O Fanecas, ou Necas para os amigos, era um gajo porreiro. Tinha lá o seu feitio, convenhamos... muito próprio, mas era o que se pode chamar um grande personagem.
Começava muitas das suas frases por: "Épa, isto pode parecer-te um bocado estranho..." ou "Já sei o que é que vais dizer...", ruminando qualquer coisa do arco da velha pelo meio, e terminando algumas delas com "Olha, são pérolas p’ra porcos, pá" ou "É dar bons vinhos a maus fígados, sabem lá o que é essa merda...".
O estado civil do Fanecas era algo que permanecia um mistério. Casado não era, não existia registo de nenhum acontecimento do género, mas não perdia uma despedida de solteiro. Também não constava que tivesse namorada oficial; claro que os amigos perceberam logo que a Ana Maria era alguém mais especial mas, como não falava nisso, também não lhe perguntavam. Trazia a tiracolo mulheres dos géneros mais diversificados, que iam, e às vezes voltavam, com uma frequência espantosa. Era um predador romântico: chegava a enviar flores e bombons às miúdas giras que apareciam na televisão, na internet, nos bares, esperando uma recompensa mas fingindo não a esperar. Conservava com as mulheres a sua educação da infância: o cuidado no evitar o vernáculo perto da mãe e as caralhadas e risadas que soltava com o pai.
Na política, assumia-se como um gajo do contra. Até nem se importava de levar outra vez com o Isaltino Morais e o Joaquim Raposo na corrida para a câmara de Oeiras, só para poder dizer mal à vontade devidamente fundamentado no passado. Mas não ia votar. Dizia com sarcasmo dos políticos: "É só injustiças de merda, eu não acredito em mentiras pá. ‘Tou-me a cagar p’ra eles todos, são todos uns corruptos. Puta que os pariu mais a recessão..."
O Necas gostava de folhear A bola logo pela manhã ainda cheia de tinta. E gostava de ver a bola com os amigos no café, até porque era forreta e nunca ia ao estádio. "Aqui é mais emocionante, um gajo lá não vê nada.", nunca se sabendo se a emoção lhe surgia com as fresquinhas que despejava ou com a visão mais toldada que disparava para o écran. Nas faltas dos jogadores da sua equipa justificava: "Ele ‘tava a ir à bola, a fazer jogo... e o outro gajo atirou-se pr’ó chão, pá! Qual é o árbitro que não vê esta merda?" O Necas levava as mãos à cabeça quando era golo da outra equipa ao passo que sorria tranquila e desdenhosamente quando a sua marcava.
O Necas era um ex-fumador desejoso de reincidir. Andava numa espécie de liberdade condicional pois havia largado há pouco tempo, e o que ele sofria!... Às vezes abanava a mão incomodado, a afastar o fumo do cigarro dos outros. Mas à noite, já com os copos, apetecia-lhe fumar este mundo e o outro. Ficava para ali a salivar qual canino de Pavlov mas como "um gajo é um animal racional" lá controlava os ímpetos, não deixando de fixar exaustivamente o objecto de desejo.
O Necas era funcionário público. Não gostava de falar do trabalho, a não ser para reclamar do facto de ter de trabalhar. Tinha muitas regalias mas fingia não as ter. Na verdade poder-se-ia dizer que o Necas trabalhava apenas quatro dias úteis, dado que às segundas de manhã e sextas à tarde não fazia a ponta de um corno. Andava a estrebuchar em frequência FDS Mega Hertz – FDS de fim de semana, ou em interpretação livre: "Foda-se, já aqui ‘tou outra vez?" e "Foda-se, o que’é qu’eu ainda aqui ‘tou a fazer?". No regresso das férias ao trabalho emitia em frequência pirata intraduzível.
O Necas tinha as suas particularidades, "Deixem-me cá com as minhas merdas, pá!". Por exemplo, gostava de sumo de mamão e não admitia piadas sobre o assunto. E depois existiam outros temas intocáveis como dizerem-lhe que era sovina, que guardava trocos por vocação, perguntarem-lhe por que é que lhe chamavam Fanecas e qual o seu verdadeiro nome. Mas o que realmente deixava o Necas chateado era dizerem-lhe que cheirava mal dos pés, "Ouve lá, mas tu queres levar uma pêra?". No entanto à noite largava os ténis a espantar o odor na varanda...
