Provérbios Provados noutras casas:

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCXVIII

Esse teu discurso tem brilho 
Debitas chavões em chorrilho 
Se começas não sabes parar 
Tu não aprendes a dialogar 

Tens muita léria e futilidade 
É a marca da personalidade 
À qual falta tanta substância 
Parece capricho de infância 

Porque dá-te muito na veneta
Contares treta atrás de treta 
E assim a cada nova laracha
Provas a conversa de chacha


Provérbio provado rimado - MDCCXVII

Nas alíneas do teu contrato 
Não há nada que salientar 
O teu esforço é dado barato 
Só contigo tu podes contar 

Então sê um peão cumpridor
Sem jamais esperares elogios
Se há prova de que tens valor 
Essa é soma de mais desafios 

E um dia ao estares ausente 
É que a falta te irão sentir 
Não és apenas competente 
Tu és difícil de substituir 

Ao te lançares para a frente 
Doutro emprego que te seduz 
Lembra-te de ser previdente 
Não tornes a assinar de cruz 




Provérbio provado rimado - MDCCXVI

Estou fartinha da tua conversa 
Ultimamente sabe-me a pouco 
Pode ter componente perversa 
Porém o resultado é tão oco

Só o sexo é que tem qualidade 
Mas todavia no dia a seguir 
Sinto que houve apenas metade 
Daquilo que poderia existir 

Com a estima assim decrescente 
Tenho medo de algo te propor 
Por saber que te é indiferente 
Que haja poucas vezes calor 

Já pensei que tu eras medricas 
Por esconderes essa tua afeição 
Mas agora só acho que ficas 
Sem interesse depois da tesão 

Como está é-te mais confortável 
Sem partilhas e sem amarras
Contudo é pra mim questionável
Que desprendas enquanto agarras

Considerei para sempre partir
Para experimentar se falta te faço 
Com receio de então descobrir 
Que jamais existiu esse laço 

Feitas todas as contas não chego
A nenhuma real conclusão 
E neste limbo e desassossego 
Estou mais perto da desilusão 

Os teus silêncios prolongados
Deixam-me muito decepcionada 
Por saber que são planeados 
Para eu não ficar apaixonada 

Eu não sei como não percebeste 
Que esse rumo vem tarde demais 
Ao tirares o que antes me deste 
Fazes estragos monumentais 

Nunca tens a resposta certa 
Não mereces a minha atenção 
Acho uma injustiça completa 
Que me deixes ficar na mão 


Provérbio provado rimado - MDCCXV

Aquele que recebe e chora 
Sem cuidar de quem o ajudou 
Ao virar as costas ignora 
Esquece quem o amparou

É um grande mal agradecido 
Nem sequer percebe o estrago 
De ter posto o outro fodido
E ainda por cima mal pago 


Provérbio provado rimado - MDCCXIV

Quem leva um saco para dar
Leva outro também para trazer
No fundo está só a emprestar
Com um intuito de recolher 


Provérbio provado rimado - MDCCXIII

Topo o teu feitio de ginjeira 
Os trejeitos e as reacções 
Queres tudo à tua maneira 
Mesmo se não há condições 

Antecipo o teu comportamento 
Pois conheço-te a personalidade 
Se pudesses tinhas um regimento 
Para satisfazer cada vontade 

Mas comigo não fazes farinha 
Eu já dei para o teu peditório 
Que eu prefiro ficar sozinha 
E defender o meu território 

Pra malucos aqui não há pão 
Nem colo ou palmadas nas costas 
E é tão escusado pedires perdão 
Estou-me a cagar se não gostas 

Desta vez tu pisaste o risco 
E fizeste uma valente merda 
Tira essa postura de arisco
É mais tua que minha a perda

Tu regressa por donde vieste 
Porque a tua atitude me afasta
Foste parvo e não te contiveste
Já sei bem o que a casa gasta 



Provérbio provado rimado - MDCCXII

Por norma uma confidência
Dá lugar à maledicência 
Muitos não sabem guardar 
Um segredo sem o contar 

