Provérbios Provados noutras casas:

quarta-feira, 27 de março de 2024

Provérbio provado rimado - MCCLXXX

Eu gosto de pessoas estranhas

Que não me vendem patranhas 

As mais negras do seu rebanho

Que o seguem com esforço tamanho


Não se armam em pobres patinhos

Mas tendem a andar sozinhos

Que a mentalidade vigente

Rejeita quem é diferente


O solitário e o perdido

Sentam-se à mesa do esquecido

Tão famintos de empatia

Vibram com a mais ténue energia


Pensam com a própria cabeça

Apesar de haver quem ofereça

Normas gordas e códigos tais

Que não crêem fundamentais


São o tal tipo de pessoa

Cujas convicções e moral

Do resto do rebanho destoa

Por assim ser original


E sempre que surge o pastor

Tentando impor qualquer regra

Procura logo o impostor

Que se assina ovelha negra 



Provérbio provado rimado - MCCLXXIX

Quando os que estão no comando

Perdem todo o tipo de vergonha

Mas arregimentam o bando

Para que a tenha na fronha


Não granjeiam assim mais respeito

De quem antes só obedecia

Que sente entretanto no peito

Uma quebra na ex harmonia


Então quem era comandado

Interrompe o vulgar seguidismo

Por opções ter imaginado

Que sobrevivem ao cinismo 


Começa de seguida a crescer

Aos olhos dos chefes maiores

Quer de sua justiça dizer

Ensinar àqueles professores


Não quer ser mais pau mandado

Quer participar na estrutura

Mas o seu esforço é rejeitado

Por nunca ser boa altura


Vai dizer de vez o que acha

Para ver se muda o clima

Porque quanto mais se agacha

Mais lhe põem o pé em cima 



terça-feira, 26 de março de 2024

Provérbio provado rimado - MCCLXXVIII

Repetes o teu próprio nome

Como um galaró emproado

Ages como se o presidente

Te tivesse já condecorado


Quando abres essa goela

Tantas vaidades cacarejas

Prescindo de qualquer parcela

Do teu quinhão de invejas


Vaidoso e deveras pedante

Egoísta mais que os egoístas

Como te julgas importante

Adoras poder dar nas vistas



Provérbio provado rimado - MCCLXXVII

Conheço o teu terreno

Minado de más intenções

Por isso dispenso o veneno

Tempero dessas refeições


Estou careca e sei de gingeira

Como tu descascas a fruta

Como dás a dentada primeira

Com requintes de filho da puta


Quando me dei conta disso

Ainda pesei na balança

Se pensas apenas com o piço

Ou se podia ter esperança 


Contudo não quis insistir

Esperando uma consideração

Cuja ausência me fez desistir

E atirei a toalha ao chão



Provérbio provado rimado - MCCLXXVI

Não adianta gastar o latim

Se tu nem reparas em mim

Tão cheio do teu próprio ar

Mais não fazes do que te gabar


Vai andando que já vais tarde

Fecha a porta sem muito alarde

Que ela é serventia da casa

E nem foste um golpe de asa



Provérbio provado num verso branco - CXLII

ESTE VERSO


Este verso não se evidencia nos corredores

Este verso não se enquadra no descuido aparente

Empalidece na presença de um microfone aberto

É sempre e desde sempre um diálogo aborrecido

Entre o mesmo umbigo e o mesmo espelho

E mal logra a sua própria evasão já não se pode agarrar


Este verso não recebe diploma de participação

Este verso não é popular nem sequer é feminista

O indivíduo que aqui escreve bem podia ser um homem

Com a agravante de macho egocêntrico com um falo irado

Este verso não é melhor nem pior por ser feminino 


Este verso não é panfletário nem o lamenta

Este verso não dá voz às vulvas que abortam

Nenhum poema consegue compensar essa imensa solidão

A morte tamanha da possibilidade mais inteira

Daquele corpo de mulher que sobrevive

Depois de toda a vida que não lhe nasceu 


Este verso não risca bandeirinhas ao acaso 

Este verso não divulga em que camas tremeu de prazer

Feitas as contas e acabado o baile

Noves fora nada roda bota fora

Sabe que o sexo mais generoso não reinvidica

Tanto mais se entrega quanto o outro mais se entrega

Tesão sem efeito é um conceito tão rápido como um calafrio 


Este verso não jogou às escondidas com a polícia política

Este verso não ergueu cravos no Largo do Carmo

Mas é tão digno filho da revolução como quem entoou O povo unido

E sempre pôde dizer de sua cega justiça

Conforme a triagem que a circunstância lhe apontou 

Não é por acaso que os pratos da balança são redondos 

As únicas torturas sofridas foram auto-infligidas 

Que a auto-censura tem uma caixa de lápis de cor

Capaz de transformar palavras inócuas em frases tracejadas


Este verso já chorou por Odessa

Este verso já chorou por Gaza

Não faz no entanto a aclamada poesia social

Cantando os hinos fronteiriços com propriedade vocal 

Nem levanta as bandeiras rasgadas dessas populações 

Para granjear aplausos num Ocidente em paz


Este verso não é melhor do que outros versos

Na verdade este verso não é pior do que tantos outros versos

Este verso reconhece a própria voz e com isso se sente verso



domingo, 17 de março de 2024

Provérbio provado apartado

Se te lembras, a Matemática nunca foi o meu forte. Errei sempre as somas e as multiplicações. Só a dividir obtinha uma nota positiva - isto pensava, porém não consultei a pauta. Tinha um problema com as contas e um excesso com as palavras. E tu eras o oposto, não eras? Todo dado aos números e poupado nos elogios.

