Quando o Senhor Arlindo começou a trabalhar na mercearia estava muito longe de ser um senhor. Era só um miúdo pobre, de buço ralo, que tivera de fazer pela vida demasiado cedo. Fosse como fosse, sabia as letras e os números suficientes para dar conta do recado.
As suas primeiras tarefas tinham-se resumido a carregar os cestos das compras das freguesas até às respectivas casas, umas porque se queixavam de um joelho ali, outras de um ombro acolá. A freguesia apreciava a companhia e o treco-lareco daquele puto sempre tão desenrascado.
Agora já fazia parte da mobília, o Senhor Arlindo. E tinha até um tarefeiro, um miúdo à sua semelhança, que lhe fazia alguns recados.Praticamente toda a população da aldeia se aviava no seu estabelecimento, uma vez que a vila ainda distava um bom par de quilómetros e a taberna do Rufino, que vendia macarrão, açúcar e feijão a peso, não era concorrência que esse nome merecesse. O merceeiro - Lindo para os amigos - gabava-se de ter à disposição da clientela os melhores legumes e frutos da região.
As pessoas entravam na mercearia para comprar, mas também para dar à língua: havia sempre alguém com quem trocar duas de letra.
Claro que havia um rol. O Arlindo tinha um caderno que ia preenchendo com a sua caligrafia demorada e uns números muito bem desenhados.
Numa tarde quente, uma daquelas tardes em que o Verão sabe mesmo ser Verão, o Arlindo polia com desvelo a casca dos pêros Casanova que haviam chegado de manhã, quando entrou o Toninho a correr, com a boina descaída e as calças arregaçadas.
- Atão, viva, ó Lindo! Faz-me cá um farnel de queijinho do monte e um chouriço jeitoso para levar para a vinha que já vou perseguindo a hora.
O Arlindo ergueu os olhos sem pressa enquanto continuava a esfregar os pêros.
- Sejas bem-vindo, ó Toninho! Espera lá um carito que a pressa é inimiga da perfeição. Deixa-me ir buscar a faca boa.
O Toninho mirou ansioso, pelo canto do olho, os ponteiros do relógio da igreja defronte.
- Avia-te, homem! Que a Maria está à espera no tractor como uma cara de poucos amigos que até mete medo aos lobos da serra.
O Arlindo dispôs as fatias do queijo e as rodelas grossas do chouriço num papel pardo que seguidamente atou com um cordel.
- Pronto, aqui tens a merenda. São seis euros e noventa cêntimos. Mostra lá esse maço de notas!
O Toninho deitou as mãos aos bolsos, apalpou-os e encarou o Arlindo; ficara, de repente, lívido, sem pinga de sangue no rosto.
- Chiça, pá... ó colhão! Ó Lindo, por pouca sorte não trouxe o dinheiro que ficou nas outras calças que a mulher largou ao lado do tanque hoje de manhã. Olha qu'esta! Aponta aí no teu caderno, Lindo.
O Arlindo cruzou os braços desconfiado. O Toninho era bem conhecido por teatreiro e embusteiro. Mas o caderno não fazia perguntas e o dono da venda também não. Sacou um lápis bem afiado da orelha e tomou nota da parcela em dívida. As cores regressaram às faces do Toninho que lhe sorriu agradecido.
- Amanhã mesmo, quando regressar da feira da vila, trago-te o dinheiro direitinho em trocado, palavra de honra, Lindinho! E agora tenho de abalar. Não ouves a minha Maria a buzinar como uma desalmada? Já vou levar nas orelhas, olá se vou!
O Arlindo ainda lhe atirou um recado, já Toninho alcançara a saída.
- Vê lá se o teu amanhã é mesmo amanhã! O teu amanhã costuma demorar três semanas a chegar cá acima à Beira.
O Toninho deu um passo atrás para lhe devolver um sorriso maroto e a frase:
- Deus te pague que eu não tenho trocos
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