é que eu gostava de ver 
O que na prática tu farias 
Sem poderes os ovos comer


Provérbio provado rimado - MDCCLXXIII

Se desejam que eu me cale
O mais certinho é que fale
Do que esperam faço o oposto 
Sou do contra com muito gosto 

Se eu me sinto injustiçada
Vão encontrar-me danada 
E é tão certo como o destino 
Que vai acontecer desatino


Provérbio provado rimado - MDCCLXXII

Bate-me à porta um pedinte 
Com conversa muito mansa
Pede um euro mas quer vinte 
Mas de mim nada ele alcança 

Ele mendiga para o jantar 
Também prá renda da casa 
E eu respondo sem hesitar
Tem lá paciência e baza 

Há quem peça o dia inteiro 
Com desculpa bem estudada
Querem ver o meu dinheiro 
Mas o bolso não tem nada 

Então eu acabei de descobrir 
Mais um provérbio a provar
Que contra o vício de pedir 
Há a virtude de não dar 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXI

Para esta expressão há versões 
Que reúnem alguns palavrões 
Mas eu não quero ser afastada 
E ver a minha casa bloqueada 

Por isso vou portar-me bem 
E ser correcta como convém 
Deixo então ao vosso critério 
Porque são um público sério 

Escusam de esconder o riso 
As vossas risadas autorizo
Nesta casa o bonito bonito 
São as músicas do Tozé Brito 


Provérbio provado rimado - MDCCLXX

Tu surgiste cheia de pica 
Com tudo o que isso implica 
E foi tão fácil de constatar 
Que tinhas talento a dobrar 

Competência pra dar e vender 
E vontade de muito aprender 
Assim beliscaste as alminhas 
Que são ruins e mesquinhas

E por teres passado no teste 
Mais sombra tu lhes fizeste 
Ainda por esbanjares simpatia 
Tiveram cólicas e até azia 

Tu não sucumbiste à graxa 
Nem arreganhaste a tacha 
Ao fazeres bem o teu serviço 
Foste penalizada por isso 

Não ficaste presa nessa bolha 
E quiseram fazer-te a folha 
Mantiveste a pestana aberta 
Mostrando que eras esperta 

Como não torceste quebraste 
A dada altura tu desanimaste
Por não seres assim valorizada 
Vais bater um dia em retirada 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLX

Sempre que os olhos descobrem um novo dia 
Abre-se uma nova janela de par em par
Que permite mais um par de possibilidades 

E até pode parecer uma janela repetida 
Ou ser o caminho proposto semelhante 
Mas é sem dúvida uma nova proposta de saída 
O antes que se abriu entretanto já se fechou 
O ontem não volta e o amanhã não espera 

Uma hora são sessenta minutos 
Embora uma hora possa passar num pestanejar 
E sessenta minutos durarem uma eternidade 
Por isso são tão necessários os relógios:
O tempo não sabe bem a quantas anda 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIX

Tu andas armado ao pingarelho 
Sempre disposto para a chalaça 
Então é melhor ouvires o conselho 
Que qualquer dia se torna ameaça 

Até pensei nunca mais ser preciso 
Quando tu corres como um carapau 
Mas é necessário deixar-te o aviso 
E aconselhar que te ponhas a pau


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXVIII

Se estás de sentenças deserta 
Com mil ideias na algibeira 
Lembra-te que de boca aberta 
Ou entra mosca ou sai asneira 

Sempre que recordares este dito 
Vais manter a matraca fechada 
Evitas dessa forma um conflito 
E passas por pessoa ponderada 


Provérbio provado rimado - MDCCLXVII

Tenho fama de ter mau feitio 
Mas são só bocas da reacção 
Porque aturo muito desvario 
De quem quer chamar à atenção 

Vendo bem não tenho o proveito 
Dum temperamento complicado 
Talvez porque nem seja defeito 
Só um aspecto pouco tolerado 

Que a verdade é dura de ouvir 
E por isso a mentira piedosa 
É bem mais fácil de admitir 
Apesar da índole duvidosa 

E já que a reacção é escusada
Neste palco de maus actores 
Aprendi a ficar bem calada 
Para não colher dissabores 

Praticando assim a indulgência 
Está guardado no céu um lugar
Até lá Deus me dê paciência 
E um paninho para a embrulhar 


Provérbio provado num verso branco - CLIX

Quando um estrondo se rasga mais longe do que o tempo 
E produz um eco como um gemido vulcânico
Nesse segundo de deslize a sombra do erro 
Cobre toda a superfície da terra 

