O Renato veio da aldeia
Para casar com rica feia
Que o trata como capacho
O põe ao fogão com o tacho
Pois pobre com rica casado
Mais que marido é criado
E ela é mulher de janela
Nem costura nem panela
quinta-feira, 28 de maio de 2020
quarta-feira, 27 de maio de 2020
Provérbio provado rimado - DCCCLVII
O melhor tempero é a fome
É melhor que pimenta e sal
O saco vazio quando come
Tudo lhe sabe divinal
Não escolhe nem é esquisito
E aceita qualquer refeição
Que o estômago está aflito
Aguarda a sua porção
É melhor que pimenta e sal
O saco vazio quando come
Tudo lhe sabe divinal
Não escolhe nem é esquisito
E aceita qualquer refeição
Que o estômago está aflito
Aguarda a sua porção
Provérbio provado rimado - DCCCLVI
O teu nome próprio é comum
Tu tão próprio como nenhum
Os teus olhos verdes atentos
Às vezes parecem cinzentos
Os teus dedos são tão compridos
Onde os meus repousam esquecidos
O meu corpo encaixa no teu
E assim fica mais perto do céu
Ficamos horas a falar
Até um de nós se cansar
Gosto quando a boca me beijas
É sinal de que até me desejas
Pois a boca que se beijou
Nunca mal se desejou
Guardo da tua a memória
Para escrever a nossa história
Tu tão próprio como nenhum
Os teus olhos verdes atentos
Às vezes parecem cinzentos
Os teus dedos são tão compridos
Onde os meus repousam esquecidos
O meu corpo encaixa no teu
E assim fica mais perto do céu
Ficamos horas a falar
Até um de nós se cansar
Gosto quando a boca me beijas
É sinal de que até me desejas
Pois a boca que se beijou
Nunca mal se desejou
Guardo da tua a memória
Para escrever a nossa história
Provérbio provado rimado - DCCCLV
Dois olhos na cara nós temos
Para ter a dobrar atenção
Às vezes olhamos e não vemos
Tudo está na nossa intenção
Quando o da direita vigia
O grupo inteiro de amigas
O da esquerda vê a biologia
De um carreiro de formigas
Uma nuvem que passa de um lado
Do outro num ramo mais perto
Pousa um pássaro em tal trinado
Cantando neste céu aberto
Um olho no peixe outro no gato
Um olho no burro outro no cigano
Um olho no garfo outro no prato
Se há dois olhos há sempre engano
Para ter a dobrar atenção
Às vezes olhamos e não vemos
Tudo está na nossa intenção
Quando o da direita vigia
O grupo inteiro de amigas
O da esquerda vê a biologia
De um carreiro de formigas
Uma nuvem que passa de um lado
Do outro num ramo mais perto
Pousa um pássaro em tal trinado
Cantando neste céu aberto
Um olho no peixe outro no gato
Um olho no burro outro no cigano
Um olho no garfo outro no prato
Se há dois olhos há sempre engano
terça-feira, 26 de maio de 2020
Provérbio provado rimado - DCCCLIV
Não vás mijar contra o vento
Muito menos se for ao relento
É uma actividade sem arte
E má ideia da tua parte
Não comas de boca cheia
Que é uma coisa tão feia
De te repetir não me canso
E tu sempre armado em tanso
Não fales antes de pensar
Pois tens a mania de chocar
Gostas de ser diferente
Lá nisso tu és competente
Não sejas fora da caixa
Bate mas é a bola baixa
Que o guarda redes é anão
Mas pode defender com a mão
Muito menos se for ao relento
É uma actividade sem arte
E má ideia da tua parte
Não comas de boca cheia
Que é uma coisa tão feia
De te repetir não me canso
E tu sempre armado em tanso
Não fales antes de pensar
Pois tens a mania de chocar
Gostas de ser diferente
Lá nisso tu és competente
Não sejas fora da caixa
Bate mas é a bola baixa
Que o guarda redes é anão
Mas pode defender com a mão
Provérbio enraivecido
O Ricardo era o irmão do meio e o mais equilibrado dos três. O mais velho era um estroina que só queria carros e mulheres de alta cilindrada. O mais novo também gostava de viaturas potentes, sendo no entanto sempre fiel à mesma namorada de infância: uma loura alta e estonteante que exigia alta manutenção e lhe fazia a cabeça em água.