Têm uma língua de trapos 
E já mereciam uns sopapos 
Por pôr nas bocas do mundo 
O que era segredo profundo 


Provérbio provado rimado - MDCCXI

Se tu gostas de pôr o carro 
À frente dos bois que o arrastam 
Tem lá calma ou não te agarro
E só dois encontros me bastam 

O segundo já foi suplemento 
Dei-te outra oportunidade 
Para ver se um novo momento 
Me despertava uma vontade 

Mas foi tal a falta de interesse 
Não senti qualquer tipo de chama
Como se eu fechada estivesse 
Perante um prenúncio de cama 


Provérbio provado rimado - MDCCX

O demónio anda contigo 
Faz do teu corpo abrigo 
E até se imiscui na cabeça 
Pois ele é uma bela peça 

Faz de ti um ser agitado 
Belicoso e muito irritado 
Em breve tu levas o troco 
Por teres o diabo no corpo 


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCIX

Eu nunca aprendi nada 
Jogando só pelo seguro 
Mais quero ficar espantada 
E tirar da frente esse muro 

Eu prefiro ir à confiança 
E deixar o medo para trás 
Como outrora quando criança 
De tudo me pensava capaz 

E agora na idade adulta 
Em que a vida é instantânea
Espero não levar uma multa 
Por me manter espontânea 


Provérbio provado rimado - MDCCVIII

Se às vezes te cai a ficha
É quando o destino te lixa
E a sorte não te acarinha
Paciência é assim a vidinha


Provérbio provado rimado - MDCCVII

Não digas mal dos demais
Mesmo nos actos banais
Guarda a tua língua afiada
É melhor ter a boca calada

Tão pouco te vás enfadar
Com o que alguém te contar
Mais atrevido que quem diz
É quem chega a mostarda ao nariz 


sábado, 4 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCVI

O tempo por mais que refiles
É o teu calcanhar de Aquiles 
A idade é o que te atormenta 
Pois queres chegar aos oitenta 

Só um número é diz o povo 
Que se soma a um ano novo 
Não te assina a identidade 
Ou quem és face à sociedade 

Esquece esse teu ponto fraco 
Que te põe os nervos num caco
E não menosprezes a velhice 
Como se fosse grande chatice 

Porque até o Aquiles sofreu 
O que talvez não mereceu 
E apesar de sentir a derrota 
Em Tróia ele não fez batota 

Ficou preso pelo calcanhar 
Que a deusa não quis largar 
Ao ficar assim tão vulnerável 
O desfecho foi inevitável 


Provérbio provado rimado - MDCCV

Ó compadre se tens fome
Tens as tripas a roncar
Procura o que se come
Para a fome contentar

Um cozido à portuguesa
Com orelha e com focinho
Já te arruma a fraqueza
Ao fazer par com o vinho

Porém tu talvez prefiras
Um bom prato de feijoada
Que num ápice tu viras
Se ela for bem apurada

Deixa os feijões de lado
Puxa a cadeira para cá
Toma bacalhau dourado
Outro igual assim não há

Se queres peixe há choco
Bem frito ou com tinta
Que te vai saber a pouco
E te obriga a usar cinta

Não reclames camarada
E pede uma francesinha
Com o picante atestada
O mais forte da cozinha

Seja carne peixe ou pão
O que vier é que morre
Para teres uma refeição
Que o estômago te forre

Se no final houver ceia
Não te será indiferente
Já que a barriga cheia
Faz o coração contente 



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCIV

Não entendo o que tu esperas
Com tamanho ataque frequente 
Tu desejas lançar-me às feras 
Mas porém eu fico indiferente 

Assim ficas a falar tu sozinha 
Ignoro as tuas provocações 
E a resposta é ficar na minha 
Não dou pasto às tuas questões 

Logo não te devo um só chavo
Um euro ou sequer um tostão 
Contudo deves-me o agravo
Ao vir com sete pedras na mão 


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MDCCIII

O rato é um bicho nojento 
No lixo encontra sustento
Ele está onde há sujidade 
Nas catacumbas da cidade 

