« (...), Bibi estava deliciada com o diagnóstico e começou imediatamente a preparar-se para a vida conjugal. Com alguma da mercadoria danificada proveniente da loja de Haldar, ela pintava as unhas dos pés e tornava mais suaves e macios os cotovelos. Negligenciando as novas encomendas transportadas até à porta do pequeno armazém, ela começou a perseguir-nos para lhe arranjarmos receitas para lhe arranjarmos receitas, de pudim vermicelli, de guisado de papaia, que anotava em letra muito deficiente e torcida nas folhas do inventário. Ela compilou listas de convidados, listas de sobremesas, e organizou uma prospecção das terras que gostaria de visitar durante a lua-de-mel. Usava glicerina para tornar os lábios mais macios e resistia ao prazer de comer doces para não aumentar a linha da cintura. Uma vez, pediu-nos que a acompanhássemos ao alfaiate que lhe cosera um salwar-kameez com o estilo de guarda-chuva, a moda para aquela estação. Na rua, ela arrastava-nos até aos balcões de todos os joalheiros, espreitava as vitrines, pedia a nossa opinião sobre os modelos de tiaras e de fios com medalhões. Nas montras onde havia saris, ela apontava para um sari de seda Beranasi de um amarelo forte, para o turquesa, e para um com a cor de malmequer. «Durante a primeira parte da cerimónia, uso este, depois aquele, e aquele.»
Mas Haldar e a mulher pensavam de maneira diferente. imunes às suas fantasias, indiferentes aos nossos medos, continuavam a conduzir o seu negócio como era habitual, a monte e juntos naquela loja de cosméticos que não seria maior que um guarda-vestidos, e cujas paredes se encontravam pejadas dos três lados com henas, óleos para o cabelo, pedras pomes, e cremes para tornar a pele mais clara. «Temos muito pouco tempo para sugestões indecentes», respondia Haldar àqueles que mencionavam a questão da saúde de Bibi. «O que não pode ser curado, tem de ser tolerado. (...)».
In Intérprete de enfermidades - Jhumpa Lahiri
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Provérbio linguarudo
Felizmente deixámos o apartamento há já dois anos.
Havia principalmente aquela velhota viúva do rés-do-chão direito sempre em conferência com a porteira. Aquilo era uma calhandrice pegada, a ver qual a mais coscuvilheira. Quem saía, quem entrava, com quem ia e a que horas vinha, quem correspondência tinha...
Línguas afiadas, de trapos, o pior mesmo a dizer das duas. E a porteira era a mais pica-miolos, quebra-ossos, não que fosse violenta ou corpulenta, mas porque era capaz de com apenas uma frase reduzir uma reputação a fanicos.
- Língua comprida, mentira maior
Havia principalmente aquela velhota viúva do rés-do-chão direito sempre em conferência com a porteira. Aquilo era uma calhandrice pegada, a ver qual a mais coscuvilheira. Quem saía, quem entrava, com quem ia e a que horas vinha, quem correspondência tinha...
Línguas afiadas, de trapos, o pior mesmo a dizer das duas. E a porteira era a mais pica-miolos, quebra-ossos, não que fosse violenta ou corpulenta, mas porque era capaz de com apenas uma frase reduzir uma reputação a fanicos.
- Língua comprida, mentira maior
sábado, 3 de outubro de 2015
Provérbio corrido
O
Fábio decidiu largar o ferro todos os dias no ginásio quando se pôs
de moda a febre das correrias. Preparou convenientemente a troca de
um desporto pelo outro: dirigiu-se a uma mega loja especializada e
dispôs-se a comprar todo um arsenal de equipamento, desde roupa
colorida e ténis novos a gadgets que contam quilómetros, ritmos
cardíacos e só falta fazerem também os alongamentos. Mudou também
o alinhamento musical que o passou a acompanhar sempre, e agora ouvia
músicas alegres e ritmadas, que lhe tornavam o espírito mais leve e
tremendamente positivo.
Todos
os fins de semana havia pequenas maratonas que, por vezes, se
assemelhavam a manifestações de sindicato, dado que a maioria dos
corredores se deixavam apenas caminhar vestidos de igual. Havia
sempre um qualquer motivo solidário e por isso se compravam uns
sacos com t-shirts mal impressas e dois pacotitos de merchandising.
Não
tardou a juntar-se a um grupo de corridas, formado informalmente, que
começava às 6 da manhã percorrendo sempre a mesma rota, e ao qual
se iam juntando mais e mais pessoas pelo caminho. Acordava cedo,
energético, previamente excitado com as ancas, rabos e seios que
abanavam e saltitavam todas as manhãs à sua volta. Sem querer tinha
vindo substituir o Filipe, antigo camarada das manhãs, que estava
encostado com uma hérnia.
Nem
de propósito, nessa manhã o Manuel dirigiu-se-lhe numa conversa
assim:
Sabes
com quem falei ontem? Com o Filipe. Qual Filipe? O da hérnia. Está,
está; está melhor das costas e a organizar a meia maratona deste
fim de semana. Se ele vem? Diz que vem de muletas, se for preciso. É
tudo pela causa, claro! Ah, ok, sim, é um rio que querem betonar.
Ora, porquê!, para fechar o rio, ordenar as margens e porque acho
que cheira mal como o caralho, desculpa lá a linguagem. O movimento
está contra, o Filipe diz que descaracteriza a paisagem, e além
disso quando vierem as chuvas vai haver inundações como o… muitas
inundações, mesmo! Contamos contigo, certo? Mas porquê? Pois, a
família é o mais importante de tudo. Com a família não se pode
falhar.
No
Sábado pela fresquinha, ao Fábio apetecia-lhe ir sozinho à corrida
mas, como não queria melindrar ninguém, evitou os percursos
habituais e introduziu-se, já com a t-shirt laranjão vestida e
disfarçado de boné e óculos escuros, no fim da partida onde iam
chegando os retardatários. Lá no início estava o Filipe, bem
disposto e até disposto a correr pela causa.