Os olhos debruçam-se sobre a ferida 
As línguas comentam a queda 
E longe dos ecrãs e dos microfones 
A vida faz ao tempo o que o tempo faz à vida 

As raízes perfuram os solos
A seiva trepa pelos caules
As andorinhas enfeitam os beirais 
Ninguém dá pelo suor da Natureza 
No seu labor invisível e silencioso 

Qualquer bom resultado não escuta aplausos
As bocas apupam com mais facilidade 
Do que as mãos se juntam para bater palmas 
A destruição é mais visível do que o progresso 
Uma árvore que cai faz mais barulho 
Do que uma floresta que cresce 



Provérbio provado rimado - MDCCLXVI

És parecida com uma mula
Quando finca os pés no chão 
Qualquer actividade é nula 
Sendo neutra a tua expressão 

Em face a essa cara de cera
Nem vivalma irá arriscar 
Que possas soltar a megera
E se vá o caldo entornar 

Por criares tão firme fronteira 
Da qual és tu a própria fiscal 
Ninguém vai transpôr a barreira 
Onde tu estás de pedra e cal 


domingo, 16 de agosto de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLVIII

A Natureza sabe o que faz 
Por isso a mosca é leve e o leopardo tem pintas 
Nenhum animal sem asas tenta o voo
Ou pisa a terra se do mar nasceu 

Tudo tem um peso e um rumo exactos 
Cada macaco habita no seu galho 
O galho é pouso e não fronteira 
E é gigante dentro dos próprios limites 

Somente o homem deseja o que não tem 
E ambiciona o galho do outro homem 


Provérbio provado rimado - MDCCLXV

O que é que fica em riste
Sempre que me dás calor?
E ninguém a isso resiste
Se houver desejo e amor?

É um sentimento que cresce
Neste meu peito pecador
Paixão pura que acontece
Assim sem tirar nem pôr


Provérbio provado racionado

Fechava sempre a porta que dava para o pátio à hora das refeições, apesar da porta da cozinha estar enfeitada de fitas de plástico coloridas de alto a baixo. 
A avó dizia que as tinha colocado para afastar as moscas, mas sempre desconfiei que as fitas às cores cumpriam uma dupla função: afastavam também quaisquer mirones curiosos acerca do que se passava dentro de casa.
A avó detestava mirones, talvez uma herança do fascismo. Muito menos à hora das refeições sem que houvessem sido previamente convidados, talvez uma herança dos tempos de racionamento. 
Nos tempos que corriam havia mais sardinhas do que bocas, felizmente. Porém, a avó continuava a fechar a porta enquanto pedia silêncio. 


- Primeiro aos meus, depois aos alheios 

Provérbio provado rimado - MDCCLXIV

Por mais que comas quinoa
E granola até te empazinares
Tu tens de comer muita broa
Para me chegar aos calcanhares 


Provérbio provado rimado - MDCCLXIII

Tu possuis o pequeno poder
De quem gosta de tudo prever
O teu grande vício é controlar 
O que ao teu redor se passar 

Contigo há que ter cuidado 
Com o teu modo dissimulado 
Pois sóis praticar a sonsice
E resulta sempre em chatice 

Tu andas pelos cantos da sala 
Para registar qualquer fala
Para de seguida ires chibar
Tens tendência para inventar 

Nas tuas pequenas demandas 
Nas pontas dos pés tu andas 
Com o intuito de surpreender 
Alguém que esteja a conviver 

E se acaso fores mencionada 
Tu até ficas quase aliviada 
É assim como falar no diabo 
Que logo lhe aparece o rabo 


Provérbio provado rimado - MDCCLXXI

O Manel arranja sarna 
Para logo depois se coçar 
Enquanto a vítima encarna
Não termina de complicar 

E afinal são desnecessários 
Os problemas que arranja 
Só vai encontrar adversários 
A contenda para ele é canja 

Põe-se a jeito para a guerra 
Porque o Manel é belicoso
E qualquer inimigo desterra
Mesmo que ele seja amistoso 


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLXI

Embora seja muito orgânica 
Já cansa a nossa dinâmica 
Dar prioridade ao instante
Torna a situação desgastante 

De cada vez que me exprimo
Consciente que me aproximo
Tu bates logo em retirada 
E eu fico meio atordoada 

Sei que sou a parte que pede 
E tu és aquela que não cede 
Mas no fundo tão pouco exijo 
Escusas de ter um esconderijo 

Mais parece que fazes favor 
Se me dás migalhas de amor 
Sinto até que quase suplico 
E dessa forma frustrada fico 

Estou farta de andar a brincar 
Ao ciclo de avançar e recuar
Neste jogo do gato e do rato 
Eu tenho o papel mais ingrato 