- Quem tem chulé não sente o cheiro do próprio pé
P.S. - Post livre de preconceitos linguísticos, e quiça adaptando a tradução do correspondente provérbio crioulo guineense: Dun di mal ka ta obi si mal
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Provérbio bovino
Vistas bem as coisas, qualquer dia da semana podia ser dia de feira, começando por segunda feira, tropeçando na terça e por ali adiante até à sexta feira. Aos domingos é que nem pensar, que era dia de missa. Os sábados, porém, eram terra de ninguém, onde se trabalhava na terra tanto ou mais que de semana. Mas se, por exemplo, um homem se quisesse ir embebedar para a tasca do Álvaro ou simplesmente alapar o rabo nos bancos do largo vendo quem passava, ninguém teria nada a obstar, desde que tomasse o seu banho semanal.
Vamos então à cantiga: calhava na vila a feira ser a quinta feira, se bem que nem todo o mês tivesse a sua feira na dita quinta quinta feira. Todo o espaço se aproveitava e de tudo um pouco se apregoava da origem ao produto final, desde que não corresse mal. Assim, não apenas se vendia a couve, como também a semente que a houve, e mais a maçã viçosa e o pesticida que a fez saborosa. Vendia-se a vaca e tudo o que dela saía: o leite que se mungia depois que ela mugia. O boi vinha para o prato, e do porco nascia o courato. Quanto ao ovo e à galinha é uma discussão antiga, guerra que não vamos travar, pois do que aqui se trata é o que cada um vem comprar.
Acompanhemos o ti Zé da Aparecida a fechar o negócio da vida, já entrega o envelope com as notas gastas de tão contadas, contente do vendedor o estar a tratar por senhor, e ei-los no aperto de mão, dando por encerrada a questão. Era uma vaca leiteira, não era uma vaca qualquer. Leite, manteiguinha, já sabemos a ladainha. Mas voltando à vaca fria, é tudo trinta e um de boca; afinal o compadre é sogro da afilhada e a comadre ainda é prima afastada.
O ti Zé torna a casa satisfeito, sonhando tamanho proveito. Mas dali a uns dias a expectativa é gorada, quando a esposa indignada se acerca contrariada:
- A vaca da minha vizinha dá mais leite do que a minha
Vamos então à cantiga: calhava na vila a feira ser a quinta feira, se bem que nem todo o mês tivesse a sua feira na dita quinta quinta feira. Todo o espaço se aproveitava e de tudo um pouco se apregoava da origem ao produto final, desde que não corresse mal. Assim, não apenas se vendia a couve, como também a semente que a houve, e mais a maçã viçosa e o pesticida que a fez saborosa. Vendia-se a vaca e tudo o que dela saía: o leite que se mungia depois que ela mugia. O boi vinha para o prato, e do porco nascia o courato. Quanto ao ovo e à galinha é uma discussão antiga, guerra que não vamos travar, pois do que aqui se trata é o que cada um vem comprar.
Acompanhemos o ti Zé da Aparecida a fechar o negócio da vida, já entrega o envelope com as notas gastas de tão contadas, contente do vendedor o estar a tratar por senhor, e ei-los no aperto de mão, dando por encerrada a questão. Era uma vaca leiteira, não era uma vaca qualquer. Leite, manteiguinha, já sabemos a ladainha. Mas voltando à vaca fria, é tudo trinta e um de boca; afinal o compadre é sogro da afilhada e a comadre ainda é prima afastada.
O ti Zé torna a casa satisfeito, sonhando tamanho proveito. Mas dali a uns dias a expectativa é gorada, quando a esposa indignada se acerca contrariada:
- A vaca da minha vizinha dá mais leite do que a minha
terça-feira, 4 de abril de 2017
Provérbio solitário - II
Justino já tinha dobrado os quarenta e continuava solteiro, sem mulher a quem chamar sua. Namorara Zeferina anos a fio numa idade em que recuava ante compromissos maiores e em que nem lhe falassem em constituir família. Zeferina falara, e fora esse o seu bilhete de ida para ir iniciá-la noutra freguesia. Recordava-a agora com a saudade de quem sabe que desperdiçou um grande amor, talvez o único. Ainda outro dia a tinha encontrado acidentalmente na rua, o acaso aos pontapés com a sua ferida aberta instigando à covardia. Não fora capaz de lhe contar do arrependimento: limitara-se a mostrar o melhor sorriso que podia, fixando o olhar torturado num pormenor da calçada, enquanto desejava ser invisível. Ela fora calorosamente desinteressada, narrando-lhe a existência em duas frases: era agora mãe de dois e continuava casada com o José, o primo da Eduarda, ele lembrava-se? E chegou então a fatídica pergunta; que não, respondeu, continuava solteiro - e bom rapaz, acrescentou em graçola - sentindo o olhar dela, subitamente atento, lastimando-o.
