Provérbios Provados noutras casas:

terça-feira, 25 de julho de 2023

Provérbio provado rimado -MCLVII

Para morrer basta estar vivo

Para viver basta acordar

Talvez arranje um adjectivo

Para esta história divulgar


Mas talvez nem seja preciso

Pois é demasiado evidente

Ninguém fica assim indeciso

Nem ninguém é assim dissidente



Provérbio provado rimado - MCLVI

Atestar a marmita

É como alguém agredir 

Não é uma cena bonita

Só ver e não intervir


É chegar a roupa ao pêlo

Sem que nada o justifique

Dar palmar com o chinelo

Nos filhos não é muito chique


Há um rol de tantas expressões

Para quem anda à batatada

Começa sempre em discussões

Onde nunca se aprende nada




Provérbio provado rimado - MCLV

O Tiago esteve muito doente

Que nem sabe como foi isso

Esteve dias a bater o dente

Tão sem forças e enfermiço 


Finalmente lá se ergueu

Até com alguma vergonha

Uma vez que o bicho morreu

É porque acabou a peçonha



Provérbio provado não publicado

Obedecia em cheio ao estereótipo, que lhe assentava que nem uma luva do tamanho certo. Era um poeta urbano-depressivo com os dentes amarelados do tabaco e dos dez cafés diários. Lamentava a cirrose que tinha levado precocemente o Pessoa e invejava-lhe as mocas do ópio. Aquilo é que era um poeta, mas já não se fazem drogas como antigamente...

Ainda não tinha publicado nenhum dos seus poemas, uma vez que desprezava o meio editorial que achava não ter suficiente competência para avaliar o seu trabalho. Já o tinham convidado para publicar uns quantos versos numa espécie de antologia de novos talentos e também numa colectânea luso-brasileira, mas ele declinara o convite desta forma alarve:

-  Não acredito em antologias nem em colectâneas. Sao autenticas mantas de retalhos.


- Muitos cozinheiros estragam a sopa 

Provérbio provado rimado - MCLIV

Olha que a antecipação

Ajuda a afastar o azar

Se procedes com precaução

Nada então te irá espantar


Antecipar o momento

A fim de evitar a surpresa

Que seja esse o intento

Que te promove a certeza


Quando for tempo dos instantes

Em que os discursos são dois

Lembra-te que a palavra antes

Vale mesmo por duas depois



Provérbio provado reformado

- Não se preocupe, Avó Joaquim. A maquilhagem sai facilmente com água, é só para não aparecer a brilhar na televisão....

Que simpática menina - pensou o Joaquim, enquanto outra menina entrava pela porta. Já não tão menina, confirmou num segundo e terceiro olhares.

- Esta é a Vera Santos, Avô Joaquim, a apresentadora do nosso programa.

- Muito gosto, menina Vera! Onde quer que me ponha?

- Vai sentar-se naquele cantinho e, quando eu for falar consigo, a câmara aproxima-se de si. Não tem de fazer mais nada. Veja só se se põe a entrelaçar a verga enquanto falamos... Dá um ar muito pitoresco e familiar.

A apresentadora conferia a toda aquela azáfama uma atmosfera de facilidade.

Depois de entrevistar um aprendiz de feiticeiro que lançara uma dezena de livros de auto-ajuda, Vera Santos virou-se na direcção do cesteiro. E, muito bem disposta, demasiado interessada na sua pessoa e actividades, lancou-lhe uma série de perguntas que de tão estudadas quase pareciam improviso.

Então o Avô Joaquim contou a sua história. O avô ensinara ao pai que, por sua vez, lhe ensinara em gaiato. Agora já ninguém queria aprender a entrançar, os jovens só queriam telemóveis... No entanto, os netos tinham-lhe criado uma conta nas redes sociais onde exibia os seus belos trabalhos.

Não, não fora o seu emprego principal. O Avô Joaquim fora camionista e mais tarde taxista. Mas sempre tivera aquele gosto e nos momentos de folga fazia o dito gosto ao dedo. 

E aproveitou para contar a uma surpreendida Vera que havia realizado cem cestos para que servissem de candeeiros num restaurante finório do Norte.