Provérbio provado rimado - MDCCLX

Por mais que da vida reclames 
Continuas preso por arames 
Numa situação tão instável 
Que se tornou insustentável 

Tanta neve contida na bola 
É um novelo que te enrola
E te faz rebolar em espiral 
Sem um ponto de fuga final 

Nesse modo de vida automático 
Vais deixando de ser empático 
Vais tornar-te numa marioneta 
Que habita noutro planeta 


Provérbio provado rimado - MDCCLIX

Não te fiaste no ditado 
Que a gente cita de cor
Depois do corvo criado 
Ele há-de dar-te o pior 

No momento em que surgiu 
Mais só do que Cristo na cruz 
Com as patas a tremer de frio 
Tu tentaste mostrar-lhe a luz 

Arranjaste-lhe com desvelo 
Um ninho muito confortável 
Passaste-lhe a mão pelo pêlo 
Para que se sentisse estável 

Transportaste-o nas palminhas 
Foi levado ao colo na estrada 
E no fim como já adivinhas
Sentiste no rosto a chapada 

Nem sequer luva branca calçou 
Em tal gesto de raiva brutal 
Ou qualquer gratidão demonstrou 
Viu a tua dádiva como trivial 

Não devias estar surpreendido 
Atendendo aos genes que tem 
Por não ter enfim retribuído 
Vê somente o que lhe convém 

Teus cuidados foram escusados 
Já devias saber de antemão 
Que após os corvos criados 
Um par de olhos te comerão



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVIII

Por ser burra até mais não 
Só cheguei hoje à conclusão 
De que nós não temos futuro 
Não sei porque ainda te aturo

Não consigo dizer-te um basta 
Mas a nossa união é nefasta 
Dás-me cabo da auto-estima 
Fazendo com que me deprima

Sei que com intenção não o fazes 
Mas vê que é preferível que bazes
Se no fundo tu não me acarinhas
E só me dás atenção às mijinhas 



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLVII

Juntas machos em reunião 
Que respeitam a tua decisão 
E que dentro das tuas balizas 
Vão beijar o chão que tu pisas

Não são machos na verdade 
Mal largaram a puberdade 
Um a um os vais hipnotizar
Para que os possas comandar 

Tens um jeito de prima-dona 
Refastelada na tua poltrona 
Com caprichos a toda a hora 
Cuja satisfação não demora 

Ordenas com impertinência 
Dando cabo da paciência 
Dos miúdos que te idolatram 
E com deferência te tratam

E até que estejas atendida 
Aparentas estar desiludida 
Sem lágrimas fazes chorinho
Capaz de tremer o beicinho 

Quando alguém te contrariar 
Tu preferes o burro amarrar 
Pois és uma fedelha mimada 
Que só quer ser apaparicada 


Provérbio provado rimado - MDCCLVI

Se não há ninguém que o faça 
Não fiques à espera de ajuda
Tens de pôr a mão na massa 
Pois senão nunca nada muda 

E quando a mão lá puseres 
Não podes voltar mais atrás 
Faz o melhor que souberes 
Não somente o que satisfaz





Provérbio provado do paraíso disciplinado

A expressão pertencia ao léxico popular e até talvez tivesse um piquinho de verdade. Talvez tivesse ou talvez não: na sabedoria oral há tantos dicionários quanto sentenças. 
Sim, a expressão Vida de santo fora cunhada e era aceite, sendo repetida invariavelmente pelos pecadores habitantes da Terra. Se tais gentes tivessem um milésimo de noção do que tal vida implicava, não a ficcionariam em vão. Nem tão pouco atribuíriam aos santos o ónus da paciência.

Pedro já estava careca de conhecer esses mitos. E ainda bem que estava: de outra forma a auréola não lhe serviria. Apesar do descrédito, fazia o seu trabalho de santo o melhor que podia. 
Não era nada fácil ser o porteiro daquele condomínio; não era pêra doce, não senhor. A sua principal função era filtrar as entradas e ele fazia um esforço enorme para ser firme, enquanto tentava não se desconcentrar com os muitos choradinhos e pedidos especiais que apelavam à sua piedade. 
Contudo, Pedro era rígido no cumprimento do regulamento: Não tem cartão, não entra. Que viessem com as histórias da carochinha que quisessem; o santo não se desviava um dedo mindinho das regras estabelecidas. Por isso, era sobejamente conhecido por ser o santo mais escrupuloso de todo o Paraíso. O mais incorruptível, independentemente da alvura das luvas. Não abria excepções, não fazia favores, não metia cunhas.
Além do chaveiro imenso que transportava à cintura, Pedro também trazia sempre um bloco onde ia tomando notas, só Deus sabe do quê. Recebia os candidatos com competência, mas sem disponibilizar qualquer facilidade no acesso, repetindo a cada recém-chegado duas ou três breves frases de acolhimento que muito ficavam a dever à benevolência. 
A sua máxima favorita atingia o alvo com precisão:
- Todas as almas estão aqui de livre vontade: o Céu não faz reféns. 
E dizia também uma outra que lançava imediatamente por terra qualquer intenção de favorecimento:


- Fiado é com o diabo, aqui não é o inferno 

Provérbio provado rimado - MDCCLV

Tens de sobra uma indecisão 
Que te impede o corpo de andar 
E face a tudo tu vais hesitar 
Pois nada te corre de feição

O teu gesto é sempre o remendo 
Para compôr algum tipo de erro 
Vais malhando a frio no ferro 
Sem tirar qualquer dividendo 

Mais parece que foste enfeitado 
Dada essa orfandade de ideias 
Todavia tu tens as mãos cheias 
Só de angústias do teu passado 

Por andares na vida à nora 
A correr atrás do prejuízo 
Não decifras o que é preciso 
Para enriquecer cada hora 

Quem o que busca não sabe 
Não identifica o que acha 
E dessa forma nunca relaxa 
Por sentir que nada lhe cabe 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLIV

A poupança gera poupança 
Por ser gesto que descansa
Quem não nasce para poupar 
Na linha nunca vai andar 

Andará num desassossego 
Preso a um consumo cego 
E o melhor que devia fazer 
Era com o poupado aprender 

Do que tem ele guarda metade 
Para que não o gaste à vontade 
Por ter um montante escondido 
Não se encontra desprevenido 

E até somas sem importância 
Guarda para qualquer instância 
Pois os bens que são essenciais 
Não podem faltar-lhe jamais 

Assim ao encher grão a grão 
Ele dá uma importante lição 
Quem não poupa água nem lenha 
Não poupa nada que tenha 



Provérbio provado rimado - MDCCLIII

Normalmente falas demais 
Disparando ideias banais 
Tanta asneira em catadupa 
É capaz de me pôr chalupa

Bem queria que abrandasses
E que menos tolices lançasses
Que o teu nível de disparate 
Se assemelha ao puro dislate

Em ideias absurdas insistes 
E das tolices tu não desistes 
Cada um dos teus comentários 
Nasce de raciocínios primários 

Era bom que tu te calasses
E entre as frases respirasses
Verias que o teu pensamento 
Nunca é adequado ao momento 

Mas assim que te vês lançado 
Tu não podes ser contrariado 
E em face dessa tua conduta 
É claro que ninguém te escuta 

Dessa forma o melhor a fazer 
É deixar-te então a discorrer 
Tais sentenças tão irracionais 
Continua a mandar postais 




quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Provérbio cavalar

O compadre Anacleto tinha um cavalo velho chamado Cometa. O pobre bicho, coitado, dava dó: magro como um caniço, tinha as costas já muito arqueadas e o pêlo era baço e com peladas como um tapete que serviu a várias gerações. 
Para o compadre, o Cometa era a oitava maravilha do mundo. Sempre que ia à venda, gabava-o, não cabendo em si de tanto orgulho:
- Não há nestes arredores um animal com a fibra do meu Cometa! Olhem só para aquele lombo firme, aquelas ancas redondas; que beleza de flanco! 
Os presentes entreolhavam-se, mordendo os lábios para suster o riso. O vizinho Manuel da Cerca bem tentava abrir-lhe os olhos:
- Ó homem, o teu cavalo está tão magro que até se lhe conseguem contar as costelas! 
O compadre abria os braços de indignação:
- Costelas, Manuel? Aquilo são músculos, tu estás cego? O meu Cometa vende saúde! 

Um certo dia, o compadre Anacleto, vaidoso do seu animal, resolveu levá-lo à feira anual concelhia para o exibir. Lavou-lhe os cascos, atou-lhe um laçarote na testa e pôs-se a caminho, puxando o cavalo que lá se ia arrastando atrás do dono muito a custo. 
Chegados ao recinto, um feirante, que reparara no esforço do Cometa, abordou o compadre:
- Ó tiozinho, trouxe o bicho para o talho ou para o cemitério? 
O compadre sentiu-se ofendido e retorquiu prontamente:
- Cemitério? Isto é carne da boa! O meu cavalo está gordo e apto para o trabalho! 
O povo em redor riu a bom rir. Onde todos viam um esqueleto ambulante, o Anacleto via um campeão de raça. 