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.
- Mais vale só que mal acompanhado
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.
- Mais vale só que mal acompanhado
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Provérbio citado (ANTUNES)
«Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie de botija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dos beliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás, de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolante em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorroida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tardes de domingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para me mostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por de mais exíguo para as suas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida:
- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa.»
In Os cus de Judas - António Lobo Antunes
- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa.»
In Os cus de Judas - António Lobo Antunes
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Provérbio citado (AMADO)
« (...) O Coronel não precisava de nada no Rio? De algum empenho junto a algum político importante? Se precisasse era só dizer. Ele estava ali para servir aos amigos e, se bem tivesse conhecido o coronel fazia pouco, tinha simpatizado imensamente com ele, seria feliz de servi-lo. O coronel não precisava de nada no Rio, mas ficou muito agradecido e como Maneca Dantas ia passando, pesadão e gorducho, a camisa suada e as mãos pegajosas, ele o chamou e fez as apresentações:
- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é mesmo que mato...
(...)»
In Terras do sem fim - Jorge Amado
- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é mesmo que mato...
(...)»
In Terras do sem fim - Jorge Amado
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Provérbio citado (MÁRAI)
« (...) A Kristóf podia confiar-se tudo. Não era preciso convencê-lo de nada, pois, desde a mais tenra infância, estava imbuído dos princípios que norteiam o entendimento da vida social. O velho juiz sabia que também Kristóf queria salvar a sociedade - não era necessário discutir isso com ele, a tal ponto o entusiasmo, a fé e a convicção emanavam da sua pessoa, de cada uma das suas palavras. Poder-se-ia confiar-lhe a sociedade... Mas o velho juiz observava o jovem juiz num ar de reflexão crítica, atrás da cortina de fumo do cigarro. «Tem o seu excesso de formalismo» pensou. «É pura correcção. Nunca o vi com uns copos, nunca lhe ouvi uma palavra descuidada.» O juiz estava quase nos setenta, já vira muito, vira a nudez moral dos homens, pior do que a nudez física, e julgava conhecê-los. Observava a «correcção» de Kristóf com uma certa preocupação. «Só se cuida assim quem se vigia.» (...)»
In Divórcio em Buda - Sándor Márai
In Divórcio em Buda - Sándor Márai
sábado, 15 de outubro de 2016
Provérbio incontestável
Na primeira, mesmo logo na primeira vez, acho que não correu lá muito bem. Foi tudo às apalpadelas, com pouca luz, tacteando a medo: um receio muito vivo de poder chocar sensibilidades, os lábios juntando-se hesitantes na dança envergonhada dos corpos. Nem a eito, nada feito.
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.
- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.
- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Provérbio citado (LUÍS)
« (...) Criava simpatias entre a criadagem; armada em conselheira, ouvia, toda saturada de lógica e espírito piedoso, as práticas das serventes rebeldes. Por elas, conhecia o escândalo de alcova, as misérias domésticas, as longas histórias de família, que os interesses faziam de uma sordidez de viela. Toda a escorralha podre e inútil daquela burguesia cujos nervos amoleciam na fartura, cujo orgulho não era mais que um histerismo de populaça que se embriaga e se rebola em colchões de plumas, ela a sepultava na sua alma, colocando-lhe por cima um sinete de sigilo, à semelhança dos campónios que, depois de uma catástrofe, duma batalha, encontram os vasos do templo e os enterram para não serem culpados de violarem coisas sacras. - «A prudência é a mãe dos pequeninos» - costumava dizer. (...)»
In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís
In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Provérbio sortudo
Quando nasceu já trazia um sinal dourado no meio da testa, o que fazia prever um futuro auspicioso. Nascendo assim com o cú todo viradinho para a lua, teve uma infância sem cuidados, sem resfriados, mente e espírito sincronizados, uma família funcional e compreensiva, pais companheiros e jardins soalheiros.
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.
- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.
- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Provérbio citado (MURAKAMI)
«O Professor partiu um pedaço de pão, pôs-lhe por cima um grosso bocado de carne enlatada e devorou tudo com apetite. A seguir comeu vários pedaços de pêssego, levou a lata aos lábios e bebeu a calda. (...)
