Provérbios Provados noutras casas:

terça-feira, 14 de julho de 2026

Provérbio provado do poeta alegado

Tal como de médico e de louco, também de poeta todos temos um pouco. E será mesmo só um pouco? Talvez um pouco mais do que um pouco apenas, que a veia poética é uma pulsão que produz sempre quociente.

Mas afinal o que tolhe esses poetas potenciais? A ditadura da coerência. A imposição dum procedimento. O procedimento que há-de permitir o estilo.  A confusão entre o estilo e a própria voz. A vida a que chamam real que não cede espaço a fantasias. Mas principalmente a vergonha. Ou melhor, o receio da vergonha antes que sequer ela assome. O medo do ridículo acena com um purgatório constante.

Chega a ser curioso que não se questionem a norma e a imposição sociais que acabam também por conter uma percentagem de erro e até de abstração.
Um dia, quando tudo for estatística, amparar a mediana será uma tentação.

Recuperando a meada, esticado que vai o fio no percurso, existe então uma veia poética universal inexplorada pela humanidade?
A fala do corpo não pode reclamar exclusividade; a voz interior, essa sim!, assina qualquer desejo com maior expressividade.

Os indivíduos continuam a surpreender-se com o rumo que seguem os próprios pensamentos quando a realidade extravasa o molde. São momentos de assombro e de convívio entre o temor e o espanto.
Para além das primeiras impressões, manda a óptica. Ter retina não basta. O sobrolho não se franze com linhas iguais em todos os olhos. Pestanas e sobrancelhas não dependem de compassos pré-determinados.
O modo de ver de cada pessoa muda as ocorrências para que melhor sirvam às circunstâncias.

Enquanto o médico e o louco têm uma receita para todas as questões, o poeta não apresenta soluções. Quando muito, imprime ncvos ritmos às perspectivas de quem o lê.
De cada vez que a leitura de um verso destapa uma nova estrada para um pensamento antigo, ocorrendo uma sensação de familiaridade ou identificação, não vale a pena procurar mais: é então que ocorre poesia.



- De poeta e de louco todos temos um pouco 

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