quarta-feira, 6 de março de 2024
Provérbio provado determinado
Provérbio provado rimado - MCCLXVII
O que é o jantar mamã?
São línguas de perguntador
Mais a tua se lá for
Até ao raiar da manhã
E amanhã o almoço?
Pergunta curioso o petiz
E logo a mamã lhe diz
Que são cascas de tremoço
E então depois a merenda?
Pois se nada te agradar
Serão bordas de alguidar
Que te ofereço de prenda
Mas o gaiato insiste
O que teremos á ceia?
Vão ser morrões de candeia
A ver se ele desiste
Provérbio provado num verso branco - CXXXVIII
Antes do voo prepara as asas
Para que aguentem o céu o sol e o breu
Sem estremecer ao ponto de falhar
Que irão decerto abanar nas curvas
É próprio de qualquer linha que tenhas de transpor
Se é que tens um destino se é que tens um lugar
É a infinitude de possibilidades que te congela antes da partida
Tudo o que pode correr realmente mal é demasiado possível
E essa ligadura em que te embrulhaste
Tolhe-te mais os movimentos do que te sara as feridas
Engole o veio de saliva que te inunda de receio
Gigante como um princípio que te empata qualquer princípio
Que ilustra o precipício que ainda não se prefigura lá à frente
Não adianta que rezes se não for de optimismo a oração
A ansiedade do início é grande e forte
Mas aguenta também a ansiedade intermédia
E principalmente a ansiedade que traz a repetição
À segunda e à terceira vez não é mais fácil
Existe um peso certo que equilibra os pratos da balança
Para que entre o receio e a esperança o medo não engorde demais
O medo da desgraça é bem pior que a própria desgraça
Provérbio provado rimado - MCCLXVI
O Marco parece antipático
Por ser de tal forma apático
Demonstra grande indiferença
Por qualquer tipo de crença
Os olhos reviram-se tanto
Mas não é que seja espanto
O que acontece é conforme
A medida do seu tédio enorme
Nada do que o rodeia
O entusiasma ou refreia
O Marco não é acessível
A tudo ele é impassível
A fim de evitar o confronto
O Marco jamais está pronto
Para defender uma ideia
Que outras desencadeia
Não vale a pena por isso
Armar grande reboliço
Pois com o Marco ó caneco
É estar a falar pró boneco
Provérbio provado rimado - MCCLXV
Dos actos irreflectidos
Não esperes uma progressão
São gestos descontraídos
Feitos sem grande intenção
Assim como quem não quer
O que lhe põem à frente
Pois dá trabalho escolher
O que lhe é indiferente
Essa atitude blasé
Não cria nenhuma mudança
E não percebo porquê
Será no fundo cagança?
Palavras da boca pra fora
Membros rígidos e tensos
Só apetece ir embora
Não batalhar por consensos
Que as lágrimas de sermão
E a chuva de trovoada
Quando caem na terra do chão
Normalmente não valem nada
Provérbio provado acelerado
Não sei porque é que não levas em conta os meus conselhos, Juliana; sou o teu pai e se desejo algum mal para ti que venha para mim, filha. Devias ouvir mais o que te digo: ando há muitos anos a bater mato e tenho mais experiência do que tu.
Sabes qual é o segredo, minha filha? É nunca desistir, continuar sempre em frente. Em cinquenta anos de trabalho nunca faltei: ia constipado, ia com febre, mas ia sempre!
A tua mãe nunca compreendeu esta minha forma de ser. Principalmente quando eu não alinhei naquelas sessões de terapia de casal, era só o que me faltava! Então ela chegava do psicólogo com a cabeça cheia das tretas que ele lhe impingia... Acusava-me de praticar a chamada fuga para a frente; ou seja, o que ela queria dizer era que eu andava a empurrar com a barriga, como se não soubesse o que andava a fazer.
Já viste a desconsideração, Juliana? Eu que nunca lhe deixei faltar nada e ela, de repente, de um dia para o outro, só me encontrava defeitos. Pois bem, dei-lhe o divórcio como ela quis! Nem pestanejei. Assinei os papéis e lavei dali as minhas mãos.
