Provérbios Provados noutras casas:

sábado, 31 de outubro de 2020

Provérbio provado num verso branco - CVI

Fazes de conta que te dás 

Só porque sofres por vir um dia a desaparecer 

Quando surges é para que sejas visto e ouvido 

Lido e aprovado neste mundo impassível 

Enquanto ainda há tempo queres 

Transformar-te no domínio das tuas próprias palavras 


Esperas tornar a encontrar aquela aurora que te inebriou 

E que baptizaste de esperança 

Por isso arquivas citações inúteis e poemas sem sentido 



Provérbio provado rimado - CMLXXXIV

Devia ter uma tabuleta 

Cada vez que saio da porta 

Para eu não ser pespineta 

Não dar uma resposta torta 


Como ao pé do trabalho habito 

Estou sempre sempre a encontrar 

Seja um leitor todo bonito 

Seja um dos que tem pior ar 


E logo perguntas disparam 

Como se ali um balcão 

Se uma questão calaram 

Na última vez na recepção 


Explicar-lhes pouco adianta 

Que à folga tenho direito 

Às vezes a conversa é tanta 

Que fico até meia sem jeito 


Bem lhes indico o caminho 

Que conduz à biblioteca 

Para que sigam direitinho 

E parem de me dar seca 


Tem de ser por Bê-á-bá 

Como se estivesse na escola 

Remato com um Blá blá blá 

Adeus que vim só ver a bola 



Provérbio provado um bocado conformado

Passo vidas a encher, a encher... a encher chouriços e a engolir sapos, e sabem Deus e o Diabo quantas as vezes em que rio para não chorar. Por isso, tenho cada vez menos paciência para que me lamuriem ao tímpano. Custa a todos, meus amigos. 


- É assim a vida 

Provérbio provado rimado - CMLXXXIII

O Zé sentiu formigueiros 

E uma dor de ponta e mola 

Chamaram logo os bombeiros 

Que o levaram de charola 


Do lado esquerdo a pontada 

Já fazia temer o pior 

Mas então de madrugada 

O Zé sentiu-se melhor 


Não ganhou para o susto 

Ficou algo traumatizado 

Depois retomou a custo 

A vida com mais cuidado 



Provérbio provado rimado - CMLXXXII

 Sei que não levas a mal 

Se te pedir com fervor 

E até achas original 

Umas pancadinhas de amor



terça-feira, 27 de outubro de 2020

Provérbio provado rimado - CMLXXXI

Eu não tenho uma varinha 

Mas tenho um dedo que adivinha 

E sou toda eu pura intuição 

Mal ponho os olhos num matulão 


Cheiro um embuste à distância 

Seja qual for a circunstância 

E o fulano fica admirado 

Por ser tão cedo rejeitado 


Tento ser subtil à primeira volta 

Refrear a minha língua solta 

Mas se o indivíduo me enoja 

Digo Filho desampara-me a loja 



Provérbio herético

Dizem que Deus não dorme, mas quase podia jurar pelo Diabo que ele, de vez em quando, passa pelas brasas... 

E que faz o Deus que escrevia direito por linhas tortas no infernal mundo dos computadores? O seu papel no cosmos jorra duma moderna impressora a laser e escreve torto por linhas direitas num ficheiro formatado com segunda demão de sinónimos. 

Se a quem não fala Deus não ouve, terá por certo ouvidos de tísico: as orações são por norma sussurradas, a divindade já não vai para nova e até está a ficar um pouco gagá, visto que dá nozes a quem não tem dentes. 

No entanto, conserva ainda algumas faculdades. Por exemplo, é ambidextro: é sabido que castiga com a mão esquerda e afaga com a direita. Mas não é sabido qual das duas põe por baixo ao menino e ao borracho. 

Deus manda que se diga a verdade, mas é um bocado misterioso lá no seu modus operandi. Veja-se a Santíssima Trindade: aquilo cabe na cabeça de alguém? E depois admiram-se que haja São Tomés nesta vida! 

Para os crentes, a justiça do seu Deus é como a chuva: não ocorre todos os meses, mas não falha durante o ano. Só por isso vale a pena louvá-lo semanalmente e passar o seu testemunho aos herdeiros. E porque já que se têm de agarrar a qualquer coisa nesta vida que seja uma coisa que é bem vista aos olhos da sociedade e não lhes faça dar um tiro nos cornos. Porque uma dificuldade tem sempre a magnitude que a pessoa pode suportar e até superar. 