Pensar nisso agora não muda nada, o arrependimento não muda o passado. E o esquecimento aprende-se rápido.

Sabes?, se calhar não sabes..., deixei de sentir a tua falta. De vez em quando uma lágrima, uma só, ainda cai como num luto antigo. Uma só lágrima se acaso uma música que ouvíamos juntos ou se te pressinto ao virar da esquina e fujo dali. Mas não se assemelha a um pranto cara abaixo, daqueles que alcançam o pescoço. Nem chega a ser uma tristeza sem nome nem coragem.

Não, não tenho saudades, podes acreditar na sua ausência. É isso: uma ausência, um vazio dorido numa superfície suja, percebes?

Já nem sequer me lembro se te amei, mas recordo bem o nome carinhoso com que nos tratávamos, bebé.


- Longe da vista, longe do coração 

sábado, 16 de março de 2024

Provérbio provado num verso branco - CXLI

Daqui ao futuro já meio caminho andado

Uma boa parcela de esforço realizada

Se há progresso inicial aumentam as hipóteses

De ser alcance e não apenas desejo


Mas ninguém pode amparar a eternidade

Entre os braços como num embalo criador

Todas as promessas são por natureza vadias


O infinito não mora na impossibilidade

Desde que possa ser cada dia onde se existe

O futuro nunca compensa antes de tempo

Nunca compensa em face da expectativa

Para sempre é sempre por um triz



Provérbio provado rimado - MCCLXXV

Meu filho o mundo é redondo

Mas os cantos estão ocupados

Por gente que passa com estrondo

São uns idiotas chapados


Eles têm por característica

No que dizem só acreditar

Mas se vamos crer na estatística

O melhor é mesmo ignorar


Pois as pérolas que proferem

Nada de novo acrescentam

E apenas aos donos conferem

Toda a parvoíce que ostentam



terça-feira, 12 de março de 2024

Provérbio provado rimado - MCCLXXIV

Anda bem agasalhado

Pra não estares constipado

E usa sempre cobertor

Faça frio ou calor



Provérbio provado num verso branco - CXL

A grande maioria dos frutos

Prefere amadurecer nos ramos mais altos


Os frutos tingidos são balões

Apontando na direcção dos céus


Mas há os que não nascem nas árvores

Frutos que se apanham do chão


Há frutos em que se pode tropeçar

Na magnitude dos seus caroços


No entanto o fito está na polpa

Está nos olhos que se erguem


O desejo mora sempre mais acima

E quem quer bolota tem de trepar



Provérbio provado num verso branco - CXXXIX

Se escuto o ouvido interno

É hora de dar voz ao instinto


É importante que em toda a parte

As gavetas estejam bem arrumadas


É certo que a gente tem uma medida

Exacta e certa para cada coisa


A distância que atribuo ao meu polegar

Pode corresponder a três passos teus


Analisa bem os números na régua

Um polegar é igual a três passos


Deseja pouco nem mais nem menos

De rio pequeno não esperes grande peixe



Provérbio provado rimado - MCCLXXIII

Quem confunde áurea com aura

A Tieta com a Escrava Isaura

E põe ésse nos seus devaneios

Estraga o português sem rodeios


A aderência e a adesão

Fazem-lhe imensa confusão

Muito abusa da redundância

E ao caso não dá importância


Maltrata o verbo haver

Depois há-de no Hades arder

E sempre que diz derivado

Devia ser logo avisado


Aconselho que volte à escola

E que meta a língua na tola

Pois pra ele muito falar

É sinónimo de pouco acertar



sexta-feira, 8 de março de 2024

Provérbio provado rimado - MCCLXXII

O Jota só quer poleiro

Andar a exibir os galões

Bate o tacão altaneiro

Para não dar encontrões


Está sempre bem penteado

Tão asseado é o Jota

De fato bem engomado

Dá-se ares de janota


O seu desejo é crescer

E almeja tal ascenção

Não quer o poleiro perder

Pra não rastejar junto ao chão



Provérbio provado desgovernado

Pronto, estavam assinados os papéis. Estado civil: divorciada. Custou um bocadinho; pronto, custou bem mais do que um bocadinho, mas agora aquela porta estava definitivamente encerrada. Podia deitar fora as chaves e descer as escadas sem olhar para trás.