Já
tinha começado a corrida quando chegou o Manuel com duas louras
jeitosas de t-shirt laranjão. A Marlene já fazia parte do grupo e
trazia uma amiga nova. O Manuel tirou-lhe as medidas e pôs-se numa
conversa assim:
Querem
começar já a correr? Podemos ir primeiro só a caminhar para
aquecer, e conversar um bocado. Marisa, não é? Quer uma água?,
está fresca… Pronto, a senhora é que sabe. Menina? Combinado
então, tratamo-nos por tu. O rio? Não sei, nunca lá passei, mas
assinei a petição no Livro das Caras, claro! O Filipe é que está
a organizar isso, ele costumava correr connosco, mas a saúde,
sabes?, deve estar por aí sentado a ver a corrida passar. Quem,
Marlene? Ah, o Fábio tinha um almoço de família, não podia vir.
Onde? O Fábio, onde? Olha-me este!, que descaramento, a mentir-me
com quantos dentes tinha na boca, eu arranco-lhe um a esse filho da…
Olhem que as pessoas… Deixem, vamos ignorar e começar mas é a
correr. Veem quem vai a correr lá à frente? Não é que é o maluco
do Filipe? Venham, vamos apanhá-lo!
-
Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Provérbio citado (CARVALHO)
«(...) Durante toda a noite, assistimos àquela actividade formigueira de que nos chegavam ecos longínquos de estranhos cânticos, ritmados ao som de tambores. Ao amanhecer, os campos estavam quase limpos de cadáveres e a chusma de mouros parecia mais adelgaçada, não tanto pelas perdas que houvessem sofrido, mas porque, por cada um que ficou, outro teria partido a talas os campos ou a procurar melhor sorte mais além. raras e desconvictas eram as investidas contra as muralhas. Pareciam ter optado por um cerco prolongado, sem que alguém pudesse perceber que vantagem teriam nisso. Pobremente acampados, debaixo de coberturas de pele, continuavam a fazer ressoar os tambores que retumbavam nos ares. Um assomo da brisa trazia-nos, de vez em quando, os seus cantares, em coro. No mais, era um estendido e miserável acampamento de nómadas. Nós cremámos os nossos mortos, com o cerimonial mínimo. À música dolente que ondulava ao longe, respondia a cidade com os gemidos das carpideiras, o toque das flautas cerimoniais, e o lamento dos familiares dos mortos.
Ao segundo dia, pela hora sétima, Calpúrnio veio visitar as muralhas, com alguma pompa, acompanhado por Ápito e outros decênviros. Caminhando a pé, a seu lado, logo atrás dos lictores, Airhan, de armadura de ferro e elmo à cinta, trazia ao ombro alforges com dinheiro que ia distribuindo aos combatentes. Escravos de Calpúrnio já tinham percorrido as ruas, dispensando espórtulas aos familiares de mortos e feridos, de acordo com a categoria social de cada um: mais aos ricos, menos aos menos.
(...) »
In Um deus passeando pela brisa da tarde - Mário de Carvalho
Ao segundo dia, pela hora sétima, Calpúrnio veio visitar as muralhas, com alguma pompa, acompanhado por Ápito e outros decênviros. Caminhando a pé, a seu lado, logo atrás dos lictores, Airhan, de armadura de ferro e elmo à cinta, trazia ao ombro alforges com dinheiro que ia distribuindo aos combatentes. Escravos de Calpúrnio já tinham percorrido as ruas, dispensando espórtulas aos familiares de mortos e feridos, de acordo com a categoria social de cada um: mais aos ricos, menos aos menos.
(...) »
In Um deus passeando pela brisa da tarde - Mário de Carvalho
sábado, 29 de agosto de 2015
Provérbio previsto
Não conseguia lembrar-se exactamente desde quando - talvez dois, três meses - mas ele andava diferente. Atrasava-se muito agora, ele sempre tão pontual. E, quando não se atrasava, desmarcava à última hora, ele sempre tão correcto e educado. Ora era um almoço com um cliente, ora reuniões com os colegas para discutir propostas. Demorava-se até tarde no emprego, ele sempre tão apologista de que não se podia viver apenas para trabalhar.
Trabalhar, trabalhar, não trabalhava. E o mais certo era que nem sequer o fizesse bem: andava de cabeça completamente desvairada e doente de paixão pela estagiária. Saíam a meio do dia para o motel, e depois de jantarem voltavam ao motel, onde os tomavam por mais um casalinho atrevido. Passaram-se quatro meses nisto, até que a situação se tornou insustentável.
Depois da maldita conversa, ele baixou os olhos e nunca mais foi capaz de a encarar directamente.Não lhe faltava mais nada: triste e divorciada. Andou um mês a chorar pelos cantos; porra, que só lhe vinham as recordações saborosas para aumentar o padecimento. Até que um dia entrou lá em casa, num aparatoso sobressalto, a amiga Ana. Subiu os estores, puxou as cortinas, pôs a água a correr para o duche e pegou numas calças e t-shirt lavadas:
- Anda lá, mexe-te, e seca já essa merda dessas lágrimas que nunca mais param de correr!
- Ferida molhada, ferida infectada
Trabalhar, trabalhar, não trabalhava. E o mais certo era que nem sequer o fizesse bem: andava de cabeça completamente desvairada e doente de paixão pela estagiária. Saíam a meio do dia para o motel, e depois de jantarem voltavam ao motel, onde os tomavam por mais um casalinho atrevido. Passaram-se quatro meses nisto, até que a situação se tornou insustentável.
Depois da maldita conversa, ele baixou os olhos e nunca mais foi capaz de a encarar directamente.Não lhe faltava mais nada: triste e divorciada. Andou um mês a chorar pelos cantos; porra, que só lhe vinham as recordações saborosas para aumentar o padecimento. Até que um dia entrou lá em casa, num aparatoso sobressalto, a amiga Ana. Subiu os estores, puxou as cortinas, pôs a água a correr para o duche e pegou numas calças e t-shirt lavadas:
- Anda lá, mexe-te, e seca já essa merda dessas lágrimas que nunca mais param de correr!
- Ferida molhada, ferida infectada
domingo, 23 de agosto de 2015
Provérbio provado santificado
Aqueles eram os dias entre a apanha do figo e da uva, e embora as nuvens escondessem teimosas o sol, ele queimava. Às vezes punha-se um tempo muito abafado, carregado de ventos quentes, que dava dores de cabeça. A Avó em casa dizia: Está aqui, está a pôr-se a trovejar; o Avô na várzea dizia: Vamos embora, que vem lá trovoada. Então voltávamos ligeiros e ao passar ao São João, onde ficava a tele escola com o seu catavento altaneiro que nesses dias rodopiava sem destino, vínhamos por ali abaixo que assim como assim todos os santos ajudam. Chegados a casa já estava a Avó numa prece baixinha, uma reza que tentou várias vezes ensinar-me. Eu, garota, reagia ao drama fugindo a esconder-me debaixo da cama, donde só saía quando voltava a bonança.
