Quem não tem esqueletos no armário
Que atire a primeira pedra
Isso é porque o imaginário
De boas ideias não medra
Macaquinhos na cabeça
E no sótão muitos baús
É bem normal não se esqueça
Que a originalidade seduz
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Provérbio provado rimado - V
Um take away queria abrir
Não sabia se pizza ou se tostas
P'ra depois poder fugir
Com uma perna às costas
Evasão era a palavra chave
Para um paraíso fiscal
E a ASAE era um entrave
No meio de tal chavascal
Foi assim que no fim da história
Deu um grande tiro no pé
Que só deixou a memória
Do sapato a cheirar a chulé
Não sabia se pizza ou se tostas
P'ra depois poder fugir
Com uma perna às costas
Evasão era a palavra chave
Para um paraíso fiscal
E a ASAE era um entrave
No meio de tal chavascal
Foi assim que no fim da história
Deu um grande tiro no pé
Que só deixou a memória
Do sapato a cheirar a chulé
Provérbio provado rimado - IV
Rimando escreveu os dez cantos
E compôs os épicos Lusíadas
Junto ao rei enfeitou-se de prantos
Como p'ra ganhar olimpíadas
Soube criar o Adamastor
E o feio velho do Restelo
São personagens com fervor
Que inventou cheio de zelo
E quando o Vasco da Gama
Se abeirou da Ilha dos amores
Acendeu-se em seus homens a chama
Ficaram a ferver com calores
Em vida perdeu um olho
Jaz agora nos Jerónimos
E ao fim do dia um ferrolho
Afasta os olhares anónimos
Assim conseguiu perdurar
E dar origem a expressões
Em nossa memória vai ficar
O ir chatear o Camões
E compôs os épicos Lusíadas
Junto ao rei enfeitou-se de prantos
Como p'ra ganhar olimpíadas
Soube criar o Adamastor
E o feio velho do Restelo
São personagens com fervor
Que inventou cheio de zelo
E quando o Vasco da Gama
Se abeirou da Ilha dos amores
Acendeu-se em seus homens a chama
Ficaram a ferver com calores
Em vida perdeu um olho
Jaz agora nos Jerónimos
E ao fim do dia um ferrolho
Afasta os olhares anónimos
Assim conseguiu perdurar
E dar origem a expressões
Em nossa memória vai ficar
O ir chatear o Camões
Provérbio provado rimado - III
Quando toca o despertador
Por engano fora da hora
Nem sei se frio se calor
Acordo logo com os pés de fora
Por engano fora da hora
Nem sei se frio se calor
Acordo logo com os pés de fora
Provérbio provado rimado - II
A verdade nada mais que a verdade
Com a mão na Bíblia a jurar
Mesmo ainda na puberdade
Do momento não se podem livrar
Com o coração a arder num fogo
São sempre logo apanhados
E têm de abrir o jogo
Inclusive p'ra carros roubados
É muito bonito o juiz
E o advogado é ainda mais
Antecipam o que o réu diz
Em circunstâncias ideais
P'lo menos é assim na América
Naqueles filmes de Hollywood
Cheios de gente histérica
Que demonstra apenas virtude
Com a mão na Bíblia a jurar
Mesmo ainda na puberdade
Do momento não se podem livrar
Com o coração a arder num fogo
São sempre logo apanhados
E têm de abrir o jogo
Inclusive p'ra carros roubados
É muito bonito o juiz
E o advogado é ainda mais
Antecipam o que o réu diz
Em circunstâncias ideais
P'lo menos é assim na América
Naqueles filmes de Hollywood
Cheios de gente histérica
Que demonstra apenas virtude
Provérbio provado rimado - I
Hoje só me apetece estar
Quieta à sombra da bananeira
Ou com sais de banho ficar
Duas longas horas na banheira
Com um copo de vinho ao lado
E um comprido livro p'ra ler
Ter o corpo todo relaxado
Para descansar do viver
Quieta à sombra da bananeira
Ou com sais de banho ficar
Duas longas horas na banheira
Com um copo de vinho ao lado
E um comprido livro p'ra ler
Ter o corpo todo relaxado
Para descansar do viver

Provérbios provados rimados
Hoje começa uma nova série (ou será saga?) dos Provérbios provados. Embora não vá deixar de me dedicar à prosa, apanhei a boleia das rimas que me andam a bailar na cabeça sem limite de velocidade. Serão todos em verso e far-se-ão acompanhar das ilustrações da Junkhead, que nem faz ideias o quanto os seus "bonecos" me têm inspirado. É deixá-la!, como dizia a minha avó, que deve ter mais que fazer do que ler quadras esgalhadas a metro.
Façam-me uma visita, pois serão sempre muito bem vindos. E também sempre, como é que é?, sempre a considerar-vos.