O Ricardo tinha o seu Fiat que fazia um barulho de charrete e o seu metro e sessenta de Fátima, a namorada desenxabida que vivia numa cidade distante onde passava os dias enfiada num laboratório farmacêutico a trabalhar.
Os pais confiavam no Ricardo para gerir o negócio familiar. A bem dizer, os três irmãos tinham a tarefa entre mãos, sendo que o mais velho contactava directamente com os fornecedores e ao mais novo cabia a gestão de marketing, mas no fim das contas sobrava tudo para o bom do Ricardo pois, entre as ressacas de um e as escapadelas românticas do outro, este era sábio, constante e diligente e não deixava ninguém pendurado.
Até que um dia os pais, já entradotes na idade, resolveram ir gozar a reforma dourada num país dos trópicos e reuniram os três filhos para lhes comunicarem a decisão da divisão do negócio em partes iguais. Assim mesmo, sem tirar em pôr: um terço para cada um, trinta e três vírgula três três três por cento para cada um.
O mais velho sorriu satisfeito. O mais novo sorriu satisfeito. O Ricardo deixou cair os cantos da boca, começou a enrubescer, a enrubescer, até ficar com a cara em brasa e, de repente, saltou como uma mola da cadeira onde estivera até então sentado, crispou os dedos raivosos nas costas da cadeira e atirou-a com força na direcção dos expositores onde se dispunha todo o merchandising negocial. Finaram-se um a um, não sobrou pedra sobre pedra, ou melhor estilhaço sobre estilhaço. No fim de partir tudo à sua volta, Ricardo sorriu satisfeito.
- Quando a raiva chega, a sabedoria parte
O Ricardo tinha o seu Fiat que fazia um barulho de charrete e o seu metro e sessenta de Fátima, a namorada desenxabida que vivia numa cidade distante onde passava os dias enfiada num laboratório farmacêutico a trabalhar.
Os pais confiavam no Ricardo para gerir o negócio familiar. A bem dizer, os três irmãos tinham a tarefa entre mãos, sendo que o mais velho contactava directamente com os fornecedores e ao mais novo cabia a gestão de marketing, mas no fim das contas sobrava tudo para o bom do Ricardo pois, entre as ressacas de um e as escapadelas românticas do outro, este era sábio, constante e diligente e não deixava ninguém pendurado.
Até que um dia os pais, já entradotes na idade, resolveram ir gozar a reforma dourada num país dos trópicos e reuniram os três filhos para lhes comunicarem a decisão da divisão do negócio em partes iguais. Assim mesmo, sem tirar em pôr: um terço para cada um, trinta e três vírgula três três três por cento para cada um.
O mais velho sorriu satisfeito. O mais novo sorriu satisfeito. O Ricardo deixou cair os cantos da boca, começou a enrubescer, a enrubescer, até ficar com a cara em brasa e, de repente, saltou como uma mola da cadeira onde estivera até então sentado, crispou os dedos raivosos nas costas da cadeira e atirou-a com força na direcção dos expositores onde se dispunha todo o merchandising negocial. Finaram-se um a um, não sobrou pedra sobre pedra, ou melhor estilhaço sobre estilhaço. No fim de partir tudo à sua volta, Ricardo sorriu satisfeito.