São recordações tão vívidas que, ainda hoje, tremo ao som do trovão e começa-se a desenhar-se a canção da qual só me lembro o início: "Santa Bárbara bendita, no céu está escrita, leva lá para bem longe esta trovoada..."
- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja
São recordações tão vívidas que, ainda hoje, tremo ao som do trovão e começa-se a desenhar-se a canção da qual só me lembro o início: "Santa Bárbara bendita, no céu está escrita, leva lá para bem longe esta trovoada..."
- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja
sábado, 15 de agosto de 2015
Provérbio divino
Chegado que era Agosto lá na aldeia, não havia sequer espaço para estacionar uma agulha, tal era a afluência de famílias que chegavam de todo o país e também do estrangeiro. Quando apareciam, logo começava a trinar o sino anunciando a festa anual. Os filhos da terra vinham esbaforidos das cidades, ansiando beber inspiração, consolo, fraternidade, eu sei lá, naquele verde a perder de vista.
Nesse Verão estava muitíssimo calor, mas para o final da tarde adensava-se uma neblina carregada de ventania e trovoada. O arvoredo todo se abanava e remexia, e pequenos ramos e folhas volteavam caprichosamente ao sabor do anoitecer. Dormia-se mal tal era o vendaval.. Dadas estas circunstâncias climatéricas, foi mais que certo que chegado o dia da festa tudo estivesse por preparar. Mas esta gente nascida no meio das pedras era tão rija quanto elas, e iria ter a sua festa desse lá por onde desse.
Coordenaram-se então movimentos: uns carregaram madeiros para improvisar um palco, outros montaram um bar sem águas correntes sobrepondo pedras de xisto, e depois foi só alçar as barraquinhas velhinhas da tia Aida e das sobrinhas, numa as famosas filhozes e noutra a quermesse "Sai sempre" - e saía.
Acercou-se depois o mais beato mulherio enfeitando com flores os andores, e um grupo de pacóvios transportando cada um seu instrumento num arremedo de tocata. Apenas um deles sabia de música, os outros marcavam mais ou menos a compasso os ferrinhos, a concertina, o cavaquinho, a gaita de beiços e duas guitarras desafinadas.
Dispondo-se em cena os actores lá arrancou a procissão, dispersa numa amálgama de santíssimos, estandartes mal engalanados e rezas desafinadas. Foi por ali fora dar três voltas à capelinha do monte e regressou.
Tivéssemos ido também, atentos e sóbrios, e talvez pensássemos que é este culto meio acabrunhado, porém superficial. O que iria na cabeça dos que, com olhos baixos, carregavam estatuetas com a tinta meio comida às quais se loam orações? Em que pensariam enquanto percorriam aquele caminho soprando cantorias, e por dentro palavras há muito ansiosas por partir? Fazer luto ou de conta que ainda há esperança? Talvez alguns desconfiassem que este Deus não é afinal magnânimo, nem sequer omnisciente, ou teria evitado uma data de tretas. Ou é castigador, o que não abona muito a seu favor. Ou então dorme demais e se calhar é um pouquito inseguro.
- Deus é grande e o mato é maior
Nesse Verão estava muitíssimo calor, mas para o final da tarde adensava-se uma neblina carregada de ventania e trovoada. O arvoredo todo se abanava e remexia, e pequenos ramos e folhas volteavam caprichosamente ao sabor do anoitecer. Dormia-se mal tal era o vendaval.. Dadas estas circunstâncias climatéricas, foi mais que certo que chegado o dia da festa tudo estivesse por preparar. Mas esta gente nascida no meio das pedras era tão rija quanto elas, e iria ter a sua festa desse lá por onde desse.
Coordenaram-se então movimentos: uns carregaram madeiros para improvisar um palco, outros montaram um bar sem águas correntes sobrepondo pedras de xisto, e depois foi só alçar as barraquinhas velhinhas da tia Aida e das sobrinhas, numa as famosas filhozes e noutra a quermesse "Sai sempre" - e saía.
Acercou-se depois o mais beato mulherio enfeitando com flores os andores, e um grupo de pacóvios transportando cada um seu instrumento num arremedo de tocata. Apenas um deles sabia de música, os outros marcavam mais ou menos a compasso os ferrinhos, a concertina, o cavaquinho, a gaita de beiços e duas guitarras desafinadas.
Dispondo-se em cena os actores lá arrancou a procissão, dispersa numa amálgama de santíssimos, estandartes mal engalanados e rezas desafinadas. Foi por ali fora dar três voltas à capelinha do monte e regressou.
Tivéssemos ido também, atentos e sóbrios, e talvez pensássemos que é este culto meio acabrunhado, porém superficial. O que iria na cabeça dos que, com olhos baixos, carregavam estatuetas com a tinta meio comida às quais se loam orações? Em que pensariam enquanto percorriam aquele caminho soprando cantorias, e por dentro palavras há muito ansiosas por partir? Fazer luto ou de conta que ainda há esperança? Talvez alguns desconfiassem que este Deus não é afinal magnânimo, nem sequer omnisciente, ou teria evitado uma data de tretas. Ou é castigador, o que não abona muito a seu favor. Ou então dorme demais e se calhar é um pouquito inseguro.
- Deus é grande e o mato é maior
domingo, 21 de junho de 2015
Provérbio provado viajado
Começou
por dizer que nasceu numa aldeia remota, onde só não havia mais
miséria porque todo o país vivia na miséria. No final da década
de 40, nove aninhos acabados de completar, partiu num transporte
marítimo com destino a Lourenço Marques. O que terá motivado essa
decisão, que empurrão precipitou tais circunstâncias, o que levou
uma criança tão pequena a embarcar sozinha numa viagem tão penosa?
-
Oh, por essa altura já eu era um adolescente – respondeu, sem mais
adiantar de razões e pormenores.
Contou-me
então do dia em que resolveu mudar de nome, uma novíssima
identidade para fugir de justiças novas e chaminés velhas.