Nesse mundo só há escuridão 
Mas o rato pressente o clarão 
Foge logo a escapar da morte 
Apressado abusando da sorte 

Dá valor aos pressentimentos 
Já que o rato tem sentimentos
Sente medo e sente euforia 
Tem presságios de epifania

Tem um faro de perdigueiro 
Por isso é sempre o primeiro 
A pôr em curso o desafio 
De abandonar o navio 


Provérbio provado rimado - MDCCII

Faz o bem sem olhar a quem 
Mesmo se não retorna tal bem 
Que a moral cristã te ordena
Enquanto os pecadores condena

E apesar de não teres benefício 
Fá-lo-ás sem qualquer sacrifício 
Sempre justo e tão abnegado 
O teu gesto é desinteressado 


domingo, 28 de junho de 2026

Provérbio provado num verso branco - CLVII

Subitamente rompe-se um mundo inteiro do lado de fora
E o lado de lá acrescenta surpresa ao nascimento
Mas desse espanto não atestam certidões e certificados
Porque nenhuma memória antecede a descoberta
Até que esta reste somente como memória

Toda a existência se torna então promessa
Como um presente onde o presente avalia
O melhor de cada dia a bem da história de cada um
Colecção de verdades individuais supérfluas
De poses ensaiadas que o próprio enganam
Da veneração de mentiras comummente aceites
E tantas vezes o interior se vai esboroando em segredo

O erro filosófico foi acreditar que o raro é útil
Para que se aceite mais facilmente a vulgaridade
Que torna intocáveis convicções e vaidades
O peito transporta este enorme elefante branco
Que não move moinhos e apenas consome
O oxigénio que dá liberdade ao pensamento

 

Provérbio provado rimado - MDCCI

Acontece ao teu coração 
Colocar-se no sítio errado 
E sem qualquer hesitação  
Sair pela boca disparado 

Podem achar-te descuidada
E até pensar que és louca 
Lá no fundo és precipitada
Tens o coração ao pé da boca 


Provérbio provado rimado - MDCC

O Ambrósio é o meu motorista
Que é sempre tão leal e servil
Ele nunca roçou a conquista
E atura o meu modo infantil

Conduz devagar o veículo
Onde eu passeio a vaidade
Sem jamais coçar o testículo
Satisfaz-me qualquer vontade

Pois sou pessoa de capricho
Além disso bastante birrenta
Convivo com gente de nicho
Que a soberba me contenta

Sou queque e muito afectada
Porque tenho um gene fidalgo
E só pretendo ser bem tratada
Ó Ambrósio apetece-me algo
 

Provérbio provado rimado - MDCXCIX

O tempo tem duplo sentido
Além de se ver percorrido
Passa e ao passar amarrota
Fazendo pregas com batota

E não é possível controlar
O que não pára de passar
Em face das horas presentes
Somos apenas sobreviventes


Provérbio provado rimado - MCDXCVIII

Todos nos conhecem um pouco
Mas ninguém sabe quem somos
Mais de que na casca é nos gomos
Que se esconde um gene de louco

Se calhar há uma veia poética
Que relata como o que sentimos
É diferente do que assistimos
De uma forma algo profética

Esta é uma filosofia de bolso
Não quer ninguém convencer
Deixa espaço para escolher
Se mostrar ferida se osso

E para quem prefere exibir
Conquistas e tanta alegria
Só porque tem essa mania
Do bom e do mau distinguir

Que então ignore os sinais
Ponha toda a fé no remédio
Que combate o tipo de tédio
Que se cola às coisas banais

Por isso não esqueças de dar
Uns ares dessa tua graça
Que mesmo face à desgraça
Sabe como se reinventar 



Provérbio provado rimado - MCDXCVII

Feito de carne de sonho e de vento
Ruma o navio por mares de espanto
Cruza a tormenta e o próprio lamento
Ignora o perigo escondido num canto

Lá no horizonte na noite escura
O farol acende um olho de brasa
É a lucidez que a mente procura
Há nessa luz a promessa de casa