- Quando a raiva chega, a sabedoria parte
Provérbio provado rimado - DCCCLIII
Queres sopas depois do almoço
Tu nunca estás satisfeito
Até comes da fruta o caroço
Viras a refeição toda a eito
Nunca vi tamanho comilão
Gostas de doce e salgado
E ainda estás na digestão
Para o lanche estás preparado
Ainda reclamas com fome
Quando à noite a luz se apaga
Mas olha que quem muito come
Normalmente também muito caga
Tenho pena da tua sanita
Do autoclismo que trabalha
Não deve ser tarefa bonita
O número de vezes que calha
Estás constantemente a obrar
E logo hoje que foi feijoada
Faço ideia o aroma no ar
A cada tua nova tirada
Tu nunca estás satisfeito
Até comes da fruta o caroço
Viras a refeição toda a eito
Nunca vi tamanho comilão
Gostas de doce e salgado
E ainda estás na digestão
Para o lanche estás preparado
Ainda reclamas com fome
Quando à noite a luz se apaga
Mas olha que quem muito come
Normalmente também muito caga
Tenho pena da tua sanita
Do autoclismo que trabalha
Não deve ser tarefa bonita
O número de vezes que calha
Estás constantemente a obrar
E logo hoje que foi feijoada
Faço ideia o aroma no ar
A cada tua nova tirada
Provérbio provado rimado - DCCCLII
Em latim é esta expressão
Mas é fácil a tradução
Mens sana in corpore sano
Assim deve ser todo o ano
Significa que aliar convém
A mente ao corpo também
Se o corpo o ginásio frequenta
Que trabalhe a massa cinzenta
Mas é fácil a tradução
Mens sana in corpore sano
Assim deve ser todo o ano
Significa que aliar convém
A mente ao corpo também
Se o corpo o ginásio frequenta
Que trabalhe a massa cinzenta
sábado, 23 de maio de 2020
Provérbio provado num verso branco - LXXXVI
Temos de viver como se eternos
Sem uma morte pensada
A morte é a ausência de pensamento
(Nem o cansaço extremo a ausência de pensamento)
Que revelará os segredos da vida
Sem uma morte pensada
Pensar completamente a morte é morrer
A morte não chega de véspera
Sem uma morte pensada
A morte é a ausência de pensamento
(Nem o cansaço extremo a ausência de pensamento)
Que revelará os segredos da vida
Sem uma morte pensada
Pensar completamente a morte é morrer
A morte não chega de véspera
Provérbio provado rimado - DCCCLI
Farta-te gato que é dia de Entrudo
Lá fora na rua anda um cabeçudo
Hoje tu terás ração melhorada
Por ser Carnaval parece piada
Andam matrafonas ali na festa
Palhaços e índios com setas na testa
Super heróis e demais bonecada
Cada um com sua partida pregada
Passam tantos foliões divertidos
Das agruras da vida esquecidos
Sambistas e corsos carnavalescos
Uns encalorados outros mais frescos
Mas olha ó gato que faltam mais dois
Dias de Entrudo para gozar depois
Vais ter mais refeições cada dia
Na quarta feira acaba a gritaria
Lá fora na rua anda um cabeçudo
Hoje tu terás ração melhorada
Por ser Carnaval parece piada
Andam matrafonas ali na festa
Palhaços e índios com setas na testa
Super heróis e demais bonecada
Cada um com sua partida pregada
Passam tantos foliões divertidos
Das agruras da vida esquecidos
Sambistas e corsos carnavalescos
Uns encalorados outros mais frescos
Mas olha ó gato que faltam mais dois
Dias de Entrudo para gozar depois
Vais ter mais refeições cada dia
Na quarta feira acaba a gritaria
Provérbio provado rimado - DCCCL
A ausência e também a distância
Confirmam muito a constância
Pois quando ao longe estamos
As pessoas mais valorizamos
Por ser tão grande a saudade
Sentimos falta de verdade
E então cada pormenor
Só engrandece o amor
É quando enfim nos unimos
O caminho das bocas seguimos
Seja homem ou seja mulher
Só se beija a quem se quer
Confirmam muito a constância
Pois quando ao longe estamos
As pessoas mais valorizamos
Por ser tão grande a saudade
Sentimos falta de verdade
E então cada pormenor
Só engrandece o amor
É quando enfim nos unimos
O caminho das bocas seguimos
Seja homem ou seja mulher
Só se beija a quem se quer
Provérbio provado rimado - DCCCXLIX
Acordaste com bafo de onça