-
De repente, nesse momento, parece que passei a ver tudo de um modo
completamente novo. Aí, senti que ia começar de facto a minha
grande viagem. Mas conservei o antigo bilhete português, por se
acaso algum acaso...
-
Foi aí que iniciou as suas travessias por África? E qual era o
plano? - encaminhei a conversa para a história que me interessava.
-
Foi, sim. Eu não tinha nenhum caminho traçado em mente. Parti de
Moçambique para o que era então a Rodésia, hoje Zimbabwe, e daí
para a África do Sul. Depois pela Namíbia, direito a Angola, e
assim resolvi ir subindo a costa atlântica. É engraçado, sabe,
quando estive em Marrocos podia ter regressado ao Portugal natal, mas
decidi continuar a contornar África pelo Mediterrâneo com destino
ao Egipto, pareceu-me mais interessante – riu-se.
-
Sim? - digo, para incentivar a conversa.
-
Oh, pois claro, isso nem se pergunta! Naveguei pelo Mar Vermelho até
ao verde Índico. Foi uma experiência maravilhosa!
-
Viajou sempre sozinho? - tentei dar cabo da ideia do viajante
solitário.
-
Sempre que pude, sim. É que durante estas viagens atravessei uma
época tremenda: presenciei tumultos, convulsões socias, muitas
mortes. Só trago a memória dos longos rios, dos desertos, dos
animais pela savana e das árvores. As árvores por vezes eram
poucas, mas que beleza! A natureza foi a minha melhor companheira. O
resto apaguei tudo.
-
E quando é que se dá o regresso a Moçambique?
-
Fui-me atrasando pela Tanzânia. Tinha algum medo de voltar.
-
Porquê, pode dizer-me? - perguntei, baixando levemente a voz.
-
Tinham passado uns bons anos e muita porcaria por baixo da ponte. Mas
quando cheguei a Maputo e reencontrei aquela cor do sol e aquela cor
do barro, soube que estava em casa.
Disse
esta frase em tom de despedida, mas ainda acrescentou, do outro lado
da linha telefónica, com uma risada esplêndida:
-
Mas, olhe, fui ganhando tiques nas várias Áfricas por onde passei.
Por exemplo, sou de uma pontualidade britânica!
Não,
a entrevista não podia terminar assim... e arrisquei a tirada final.
-
Então, e o nome do senhor é mesmo Amílcar?
-
Isso, menina, nunca poderá saber. É que afinal
-
O mundo dá muita volta e numa delas eu entro
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Provérbios provados seleccionados
Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim. Foi pensado assim. pretende que os leitores descubram com surpresa qual é o provérbio-desfecho. Ora sabendo que quem lê muitas vezes espreita primeiro o final, segue uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:
- Dá Deus nozes a quem não tem dentes
- A cavalo dado não se olha o dente
- Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
- A César o que é de César
- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata
- Há mais marés que marinheiros
- Ladrão só, puta só
- Vão os anéis, ficam-se os dedos
- Quem vier atrás que feche a porta
- Pela boca morre o peixe
- Cada qual come do que gosta
- Vozes de burro não chegam ao céu
- A esperança é a última a morrer
- Burro velho não aprende línguas
- Dá Deus nozes a quem não tem dentes
- A cavalo dado não se olha o dente
- Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
- A César o que é de César
- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata
- Há mais marés que marinheiros
- Ladrão só, puta só
- Vão os anéis, ficam-se os dedos
- Quem vier atrás que feche a porta
- Pela boca morre o peixe
- Cada qual come do que gosta
- Vozes de burro não chegam ao céu
- A esperança é a última a morrer
- Burro velho não aprende línguas
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Provérbio provado adaptado
Adaptado do Ventoinha
É o final de uma tarde muito quente de Agosto. No escritório, Carlos espreita o relógio: falta uma hora para terminar o expediente. Está sozinho. Os patrões nem lá puseram os pés hoje; imagina-os refastelados numa qualquer espreguiçadeira na sombra de um pinhal. Os reposteiros estão corridos mas mesmo assim o calor penetra pelas paredes tornando mais saturada a atmosfera. A campainha do telefone trina, Carlos atende: Escritório de Advogados Bento, Filho & Associados Limitada boa tarde, mas do outro lado desligam de imediato. Serão os patrões a confirmar a sua presença?, e abana a cabeça não acreditando. Agora é a campainha da porta soando por sua vez. É o amigo Ventoinha. Traz como de costume os cabelos ao ar num reboliço, mesmo num dia como hoje em que não corre uma aragem.
- Acaba lá com isso e vem tomar um café ao Chiado. Quero passar ao Grandela e ver de um presente para uma tia minha...
E pisca-lhe o olho, divertido. Carlos garante que não pode sair já. Mas que ele faça horas, que terá o maior prazer em o acompanhar ao Chiado.
- Tu és muito amedrontado. Então tu crês que os teus patrões te andariam a espiar? Que disparate pegado! Eu sim, ando a ser seguido... mas anda daí à Brasileira que já te conto tudo.
Passam primeiro nos Armazéns do Grandela. Ventoinha vê luvas, chapéus, sombrinhas, meias finas mas nada lhe agrada, a tudo torce o nariz contrariado.
- Gostava de dar algo com mais chique à minha tia. Ela é muito moderna.
E pisca-lhe mais uma vez o olho, com uma gargalhada. Seguem então para a Brasileira a tomar o café. E o Ventoinha começa a soprar a sua história:
- Vês tu aquele indivíduo, à esquina da Bertrand, a espreitar para aqui? (Não olhes agora.) Já não o via há algum tempo e hoje... zás, lá o topei de novo. Tirou a gabardina e rapou o bigode, deve ser do calor.
E realmente lá está um fulano de ar suspeito que os olha. Imagina logo o Ventoinha muito mais metido na política do que parece; é certo que conversam em sussurro muitas vezes contra o regime, mas daí à conspiração vai um longo passo. Pensa que lhe apanharam folhetos, livros ou o apanharam em alguma reunião suspeita, está visto é que o apanharam!
- Tu estás a pensar que é um espião, não é meu pobre Carlos? Mas é alguém acima deles. Eu inventei uma coisa que se chama blog. É um diário do futuro. Tu bates palavras numa máquina de escrever que não faz barulho e, no minuto seguinte, qualquer pessoa no mundo lê na televisão tudo o que escreveste. E isto é uma máquina muito perigosa, claro está! Por isso é que eles andam atrás de mim...