Na distância que encurta o caminho
A alma distrai-se no fim da viagem
Solta-se o leme que navega sozinho
Cego pelo brilho da falsa miragem

A barra é o limite o aceno da terra
Onde a soberba supera a atenção
Ignora demónios que o mar encerra
Nas águas revoltas da vaga ilusão

Basta um segundo de falsa certeza
Para que o descuido roube o desvio
Uma rocha desfaça qualquer grandeza
Que à boca da barra se perde o navio



sexta-feira, 26 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCVI

Tu tens a tendência perversa 

De vir estragar a conversa 

Com umas larachas da treta 

Eu vou responder-te à letra 


Sei que não estavas à espera 

Que eu virasse uma fera 

É assim de semblante triste 

Tiveste a paga que pediste 


Depois da resposta escutares

Escusas de então dar-te ares

Guarda lá no saco a viola 

Que daqui não levas esmola 




quarta-feira, 24 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCV

Trabalha de boca fechada
Que o serviço não espera
Entra muda e sai calada
Como se tu fosses bera

Não sei se ouviste dizer
Um baú aberto não guarda
Tesouro que queres proteger
Dessa gente que é carneirada 



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCIV

De cada vez que tu erras
A lição que retiras é nula
Dessa forma só te enterras
Não sabes ser quem calcula

Se deparas com uma situação
Em que poderás dar-te mal
Não controlas essa tentação
De ir lá direitinho ao local

Parece que o alvo tem mel
Ou que não te sabes conter
Ao entrar nesse carrossel
Onde irás decerto sofrer

Com a cabeça toda à roda
Ficas rapidamente grogue
Ignorando onde pára a moda
Ou até que alguém interrogue

Quando a volta chega ao fim
Não resistes a entrar de novo
Mostrando-te parvo assim
Por isso eu não me  comovo

Porque insistes em repetir
Aquilo que já deu errado
Teimoso por querer persistir
Só sabes chover no molhado

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCIII

Quando no caminho resvalas
O mais certo é caíres a seguir 
E por entre veredas e valas 
Pensarás então em desistir 

Mas cair não é só prejuízo 
Pois também ensina a erguer 
Levantar e subir é preciso 
Para assim continuar a viver 

Pouco tempo depois percorrido 
Nova queda virá de surpresa 
E percebes após teres caído 
Que te reerguerás de certeza 

Quanto mais zangado ficares 
Com os saltos que traz o destino 
Importância darás aos azares 
Que acontecem no teu casino 

Já que viver é jogar à batota 
Com o medo todo disfarçado 
E assim prosseguindo na rota 
Somar mais horas ao passado 

Tão intensa e por vezes sofrida 
Oscilando entre sorte e perigo 
O melhor é que gozes a vida 
Porque não a levarás contigo 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCII

Se tu gostas de coleccionar
Dispensa os bens materiais
Aquilo que tu deves guardar
São relíquias mais especiais

Na mente arrecada instantes
Em que então viveste a sério
Memórias mais interessantes
Para compôr o teu hemisfério

Guarda a colecção de momentos
Num dos corredores da memória
Valem mais do que testamentos
São as balizas da tua história

É somente o que tu levarás
E que deixarás em herança
O melhor do que foste capaz
Vai escrever a tua lembrança

Nem carros nem propriedades
Te darão mais propósito ao ser
Ou trarão mais possibilidades
Na estrada que irás percorrer

O melhor que tu podes legar
É a rota que foi percorrida
E não tem de ser exemplar
Ou ter só degraus de subida

E se desbarataste o sucesso
Ao olhos desta sociedade
É porque afinal o progresso
Está trocado na prioridade

Se apenas tu arrecadaste
Tens de somas a conta cheia
Foi porque apenas valorizaste
Engrossar o teu pé de meia

Mas depois no descanso final
O pé está como outros gelado
Todo o saldo fica residual
Assim não serás lembrado

O futuro no seu despontar
Enche palcos de novas cores
Do passado só vai recordar
Coisas simples e pormenores 



quinta-feira, 28 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MCDXCI

As palavras são o substrato 
De um futuro que vai ocorrer 
Quer seja o discurso abstracto 
Ou concreto no que quer dizer 