- Ufa! Tenho de lhe agradecer - exclamou o Professor. - Por costume trago comigo provisões para dois ou três dias, mas, desta vez, esqueci-me de repor as existências. O meu descuido deixa-me embaraçado. Quando uma pessoa se habitua à vida fácil, baixa a guarda. Eis uma boa lição. «Prepara o teu guarda-chuva num dia de sol para que o tenhas pronto num dia de chuva.» (...)»
In O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo / Haruki Murakami
- Ufa! Tenho de lhe agradecer - exclamou o Professor. - Por costume trago comigo provisões para dois ou três dias, mas, desta vez, esqueci-me de repor as existências. O meu descuido deixa-me embaraçado. Quando uma pessoa se habitua à vida fácil, baixa a guarda. Eis uma boa lição. «Prepara o teu guarda-chuva num dia de sol para que o tenhas pronto num dia de chuva.» (...)»
In O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo / Haruki Murakami
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Provérbio citado (LISPECTOR)
« - Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Compreende, Joana?
(...)
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. (...) Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. (...)
(...)
- Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas à chave é quem receia atirar sobre todos. (...)»
In Perto do coração selvagem / Clarice Lispector
(...)
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobretudo na insatisfação dos intervalos. (...) Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. (...)
(...)
- Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas à chave é quem receia atirar sobre todos. (...)»
In Perto do coração selvagem / Clarice Lispector
domingo, 19 de junho de 2016
Provérbio do vendedor enganador
O Sr. Viegas, não sendo propriamente um senhor, passava por tal. Sua habilidade, e aproveitando a voz charmosa e de boa dicção, consistia num voltear entusiasta dos anseios dos clientes, levando-os ao clímax e subsequente compra. Nunca apressava a dita, mas não os deixava pensar demais: havia ali aquele momento em que intervinha e chutava para a vitória. O Viegas tinha já então o cliente preso pelos dentes e aí já não mais poderia resistir, sentia-se obrigado a comprar, completamente encurralado, levando peças que não lhe interessavam ou sequer fariam qualquer préstimo. Esta loja do Sr. Viegas era a típica do "há tudo", e ele sabia onde estava mesmo tudo: parafusos, lâmpadas, fósforos, palha d'aço, sabão Clarim, sacas de sarapilheira, pilhas, e muito mais desse tudo. E como não havia nenhuma deste tipo de loja nas redondezas nem depois delas, o Viegas passou a alinhar no "há tudo, mas a peso". Assim foi que enriqueceu.
- Metade do ano com arte e engenho e a outra metade com engenho e arte
- Metade do ano com arte e engenho e a outra metade com engenho e arte
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Provérbio ortopédico
Meu filho querido, como gosto que finalmente venhas ver-me! Fizeste bem em vir visitar a tua mãe, filho, que estou muito cansada e acabada, nesta cama de hospital aqui entrevada, com a mão no peito e o pé no leito. E que te disseram teus irmãos? Que a velha teimosa ainda esperneia? Ver-te aqui significa a esperança de ultrapassardes estas velhas zangas, entende-te com os teus irmãos, filho, que interessam as casas na terra, diz-me?, mais uns anos poucos e caiem como castelos de cartas que é um primor. Que me dizes? Que aqui ando a ver passar os que passam? E tu, conta-me, meu querido, não apoquentes tua mãe, que tens feito de jeito? Sempre te disse e não te esqueças:
- Anda direito se queres respeito
- Anda direito se queres respeito
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Provérbio indiferente
Nem o Daniel olhava o mundo em seu redor, nem o mundo parecia dar por ele. Passava nos intervalos da chuva se chovia; não apenas por ser excessivamente magro, mas porque passava realmente despercebido, seguindo em frente sem rodar o pescoço, como cão por vinha vindimada.
Não se percebia como tinha vivido assim, até chegar à idade adulta, sem prestar atenção a nada. Nada lhe avivava um brilhozinho nos olhos, nada lhe arrancava um sorriso ou uma palavra cordial. Era completamente desinteressado; não tinha sequer amigos por não saber como se faziam. Nesse sentido não olhava para as mulheres com curiosidade, não olhava sequer para elas pois nunca nenhuma lhe despertara desejo. Também não sentia qualquer empatia pela família; mal punha a chave à porta, fechava-se no quarto para não ter de conversar.