E ainda te fazes de sonsa
Reconhece que exageraste
Da bebida ontem abusaste
A boca sabe-te a papel
De romances de cordel
Lava a cara com água fria
Recupera lá dessa azia
E ainda te fazes de sonsa
Reconhece que exageraste
Da bebida ontem abusaste
A boca sabe-te a papel
De romances de cordel
Lava a cara com água fria
Recupera lá dessa azia
Provérbio provado rimado - DCCCXLVIII
A Célia era um pouco feinha
Não teve muitos namorados
Passou muito tempo sozinha
Aos pais fazendo recados
Um dia o Tomé apareceu
E da nossa Célia gostou
A vontade dos dois concebeu
Um bebé que cedo chegou
Foi grande a correria
Para a boda preparar
A barriga mal aparecia
Era preciso disfarçar
Então deu-se o casamento
Num dia comprido de verão
O nosso Tomé ciumento
O anel lhe quis pôr na mão
Pois a Célia tão requisitada
Por encantos que foram repentes
Que depois da noiva casada
Não lhe faltam pretendentes
Não teve muitos namorados
Passou muito tempo sozinha
Aos pais fazendo recados
Um dia o Tomé apareceu
E da nossa Célia gostou
A vontade dos dois concebeu
Um bebé que cedo chegou
Foi grande a correria
Para a boda preparar
A barriga mal aparecia
Era preciso disfarçar
Então deu-se o casamento
Num dia comprido de verão
O nosso Tomé ciumento
O anel lhe quis pôr na mão
Pois a Célia tão requisitada
Por encantos que foram repentes
Que depois da noiva casada
Não lhe faltam pretendentes
Provérbio provado rimado - DCCCXLVI
Que grande forrobodó
Já amanhã se aproxima
Vem a tia e vem a avó
Vem o genro e vem a prima
Vai ser enorme festança
Até vai meter churrasco
O adulto e também a criança
Tudo bebe directo do frasco
Comezainas e bebidas
É que não hão-de faltar
As tias ficam espremidas
Nas cintas até rebentar
À noite o baile caseiro
Será uma festa animada
Veremos quem é o primeiro
A tirar a camisa molhada
Viva o popular festejo
Que junta a malta toda
A união é um desejo
E a cabeça anda à roda
Já amanhã se aproxima
Vem a tia e vem a avó
Vem o genro e vem a prima
Vai ser enorme festança
Até vai meter churrasco
O adulto e também a criança
Tudo bebe directo do frasco
Comezainas e bebidas
É que não hão-de faltar
As tias ficam espremidas
Nas cintas até rebentar
À noite o baile caseiro
Será uma festa animada
Veremos quem é o primeiro
A tirar a camisa molhada
Viva o popular festejo
Que junta a malta toda
A união é um desejo
E a cabeça anda à roda
Provérbio provado rimado - DCCCXLV
Há quem saiba puxar em comum
Mas não saiba em comum pensar
Que as ideias não quer partilhar
Não se acerca de homem nenhum
Vai trilhando o seu caminho
Com os seus pensamentos na mente
Sabe Deus o quão impotente
Se sente tantas vezes sozinho
Podia ser mais companheiro
Praticar a entreajuda
Pois haverá quem acuda
Se ele precisar primeiro
Será egoísmo ou preguiça
Que lhe impedem a empatia?
Não conhece qualquer simpatia
Nem sequer quando vai à missa
Espera sempre que o outro do lado
Se lhe incline numa mesura
Até tem no bolso fartura
Mas diz que é remediado
No fundo faz mais quem quer
Do que quem apenas só pode
A água do capote sacode
Deixa tudo para quem vier
Mas não saiba em comum pensar
Que as ideias não quer partilhar
Não se acerca de homem nenhum
Vai trilhando o seu caminho
Com os seus pensamentos na mente
Sabe Deus o quão impotente
Se sente tantas vezes sozinho
Podia ser mais companheiro
Praticar a entreajuda
Pois haverá quem acuda
Se ele precisar primeiro
Será egoísmo ou preguiça
Que lhe impedem a empatia?
Não conhece qualquer simpatia
Nem sequer quando vai à missa
Espera sempre que o outro do lado
Se lhe incline numa mesura
Até tem no bolso fartura
Mas diz que é remediado
No fundo faz mais quem quer
Do que quem apenas só pode
A água do capote sacode
Deixa tudo para quem vier
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Provérbio provado a seu tempo desvendado
O que vou fazer com todo este tempo livre? - pensou. Dizer tempo livre era como que uma piada, já que não havia liberdade nesse tempo.