- O olho do dono é que engorda o cavalo 

sábado, 1 de agosto de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCLII

Quero deixar de pensar em ti
Perder a tua presença aqui
No corpo todo e na cabeça
Esquecer que foste promessa

Só desejei que fôssemos mais
Do que dois seres individuais
Embora avisasses de antemão
Que não querias uma relação

Mas o nosso laço era evidente
E nenhum de nós o desmente
Porém tu preferiste a cegueira
Que fez do elo uma brincadeira

Tu sempre essa ligação negaste
Os meus sentimentos descuraste
Até que tomei enfim a decisão
Dum ponto final na nossa união

Como o parágrafo perto do fim
Agora posso pensar em mim
De ti fica apenas a recordação
E a dor que sinto no coração
 


Provérbio provado rimado - MDCCLI

Para que tu tenhas opiniões 
Não te bastam as convicções 
Sempre alguém te virá atacar 
Por ser o teu modo de pensar 

Alguém de dedinho em riste 
Que vive uma existência triste 
E é por isso que está revoltado 
Desejando sentir-se vingado 

Pelo visto saíste-lhe na rifa 
Sem que fosse fixada tarifa 
E o que ganha como prémio 
É ver-se excluído do grémio 

A tal rifa estava envenenada
Embora estivesse agregada
Num cesto com outras mais 
Com interesses tão pessoais 

Não reúnas numa colecção 
As rifas num cesto de pão 
Que depois vão querer sair 
A quem no goto não cair 


Provérbio provado rimado - MDCCL

A ficção é uma grande mentira
Que permite contar a verdade
Mas há quem só o real prefira
Por não ter de arriscar vontade

Não conhece qualquer evasão
Vendo cada coisa como ela é
E nesse gesto de obstinação
Vê para crer como São Tomé 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLIX

Nos já partilhámos cuecas
Depois de lavadas e secas
E também nasceres do sol
A horas de estar no lençol

Tantas vivências conjuntas
Respostas e até perguntas
Com lágrimas e muito riso
Às vezes com pouco juízo

Eu podia assim continuar
Para a nossa história relatar
Mas seria afinal um cliché
E mais palavras para quê?


Provérbio provado rimado - MDCCXLVIII

Tu pareces um deus grego 
Tal qual Adónis ou Apoio 
Com esta massagem ao ego 
Aproveito para te dar colo

Dizer que és bem parecido 
Está longe de ser mentira 
Mas não fiques convencido 
Por teres uma cara tão gira 

És muito bem proporcionado 
E tens uma figura invejável 
Mereces até ser idolatrado
Porém isso é pouco saudável 

Eu termino agora o discurso 
Ou senão nunca mais acaba 
E farei uma figura de urso 
Com o queixo a escorrer baba


terça-feira, 28 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXLVII

O tempo é sempre o melhor
Contador das nossas histórias
É quem arquitecta as memórias
É quem dá aos instantes valor

Pois o tempo é como um vento
Que nos sopra sobre a cabeça
E faz isso sem que nos impeça
De poder fruir cada momento

Se é visto como passatempo
Levaremos a vida a brincar
Que é inútil querer adivinhar
E há que dar tempo ao tempo 


Provérbio provado rimado - MDCCXLVI

O trabalho é apenas trabalho
É na vida somente um atalho
Desse modo não te lamentes
Se desejas coisas diferentes

E para do trabalho fugires
Não é necessário mentires
Basta colocar em destaque
Que o conhaque é conhaque

Assim não haverá confusão
Filmes loucos ou frustração
Pois dos dois terás a medida
Que te vai preencher a vida

 

Provérbio provado rimado - MDCCXLV

O Arménio é dos que não caga
Também não desocupa a moita
Não se vai já livrar dessa saga
Pois não dorme quando pernoita

Que o problema dele em suma
É não saber como se anima
E sempre que deseja dar uma
Ele não fode nem sai de cima 


Provérbio provado rimado - MDCCXLIV

Tu és um empata fodas
E nem sequer és de modas
Não te ralas se atrapalhas
Ao te intrometeres ao calhas

És a nata no meio do leite 
Não traz o que se aproveite 
Se percebes que estás a mais 
Só te vais nos instantes finais 

É preciso mostrarem-te a hora
Em que deverás ir-te embora
Nem sequer vês que falhaste
E tantas fodas que empataste


Provérbio provado rimado - MDCCXLIII

Será que ainda estás acordado
Ou caíste nos braços de Morfeu?
Tens um olho tão arremelgado
Apesar do que já escureceu

E se ainda te restar energia
Dá-me um pouco de atenção
Para dormir com mais alegria
Ao invés de sentir frustração 