Sobre elas se diz que o vento 
As leva a todas sem excepção 
Fazendo com que o juramento 
Perca assim uma real intenção 

Mas apesar desse tal pormenor 
Bem escolhidas fazem diferença 
E até causam no interlocutor 
Sensação de alguma pertença 

Não deixes nenhuma estagnada 
Como uma bola na tua garganta 
Torna aquela que for libertada 
Numa frase que a todos espanta 

Já que apenas custa a primeira 
E outras tantas a secundarão
Que a palavra sendo verdadeira 
Suscita sempre uma reacção 

Não escondas o que tu desejas 
Com nuances falsas por detrás 
As palavras são como as cerejas 
Depois duma vem já outra atrás 


Provérbio provado rimado - MDCXC

Quando os problemas ignoras
Um par de desculpas decoras
Esperando que desapareçam 
De ti por milagre se esqueçam

Ao fugires dessas situações 
Não irás encontrar soluções 
Enterrando a cabeça na areia 
Como quem o mar alto receia


Provérbio provado rimado - MDCLXXXIX

O Inácio ficou tão confuso 
Ao perder mais um parafuso 
Pois estes já não abundavam
Só o Tico e o Teco restavam 

Não querendo mostrar-se tolinho 
Nem sequer causar burburinho 
Para não pôr a mulher mais fula 
Ficou mudo tal como uma lula 

Ao tentar passar despercebido 
O Inácio foi muito atingido 
Ele os pés pelas mãos meteu
E no fim mais tolo pareceu 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXVIII

A essência supera a fachada 
E a imagem que é projectada 
Pois quem age naturalmente 
Está ao nível da boa gente 

As almas que apenas parecem 
Por usar máscaras esquecem
Que um dia elas podem cair 
Logo a real pessoa exibir 

A verdade constrói confiança 
E há mais coisas que alcança 
Transparência na comunicação 
Passa ideias com mais precisão 

Poupar na frase e não no acto 
Não a gastando ao desbarato 
Na acção mostrar obra feita 
Vai evitar qualquer desfeita 

O louvor da autenticidade 
Vai potenciar a felicidade 
Sem dúvida mais vale sê-lo
Do que somente parecê-lo


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXXVII

Por não aguentar como eras
Pus um grande ponto final 
Nos ponteiros e nas esperas
Do relógio de ponto mensal 

A montanha russa de antes 
Que me trazia tão inquieta 
Por ser composta de instantes 
Só me deixava incompleta 

Recordo os nossos momentos 
Com o peito cheio de saudades 
Porque ao ter semeado ventos 
Depois só colhi tempestades



Provérbio provado rimado - MDCLXXXVI

Tens o teu próprio gabinete 
Onde atendes com ar de frete 
Salientando a porta aberta 
No que é afinal uma treta 

Tens a cara da esfinge de cera
Que mais impassível não era 
Do que tu com o teu ar distante 
No deserto que é o teu semblante 

E muito dificilmente delegas
Para assim dividir as colegas 
Fazendo o que te dá na gana
Que varia a cada semana 

Com tal modo autoritário 
Ninguém pode dizer o contrário 
Pois às tropas cavaco não dás 
Porque nem disso és capaz 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXV

Sempre a postos para o retrato
Tu não desejas o anonimato
Aparecendo a qualquer custo
Apesar de não teres um tusto

Como um alpinista social
Pões-te a jeito para o pedestal
Ensaiando um sorriso fingido
És um típico caso perdido

Sempre oco e deveras postiço
Apresentas um lindo serviço
Ao esconder o quão inferior
É no fundo o teu real valor

Nesse jogo sujo do espelho
Tu fazes parte do aparelho
Por seres afinal um vendido
Que gosta de ser corrompido

 

Provérbio provado rimado - MDCLXXXIV

Há um verbo muito irregular
Na nossa língua portuguesa
E nem todos sabem conjugar
O mesmo com toda a clareza