Tenho todos estes livros por ler, abri-los-ei um a um a lerei a primeira página de cada: assim decidirei quais as minhas prioridades de leitura, independentemente das opiniões dos críticos, do que já me sugeriram outras leituras, os meus amigos e os leitores dos fóruns que costumo frequentar - considerou.
O problema era que tinha a sua biblioteca pessoal tão criteriosamente organizada que tirava toda a espontaneidade ao acto: a poesia para um lado, o teatro para o outro, os romances nos seus variados géneros, os contos, as crónicas e no fim uma amálgama a que chamava Outros géneros literários onde cabia a literatura que não era capaz de classificar. Quatro grandes estantes espraiadas nisto da ficção. Depois do lado oposto da sala uma só estante, das mesmas dimensões mas mais desorganizada, a da não-ficção, onde se notava uma falta de carinho e de cuidado, mas ainda assim a Psicologia e a Filosofia andavam de mãos dadas, as ciências agrupavam-se e as artes brilhavam ao pé da História.
Que fazer?; desarrumar toda a biblioteca para que não fosse a organização desta um incentivo a nenhuma preferência ou encontrar uma forma aleatória de seleccionar a primeira página do primeiro livro?; fechar os olhos e apontar uma lombada completamente ao calhas? ou contar a sua idade (e naquele momento apercebeu-se que já vivera mais de metade da sua vida) ou o dia do seu aniversário ou o ano do seu nascimento várias vezes? - questionou-se.
Decidiu-se pela primeira opção e, depois de abrir os olhos e ver para que lombada o dedo apontava, pegou no primeiro livro. Com um sopro trémulo, descolou as primeiras folhas e sorveu as primeiras linhas. As palavras transformaram-se em lugares luminosos. Foi como se caminhasse por uma rua da sua cidade, ali encerrado em casa, aninhado como um bicho de contas, redondo e imóvel num longo silêncio. Se calhar a poesia não era a melhor escolha para o tempo de confinamento: punha-se um homem numa tal divagação que só encontrava ainda mais solidão. Como se numa maratona houvesse alguém correndo a seu lado mas na direcção contrária e esse alguém era a sua imagem reflectida no espelho.
Resolveu ir almoçar e deixar os poemas de lado. Fez arroz branco e abriu uma lata de salsichas: refeição frugal a condizer com o seu prato individual à mesa. Um copinho de vinho, porque afinal tanta sobriedade um dó de alma, já basta a maçã cortada aos quartos para sobremesa (haverá lá coisa mais sensaborona que uma maçã crua?).
A seguir ao almoço foi à varanda fumar. Disse boa tarde à vizinha que estendia roupa na varanda contígua. A vizinha desdobrando-se toda em boas vontades, que se ele precisasse de alguma coisa ela teria todo o gosto em providenciar, promessas de mercearias, até de sopa quente ao jantar. A vizinha lastimando-o por o saber em teletrabalho; fora assim que a empresa decidira por hora não fazer despedimentos, vamos ver, vamos ver se isto não dura muito tempo...
Nem lhe soube bem o cigarro, nunca havia trocado mais de um cumprimento forçado com a varanda do lado e, de repente agora, este despropósito, esta entreajuda, quase carnal não fossem os abraços proibidos, quase apostou que se pudesse a vizinha ali mesmo um abracinho varanda afora. Dona Dores, assim descobriu que se chama, onde lhe dói, minha senhora? - pensou, meio divertido meio acabrunhado.
Quando voltou para dentro, hesitou entre ir dormir uma sesta ou continuar a desvendar a biblioteca à procura da leitura perfeita. Deitou-se no sofá da sala, defronte das estantes da literatura e adormeceu fitando as lombadas. Assim que despertou, e sentindo a falta do café que não tomara após o almoço, dirigiu-se à cozinha e reparou que no enorme relógio de parede os ponteiros já marcavam as quatro da tarde. Um dia quase totalmente desperdiçado, bolas!, é esta a poesia do meu quotidiano confinado? - cogitou.
Apressou-se em enfrentar de novo as estantes e, num ápice, fechou os olhos empunhando o indicador. Nem olhou bem o título nem o autor, precipitou-se logo para o miolo, abrindo o livro a meio, subvertendo as regras do seu próprio jogo.