Façam-me uma visita, pois serão sempre muito bem vindos. E também sempre, como é que é?, sempre a considerar-vos.
Ilustrações retiradas de:
www.behance.net
www.behance.net
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Provérbio pária da má culinária
Quando acabou o liceu com a ajuda das cábulas e da sorte a somar à da Catarina, a colega mais marrona e feiosa da turma, que tinha um fraquinho por ele e um acne persistente e lhe dava explicações de borla com uma paciência infinita, o Sebastião decidiu que não queria ir para a faculdade. Depois duns testes psicotecnicos que não acusaram particular vocação, deparou-se com uma grande indecisão no respeitante ao seu futuro profissional e andou a pastar durante uns meses, dormindo até tarde, ocupando o tempo no café a jogar às setas e deitando-se a altas horas da noite. Mas como o carro não andava a água e o telemóvel não se carregava com feijões, decidiu-se pela solução mais fácil e óbvia para quem não sabe o que fazer da vidinha: o serviço militar. Tinha esperança de por lá poder ficar a bater continências e a arrastar o rabo pelas cadeiras, porém acontece que o Sebastião era um indivíduo indisciplinado, e com pouco amor pela autoridade visível e invisível, e ao cabo de pouco mais de um ano foi amável mas assertivamente convidado a sair. Viu-se novamente sem um objectivo e de algibeiras vazias e, após pensar por um tempo no que queria fazer, optou por um breve curso de culinária. Só que nem um ovo sabia estrelar e não suspeitava que entre refogado e estrugido a diferença estava na latitude. Muito a custo, lá foi queimando etapas e tachos e quando terminou o curso foi-lhe oferecido um estágio num pequeno hotel da Baixa. Logo no primeiro dia teve de acordar com as galinhas e foram elas as cobaias do seu prato de estreia. Mas a coisa correu-lhe mal: a carne estava rija que nem cornos, o molho intragável e o puré tinha grumos, para já não falar que a comida ficou muito salgada. Quando começaram a chegar à cozinha as queixas dos clientes, nem sequer pediu desculpa e ainda soube dizer com a maior das latas:
- Quem não gosta come menos
- Quem não gosta come menos
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Provérbio provado apressado
Quando se conheceram quiseram logo ficar juntos. Acharam-se mutuamente bonitos e excessivamente interessantes. Assim sem tirar nem pôr, ja adivinhavam um tirar e pôr num sexo sem pudor. Era uma intimidade precoce, um pouco aparatosa e até exagerada, composta de confidências demasiado secretas, construídas sem alicerces nas línguas soltas; essas línguas que desejavam unidas num ritmo cadente porém decadente, ora carinhosas ora sôfregas em pulsar apocalíptico. Um desejo muito intenso, mas também um alimento para o coração, descanso de guerreiros já fartos de travessias no deserto avistando miragens duvidosas e aspirando a uma união plena e quase sobrenatural.
Foi um final de tarde mágico que se prolongou noite afora. Contudo, percebiam o tiro no escuro, receavam um tiro no pé. E talvez isentos de fé, repetiam de si para si o provérbio:
- Quanto mais depressa mais devagar
Foi um final de tarde mágico que se prolongou noite afora. Contudo, percebiam o tiro no escuro, receavam um tiro no pé. E talvez isentos de fé, repetiam de si para si o provérbio:
- Quanto mais depressa mais devagar
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Provérbio outonal
Amanhecia um céu cinzento: pintavam-no algumas nuvens, também elas cinzentas; o começo do Outono escondera as tímidas nuvens brancas que, ainda há uma semana, enchiam os olhos das crianças de rebanhos imaginários. Mais dia menos dia, haviam de colorir-se as folhas de castanho e começar a cair das árvores, primeiro lentamente, depois muitas de uma vez, atapetando os caminhos; principalmente as dos plátanos, responsáveis por tantas alergias primaveris, desfaleciam agora das copas para irem preencher os herbários das escolas. Na janela gotinhas escorriam melancolia, trazendo a vontade das carícias suaves de um casaco de malha. Era então que os armários se despiam dos tecidos bailarinos do Verão, das sandálias de tiras e dos chapéus de palha, dando lugar a cores mais escuras: tão cinzentas como o cinzento do céu e as nuvens que nessa manhã o habitavam. Restava uma esperança ténue que este Setembro fosse Março e trouxesse a promessa de uma tarde quente, mesmo se o sol envergonhado. Mas não; veio de repente um bando de aves miando, numa corrida veloz porém atrapalhada.
- Gaivotas em terra, tempestade no mar
- Gaivotas em terra, tempestade no mar
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Provérbio da gente que mente
Cada vez há mais gente sonsa, sinuosa como a cobra e sem coluna vertebral, ou é quando se envelhece que se começa a reparar mais nisso?
