Provérbios Provados noutras casas:

domingo, 1 de novembro de 2026

Provérbio provado do gato enroscado


O Duarte, de pé no centro da sala, brincava com o molho das chaves. Repetia as frases habituais
de fim de tarde, à medida que se adensava o crepúsculo. O que vamos fazer para o jantar?, Vens comigo ao supermercado?, Fizeste a lista das compras?
Bárbara não esboçou qualquer gesto de aprovação. Limitou-se a continuar parada, com o comando da televisão na mão esquerda e uma esferográfica na direita que traçava círculos no ar. Não, não fizera a lista, respondeu finalmente ao marido.
Há mais de um mês que sentia alienada sem que adivinhasse uma razão. Habitualmente comunicativa e vibrante, havia caído numa apatia confusa e sentia-se sem energia para falar com Duarte, que não parecia dar por nada.
Do sofá, tirou vagarosamente as medidas ao marido. Era aquela rotina morna que estava a devorá-la por dentro, a vida conjugal sem história digna de filme, o sexo repetitivo e sem ardor.
O gato Migalhas, arredio como os felinos tão bem sabem ser, andava por ali perto nas suas voltas. Ao contrário do que era habitual, foi encostar-se às pernas da dona. Como ela não se mexesse, saltou-lhe para o colo e enroscou-se, fitando-a com firmeza com os claros olhos hipnotizantes.
O Duarte continuava parado no meio da sala, à espera. Ficou assim uns dois minutos, que a Bárbara pareceram uma eternidade. Ao ver que a mulher o mirava sem reacção, perguntou O que tens?


- O gato comeu-te a língua? 

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