sábado, 8 de fevereiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCDXII
Provérbio provado rimado - MCDXI
Provérbio provado rimado - MCDX
Provérbio provado rimado - MCDIX
Provérbio provado rimado - MCDVIII
Tens um par de mestrados
E mais um doutoramento
E geres bens importados
Que te asseguram sustento
Da junta o presidente
Do clube o manda-chuva
Em tudo és mais inteligente
Do que quem te coadjuva
Com tal tamanho te sentes
O mais importante em redor
Mas escondendo só mentes
Porque te achas o maior
Sofres de uma patologia
Que não é senão arrogância
Por teres tão grave mania
De exagerada importância
Quando os demais te descrevem
E o ego ninguém te afaga
Acreditas que todos te devem
Mas nenhuma pessoa te paga
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCDVII
É um grande mestre o amor
Que ensina de uma só vez
Pode ser melhor ou pior
Mas não admite um talvez
Contudo a palavra exagero
Não existe no seu dicionário
Pois desde que seja sincero
Tem um novo vocabulário
E quando ele surge de frente
Ninguém lhe diz que não vai
Ninguém se afirma descrente
Dessa religião que não cai
Provérbio provado rimado - MCDVI
Há um qualquer deslumbre
Naquilo que tu me transmites
Por isso dá-me um vislumbre
Se é que assim o permites
Não escondas a tua emoção
Levanta a ponta do véu
E nada receies João
Dou-te tudo o que é meu
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCDV
Tens oito dedos na mão
Mas utilizas só dois
És mestre da contenção
Poupas os seis para depois
Ao menos dás-lhes bom uso
Sempre agarras e fazes
Não entres em parafuso
Que esses são bem capazes
Porém se tens só dois dedos
E queres os tais oito usar
Além do que são normais medos
Vais-te decerto cansar
Provérbio provado num verso branco - CXLVII
Provérbio provado rimado - MCDIV
A ambição potencia a glória
É o caminho para a vitória
Mas em cada um tal dimensão
Não existe em igual proporção
Quem é muito ambicioso
De ter fama está desejoso
E aqueles a quem não agrada
Estão metidos em bela alhada
Defeito que é como a fome
Em que só o faminto consome
Pois a lei é o seu apetite
Nem sequer respeita convite
Dos pobres ela é a riqueza
Que nenhum indivíduo despreza
Se a gana de mais possuir
Não lhe permitir dividir
É tão alta a tal escadaria
Onde à glória se ascenderia
E os que a sobem por ambição
É por ela que vêm ao chão
Provérbio provado rimado - MCDIII
O corpo prescinde da alma
Pedindo-lhe sempre mais calma
E nesse acto de recusa
A alma o cansaço acusa
Nessa vã dicotomia
Um deles mais se afligia
Ou está o corpo escondido
Ou perde a alma o sentido
O homem é assim inimigo
De si próprio como um castigo
Quando o que pretende é paz
Enfrenta essa guerra tenaz
Nem corpo nem alma desistem
Para ter primazia resistem
Ambos disputam a meta
Como uma sociedade secreta
Será que conhece alguém
As fronteiras que a alma tem
Pois ela comanda o destino
De que o corpo é peregrino
Se a alma limpa o corpo
Ficando exausto de borco
É também limpa pelo amor
Que a purifica em redor
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCDII
Se sequer Deus nos conhece
Ninguém é como parece
Cada um tem veia escondida
Que é seu segredo de vida
Na artéria mais sofredora
Reza tal fé duradoura
De que nem Deus desconfia
É a auto-sabedoria
Colocar só no ego o pendor
Tal como se faz no amor
É atitude desastrosa
E de progressão ruinosa
Há-de chegar uma altura
De andar mais à procura
Do que no sangue faz falta
E que ao coração exalta
Que um homem sempre precisa
De quem lhe empreste a camisa
De outros a quem se unir
Que também o vejam sorrir
Que quando o sorriso devolvem
Essa tal fé lhe renovem
De amigos que o acompanhem
Em afecto não se acanhem
Que o ajudem no caminho
Não se é feliz sozinho
É mais útil a partilha
Nenhum homem é uma ilha
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCDI
Eu quero tanto agradar-te
Que construo os alicerces
Para que possa abraçar-te
E ver se assim estremeces
Bem atiro o barro à parede
E também lanço a escada
Para ver se me vens à rede
Mas o que encontro é nada
Com a mão cheia de ar
E os dedos todos vazios
Não me adianta chorar
Por ficar a ver navios
Provérbio provado rimado - MCD
Agradar a si mesmo é orgulho
Agradar aos demais é vaidade
Que essa arte é engulho
De quem enganar tem vontade
Jamais falar do seu ser
Mas só do outro à frente
Para assim poder aparecer
Como agradador competente
Essa forma de engraxar
De expediente não passa
Para todos ludibriar
Com um arzinho de graça
E ao cometer um agravo
Percebendo que é má altura
Há que dar uma no cravo
E logo outra na ferradura
sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
Provérbio provado rimado - MCCCXCIX
Provérbio provado rimado - MCCCXCVIII
Provérbio provado rimado - MCCCXCVII
Um acordo sem simpatia
Com alguém que dá alergia
Cria uma relação antipática
Com tudo para ser traumática
Pois não vale a pena forçar
Que dois formem um par
Tal como marido e mulher
Sem qualquer opção de escolher
Como um casamento arranjado
Que foi por outrem combinado
Assinam na cruz os nubentes
Com expressões descontentes
São a conviver obrigados
Apesar de tão contrariados
E o senso comum extravasam
Quando os santos não casam
Provérbio provado rimado - MCCCXCVI
Quando começas a falar
O meu instinto é desligar
Eu digo que estou de acordo
Mas só vagamente o recordo
Vejo os teus lábios mexer
Nada sou capaz de reter
Tal como um desenho animado
Todo o discurso é escusado
Não tenho a menor intenção
De levar em consideração
Um grama do que proferes
Ou as opções que escolheres
Eu largo-te à tua sorte
E tal como dizem no Norte
Cago de alto para ti
Olha já nem estou aqui
Provérbio provado de um advogado culpado
Acabados os anos suados em cima das alíneas do Direito Constitucional e as remelas nos olhos à conta dos vários Códigos que propunham as leis, o Raul ainda teve de estudar mais um par de meses para o exame da Ordem. Nunca pensou, quando em menino jurou que se havia de tornar num advogado a sério, que choraria lágrimas tão amargas durante o curso: toda a aprendizagem trouxera dificuldade e não prazer, como suposera.