- Então, e conte lá, como arranjou tempo para fazer cem cestos, Avô Joaquim? - inquiriu Vera Santos.


- Cesteiro que faz um cesto faz um cento se lhe derem verga e tempo 

Provérbio provado rimado - MCLIII

Agradeço as vossas palmas

Só que preferia dinheiro

E a cada Provérbio provado

Ter mais peso no mealheiro


Os conteúdos da página

Por serem assim levezinhos

Parece que nem dão trabalho

E que se escrevem sozinhos


Aceito todo o tipo de género

A galinha da capoeira

O feijão verde da horta

O licor para a bebedeira


Já que o meu tempo é de borla

E a casinha não é garantida

Mas não fiquem porém a pensar

Que sou pobre e mal agradecida



Provérbio provado rimado - MCLII

Será que não estás nem aí

Para o que te chega daqui?

Ou será que o aparelho

De audição já está velho?


Não te venhas queixar depois

Que não atinámos os dois

Daqui do meu canto observo

E pouca vontade conservo


Foi um tanto exagerado

Esse interesse assolapado

O que vale é que sou crescida

Não fiquei muito convencida


A idade em que tu estás

Algumas pancadas traz

Se não compras um descapotável

Tens uma miúda impressionável


Entretanto não és um deus grego

E o carro puseste no prego

Empenhaste valores em leilão

Só não vendas o teu coração


Parece que estás mais disposto

A ser defraudado com gosto

Mas cuidado com a velha raposa

Que consegue ser muito engenhosa


Quando menos prestares atenção

Já dorme no teu colchão

E a mais tenra companhia

Emigrou para outra freguesia 



Provérbio provado rimado - MCLI

Há cada erro ortográfico

Que chega a ser pornográfico

Eu deito as mãos à cabeça

E faço da luta a promessa


De o erro combater

Ao ensinar e aprender

A quem tivesse vontade

De escrever com propriedade


Bem sei que sou muito chata

Teimosa e cheia de lata

E até que este modo não extinga

Não fujam com o rabo à seringa



Provérbio provado rimado - MCL

O problema das mentes fechadas

É só terem a boca aberta

As opiniões são lançadas

Para a gente boquiaberta 


Não se privam de argumentar

Com tamanha falta de mundo

Que até custa a acreditar

Em tanto disparate rotundo


E não adianta discutir

Pois estão cheias de certeza

Assim não irão admitir

Que lhes falem franqueza


O mais correcto a fazer

Ignorar de qualquer maneira

E não tentar combater

Deitar lenha para a fogueira



Provérbio provado rimado - MCXLIX

Diz que as tuas palavras
São a tua segunda pele 
Às vezes são de ti escravas
Se alguma coisa as repele

De ti brotam normalmente
Basta abrires a boca 
Que assim saem de repente
Montes de palavras para troca

Porém quando à tua frente
Não há atenção ao momento
E o outro te sai indiferente
Palavras leva-as o vento 



Provérbio provado num verso branco - CXXI

Ai que me tarda o anjo da guarda que não me guarda

Que já tem à guarda tantos sapatos perdidos pelos caminhos

Tantas malas que não se penduraram nos armários

E cabides que não encontraram a silhueta regulamentada


O anjo que não guarda não pode ser da guarda

Ou é um anjo pedante e ambicioso

Convencido que mais guarda do que guarda


O anjo virou-me as costas com um cabide na mão

Todavia continuei a vê-lo de frente para mim

Porque os anjos não têm realmente costas

É por isso que desconhecem a hipocrisia

Tudo o que deles se diz não tem esconderijo

Tudo aceitam ainda que não guardem efectivamente

As costas de quem implora palmadinhas e compaixão


Os anjos não têm costas mas sentem o vento por detrás

Nessas alturas procuram refúgio nas montanhas que há nas nuvens

A auréola é a única coisa terrena e sem significado

Uma vaidade mal-disfarçada tal como um diploma

Que as pessoas penduram nas paredes das casas

E nos cabides onde se penduram


Os anjos não têm costas nem sexo

Por isso há homens que são como anjos

Há anjos que são como homens 



terça-feira, 18 de julho de 2023

Provérbio provado rimado - MCXLVIII

Conhecer imensos ditados
É o que nos faz abastados
Pois a cultura popular 
É cultura e é de louvar