Sempre na terceira pessoa
Por pessoa afinal não ter
E não deve ser dito à toa
Se não se sabe como fazer

Também auxilia o vizinho
Se outro lhe estiver colado
Nesse caso não anda sozinho
Há-de ser bem posicionado

Se tiver o mesmo sentido
Que tem o verbo existir
É no singular proferido
Ou num erro se irá cair

Devem ter já adivinhado
A que verbo eu me refiro
Que é de usar com cuidado
Para não disparar um tiro

Para terminar o suspense
Qual é ele eu já revelarei
Por ser verbo que pertence
Como excepção a uma lei

Falei tanto do verbo haver
Como se supõe que aparece
Foi apenas para esclarecer
Se acaso dúvidas houvesse 



Provérbio provado rimado - MDCLXXXIII

O enredo já estava estudado 
Por um cérebro peregrino 
Que ordena que vá mastigado 
Como manda o bom figurino

Para que ninguém questione
O contrato que foi estabelecido 
E que de forma cega funcione
Mesmo se este foi mal parido 

É esperado que não interrogue
Que assine por baixo de cruz 
E que mais privilégios rogue 
Provando assim o que o seduz 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXII

És parecido com uma parede 
Colocada no meio do caminho 
Que a outros o curso impede 
E te torna um gajo mesquinho 

Não passas dum estorvo gigante 
Um obstáculo e até um enguiço 
Convencido que és importante 
Vais levar um chá de sumiço 

Que afinal pouca gente aguenta 
O teu modo de ser tão cretino
E nenhuma amizade sustenta
Qualquer corte se é repentino 

Então vai e não tenhas pressa 
Que o regresso não é desejado 
A tua rigidez não interessa 
E é difícil sentir-se apegado 

Talvez dessa forma aprendas
A não ser barreira inflexível 
E sem necessitar de legendas 
Te tornes num ser disponível 


Provérbio provado rimado - MDCLXXXI

Tu não louves até que proves
Estes Provérbios Provados
E não lendo não me demoves
De os escrever inventados

Porque esta casinha recebe
Neuras más e boas alegrias
E quem as consome percebe
Como vão correndo os dias

Tantas vezes é a salvação
Que faz seguir com alento
Enchendo-me o coração
Quando o leitor é atento

Então meus caros amigos
Nas imagens não se detenham
Pois são apenas os postigos
As entradas que se desenham

Para os versos e para os textos
Para os mundos que eu invento
Os ditados são só pretextos
São gatilhos para o talento

Que o possuo eu não afirmo
Que a inspiração não basta
Mas acima de tudo confirmo
A matéria que é muito vasta

E assim sendo vou continuar
A escrever e a ser insistente
Pois beber da fonte popular
Não deixa ninguém indiferente 


Provérbio provado rimado - MDCLXXX

Levaste um par de patins
E um pontapé nos tintins
Perdeste de vez a coragem
Ao perceber a mensagem

Por isso tu não regresses
A implorar mais benesses
Pois já foste dispensado
E és um caso arquivado


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXIX

Aqueles que só reescrevem
Perdem todo o fio à meada
E nesse caminho perdem
A ideia como foi esgalhada

Não criam apenas retocam
Apagam e fazem diferente 
E grande chatice provocam 
Com o seu texto suplente


Provérbio provado envergonhado

Desde miúdo que era assim: introvertido e metido consigo. Nem no início da passagem para a idade adulta tinha conseguido perder o acanhamento que lhe tolhia os gestos. A sua timidez era de tal forma evidente que produzia o efeito contrário ao pretendido: dava nas vistas. 

Em redor, todos o acicatavam e lhe pediam com insistência: Não sejas tão preso, solta-te!; todos lhe asseguravam: Olha que assim não arranjas namorada, espantas a caça! ; todos lhe davam cabo da cabeça com esse Etc e tal. 
Mas o Guilherme não sabia, não podia, não conseguia, em suma, comportar-se de outro modo. As faces coravam-se-lhe mais do que uma malga de verde tinto espumoso, as mãos escorriam mais suor do que uma barragem a vazar acima da cota. 