Por isso te repito, filha, é continuar sempre em frente, aguentar os embates, dar luta até ao fim.
- Andar para trás é ensinar o caminho ao Diabo
Provérbio provado num verso branco - CXXXVII
As palavras que de noite nos embalam
Estarão já mortas pela manhã
O sono esvazia as frases do presente
Enquanto o sol faz acordar um novo vocabulário
Às vezes repetimos os discursos
Para que os dias se aproximem e nos vistam
Nessa busca do tamanho certo
Quanto mais é a linguagem mais familiar
O conforto aumenta e é menor o temor
Mas as palavras da noite não são para a manhã
Têm cores diferentes e até ruídos
Andam mais ou menos despidas
Porque as pessoas são as circunstâncias
E as palavras as suas condicionantes
Provérbio provado rimado - MCCLXIV
terça-feira, 5 de março de 2024
Provérbio provado rimado - MCCLXIII
O José é tão inteligente
Interessante é dizer pouco
Decerto é um homem diferente
Tem um sorriso meio louco
Quando me escreve uma frase
Não dá erros de ortografia
Sabe compor bem a sintaxe
Nem por isso tem a mania
Tem a máxima pontuação
No que ao sex appeal diz respeito
Capaz de despertar a tesão
Ou mais umas batidas no peito
Ele sabe que sou atrevida
Tirou-me logo o retrato
Apesar de meiga e querida
Parecer que não parto um prato
Queria fazer-lhe um convite
Que extravasa o atrevimento
Mas não sei se ele permite
Ou se está assim a contento
Um café ou o chá das cinco
Para não partir em abuso
Não demonstrarei muito afinco
São as fracas armas que uso
Depois destes versos ele ler
Eu ficarei na expectativa
Espero não me arrepender
Preferir ter sido evasiva
Provérbio provado rimado - MCCLXII
Nem tudo o que luz é ouro
Nem tudo o que é feio é mau
Quem não tiver o que fazer
Que faça colheres de pau
Pois o brilho pode enganar
E fazer parecer melhor
É uma lente de aumentar
Que até confunde o amor
O que é feio pode ser bom
Para lá da primeira impressão
É preciso é escutar o tom
Que nos toca ao coração
E se nada disto comove
Sobra sempre outro entretém
A quem a expressão não demove
Que faça colheres também
Provérbio provado rimado - MCCLXI
Eu já comi muito milho
Debaixo do espantalho
Mas arranjei um sarilho
Que me deu muito trabalho
Comi ainda o pãozinho
Que o diabo amassou
Aguentei tanto sozinho
Nenhuma pessoa ajudou
A vida toda na trave
Tantos frangos virei
E o que houve de grave
A ninguém assim contei
Provérbio provado do relógio comprado
Quando terminou a instrução primária o avô quis oferecer-lhe um relógio como fizera a todos os netos. Veio de lá o Sr. Silvestre, numa tarde muito quente de Julho, na sua carrinha de caixeiro viajante relojoeiro e ourives.
Que deixasse a menina escolher o modelo que mais lhe agradasse, disse o avô ao Sr. Silvestre. Porque este relógio lhe havia de fazer companhia no pulso por muitos e longos anos. A Mariana experimentou um, experimentou dois e ao terceiro lá se decidiu: era aquele! Um relógio discreto com a braçadeira preta e o mostrador quadrado.
Então era hora de lhe dar corda. O Sr. Silvestre deu os primeiros safanões ao mecanismo, mostrando orgulhoso os ponteiros a rodar e pedindo silêncio aos primeiros tiquetaques. Bastaria repetir o gesto de rodar a coroa no sentido horário uma vez por dia e teria ali um parceiro para toda a vida.
A Mariana aquiesceu e fez menção de se afastar. O avô, embevecido pela maturidade da netinha, deu um passo para a seguir. De imediato, o Sr. Silvestre mudou de cara e interpelou o avô:
- Ó Sr. Manuel, e então quem me paga? Vá lá que ainda lhe desconto 300 mérreis, que mais não posso tirar...