Analisando as poucas linhas que leu (era a história de um escritor fracassado), esta história lembrava-lhe do seu desejo de criança de um dia vir a escrever livros. Nunca o fizera. Talvez lhe faltasse o pêlo dos gatos, o chilreio dos pássaros ou saber o nome das espécies arbóreas: o escritor deve saber tanto de Botânica como da segunda lei da Termodinâmica. Fora apenas informático mas, repare-se!, um bom e meticuloso informático - repetia de si para si. Na empresa, porém, quase ninguém sabia do seu desejo de menino e limitava-se a escrever códigos binários.
Noutro dia, vira por acaso um concurso que premiaria com mil euros (que jeito lhe dariam agora mil euros!) quem escrevesse um conto de dez páginas sobre a quarentena. Sorriu: se conseguisse, tal como o protagonista do livro, escrever duas páginas já era muito! Além disso sobre o que escreveria?, sobre a biblioteca que queria desvendar, a poesia insípida do seu quotidiano ou a vizinha das Dores a precisar de um abracinho? - e adormeceu de novo no sofá, sem ter jantado, com a televisão ligada num programa de culinária.
- Atrás de tempo, tempo vem
Tenho todos estes livros por ler, abri-los-ei um a um a lerei a primeira página de cada: assim decidirei quais as minhas prioridades de leitura, independentemente das opiniões dos críticos, do que já me sugeriram outras leituras, os meus amigos e os leitores dos fóruns que costumo frequentar - considerou.
O problema era que tinha a sua biblioteca pessoal tão criteriosamente organizada que tirava toda a espontaneidade ao acto: a poesia para um lado, o teatro para o outro, os romances nos seus variados géneros, os contos, as crónicas e no fim uma amálgama a que chamava Outros géneros literários onde cabia a literatura que não era capaz de classificar. Quatro grandes estantes espraiadas nisto da ficção. Depois do lado oposto da sala uma só estante, das mesmas dimensões mas mais desorganizada, a da não-ficção, onde se notava uma falta de carinho e de cuidado, mas ainda assim a Psicologia e a Filosofia andavam de mãos dadas, as ciências agrupavam-se e as artes brilhavam ao pé da História.
Que fazer?; desarrumar toda a biblioteca para que não fosse a organização desta um incentivo a nenhuma preferência ou encontrar uma forma aleatória de seleccionar a primeira página do primeiro livro?; fechar os olhos e apontar uma lombada completamente ao calhas? ou contar a sua idade (e naquele momento apercebeu-se que já vivera mais de metade da sua vida) ou o dia do seu aniversário ou o ano do seu nascimento várias vezes? - questionou-se.
Decidiu-se pela primeira opção e, depois de abrir os olhos e ver para que lombada o dedo apontava, pegou no primeiro livro. Com um sopro trémulo, descolou as primeiras folhas e sorveu as primeiras linhas. As palavras transformaram-se em lugares luminosos. Foi como se caminhasse por uma rua da sua cidade, ali encerrado em casa, aninhado como um bicho de contas, redondo e imóvel num longo silêncio. Se calhar a poesia não era a melhor escolha para o tempo de confinamento: punha-se um homem numa tal divagação que só encontrava ainda mais solidão. Como se numa maratona houvesse alguém correndo a seu lado mas na direcção contrária e esse alguém era a sua imagem reflectida no espelho.
Resolveu ir almoçar e deixar os poemas de lado. Fez arroz branco e abriu uma lata de salsichas: refeição frugal a condizer com o seu prato individual à mesa. Um copinho de vinho, porque afinal tanta sobriedade um dó de alma, já basta a maçã cortada aos quartos para sobremesa (haverá lá coisa mais sensaborona que uma maçã crua?).
A seguir ao almoço foi à varanda fumar. Disse boa tarde à vizinha que estendia roupa na varanda contígua. A vizinha desdobrando-se toda em boas vontades, que se ele precisasse de alguma coisa ela teria todo o gosto em providenciar, promessas de mercearias, até de sopa quente ao jantar. A vizinha lastimando-o por o saber em teletrabalho; fora assim que a empresa decidira por hora não fazer despedimentos, vamos ver, vamos ver se isto não dura muito tempo...