Enfim, o Guilherme e a desgraça perfeita eram mais próximos do que o polegar e o indicador. Será um exagero? Não é um exagero. 

Ele preferia deixar que as chamadas fossem para o atendedor e a sua casa era o seu lugar favorito onde podia ler e ouvir música sem ser interpelado. O seu melhor amigo vivia lá em casa: era o gato Alfredo. Fazia a maior parte das compras na Internet para assim evitar as superfícies comerciais. E era o rei das boas desculpas que lhe permitiam contornar convites para sair. 

Como vêem, não se trata de exagero: o Guilherme era o cúmulo da pessoa envergonhada. Em nada ajudava o facto de evidenciar um acne persistente que teimava em não se despedir. Também não ajudava aquela penugem no bigode que demorava em se transformar numa barba a sério. 

E, assim, o Guilherme, com a sua cara de puto imberbe cheia de borbulhas com pus, com os seus livros, o seu gato e as chamadas por atender, perdia cada vez mais oportunidades de convívio. 



- Deus dá a barba a uns e a vergonha a outros 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXVIII

Há gente que é como dinheiro 
E escorrega tão fácil na mão 
Que merecia o fim derradeiro 
De ser retirada de circulação 

Gente falsa e sem honestidade 
Que o real se recusa engolir 
Porque dá trabalho a verdade 
E o que dela se tem de assumir 

Nessa forma de sobreviver 
Ora são crentes ora são ateus 
Capazes de jurar e prometer
Que o próprio Deus não é Deus 


Provérbio provado rimado - MDCLXXVII

Ainda mal começaste a falar 
E já estou deveras cansado 
Nunca vi ninguém chatear 
Como tu quando vais lançado 

A primeira frase começas
E logo a partir dela divagas
Em ideias vizinhas tropeças 
Enquanto o raciocínio apagas

E eu que não fiz nenhum mal 
Tenho de cumprir esta pena
Mas que seca tão descomunal 
É levar com a tua cantilena 

Repetes sem parar um refrão 
E fatigas-me tanto o ouvido 
Vai mas é dar banho ao cão 
Que o bicho fica agradecido 


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXVI

Quando alguém se sente sozinho 
E insiste em ficar nesse estado 
À espera que lhe dêem colinho
O melhor é que espere sentado 


Provérbio provado rimado - MDCLXXV

Tu és giro todos os dias
Ao ver-te tenho arritmias
Os pulmões ficam vazios
Na espinha sinto arrepios

Esbelto e proporcionado
És muito bem apessoado
Pões-me a cabeça a andar
À roda sem nunca parar


Provérbio provado rimado - MDCLXXIV

As mãos fazem e desfazem
Com pouco brio ou coragem
E enquanto a direita é o gesto
A esquerda esconde o resto

Pois um lado oculto contém
A que não resiste ninguém
Nela habita o tal Satanás
Que torna o ser mais voraz

O vai devagar transformando
E a mão direita ignorando
Fica em si mesmo focado
Esquece ter sido ajudado

Só conhece a própria razão
Que concede com cinismo
Descurando que a ingratidão
É a mão esquerda do egoísmo


domingo, 17 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXIII

Para viveres bem a vida
Não tenhas a voz tremida
Diz sempre a tua verdade
Com toda a simplicidade

Quem muito quer agradar
Acaba por se enganar
Quando é falso o elogio
Quem o proferiu fingiu

Não te vendas por favor
Nem sejas um bajulador
Já que o gesto imparcial
Faz-te um ser fenomenal

Caminha de rosto erguido
Sem o olhar corrompido
Se não queres ser odiado 
Não te faças adulado 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Provérbio provado rimado - MDCLXXII

Pessoas que estão sempre sérias 
Não mostram sequer um sorriso 
A quem lhes contar certas lérias 
Pois do riso é ausente o juízo 

Nem o mais singular disparate 
Os dois lábios lhes faz descolar 
Prescindem de qualquer debate 
Antes mesmo de ele começar 