- Quem trabalha de graça é o relógio
Provérbio provado rimado - MCCLX
domingo, 3 de março de 2024
Provérbio provado rimado - MCCLIX
Como qualquer comum mortal
Também me queixo do passado
Por me ter ao trilho lançado
Cada mágoa descomunal
Felizmente não embruteci
Continuo a ter a ilusão
De que há compensação
Para o que então vivi
Acredito que é a exclusão
Que dá à regra sentido
Não é um tabu invertido
Mas sim uma associação
Pois tudo o que foge da norma
E consegue ser original
Podem tê-lo por marginal
Sempre alguma coisa transforma
E se a melhor companhia
Da regra é a excepção
Não há mulher sem senão
Mas que estranha analogia!
sábado, 2 de março de 2024
Provérbio provado rimado - MCCLVIII
Palavras não enchem barriga
Ouve o que te digo amiga
Porque se com fome estamos
Com a mesma fome ficamos
Provérbio provado rimado - MCCLVII
O que tenho de espontaneidade
Falta-me porém em coragem
Por temer uma contrariedade
Às vezes não faço a viagem
Assim me vejo insegura
Por estar o futuro tão longe
Sou além disso bem pura
Mas não tanto como um monge
Já a boa disposição
É algo que me caracteriza
Mas depende da ocasião
E do que cada um prioriza
Consigo ser muito querida
Todavia também narcisista
Em grupo sou divertida
Ao espelho um pouco egoísta
Diz que a minha inteligência
Está um pouco acima da média
Não desejo qualquer prepotência
De me achar uma enciclopédia
Se me pedem opinião
De certeza serei sincera
Sem pender para a aprovação
Contudo não sendo megera
Resumindo sou tão intensa
Nem toda a gente aguenta
Mas afinal o que compensa
É não jamais violenta
Se a frase me sai agressiva
Desculpem qualquer coisinha
Que não tenho tiques de diva
Nem sou uma mulher mesquinha
Provérbio provado rimado - MCCLVI
sexta-feira, 1 de março de 2024
Provérbio provado rimado - MCCLV
Não há sexo que sempre dure
Nem erecção que não acabe
Mas ainda assim que perdure
Aquilo que a gente sabe
É desporto tão salutar
Que contém esfoliação
Quando a barba por aparar
Pode aliviar a tensão
Que se faça com muita vontade
Até se ficar quase exangue
Se é feito com reciprocidade
Faz ferver bem quente o sangue
Deixa qualquer um mais feliz
Generoso e descontraído
Ao contrário de quem não quis
Nem foder nem ser fodido
Então surge o tal comentário
Que da boca do povo costuma
Sair de tal forma ordinário:
Estás a precisar de dar uma!
Provérbio provado rimado - MCCLIV
Olha que também no trabalho
Se pode construir a amizade
Apesar de tanta falsidade
E das cartas fora do baralho
Para isso há que observar
Para lá do que é evidência
Pois no fundo cada vivência
Tem sempre algo para contar
Pode parecer tempo perdido
Tanto ouvir e querer conhecer
E deixar a conversa estender
Ao invés de estares distraído
Então dá uma oportunidade
Àqueles que mais te ignoram
Pois também decerto já foram
Invisíveis na tempestade
Essa gente com quem tu passas
Quase um terço da tua vida
Merece ser bem acolhida
Cair nas tuas boas graças
Provérbio provado rimado - MCCLIII
A felicidade não depende
Daquilo que cada um quer
E apesar do que assim pretende
Não se pode contudo escolher
Ela é coisa que se realiza
Somente com o que se alcança
Se a pessoa se desmoraliza
Acaba por perder a esperança
É um estado que se multiplica
Quanto mais se puder dividir
Não pela recompensa que fica
Mas por ser tão capaz de unir
Desde que não se seja egoísta
Dá tal sensação de pertença
Que apetece ser comodista
Para sentir a sua presença
Por isso é de aproveitar
Quando surge de supetão
E aprender a valorizar
Tais momentos de descontração
