Poderia pensar-se que, por viver assim apartado da realidade, o Daniel teria uma fecunda vida interior. Mas não, ocupava todo o seu tempo disponível a jogar computador: uns jogos de guerra bastante infantis e sempre os mesmos.
Cumpria os mínimos de higiene pessoal, mas tinha um ar sempre desmazelado, emaranhado, às vezes mesmo roto e com nódoas na roupa muito larga. Se não encontrava nada cozinhado, alimentava-se à base de cereais e papas. Não comia fruta, legumes ou peixe.
No mundo interior do Daniel não havia arte. Não era sensível à beleza das imagens e das palavras. Não ouvia nenhum tipo de música nem via televisão. Não praticava desporto nem andava ao ar livre. Não tinha interesses de associativismo, política ou economia. Nunca tinha ouvido falar na dívida pública, no PIB e no NIB, nem sabia o que era uma taxa de juro.
Parecia impossível como era possível viver-se assim: sem levantar um braço para nada. Completamente imprestável, enrascado e, antevia-se, de difícil futuro.
- Quem não sabe é como quem não vê
Não se percebia como tinha vivido assim, até chegar à idade adulta, sem prestar atenção a nada. Nada lhe avivava um brilhozinho nos olhos, nada lhe arrancava um sorriso ou uma palavra cordial. Era completamente desinteressado; não tinha sequer amigos por não saber como se faziam. Nesse sentido não olhava para as mulheres com curiosidade, não olhava sequer para elas pois nunca nenhuma lhe despertara desejo. Também não sentia qualquer empatia pela família; mal punha a chave à porta, fechava-se no quarto para não ter de conversar.
Poderia pensar-se que, por viver assim apartado da realidade, o Daniel teria uma fecunda vida interior. Mas não, ocupava todo o seu tempo disponível a jogar computador: uns jogos de guerra bastante infantis e sempre os mesmos.
Cumpria os mínimos de higiene pessoal, mas tinha um ar sempre desmazelado, emaranhado, às vezes mesmo roto e com nódoas na roupa muito larga. Se não encontrava nada cozinhado, alimentava-se à base de cereais e papas. Não comia fruta, legumes ou peixe.
No mundo interior do Daniel não havia arte. Não era sensível à beleza das imagens e das palavras. Não ouvia nenhum tipo de música nem via televisão. Não praticava desporto nem andava ao ar livre. Não tinha interesses de associativismo, política ou economia. Nunca tinha ouvido falar na dívida pública, no PIB e no NIB, nem sabia o que era uma taxa de juro.
Parecia impossível como era possível viver-se assim: sem levantar um braço para nada. Completamente imprestável, enrascado e, antevia-se, de difícil futuro.
- Quem não sabe é como quem não vê
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Provérbio numeral ordinal
Ai, comadre, que isto foi um falatório, toda a gente soube. Não se acanhe, pode dizer. Foi um desenvergonhado, pode dizer à vontade, eu digo também. Isto nas terras pequenas já se sabe que tudo se sabe. Até porque ele fez tudo às claras, andou atrás da rapariga nas barbas da mulher. E a Zézinha, parvinha, não dava por nada, ainda se punha a defender o marido. Ouça cá, saberia ela o que se passava e esperava que passasse? Eu só sei é que depois foi uma grande bronca, aquele dia da gritaria, ai, coitadinha da Zézinha, comadre, que julguei que lhe dava ali uma coisa, a levar com as verdades assim todas de rajada. Aquele bruto! Bem ela chorou baba e ranho e lhe pediu que não fosse, mas ele fez ouvidos de mercador. Saiu porta fora ainda cheio de razão. Pode bem dizer, um grande estupor, diga à vontade, um ordinário, toda a gente sabe. E quando, na altura das papeladas, a Zézinha lhe falou no dinheiro para as crianças, ainda teve a distinta lata de dizer que agora não, que não podia porque ia com a outra de férias. Isto dá para acreditar?
- A primeira é mesquinha, a segunda é rainha
- A primeira é mesquinha, a segunda é rainha
Provérbio provado numa prosa parada
Como a imagino?
Normal. Pouco faladora. Tranquila. Pouco vaidosa. Recatada. Loura ou morena, é igual. Nem alta nem baixa, um meio termo. Nem carne nem peixe, um peido amarelo. Nem oito nem por sombras oitenta. Só assim, normal.