Não demonstram abertura 
Para partilhar sentimentos 
Defendendo que não é altura 
Querem estar da dádiva isentos 

Nunca oferecem de si a porção 
Que as faça ficar vulneráveis 
Transmitindo uma ideia então 
De que os outros são descartáveis 

Tal como não dão não recebem
Cada gesto de borla oferecido 
Que é grátis nem se apercebem
A indiferença é o seu apelido 

Praticam a estudada distância 
Onde abraços estão interditos 
Quem observa essa arrogância 
Julga-os humanos esquisitos

Não há réstia de humanidade 
Em tamanha atitude fechada 
Permanente indisponibilidade 
Onde a mão está cheia de nada 

Desconhecem a frase amável 
Que as palavras só boas são 
E este é argumento inegável 
Se for bom também o coração 


Provérbio provado rimado - MDCLXXI

Tu és fino que nem um rato
Parece que não partes um prato
És tão sonso que faz impressão
Ver o teu fingimento em acção

Com esse ar de jogo de batota
O teu riso depois da anedota
É postiço e é também ardiloso
Aparentas estar sempre no gozo
 

Provérbio provado encornado

Casaram na capela da terra dela num sábado de Junho, ao meio dia no pico do sol, na presença de uma centena de convidados
A cerimónia foi interminável: o padre Bartolomeu arrastou a homilia o mais que pôde, reinterpretando vagarosamente as alíneas e entrelinhas do Evangelho. Tanto prolongou a dita, que a suada audiência em desespero não lhe adivinhava fim à vista.
Foi então que o prior, raposa velha na observação da linguagem corporal dos fiéis, se dignou concluí-la, passando directamente para o diálogo antes do consentimento com as perguntas da praxe. Seguiram-se-lhe os votos. Nesse momento, tão aguardado pela plateia, os noivos uniram as mãos direitas e declararam a sua aceitação.

- Eu, Inocêncio Cornélio, recebo-te por minha esposa, Maria Teodora, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.

A tímida Teodora secundou o noivo na intenção, tal como era esperado, e o padre Bartolomeu dispôs-se a finalizar a cerimónia, selando a união.

- Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu.

E, pronto, a boda dera-se sem grandes sobressaltos. Houve quem criticasse o vestido da noiva, a mesa de sobremesas e a função em geral. Houve quem bebesse mais do que a conta, chamando o Gregório para cima da fatiota melhorada. Tudo normal.

Após uma curta lua de mel, e tal como previsto no contrato, começou a vida marital propriamente dita.
Os pombinhos passaram a arrulhar num tom diferente. Já não estavam sempre de acordo. As suas questões rodeavam o orçamento apertado e a chegada dos filhos. Ao passo que o Inocêncio era poupado e queria muito ser pai de um casalinho, Teodora gostava de esbanjar e não tinha pressa nenhuma de cuidar das crias.
Rapidamente, o marido fez a leitura do cenário: a namorada fora uma, a mulher era outra. Teodora mudara como da água para o vinho. Mas o Inocêncio amava-a e tinha prometido, perante Deus e os homens, continuar a amá-la.

Comemoraram um ano de casados, comemoraram dois, e Teodora estava cada vez mais distante.
Entretanto, a notícia já corria pelas ruas da aldeia, à boca pequena. Nomeava-se o Zé Perpétuo Alfaiate, o caixeiro viajante que passara a andar mais vezes por aquelas estradas e até o filho do padeiro cujo acne da puberdade desaparecera de repente. As gentes sussuravam, desgostosas: Vai ser o último a saber, coitadinho do Inocêncio Cornélio.


- Coitadinho é corno




Provérbio provado rimado - MDCLXX

Completei cinquenta de idade 
E bem longe vai a mocidade 
Com as ideias já meio turvas 
Ainda estou aí para as curvas 

Muita lenha há para queimar 
Enquanto eu topar cá andar 
Com o corpo perto da reforma 
E a cabeça dormindo na forma 

O que me caracteriza a mente 
É a natureza intermitente 
Mas quando ela ferve e bomba 
Produz estas rimas de arromba