Carlos fica desorientado com a revelação. Pensa que o querido amigo Ventoinha endoidou de vez. Mas ainda lhe pergunta que tipo de coisas escreve nesse ‘bloque’...
- Do bom tudo e do ruim nada
É o final de uma tarde muito quente de Agosto. No escritório, Carlos espreita o relógio: falta uma hora para terminar o expediente. Está sozinho. Os patrões nem lá puseram os pés hoje; imagina-os refastelados numa qualquer espreguiçadeira na sombra de um pinhal. Os reposteiros estão corridos mas mesmo assim o calor penetra pelas paredes tornando mais saturada a atmosfera. A campainha do telefone trina, Carlos atende: Escritório de Advogados Bento, Filho & Associados Limitada boa tarde, mas do outro lado desligam de imediato. Serão os patrões a confirmar a sua presença?, e abana a cabeça não acreditando. Agora é a campainha da porta soando por sua vez. É o amigo Ventoinha. Traz como de costume os cabelos ao ar num reboliço, mesmo num dia como hoje em que não corre uma aragem.
- Acaba lá com isso e vem tomar um café ao Chiado. Quero passar ao Grandela e ver de um presente para uma tia minha...
E pisca-lhe o olho, divertido. Carlos garante que não pode sair já. Mas que ele faça horas, que terá o maior prazer em o acompanhar ao Chiado.
- Tu és muito amedrontado. Então tu crês que os teus patrões te andariam a espiar? Que disparate pegado! Eu sim, ando a ser seguido... mas anda daí à Brasileira que já te conto tudo.
Passam primeiro nos Armazéns do Grandela. Ventoinha vê luvas, chapéus, sombrinhas, meias finas mas nada lhe agrada, a tudo torce o nariz contrariado.
- Gostava de dar algo com mais chique à minha tia. Ela é muito moderna.
E pisca-lhe mais uma vez o olho, com uma gargalhada. Seguem então para a Brasileira a tomar o café. E o Ventoinha começa a soprar a sua história:
- Vês tu aquele indivíduo, à esquina da Bertrand, a espreitar para aqui? (Não olhes agora.) Já não o via há algum tempo e hoje... zás, lá o topei de novo. Tirou a gabardina e rapou o bigode, deve ser do calor.
E realmente lá está um fulano de ar suspeito que os olha. Imagina logo o Ventoinha muito mais metido na política do que parece; é certo que conversam em sussurro muitas vezes contra o regime, mas daí à conspiração vai um longo passo. Pensa que lhe apanharam folhetos, livros ou o apanharam em alguma reunião suspeita, está visto é que o apanharam!
- Tu estás a pensar que é um espião, não é meu pobre Carlos? Mas é alguém acima deles. Eu inventei uma coisa que se chama blog. É um diário do futuro. Tu bates palavras numa máquina de escrever que não faz barulho e, no minuto seguinte, qualquer pessoa no mundo lê na televisão tudo o que escreveste. E isto é uma máquina muito perigosa, claro está! Por isso é que eles andam atrás de mim...
Carlos fica desorientado com a revelação. Pensa que o querido amigo Ventoinha endoidou de vez. Mas ainda lhe pergunta que tipo de coisas escreve nesse ‘bloque’...
- Do bom tudo e do ruim nada
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Provérbio canino feminino
O
Doutor Rui Gonçalves estabelecera-se como veterinário na província
já lá iam p'ra mais de dez anos, e revelara-se essa mudança da
cidade para o campo uma boa escolha para si e para a família. Para
além das magníficas paisagens circundantes, estas gentes haviam-nos
realmente acolhido com simplicidade e generosidade.
De vez em vez, ocorriam inesperados, emergências, e logo acorria prontamente às chamadas, sempre diligente. Assim foi esta madrugada aquando da aflição com um animal do Senhor José Madureira. Arrancou de sopetão, direito à quinta, e com ele se deparou ao portão dizendo:
- É a Tareca, Doutor!
- Lá vamos, lá vamos... Mas o que se passa com a gata?
- É uma cadela, Doutor!
- Mas tem nome de gata...
- Não, tem nome de fadista.
No meio deste diálogo, o Doutor aproximou-se e viu a cadela quase a sufocar, e a seu lado cinco cachorrinhos acabadinhos de nascer. Já a contar que por aí viessem mais irmãozinhos, o Doutor teve de os ajudar rapidamente a despertar para o mundo: e nasceram mais cinco!, nunca se vira uma cadela parir assim. O Senhor José Madureira, muito apreensivo, balbuciava:
- A Tareca só tem oito tetas! Como é que isto se vai fazer, valha-me Deus meu? Diga-me, Doutor. Como é que isto se vai fazer?
Assim foi que o Doutor Rui Gonçalves acabou por levar consigo dois sobejantes a tiracolo. Quando a mulher o viu chegar de manhã nestes preparos, levantou as sobrancelhas inquiridoras e recebeu como resposta:
De vez em vez, ocorriam inesperados, emergências, e logo acorria prontamente às chamadas, sempre diligente. Assim foi esta madrugada aquando da aflição com um animal do Senhor José Madureira. Arrancou de sopetão, direito à quinta, e com ele se deparou ao portão dizendo:
- É a Tareca, Doutor!
- Lá vamos, lá vamos... Mas o que se passa com a gata?
- É uma cadela, Doutor!
- Mas tem nome de gata...
- Não, tem nome de fadista.
No meio deste diálogo, o Doutor aproximou-se e viu a cadela quase a sufocar, e a seu lado cinco cachorrinhos acabadinhos de nascer. Já a contar que por aí viessem mais irmãozinhos, o Doutor teve de os ajudar rapidamente a despertar para o mundo: e nasceram mais cinco!, nunca se vira uma cadela parir assim. O Senhor José Madureira, muito apreensivo, balbuciava:
- A Tareca só tem oito tetas! Como é que isto se vai fazer, valha-me Deus meu? Diga-me, Doutor. Como é que isto se vai fazer?
Assim foi que o Doutor Rui Gonçalves acabou por levar consigo dois sobejantes a tiracolo. Quando a mulher o viu chegar de manhã nestes preparos, levantou as sobrancelhas inquiridoras e recebeu como resposta:
-
Não pode a cadela com tanto cachorro
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Provérbio canino - III
Joaquim
Pintor era viúvo e reformado, cedo deitava e cedo erguia, e
frugalmente comia: cozidos e grelhados, nada de fritos ou estufados.