- Deus dá o frio conforme a roupa 

Provérbio provado rimado - CMLXXX

O que nos livros não está 

A vida te ensinará 

Pois no lombo levarás 

Com os cornos marrarás 


Vê lá se tolo não és 

Aguenta e finca os pés 

Sê muito sagaz e esperto 

Prossegue um caminho concreto 


Tudo serve para aprender 

Há sempre algo a reter 

Aonde o tolo se perdeu 

O esperto aviso colheu 



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Provérbio provado rimado - CMLXXIX

Quando a barriga está cheia 

Qualquer fruta tem bicho 

E a sobremesa é uma ideia 

Que mais parece um capricho 


Não cabe nem mais uma agulha 

No estômago a abarrotar 

Que arde do excesso e se embrulha 

É tarde para se lastimar 


Decerto aprendeu a lição 

Aquele que se farta a comer 

Não cede à repetição 

Pois não se farta a lamber 



Provérbio ortográfico

A vírgula tem quase tanta incerteza como o ponto de interrogação. Nunca sabe bem onde se deve encostar: se com o advérbio ou perto do substantivo, sabendo de antemão que com o verbo nem pensar! Na proximidade do ponto e vírgula fica nervosa e as reticências deixam-na em suspenso... 

Às vezes chego à conclusão que as reticências não eram senão... um ponto final. Ou, pelo contrário, que o ponto final afinal era uma coisa que talvez. Outras há em que o ponto é tão peremptório que se rematam as frases nestes termos:


- Ponto final parágrafo 

Provérbio provado rimado - CMLXXVIII

Por ti desinstalei o Tinder 

Já novos matches não faço 

Acho que merecia um Kinder 

E depois do chocolate um abraço 


Ai estou tão feliz contigo 

Que gostas de mim eu aposto 

Pois és também meu amigo 

Engana-me mais que eu gosto 



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Provérbio provado rimado - CMLXXVII