Provérbio provado rimado - MDCCXLII

Dizem que levo a peito
Qualquer falta de atenção
Mas é porque exijo respeito
E mereço consideração

Se me tratam como invisível
E me põem numa prateleira
Claro que serei irascível
Terei uma ira verdadeira

Porque quem não se sente
Talvez se leve pouco a sério
E não é filho da boa gente
De quem herdou tal critério 




Provérbio provado rimado - MDCCXLI

Por seres muito jeitosa e linda
Estás diariamente na berlinda
Na mente das outras mulheres
Tu és incrível sem o saberes

Tal sorte que sempre te calha
É inveja ou coisa que o valha
Sentimento que é só despeito
De quem é talvez imperfeito

Não te causa qualquer dissabor
Que afinal até dormes melhor
Vão todas pró raio que as parta
Pois da sua cobiça estás farta

Que vão todas dar banho ao cão
Enervar-se e falar com a mão
As censuras que elas destilam
Só os próprios defeitos perfilam


Provérbio provado desafinado

A ideia nascera de uma conversa do seu defunto pai com o irmão mais velho, tio de Carlos, que ocupara o lugar de chefe de família quando o pai de ambos se finara.
 O tio Justiniano era um sapateiro à antiga, dos bons, e quando vira o irmão em palpos de aranha, sem conseguir descortinar no filho uma vocação, logo se predispusera a ajudar sem pestanejar ou sequer pensar duas vezes.
- Traz o miúdo amanhã à oficina, meu irmão. Prometo-te que, com estas mãos que muitas solas hão-de bater, farei do teu filho Carlos um bom trabalhador e ensinar-lhe-ei o ofício de sapateiro.
E assim foi: o rapaz, que não dava nada para os estudos, foi aprender com quem sabia da poda, o tio Justiniano, que, com toda a paciência que conseguiu reunir, lá se propôs ensinar ao sobrinho o bê-á-bá da profissão.
O que o tio nunca teve coragem de dizer ao irmão é que aquela amostra de homem quase feito não tinha qualquer jeito para a coisa.

Os anos foram passando e a família foi encolhendo. Não era que fosse um profissional incansável ou diligente ou sequer atento ao pormenor mas, como lá na terra e nas suas redondezas, não havia mais ninguém que consertasse calçado, o Carlos ia dando para o gasto.
Conquanto se aproximasse o aniversário em que teria trinta velas para soprar, não lograra ainda arranjar uma namorada que futuramente, celebrados os esponsais, o ajudasse a tomar conta da oficina.

Até que um belo dia, estando Carlos entretido com estes pensamentos, entrou-lhe porta adentro a Dona Conceição, São para os amigos, com o propósito de lhe encomendar um conserto. A São ainda rompia meias solas, estava bem de ver.
- Ó Carlos, tu pouco sais daqui da loja, rapaz. Anda logo mais ao baile no salão da filarmónica, vai haver concerto. Sempre te distrais um bocado...

Quando a luz eléctrica se apoderou dos candeeiros, Carlos assim fez. Após o conserto dos botins da Dona São, encaminhou-se para o tal concerto no antigo lagar de azeite convertido em salão de festas.
O sítio estava composto, a bem dizer não havia muito que fazer por aquelas bandas. Carlos entrou e foi apertando mãos à esquerda e à direita. Subitamente, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta familiar. Parecia mesmo a Manuela, antiga colega e paixoneta dos tempos de escola. E não só parecia, como de facto era Manuela que, com um sorriso rasgado, quase convidativo, o saudou sem cerimónias.
Num misto de perplexidade e regozijo, tirou-lhe as medidas: como Manuela espigara, que bela mulher se pusera! Porém, a sua timidez não lhe permitiu dirigir-lhe mais do que um simples e inaudível Boa noite, como se de duas frases separadas se tratasse. Assim: primeiro Boa e, segundos depois que lhe pareceram meia hora, a palavra noite a medo, meio engolida.
Nesse instante, a Manuela dera de caras com Fabrício e dera-lhe as costas, contente pelo par garboso com quem bailar. Isto depreendera Carlos da cena, que nesse dia não fizera a barba sequer.

Passou grande parte da noite enfiado a um canto do salão, cogitando qual seria a melhor forma de chamar a atenção de Manuela que, nos braços de Fabrício, rodava deliciada pela pista, sorrindo acalorada de cada vez que trocava os passos da dança.
Carlos tinha dois pés esquerdos e o chão do salão parecia-lhe torto. Por isso, nem arriscou convidar a Manuela para a valsa seguinte. Ai, socorro!, como iria captar sobre si o olhar daquela donzela tão formosa?