Não foram os Domingos, em que se permita certas excepções como
doces e enchidos e álcool e cigarrilhas, tudo o mais seria plácido
e sereno.
O Joaquim não queria mãos alheias que lhe tratassem da casa; ia fazendo o necessário sem grande dificuldade, gostava de paz e tranquilidade.
Tinha apenas por companhia um gato e um cão que, fazendo jus à forma de estar do dono, conviviam lindamente. Chamavam-se simplesmente Gato e Cão e, como é natural, respondiam sempre pelo nome: eram dois animais muito completos, duas fotografias desfocadas da personalidade do Joaquim. Tinham chegado lá a casa ainda novos, o Cão primeiro que o Gato. O Gato era mais menineiro, e debaixo do sol gostava de caçar moscas no quintal e também de dormitar. Quando acordava das suas sestas, espreguiçava-se até à medula. Tinha um olhar cinza faíscante belíssimo. O Cão, sem querer, às vezes afundava-se naqueles olhos, mas logo se afastava tremendo. O Cão era mais velho e mais companheiro. Andava atrás do dono por toda a parte e, como era arraçado de perdigueiro com rafeiro, o Joaquim até costumava dizer que farejava até Faro.
Joaquim Pintor era caçador. Quando virava a porta, todos os dias à mesma hora, ambos Cão e Gato se acercavam – o Cão porque sabia que era chegada a hora do passeio, o Gato miando e esperando o seu miar comovesse o dono. O que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, não propriamente da caça em si. Aliás, nunca trazia mais do que um exemplar para casa, mesmo se havia caça animada em voo. Era sempre o Cão que lhe trazia a peça, arquejando triunfante à espera da festa reconhecida do dono, e às vezes um pedacinho de torresmo que sobrava dos Domingos.
P.S.
- Provérbio e história sugeridos pela afilhada/sobrinha Catarina, 11 anos. Espero
que ela goste do resultado. E até possa quem sabe escrever uma história alternativa.
O Joaquim não queria mãos alheias que lhe tratassem da casa; ia fazendo o necessário sem grande dificuldade, gostava de paz e tranquilidade.
Tinha apenas por companhia um gato e um cão que, fazendo jus à forma de estar do dono, conviviam lindamente. Chamavam-se simplesmente Gato e Cão e, como é natural, respondiam sempre pelo nome: eram dois animais muito completos, duas fotografias desfocadas da personalidade do Joaquim. Tinham chegado lá a casa ainda novos, o Cão primeiro que o Gato. O Gato era mais menineiro, e debaixo do sol gostava de caçar moscas no quintal e também de dormitar. Quando acordava das suas sestas, espreguiçava-se até à medula. Tinha um olhar cinza faíscante belíssimo. O Cão, sem querer, às vezes afundava-se naqueles olhos, mas logo se afastava tremendo. O Cão era mais velho e mais companheiro. Andava atrás do dono por toda a parte e, como era arraçado de perdigueiro com rafeiro, o Joaquim até costumava dizer que farejava até Faro.
Joaquim Pintor era caçador. Quando virava a porta, todos os dias à mesma hora, ambos Cão e Gato se acercavam – o Cão porque sabia que era chegada a hora do passeio, o Gato miando e esperando o seu miar comovesse o dono. O que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, não propriamente da caça em si. Aliás, nunca trazia mais do que um exemplar para casa, mesmo se havia caça animada em voo. Era sempre o Cão que lhe trazia a peça, arquejando triunfante à espera da festa reconhecida do dono, e às vezes um pedacinho de torresmo que sobrava dos Domingos.
São
destas mudanças que acontecem nas histórias, e vai daí um Sábado
em que Joaquim Pintor sai em vias de caçador, acompanhado como
habitualmente pelo fiel Cão. Era esse um Sábado agitado, por mostra
de caçadores amadores vindos das cidades com a motivação de somar
disparos. Mas o que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto
com a Natureza, por isso não compreendia propriamente aquela farsa
da caça em si. E sentia tão certo o não estar certo, que os
acontecimentos lhe vieram dar razão. Foi o Cão. Uma bala perdida.
Depois trouxe o Cão todo o caminho ao colo.
O
tempo avançou e Joaquim não quis mais cães nem mais caçou. O Gato
caiu numa lealdade tal ao dono que o seguia para todo o lado,
escavando covas furiosamente, perseguindo insectos no voo,
desaparecendo e reaparecendo em ápices nos arbustos do quintal.
Então vai daí um Sábado em que ao Joaquim lhe dá uma comichão de
procurar a arma e um impulso de levar o Gato consigo. E foi assim e
Era uma vez. Claro que o Gato não trazia perdizes nos dentes, embora
as soubesse localizar se estivesse para aí virado. Mas foi assim que
sucedeu porque Joaquim caçador e o seu Gato viveram muitos anos.
-
Quem não tem cão caça com gato
sábado, 28 de março de 2015
Provérbio provado conversado
Vamos de passeio, percorrendo uma longa estrada ladeada de cerejeiras em flor. Somos quatro no carro, e contemplamos e comentamos a magnífica paisagem. Fora isto, nada mais se diz; navegamos em silêncio como se no fundo do mar.
No banco de trás, a minha amiga Luísa leva um livro abandonado no colo:
- Como se chama esse livro, Lu?
- Pela estrada fora
- É esse o título? É mesmo assim que vamos.
Gonçalo, o meu companheiro do lado, conversa com os seus botões no registo habitual: é discreto e silencioso como um peixe lento.
Resta-me o Lourenço, que no ir mirando as cerejeiras vai de lado, mas alheado, calado e mergulhado nos seus pensamentos. Até que num momento se interrompe e sai-se com esta:
- As cerejas parecem flores do silêncio. E também respiram sozinhas. No entanto, juntam-se às duas e três para terem companhia.
E de repente, entre sins, enfins e afins, entre amigos, despontam palavras animadas, soltas e mal passadas.
- As conversas são como as cerejas: atrás d'umas vêm as outras
No banco de trás, a minha amiga Luísa leva um livro abandonado no colo:
- Como se chama esse livro, Lu?