Coração ao alto e figas atrás das costas, o Raul obteve uma média que lhe assegurou um patrono dentro da média que lhe pagava um salário mediano. Ao fim de pouco tempo de labor, percebeu que um advogado honesto de pouco servia quando os clientes precisavam era de um advogado desonesto.
O que importava era o sucesso de cada processo, já que a consciência abraçava a almofada mas não punha comida na mesa. Aprendeu a mostrar sempre uma fisionomia cheia de esperança a todos os clientes que lhe caiam no colo, apoiada num eventual contorno da lei. Se havia até leis que sobreviviam das próprias excepções... No meio de mesuras e apertos de mão, o segredo era apresentar-se como a escolha mais acertada para cada caso.
No final das sedes, o juiz acabava por pender para o lado que demonstrava possuir o melhor advogado: o mais pertinente e coerente, mas também o mais incisivo. O advogado que escolheria para si próprio se acaso fosse réu. Que o defenderia até ao limiar da mentira, de tal forma que esta surgia com as mesmas roupas que a verdade envergava. Diz-me quem te defende, dir-te-ei como te safas, assim era na barra do tribunal.
O Raul conseguia engraxar com inteligência tanto os magistrados como os seus inocentes clientes. Inocentes até prova em contrário. E a prova em contrário tinha sempre um centímetro de dúvida por onde puxar.
Como não estava acima da lei, ao fim de alguns anos na profissão, teve o Fisco no seu encalço. A evasão fiscal revelara-se demasiado tentadora e mais ligeira a cada nova tentativa. Mesmo ajuizando por si mesmo que era um acto moralmente reprovável e punível por lei, o Raul não deu parte de fraco e alinhavou um requerimento de recurso.
- Ninguém é bom juiz nem mau advogado em causa própria
quarta-feira, 15 de janeiro de 2025
Provérbio provado de um nariz incomodado
Fosse por força da intolerante modernidade sempre com os nervos à flor da pele, fosse por causa do sentido de humor que vai decrescendo com a idade e a quantidade de cordas roídas; fosse como fosse, os seus santos não casavam e a Lígia e o Sérgio mal se podiam ver. Na verdade, era mais a Lígia que não suportava a presença do colega, mas, como a antipatia com antipatia se paga, ele começou a retribuir a carcaça.
Viam-se forçados a conviver, as secretárias lado a lado, durante o terço de vida que o emprego lhes tomava. O trabalho é uma fatalidade, é certo, mas para estes dois esta adversidade enfastiava mais do que o tempo a passar com os seus números circulares.
É engraçado como se detestavam tanto tendo no entanto uma característica comum: ambos precisavam de adulação avulsa na forma de atenção do sexo oposto. Mas essa necessidade de admiração não era tão aleatória como parecia: que viesse, que viesse em barda, mas nunca da secretária ao lado.
Nem se pode dizer que tivessem vivido uma primeira impressão mútua e toscamente agradável, como o são muitas vezes as primeiras miradas antes das decepções rasgarem terreno. Nem os olhos claros do Sérgio, lisos como um lago, impassíveis e de aparentemente impossíveis ricochetes, convenceram a Lígia de que estava na presença de um humano com hipótese de alguma vez lhe vir a agradar.
Talvez toda essa antipatia lhe viesse do nariz. É que o Sérgio cheirava tremendamente mal, parecendo transportar um cesto grande de cebolas por dentro da roupa. O pior é que o próprio Sérgio parecia carecer de olfacto. Ou pior ainda - porque há sempre um pior, principalmente quando o mesmo podia ser pior - o Sérgio gostava do odor a macho que exalava, não tendo noção que incomodava, e muito!, a sua vizinha de secretária.
A Lígia bem abria as janelas de par em par, bem inventava paragens noutros pontos da sala de trabalho para tirar dúvidas, bem dizia para o colega de forma indirecta Hoje está aqui um cheiro que não se aguenta! Era debalde, ele não acusava o toque e aquele cheiro a bode suado não deixava de a incomodar sobremaneira.
Era tal a impressão produzida nos seus órgãos receptores pelas partículas olfactivas que emanavam do corpo do vizinho que, por vezes, no tempo dos sovacos veranis mais quentes, um vómito lhe ameaçava a laringe. O fedor era de tão e tamanha insistência que, ainda o Sérgio não tinha virado a esquina de manhã, já a sua presença se fazia anunciar e, do mesmo modo, perdurava durante largos minutos após ter transportado o corpanzil na direcção da poluição atmosférica de outras paragens.
Desconhecia-se a causa do odor importuno. E lançavam-se hipóteses: que talvez o colega não apreciasse a água corrente ou que, em apreciando, não colocava a roupa suada a lavar e a vestia impregnada de ontens. O que era certo é que deixava rasto, parecendo não se aperceber ou então tolerar a contaminação em redor.
- Cada qual aprecia o cheiro do seu monturo

