Até que, ao passar de repente os olhos pela grupeta de músicos, a que o povo orgulhosamente chamava orquestra, teve uma ideia peregrina.
As aulas de música tinham acontecido há já uma eternidade mas, à data, a professora dizia que ele até tinha queda, que tinha noção dos tempos e dos compassos.
Observou então, num relance, os instrumentos no palco: o acordeão parecia demasiado intrincado e a guitarra não podia ser: Carlos era canhoto. E calculava não ter suficiente caixa torácica para qualquer um dos sopros.
O que restava? O rabecão. O enorme e sólido rabecão que se afigurava fácil de dedilhar e atrás do qual se poderia esconder caso o recital fosse um fiasco.
No intervalo foi negociar com o contrabaixista que lhe emprestou a sua compreensão e um chapéu de coco.
E foi nestes preparos que Carlos entrou em palco, incentivado pelos aplausos do público.

Na manhã seguinte, a São apareceu novamente na loja com a desculpa de indagar acerca do andamento do arranjo dos botins.
- Ó Carlos, eu bem sei que te disse que fosses à festa, que fosses e que te distraísses, que te faria bem... Mas que raio de ideia foi aquela de agarrares no rabecão da orquestra para chamar a minha atenção? Desafinaste o tempo todo, homem!


- Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão? 

Provérbio provado rimado - MDCCXL

Se me achas uma mais-valia 
Mas me deixas na ignorância 
Pensa assim no bom que seria 
Validares a minha importância 

E dizeres então alto e bom som
Que sou competente e que gostas
Sem qualquer lamúria no tom
De me dar palmadinhas nas costas 

Não me farias de todo um favor 
Já que esse elogio eu mereço 
Para conhecer o meu valor 
Sendo digna do teu apreço 




segunda-feira, 27 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIX

Põe o lobo mau a redigir 
Uma lei do código penal
E depressa irás descobrir 
Como defende o seu igual 

Vai mudar os regulamentos 
Para que os que devoram ovelhas
Possam estar desse crime isentos 
Não cheguem a levar nas orelhas 

É assim mesmo na governação 
Que a política é um jogo sujo 
Apadrinha quem está de feição 
E quem a concordar é sabujo

Quando alguém se faz militante
Deve estar ciente que engraxar
É postura do mais importante 
Se quiser vir um dia a liderar

Vai lambendo cus à medida 
Que sobe degraus dois a dois 
E com a ideologia esbatida
Já nem olha para trás depois 

A vaidade alheia alimenta
E defende o próprio interesse 
Faz o que o aparelho sustenta 
Indiferente ao que o povo padece 

O que aprende ao tomar partido 
É a ser tão competente a lamber
As botas de quem foi escolhido
Para que uma nação vá reger 

Faz menção de se pôr na fila 
E de ser o melhor concorrente 
Enquanto directrizes compila
Para quando ele for presidente 

Quem pela sua bitola alinhar 
Quando um dia cantar vitória 
Não se vai esquecer de engraxar 
E de novo se repete a história 

Pois sempre haverá lambe botas
Lambe cus que são engraxadores
E que assim desconhecem derrotas 
Estão no pódio com os vencedores 


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXVIII

Um embrulho às três pancadas 
Sem um laço ou uma fita rosa 
Pode esconder coisas variadas 
E uma oferta bem generosa 

Quando o gesto falha o alvo 
O bolo queima e a frase sai torta 
Fica lá fundo no peito a salvo
O carinho que afinal importa 

Não se mede o amor em moedas
Nem a amizade em perfeição 
Para combater atitudes azedas
O que conta sempre é a intenção 



Provérbio provado rimado - MDCCXXXVII

Queres sempre botar faladura 
Mesmo quando é má altura 
E fazes um discurso soturno
Seja este ou não oportuno 

Faz-te falta ter mais noção 
Do instante em que a multidão 
Já está farta do tema comprido 
Que teimas lançar-lhe ao ouvido 

Tens de identificar o momento 
Em que precisas enfim de parar
Que a plateia não está a contento 
E pouco lhe falta para bocejar 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXVI

Esta actual juventude 
Gosta muito de ajuizar 
Mas não há nessa atitude 
Muitas ganas de trabalhar 

Os velhos no fim da vida 
Querem mandar na tradição 
Mas a coisa sendo espremida 
Passa pouco de vã intenção 

Ao juntar as duas gerações 
O desfecho não é promissor 
Pois abundam tantas reacções 
Cada um quer levar a melhor 