- Nem bonita que abisme nem feia que meta medo
Normal. Pouco faladora. Tranquila. Pouco vaidosa. Recatada. Loura ou morena, é igual. Nem alta nem baixa, um meio termo. Nem carne nem peixe, um peido amarelo. Nem oito nem por sombras oitenta. Só assim, normal.
- Nem bonita que abisme nem feia que meta medo
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Provérbio citado (PEDROSA)
« (...) Desde que nos conhecemos, reza todas as noites a Santo António para que eu encontre o homem que mereço. Quer ver reproduzida em mim a sua felicidade com José. Ofereceu-me há tempos um anel com uma pedra branca dizendo-me que dava sorte.
O grande desgosto de Lupe é não ter tido filhos; um aborto mal feito, no início da década de quarenta tornou-a estéril. Fez o aborto porque, quando estava grávida, recebeu uma proposta de contrato para cantar na Madeira, no Brasil e em Espanha, Pediu à mãe que lhe tomasse conta do futuro bebé durante uns meses de modo a que pudesse aceitar a tournée, e a mãe respondeu-lhe: «Quem os tem que os embale». (...) »
In Desamparo - Inês Pedrosa
O grande desgosto de Lupe é não ter tido filhos; um aborto mal feito, no início da década de quarenta tornou-a estéril. Fez o aborto porque, quando estava grávida, recebeu uma proposta de contrato para cantar na Madeira, no Brasil e em Espanha, Pediu à mãe que lhe tomasse conta do futuro bebé durante uns meses de modo a que pudesse aceitar a tournée, e a mãe respondeu-lhe: «Quem os tem que os embale». (...) »
In Desamparo - Inês Pedrosa
sábado, 23 de abril de 2016
Provérbio platónico
Oh,
isso… Já
lá vão mais de dez anos ou mais…
E
antes já tinha deambulado por muitas profissões: fui estafeta,
choffeur de turismo, barmen. Mas nessa altura substituía uma baixa
de parto numa recepção mal iluminada.
Não,
não me esqueço do dia em que primeiro a vi; chegou esbaforida com o
cabelo louro desgrenhado. Tinha
olhos claros grandes e tristes, que contrastavam com a alegria e
rapidez dos gestos. Apresentou-se-me
com um sorriso caloroso, e perguntou pelo “patrão”.
Foi
assim, sem mais perguntas, que me habituei a conduzi-la através dos
corredores que levavam ao escritório do director. Ansiava,
ansioso, numa espera de vê-la, e ela vinha
muitas vezes, às vezes todos os dias; algumas
tiritava de frio, mas fazia alergia às mantas e aos chás quentes,
outras pedia um copo de água, que depois não bebia porque estava
fresca demais. Quanto
mais caprichosa, flutuante e rabugenta
se encontrava, mais eu a amava. Perdidamente, platonicamente.
Não,
nunca me questionei qual o grau de intimidade com o director: por
mim, tanto podiam ser família como amantes. Preferia imaginá-la
livre, completamente livre, e isso ela era: completamente livre,
era-lhe sanguíneo. O momento que vivia era o momento em que vivia.
Tive muitas vezes vontade de
-
Hoje está linda
mas
não era preciso. Eu sabia que ela sabia.
Passado
o tempo estipulado, e depois de algumas visitas com a bebé dormindo
no ovo, a recepcionista voltou ao seu lugar e eu fui dispensado.
Assim.
Não,
não me despedi dela. Não
aguentaria o pesar nos seus olhos claros
grandes e tristes. Não
lhe deixei nada. Eu
sabia que ela sabia.
-
Não há último adeus, senão aquele que se não diz
sábado, 2 de abril de 2016
Provérbio citado (MAUGHAM)
«
Bernard continuava, no entanto, a não progredir na carreira e muitos
outros, mais novos do que ele, já tinham sido feitos conselheiros.
Era absolutamente necessário que ele o fosse também, não só
porque de outro modo seriam quase nulas as esperanças de chegar a
juiz, mas também por causa dela; mortificava-a entrar nas salas de
jantar atrás de mulheres dez anos mais novas. Neste ponto, porém,
encontrou no marido uma obstinação a que não estava habituada
havia anos. Ele receava não ter trabalho suficiente como conselheiro
do rei. Mais
valia um pássaro na mão do que dois a voar, era
o que ele dizia, ao que ela respondia que os provérbios eram o
último refúgio dos pobres de espírito. (...)»
In
O
véu pintado
– Somerset Maugham
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Provérbio citado (LAHIRI)
« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».
In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».
In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri
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