- Pela estrada fora
- É esse o título? É mesmo assim que vamos.
Gonçalo, o meu companheiro do lado, conversa com os seus botões no registo habitual: é discreto e silencioso como um peixe lento.
Resta-me o Lourenço, que no ir mirando as cerejeiras vai de lado, mas alheado, calado e mergulhado nos seus pensamentos. Até que num momento se interrompe e sai-se com esta:
- As cerejas parecem flores do silêncio. E também respiram sozinhas. No entanto, juntam-se às duas e três para terem companhia.
E de repente, entre sins, enfins e afins, entre amigos, despontam palavras animadas, soltas e mal passadas.
- As conversas são como as cerejas: atrás d'umas vêm as outras
terça-feira, 24 de março de 2015
Provérbio individualista
Somos por costume social atacados por conselhos que não pedimos e observações impertinentes - por vezes ambíguas - fora de hora(s) e de lugar. Têm algum poder de poder azedar o dia ou parte dele.
Durante uns tempos utilizava em resposta a expressão "Como assim?" com uma certa indiferença mas, se não calava os predadores, ameaçava também ser início de mais palpites idiotas.
Por estes tempos, adoptei então um provérbio que rasteira mais considerações:
- Cada um sabe de si
P.S. - Post livre de preconceitos de apatia, e quiçá observando que às vezes há resposta, mas é invariavelmente só uma e a continuação do provérbio acima...
- E Deus sabe de todos...
Durante uns tempos utilizava em resposta a expressão "Como assim?" com uma certa indiferença mas, se não calava os predadores, ameaçava também ser início de mais palpites idiotas.
Por estes tempos, adoptei então um provérbio que rasteira mais considerações:
- Cada um sabe de si
P.S. - Post livre de preconceitos de apatia, e quiçá observando que às vezes há resposta, mas é invariavelmente só uma e a continuação do provérbio acima...
- E Deus sabe de todos...
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Provérbio citado (DESAI)
«
Quando Sai começou a interessar-se pelo amor, começou a
interessar-se pelos assuntos do coração das outras pessoas; assim,
passou a importunar o cozinheiro com perguntas sobre o juiz e a sua
esposa.
O
cozinheiro declarou:
-
Quando eu vim trabalhar para a casa, todos os criados antigos me
disseram que a morte da sua avó fez do seu avô um homem cruel. Ela
era uma grande dama, nunca elevava a voz aos criados. Como ele a
amava! Aliás, era uma relação tão profunda que nos revirava o
estômago, pois era algo demasiado grande para ser contemplado por
qualquer outra pessoa.
-
Ele amava-a assim tanto? - Sai ficou atónita.
-
Devia amar – respondeu o cozinheiro. - Mas dizem que não o
demonstrava.
-
Talvez não a amasse? - aventou ela então.
-
Morda a língua, sua malvada. Retire o que disse! - gritou o
cozinheiro. - Claro que ele a amava.
-
Então, como podiam os criados saber?
O
cozinheiro refletiu um pouco, pensou na sua própria mulher.
-
Tem razão – admitiu ele. - Ninguém sabia realmente, mas também
naquela altura ninguém dizia nada. Mas saiba, menina, que existem
muitas formas de demonstrar amor e não só à maneira do cinema, que
é a única forma que a menina conhece. É uma rapariga muito tola.
O maior amor é aquele que nunca é demonstrado.
(...)»
In
A
herança do vazio
– Kiran Desai
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Provérbio na barra do tribunal
Falando sobre a corrupção em geral, e falando de Portugal em particular, e em particular dos negócios sujos que proliferam desde a economia à política até ao futebol, trago um singelo provérbio que poderá ajudar no acelerar dos processos judiciais:
- Tanto peca o que segura o saco como o que para dentro mete
- Tanto peca o que segura o saco como o que para dentro mete
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Provérbio provado endinheirado
Ora
bem, o início desta história dá-se com esta escriba começando
por confessar que a escutou como verdadeira. Não vão os caros
leitores pensar que a inventou: apenas a adulterou e
acrescentou o seu cunho em certas partes, na sua forma idealizada de
como se recorda de a ter ouvido.
Começamos
então por cerca dos anos 30, 40, do século passado, quando a Dona
Elvira, residente numa freguesia encavalitada nos montes lá para os
lados da Lousã, acolheu três padres – costume típico na época –
que vinham de pregar de outra freguesia. A tia Vira, assim conhecida
pelos vizinhos, cedeu aos padres uma casa vazia que tinha à beira da
estrada. Dizia-se na aldeia que os padres vinham fugidos do Brasil e
de certeza traziam nos bolsos uma invulgar fortuna, pois ergueram nos
anos seguintes uma tal igreja como a não tinha a sede de concelho, e
organizavam festas tais que vinha povo das aldeias mais longínquas
assistir às procissões, bailaricos e foguetórios.
Foram
passando os anos nesta história, até que o destino dos padres se
foi desenrolando. Um deles acabou por regressar ao Brasil e por lá
morreu às mãos de com quem tinha contas a ajustar e o quis apanhar;
um outro foi morto naqueles caminhos sombrios da aldeia, numa noite
sem luar, à navalha e à sucapa que é como actuam os bandidos; o
último morreu de velho, pois se já não era novo quando chegou,
assim ficou meio apatetado e sem conhecimento da realidade.
Aqui se recapitulam os factos: os padres vieram e foram, tia Vira já
morreu sem herdeiros directos, a casa foi cedendo sem mais préstimo
e um dia o telhado ruiu...
E
recomeçamos mais tarde, já nos anos 80, quando a Câmara Municipal
resolve mandar limpar os caminhos das estradas nacionais. Abrir
valas, cortar mato, desbastar silvas, trabalho duro de limpeza em
que, numa tarde de suor, encontramos três funcionários trabalhando
junto à casa quase desfeita à beira da estrada. Já não sabem se é
do excesso de calor ou são os pontos luminosos da casa que brilhando
ao sol quase os cegam. Acercam-se e encontram caixas já desfeitas
que haviam resvalado do sotão quando o telhado abateu. Um tesouro
inominável, diz-se, porque ninguém o viu: moedas de ouro e de prata
e jóias em grande quantidade. O saque dos padres portugueses no
Brasil.