Nem lhe soube bem o cigarro, nunca havia trocado mais de um cumprimento forçado com a varanda do lado e, de repente agora, este despropósito, esta entreajuda, quase carnal não fossem os abraços proibidos, quase apostou que se pudesse a vizinha ali mesmo um abracinho varanda afora. Dona Dores, assim descobriu que se chama, onde lhe dói, minha senhora? - pensou, meio divertido meio acabrunhado.
Quando voltou para dentro, hesitou entre ir dormir uma sesta ou continuar a desvendar a biblioteca à procura da leitura perfeita. Deitou-se no sofá da sala, defronte das estantes da literatura e adormeceu fitando as lombadas. Assim que despertou, e sentindo a falta do café que não tomara após o almoço, dirigiu-se à cozinha e reparou que no enorme relógio de parede os ponteiros já marcavam as quatro da tarde. Um dia quase totalmente desperdiçado, bolas!, é esta a poesia do meu quotidiano confinado? - cogitou.
Apressou-se em enfrentar de novo as estantes e, num ápice, fechou os olhos empunhando o indicador. Nem olhou bem o título nem o autor, precipitou-se logo para o miolo, abrindo o livro a meio, subvertendo as regras do seu próprio jogo.
Analisando as poucas linhas que leu (era a história de um escritor fracassado), esta história lembrava-lhe do seu desejo de criança de um dia vir a escrever livros. Nunca o fizera. Talvez lhe faltasse o pêlo dos gatos, o chilreio dos pássaros ou saber o nome das espécies arbóreas: o escritor deve saber tanto de Botânica como da segunda lei da Termodinâmica. Fora apenas informático mas, repare-se!, um bom e meticuloso informático - repetia de si para si. Na empresa, porém, quase ninguém sabia do seu desejo de menino e limitava-se a escrever códigos binários.
Noutro dia, vira por acaso um concurso que premiaria com mil euros (que jeito lhe dariam agora mil euros!) quem escrevesse um conto de dez páginas sobre a quarentena. Sorriu: se conseguisse, tal como o protagonista do livro, escrever duas páginas já era muito! Além disso sobre o que escreveria?, sobre a biblioteca que queria desvendar, a poesia insípida do seu quotidiano ou a vizinha das Dores a precisar de um abracinho? - e adormeceu de novo no sofá, sem ter jantado, com a televisão ligada num programa de culinária.
- Atrás de tempo, tempo vem
Provérbio provado nos Contos que cabem em casa - V
Mais um Provérbio provado para escutar nos Contos que cabem em casa. Espero que gostem do Provérbio canino feminino
Ouvir
Ouvir
Provérbio provado nos Contos que cabem em casa - IV
Mais um Provérbio Provado que cabe nos Contos que cabem em casa. Desta feita é o Provérbio planetário
Ouvir
Ouvir
Provérbio provado rimado - DCCCXLIV
A poesia é um esconderijo
Mas também um altifalante
Por um lado parece-se rijo
Por outro somente inconstante
A poesia não se explica
Porque só se pode sentir
E às vezes o verso que fica
É aquele que nos fez sorrir
A poesia é uma confissão
Para lá dos simples botões
Feita com cabeça e coração
Ou apenas cruas emoções
A poesia é talvez um trilho
Que para dentro conduz
Pode ser salvação ou sarilho
Mas decerto que assim seduz
A poesia até faz voar
Também da alma para fora
Leva a gente a viajar
Sem daqui se ir embora
A poesia é coisa qualquer
Que habita em todas as casas
A formiga quando se quer perder
Lê-a e logo depois cria asas
Mas também um altifalante
Por um lado parece-se rijo
Por outro somente inconstante
A poesia não se explica
Porque só se pode sentir
E às vezes o verso que fica
É aquele que nos fez sorrir
A poesia é uma confissão
Para lá dos simples botões
Feita com cabeça e coração
Ou apenas cruas emoções
A poesia é talvez um trilho
Que para dentro conduz
Pode ser salvação ou sarilho
Mas decerto que assim seduz
A poesia até faz voar
Também da alma para fora
Leva a gente a viajar
Sem daqui se ir embora
A poesia é coisa qualquer
Que habita em todas as casas
A formiga quando se quer perder
Lê-a e logo depois cria asas
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