Pretendem ter ambos razão 
Mas esse fosso geracional
Só aumenta mais a divisão 
Muito mais do que era ideal 

Têm tanto ainda a aprender 
Lenha verde e velho gogo 
O que costuma acontecer 
É muito fumo e pouco fogo 


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXV

Nem tudo o que parece sagrado 
Esconde dentro uma salvação 
E pode estar muito iluminado 
Mas o brilho é só uma ilusão 

O conceito do que é o divino 
Depende do deus que se adora 
E até um monge beneditino
Pode pôr as mangas de fora 

Há que olhar para o pregador 
E para as virtudes que sustenta 
Porque o mijo do senhor prior 
Não é composto de água benta 


Provérbio provado rimado - MDCCXXXIV

Playboy de trazer por casa 
Tem lábia para dar e vender 
Não resiste a arrastar a asa
Se por ele passa uma mulher 

Seja alta baixa ou gordinha 
O macho não se faz rogado 
E vá acompanhada ou sozinha 
Sempre um piropo é lançado 

Para conversar está disposto 
Também para trocar galhardetes 
Vai rodeando o sexo oposto 
Até que elas lhe atirem piretes

Tão firme não larga a labita
De qualquer rabo de saias
A uma feia ele chama bonita 
Pois todas servem de cobaias 

Pratica um tipo de assédio 
Que chega quase a molestar 
Mesmo que lhe mostrem o médio 
Não há meio de se pôr a andar 

Nesse acto de tanta insistência 
As fêmeas respondem fugindo 
Que lhes dê o Senhor paciência 
E perceba que não é bem-vindo 

Furioso ao ser dispensado 
Vai faltar-lhes então ao respeito 
Por ficar muito ressabiado
Vai dizer que se põem a jeito


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXIII

Estou farta das tuas bocas 
Das insinuações indirectas 
Se me queixo tu não te tocas
E respondes com uma careta

Vejo que te estás nas tintas 
Porque os ombros encolhes
E prossegues fazendo fintas 
Essa é a atitude que escolhes

Mas não vou perder a cabeça 
Nem me vou passar dos carretos 
Espero só que a raiva arrefeça 
Com uns truques muito concretos 

E enquanto tu fazes piadas 
Com o intuito de provocar 
Por mim elas são ignoradas 
Para ti eu estou-me a cagar 

Guarda os comentários mordazes
E as tuas alusões zombeteiras
Há pessoas que não são capazes 
De te ouvir sem perder as estribeiras 

Furiosas por serem picadas
Não aguentam tanto remoque
Tão cansadas de alfinetadas
Pode dar-lhes depois o amoque


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXII

Tu escuta os mais idosos 
Mesmo se são teimosos 
E até se forem birrentos 
Desligados ou desatentos 

Sempre a darem opiniões 
Às quais juntam palavrões 
Mas tu tenta ter paciência 
Pondo a mão na consciência 

Não sabes o que te espera 
Quando acabar a Primavera 
E deres por ti num Outono 
Enferrujado e com sono 

Por isso tu escuta o que dizem 
Mesmo que de aparelhos precisem
Está provado que o cão velho 
Quando ladra dá bom conselho


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXXXI

Por hoje eu fecho a porta 
Apesar da empena torta 
E por ora arrumo a caneta 
Cansada de ser uma poeta 

Mas não vou embora de vez 
Continuo a escrever pra vocês 
Aguardai e não desesperais
Prometo que amanhã há mais 


Provérbio provado rimado - MDCCXXX

Mostras a típica postura 
De quem evita a decisão 
Esperas a melhor altura 
A fim de obter projecção 

E praticas a ambiguidade 
Usas frases contraditórias
Destapando pela metade 
As sentenças obrigatórias

O teu objectivo é agradar 
Ao mesmo tempo à gente 
E por isso não vais opinar 
Se surge um tópico quente 

Pela frente apoias as frentes 
Os dois lados duma discussão 
Ao passo que tu entre dentes 
Já murmuras outra opinião 

Podem ser atitudes opostas 
De dois cantos das barricadas
Que ambas têm razão apostas
Considerando as duas erradas 

E por não assumires posição 
Desconheces o que é firmeza 
Vais por onde os outros vão 
Sem ter um grama de certeza 

Essa falta dum compromisso 
Aprova qualquer argumento 
E tu não és confiável por isso 
Pois te prestas ao fingimento 

Sempre a jogar nos dois lados 
Vais tentando avivar o fogo 
Assim não enterras machados 
Com esse teu género de jogo 

És daqueles que não explicam
Tão pouco jamais se revoltam
Porque vais com os que ficam 
E até esperas pelos que voltam