Os
herdeiros indirectos, atiçados pela história que se contava,
apresentaram queixa na polícia, onde um basbaque cofiando a bigodaça
tomou notas e garantiu que os trabalhadores iam ser “espremidos”
para falarem. Que sumo foi esse não se sabe, mas a coisa foi
arquivada por falta de provas.
O
tesouro ficou na imaginação das gentes e nunca nada foi encontrado
na posse destes três homens. Até que um belo dia, um deles comprou
uma moto potente e espetou-se numa curva apertada dos montes; o outro
comprou um carro de alta cilindrada que enfiou numa árvore na sua
primeira ida a Coimbra; o terceiro vive amargurado, e nem à
boleia... só de comboio.
-
Dinheiro de padre e brasileiro não chega a terceiro
sábado, 25 de outubro de 2014
Provérbio provado sentado
A professora tentava a todo o custo manter-nos sentados. Todos sentados, cada um em seu lugar, sem levantar para espreitar o recreio, sem idas inventadas à casa de banho, sem arremesso de bolas de papel ao quadro e uns aos outros. Sentados, a ouvir histórias passadas de outros continentes. Sentados, compostos, sem bocejos. Sentados, de preferência calados. E se a coisa às vezes descambava, a professora de repente gritava: - Todos sentados!
- Quem não se sente não é filho de boa gente
- Quem não se sente não é filho de boa gente
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Provérbio citado (CRUZ)
«(...)
Mulhermente,
Lola crescera para ser muito atraente, ao ponto de parecer uma
evolução estética da humanidade. A evolução é isso mesmo: uma
pessoa sabe que evoluiu quando à sua volta só vê macacos. Lola
desenvolveu esse espaço poético que é o seu corpo, tudo com grande
elegância. Enquanto ela o fazia, os homens à sua volta desenvolviam
a acuidade visual e, quando ela passava, permitia que apanhassem
torcicolos. Mas não se prendia a nenhum, até que um dia apareceu o
imbecil certo. Demora muito até que aconteça e a maior parte das
mulheres não tem essa sorte. A maior parte casa-se simplesmente com
o imbecil errado.
O
encontro dos dois deu-se numa das festas em que a sua mãe já não
era convidada (…). Plácido haveria de se tornar noivo de Lola,
depois de dois anos de namoro. Ele era um rapaz bem-parecido, alto,
de ombros largos e com grande capacidade para calar-se a si mesmo. Na
noite em que se conheceram, ele quase não falou. O perigo disto é
bem conhecido. Há um provérbio que o afirma claramente: o néscio, por se calar, passa por sábio. (...)»
In A carne de Deus : aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites - Afonso Cruz
In A carne de Deus : aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites - Afonso Cruz
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Provérbio citado (JORGE)
«(...)
Isabela retomou a senda poluída da Marginal. A ventania havia feito secar ervas cor de palha, amontoado resíduos inqualificáveis, pendurado nas abas das acácias sacos de plástico desfeitos e desbotados. Ela seguia as superfícies de pedra, as sombras das vivendas recatadas, a estreita senda entre o asfalto e as ervas, unindo as pernas para não ser atropelada nem tropeçar nos pastos, muito direita, de modo a não deixar cair a tolha e o saco que por vezes punha sobre a cabeça, podendo assim ziguezaguear entre obstáculos concretos e imaginados. Com as mãos na cintura, ou os braços abertos, levantados no ar, Isabela divertia-se, desequilibrava-se, retomava o seu prumo, seguia. Só depois deveria entrar num caminho de areia, e aí, à sombra duns prédios altos, escondida no resto do que fora um antigo quintal, ainda com redes de pescador na porta e nas janelas, ficava a casa onde a avó a esperava, sempre ralhando com ela - «Por que não me ajudas, por que não ficas em casa? Para onde vais? Com quem andas? A mim não me enganas tu! Um dia vais e não voltas mais, com essas pernas nuas.» Depois, choramingava um pouco e punha a comida na mesa. Isabela sentava-se à mesa depois do duche, com o cabelo a pingar sobre a toalha - «Está bem, Vó, amanhã eu fico...» Não ficava. Mas, apesar de tudo, a avó mantinha secretas esperanças em relação à neta.
A sua maior ambição decorria da interpretação que fazia duma espécie de parábola dos talentos, muito sua, repetindo todas as manhãs que cada um poderia ser feliz se soubesse usar o que Deus lhe tinha dado. «A felicidade está no peito de cada um!» - dizia, fazendo ressoar, no meio do próprio peito, uma pancada seca. (...)»
Miss beijo
In O belo adormecido – Lídia Jorge
Isabela retomou a senda poluída da Marginal. A ventania havia feito secar ervas cor de palha, amontoado resíduos inqualificáveis, pendurado nas abas das acácias sacos de plástico desfeitos e desbotados. Ela seguia as superfícies de pedra, as sombras das vivendas recatadas, a estreita senda entre o asfalto e as ervas, unindo as pernas para não ser atropelada nem tropeçar nos pastos, muito direita, de modo a não deixar cair a tolha e o saco que por vezes punha sobre a cabeça, podendo assim ziguezaguear entre obstáculos concretos e imaginados. Com as mãos na cintura, ou os braços abertos, levantados no ar, Isabela divertia-se, desequilibrava-se, retomava o seu prumo, seguia. Só depois deveria entrar num caminho de areia, e aí, à sombra duns prédios altos, escondida no resto do que fora um antigo quintal, ainda com redes de pescador na porta e nas janelas, ficava a casa onde a avó a esperava, sempre ralhando com ela - «Por que não me ajudas, por que não ficas em casa? Para onde vais? Com quem andas? A mim não me enganas tu! Um dia vais e não voltas mais, com essas pernas nuas.» Depois, choramingava um pouco e punha a comida na mesa. Isabela sentava-se à mesa depois do duche, com o cabelo a pingar sobre a toalha - «Está bem, Vó, amanhã eu fico...» Não ficava. Mas, apesar de tudo, a avó mantinha secretas esperanças em relação à neta.
A sua maior ambição decorria da interpretação que fazia duma espécie de parábola dos talentos, muito sua, repetindo todas as manhãs que cada um poderia ser feliz se soubesse usar o que Deus lhe tinha dado. «A felicidade está no peito de cada um!» - dizia, fazendo ressoar, no meio do próprio peito, uma pancada seca. (...)»
Miss beijo
In O belo adormecido – Lídia Jorge
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