Uma amiga, recentemente emigrada, falou-lhe nas aplicações de encontros. O ar do tempo. Levada pela curiosidade criou um perfil. Três ou quatro fotografias discretas, um texto de apresentação elucidativo mas não demasiado longo.


Já conhecia grande parte dos motéis dos subúrbios. A hora de almoço era um corropio. Alguns nem tiravam a aliança. A excitação inicial e o prazer obtido foram perdendo qualidade. A ginástica das agendas cansava-a e continuava a sentir-se só.


- Quem se governa com a picha alheia nunca se governa quando quer 

Provérbio provado rimado - MCCLXXI

Disseram-lhe Vem por aqui

E logo declinou o poeta

Não nego tudo o que vivi

Mas não sou nenhum profeta


Ele passou parte da vida

No meio de um vendaval

Que nos versos foi vertida

Com um toque especial


Sentiu-se sempre infinito

Sem princípio e sem fim

Nunca um menino bonito

Com diplomas e jardim


Deus e o Diabo o fizeram

Foi um trabalho completo

Que outros apareceram

Sem tal espírito insurrecto


Ele nunca se acomodou

Gritando aos quatro ventos

Que o átomo que o animou

Lhe ferveu os pensamentos


Pediu sempre por favor

Cuidado com as intenções

Que disfarçadas de amor

Poluem tanto as emoções


Cheio de força e de tusa

Deixou brilhantes poemas

Que integram a alma lusa

E seus principais dilemas


Mas na pátria os artistas 

Pouco são reconhecidos

Que ditam os economistas

Que não sejam enaltecidos 


Nomeando o José Régio

Presto-lhe esta homenagem

Não é nenhum sacrilégio

Pois tal foi sua coragem


E imaginando que me lê

Quero entregar um presente

Ó José diz-me porquê

Ninguém te fica indiferente


Após fazer a questão

Ofereço-lhe um ditado

Se esperas consideração

É melhor esperares sentado 




quinta-feira, 7 de março de 2024

Provérbio provado desnorteado

Ao fim de alguns meses a rondar cardumes sem que se aferissem nas redes mais peixes, os colegas pescadores do Amor do Sado alcunharam-no de Zé Vadio.

Não é que o Zé chegasse atrasado à faina, embora as olheiras denunciassem falta de sono. Também não é que fosse mandrião, pois largava -se ao trabalho com desenvoltura.

O problema do José Domingues era notoriamente uma lacuna na capacidade de concentração. Não se ocupava da mesma tarefa mais do que um minuto seguido, deambulando amiúde pelo convés com uma expressão ausente. Largava o impermeável e as galochas em qualquer buraco e depois acabava por andar a malta toda em busca dos seus paramentos. Punha sal no café e açúcar no arroz. O Zé Vadio era mais do que apenas distraído: era a desgraça total.

Tinha o hábito de debruçar o tronco na borda do barco anunciando alto e bom som: Até lhes vejo as espinhas! E então corria da proa à ré com o indicador molhado de saliva para sentir o vento. Para o Zé nunca estava de feição: a nortada fazia os peixes afundar, o suão mudava-lhes a rota. O vento tinha as costas largas. Tão largas como o mar e o horizonte.


- Quem navega sem destino nenhum vento é favorável 

Provérbio provado rimado - MCCLXX

Quem fica de faces coradas

Com as coisas comentadas

Ou de repente tem tosse

E age como se nada fosse


Se também engole em seco

Ao pé de qualquer badameco

Que lhe prega um raspanete

É porque enfiou o barrete



Provérbio provado rimado - MCCLXIX

Mandaste-me mais para sul

De Braga por ali abaixo

E eu fiquei logo azul

Com grande cara de tacho


Foi igual a me mandares

Direitinha àquela parte

E nesse momento virares

O bico ao prego com arte


Outrora pra ti bestial

Tornei-me na besta maior

Que o teu desprezo foi tal

Na voz senti-te o rancor


Fiquei um bocado ofendida

Mas depois chegou o perdão

A mais bela coisa da vida

É poder demonstrar compaixão



Provérbio provado rimado - MCCLXVIII

O Tó sempre foi ocioso

Até quando andava na escola

Era um menino preguiçoso

Indolente e até mandriola


E quando se tornou adulto

O Tó repetiu a façanha

A mãe concedeu-lhe indulto

Por não perceber que era manha


Ele andava na boa-vida

Trabalhando só o necessário

Com essa pose descontraída

Fazia de qualquer um otário


Por ser assim calaceiro

Pendurava -se nos colegas

Sempre tranquilo e ronceiro

Ele era só bocas e negas


Até que um dia o gerente

Que era um bocado totó

Surpreendeu toda a gente

Dando uma promoção ao Tó


E ao primeiro inquiridor

Que chamou ao Tó calão

Disse Se queres bom mandador

Escolhe sim o mais mandrião