Tem sempre um ditado á mão
Para em qualquer ocasião
Puderes criar sintonia
Com uma alminha arredia 

Se ainda não estás convencido
E ainda não és convertido 
Já dizia o velho deitado
Que é sempre bom o ditado 



Provérbio provado rimado - MCXLVII

Se aqui não ofereço a ninguém

Nada na alegre casinha

Apenas quero ter entretém

Para que não me sinta sozinha


Só que o espaço tornou-se maior

Do que eu supus no passado

A obra passou o criador

É de deixar alguém abismado


Eu também fiquei surpreendida

Por tamanho número de amigos

Belisca-te ó Margarida

Neste sítio não há perigos


Ainda irá a casinha crescer

Muitos mais provérbios provar 

Assim eu consigo antever

Porque enfim não quero parar


Aqui tanto vos agradeço

Por me lerem e comentarem

Tenham paciência vos peço

Se não for bem o que esperarem


É por isso que quero dizer

Qualquer homem agradecido

Que julga poder merecer

Todo o bem lhe é querido



Provérbio provado rimado - MCXLVI

Olha que fiar mais fino

É como mudar de figura

Torcer ainda mais o pepino

Nos eventos estar à altura


É um modo de evoluir

De alcançar tal camada

De preferência a sorrir

Perceber que não teve nada



Provérbio provado num verso branco - CXXI

Estar de boa fé é ter fé nos demais

A pureza de intenções anula qualquer suspeição

É um pântano onde os desconfiados afogam os joelhos

Ou onde enterram a cabeça como a avestruz


Ter confiança na humanidade

É uma moeda rara e valiosa

A boa fé não é religiosa 



Provérbio provado rimado - MCXLV

Há vários tipos de animais

E depois há aqueles que voam

Nem esses são todos iguais

Diferentes cantos entoam


Também os seus golpes de asa

Não se mostram da mesma forma

E quando no regresso a casa 

Não respeitam idêntica norma 


Alguns demonstram gratidão

Pela mão que os alimenta

Já outros nem abrem excepção

Sem saber quem os complementa


Se a ave fica na agonia

De comer os restos que há

Aquele que o corvo cria

O olho lhe arrancará



Provérbio provado rimado - MCXLIV

Quando chega o fim de semana

Tenho de ir ao supermercado

Comprar pão café e banana

E um bacalhau congelado


Aos domingos principalmente

Às tarefas de casa me dedico

Lavar e cozinhar é frequente

E no fim tão cansada eu fico


Faço máquinas sem parar

Como se não houvesse amanhã

Não há tempo para hesitar

No meio de tamanho afã


O dia passa quase a correr

Parece que de pingo em pingo 

Como uma torneira a verter

Lá se escapa o domingo



Provérbio provado num verso branco - CXX

De facto vestir-se o fato do semelhante
Pode torná-lo mais semelhante
E calçar-lhe os sapatos de festa
É saber onde lhe apertam os calos
Ou experimentar-lhe as pantufas
Sempre que arruma as botas
Dá-nos a noção de como a vida lhe pesa
De como às vezes lhe é leve
Podemos deste modo também saber o lugar
Que preenchemos no seu lugar
Mas aqui termina a última réstia de empatia

Só um mesmo um próprio por dentro
Sabe com quantas veias se anima
Sabe quando o sangue nelas lhe gela
Quando o sangue no sangue lhe ferve
Cada um tem no âmago um território
Que até para si é quase desconhecido
Por lhe ter perdido a memória do passado 
E formalmente dessa forma o passado
O coração dos outros é terra que ninguém pisa 



Provérbio provado rimado - MCXLIII

Ser bonito e bom
E já agora barato
Dá o mote e dá o tom
Quando se escolhe o prato

Mas afinal a expressão
Não é isso que quer dizer
Convém saber de antemão
Para os pés nas mãos não meter 

Pois ser o bom e o bonito
É um tal caso complicado
Que põe qualquer um aflito
E está o caldo entornado