O argumento do burro é um coice 

Tal qual o martelo sem foice 

Só martela essa ferramenta 

Sem a foice ninguém a aguenta 


Como o burro tem duas palas 

Como ele dá o peito às balas 

O patrão versus empregado 

Mais parece um disco riscado 


Claro que o valor não retiro 

Nem ideias patetas atiro 

É uma luta meritória 

Que não deve ser transitória 


Mas um léxico urge inventar 

Que não seja apenas repisar 

Cativar novos eleitores 

Significa comprar dissabores 


Aceitar vozes dissonantes 

Não as ostracizar como errantes 

E cumprir já que se promete 

Guardar de vez a cassete 



Provérbio provado rimado - CMLXXVI

Deves sempre desconfiar 

De quem te lança um desafio 

O que quer é somente esmifrar 

Por-te a andar num corropio 


Por engraxar-te começam 

Dizem que és muito capacitado 

Mas nem que aumentos ofereçam 

Acredita que estás bem lixado 


Desafio é pois eufemismo 

P'ra te porem a vergar a mola 

É linguagem do caciquismo 

Que nos empregos faz escola 



Provérbio provado num verso branco - CV

A poesia é uma coisa a vida é outra 

Nos versos a verdadeira redenção para a dor 

O sangue que cai não mancha as carpetes 

E as lágrimas vertidas engrossam os caudais dos rios 


Na poesia todas as árvores se movem 

Uma estrada leva a uma estrada que leva a uma estrada 

Os calcanhares não podem esmagar insectos 

Qualquer voo em ziguezague tem valor 

E um zumbido não é um teste à paciência 


A poesia é uma coisa a vida é outra 

A merda é a mesma as moscas é que mudam 



Provérbio provado rimado - CMLXXV

Quando aflige o passado 

Por ser coisa que não encanta 

É como ter atravessado 

Um espinho dentro da garganta 


Praticar o despojamento 

Reduzir-se ao essencial 

Marca muito o crescimento 

De maturidade é sinal 


Saber lidar com os destroços 

Libertar o que tem de partir 

Poder destruir os colossos 

Que fazem a vida a fingir 


As memórias poder rasgar 

Como páginas de um caderno

E um novo amor abraçar 

Infinito e quase eterno 


Deixar sem olhar para trás 

Abraçar a constante mudança 

O coração não se desfaz 

Segue em frente com confiança



Provérbio provado rimado - CMLXXIV

A moda dos romances de rainhas 

Que contam cenas comezinhas 

São escritas por umas madames 

Que dão autógrafos em certames 


Há a marquesa de Alorna 

Não teve uma vivência morna 

Há a duquesa do Cadaval 

Com a sua vida colossal 


Também a Inês de Castro 

Que tinha pele de alabastro 

E a Dona Luísa de Gusmão 

Que pariu os filhos num colchão 


Quem as lê são só mulheres 

Não se queixam dos caracteres 

Consomem aquilo num instante 

O seu sucesso é flagrante


E até repetem a leitura 

Se a dama tem muita finura 

Trajada com vestidos aos folhos 

Lança-lhes poeira para os olhos 


Pois a História é romanceada 

Pela caneta foi mutilada 

Mas engolem tudo as leitoras 

Dessas tretas são enfardadoras 



Provérbio provado rimado - CMLXXIII

O José gosta de imitar 

O que é dos outros cobiçar 

É muito pouco original 

De um fraco Eu é sinal 


É apenas contrafacção 

Ele tem falta de opinião 

Há-de ser sempre suplente 

E habitar num ego descontente


O José já é conhecido 

Por ser um mal agradecido 

Até lhe chamam Zé Nabiça 

Quanto vê quanto cobiça 



quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Provérbio provado rimado - CMLXXII

Estou tão apaixonada por ti 

Nem creio no que escrevi 

Devia era ficar calada 

Dizê-lo não adianta nada 


Pois se tu pouco verbalizas 

E neste amor pões balizas 

É deitar conversa fora 

Se te digo amo-te agora 



Provérbio provado descarrilado

Senhores passageiros:

Toda a gente flutua e hesita: é uma característica de quem é humano e não anda só a ver passar os comboios: todos os que são curiosos e autenticamente fiéis aos seus fluxos, entram e saem das carruagens, mesmo que às vezes em apeadeiros que não as estações homologadas. Somos na vida uma composição que por vezes descarrila. 


- Andar a ver passar os comboios 

Provérbio previsto - II

O estabelecimento da Dona Joaquina fica no Bairro Antigo, ao lado da loja do Mestre André. Todas as tardes vigia os putos que saem da escola, mas apanham-na constantemente desprevenida. Roubam-lhe fruta, quase sempre maçãs, e gritam-lhe enquanto correm: Ó J'aquina, vem à esquina! 

Na mesma rua, mais acima, tem posição a tasca do Ti João, onde há pão com requeijão ou o que estiver à mão a acompanhar com o verde tinto da terra. O Evaristo também tem lá disto. 

A Ângela é quase tão velha como a Dona Joaquina, mas tem pouco de anjo e prefere a tasca do Ti João à mercearia. És levada da breca, é o que ele responde quando ela lhe pisca o olho: Ó João, mal feches hoje o estaminé, vens comigo, há mês e meio que não vejo o padeiro! 

O Poeta nasceu de colher de prata na boca, mas gosta de onde cheira a torresmos. Perde-se por esta calçada ao fim do dia quando sai da farmácia onde vai ser hipocondríaco para cortejar a Menina Lina que lhe dá verdadeiras dores de cabeça. Entra pela mercearia adentro e pede: Ó Dona J'aquina, embrulhe-me aí um poema. Ela dá-lhe uma maçã e ele segue para casa satisfeito, sabendo que à hora de deitar terá um verso onde morder. 

Depois de enxotar o Poeta uma vez mais, a Menina Lina descerra a grade da farmácia e toma um frasco inteiro de barbitúricos. Todo o Bairro Antigo se acotovela no velório que antecede as exéquias. A Dona Joaquina avilta: Aqueles olhos de carneiro mal morto nunca me enganaram, sempre soube que era doida varrida! O Mestre André aquiesce: sempre desconfiei das pessoas que não gostam de música, olhem que nunca entrou na minha loja, nem para comprar um pifarito! O Ti João acrescenta: nem para pedir um copo de água levantava os olhos do chão, eu já pressentia que tinha um grande mal com ela, coitada! A Ângela rebaixa: sempre tão tapada, tão pudica, tão não-me-toques, o que a falta de sexo faz às pessoas! O Poeta chega enfim, a tempo de largar um shiu no meio do burburinho, e lamenta: eu já previa que ela um dia ia morrer de amor...


- Depois do mal feito todos o tinham previsto