Gente cheia de rodeios e pruridos, de não me toques; uma gente que cala o que pensa e sente porque pode parecer mal, que não se assume e prefere alinhar com a maioria.
Que é hipócrita e sorri pela frente ao passo que, quando vira costas, comenta o que pode e distorce o que não deve para arrasar a originalidade alheia, essa que não se consome com o que dela os outros pensam nem se esforça para manter uma reputação de fachada.
Gente que, quando o tema da conversa é mais sexual, é capaz de dizer compunjidamente Eu cá não meto lá a boca, porque são as sérias que elegem os temas tabu que as outras, criaturas sem moral, teimam em desmascarar.
Uma espécie de gente que é como a comida de hospital, a bufa sem cheiro, cheia da atitude de quem não se solta e se impõe uma ditadura toda composta por regras de pacotilha.
Nos locais de trabalho prolifera este tipinho de gente dissimulada que ambiciona trepar sem para tal ter o devido mérito; e abunda também nas famílias, tentando obter o controlo através duma postura passivo agressiva, capaz de cumular de atenções aquela tia solteirona de quem se é o único herdeiro.
O sonso é o mentiroso mais apto a inscrever-se num grupo de oração para ler a Bíblia e melhor representar o papel de santo.
- A gente hoje em dia não sabe de quem se fia
P.S. - Post livre de preconceitos de estereótipo, e quiça aconselhando o privilegiar da aproximação às sonsas, pois reza o mito que são as piores.
Gente cheia de rodeios e pruridos, de não me toques; uma gente que cala o que pensa e sente porque pode parecer mal, que não se assume e prefere alinhar com a maioria.
Que é hipócrita e sorri pela frente ao passo que, quando vira costas, comenta o que pode e distorce o que não deve para arrasar a originalidade alheia, essa que não se consome com o que dela os outros pensam nem se esforça para manter uma reputação de fachada.
Gente que, quando o tema da conversa é mais sexual, é capaz de dizer compunjidamente Eu cá não meto lá a boca, porque são as sérias que elegem os temas tabu que as outras, criaturas sem moral, teimam em desmascarar.
Uma espécie de gente que é como a comida de hospital, a bufa sem cheiro, cheia da atitude de quem não se solta e se impõe uma ditadura toda composta por regras de pacotilha.
Nos locais de trabalho prolifera este tipinho de gente dissimulada que ambiciona trepar sem para tal ter o devido mérito; e abunda também nas famílias, tentando obter o controlo através duma postura passivo agressiva, capaz de cumular de atenções aquela tia solteirona de quem se é o único herdeiro.
O sonso é o mentiroso mais apto a inscrever-se num grupo de oração para ler a Bíblia e melhor representar o papel de santo.
- A gente hoje em dia não sabe de quem se fia
P.S. - Post livre de preconceitos de estereótipo, e quiça aconselhando o privilegiar da aproximação às sonsas, pois reza o mito que são as piores.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Provérbio com cheiro e vernáculo
O Fanecas, ou Necas para os amigos, era um gajo porreiro. Tinha lá o seu feitio, convenhamos... muito próprio, mas era o que se pode chamar um grande personagem.
Começava muitas das suas frases por: "Épa, isto pode parecer-te um bocado estranho..." ou "Já sei o que é que vais dizer...", ruminando qualquer coisa do arco da velha pelo meio, e terminando algumas delas com "Olha, são pérolas p’ra porcos, pá" ou "É dar bons vinhos a maus fígados, sabem lá o que é essa merda...".
O estado civil do Fanecas era algo que permanecia um mistério. Casado não era, não existia registo de nenhum acontecimento do género, mas não perdia uma despedida de solteiro. Também não constava que tivesse namorada oficial; claro que os amigos perceberam logo que a Ana Maria era alguém mais especial mas, como não falava nisso, também não lhe perguntavam. Trazia a tiracolo mulheres dos géneros mais diversificados, que iam, e às vezes voltavam, com uma frequência espantosa. Era um predador romântico: chegava a enviar flores e bombons às miúdas giras que apareciam na televisão, na internet, nos bares, esperando uma recompensa mas fingindo não a esperar. Conservava com as mulheres a sua educação da infância: o cuidado no evitar o vernáculo perto da mãe e as caralhadas e risadas que soltava com o pai.
Na política, assumia-se como um gajo do contra. Até nem se importava de levar outra vez com o Isaltino Morais e o Joaquim Raposo na corrida para a câmara de Oeiras, só para poder dizer mal à vontade devidamente fundamentado no passado. Mas não ia votar. Dizia com sarcasmo dos políticos: "É só injustiças de merda, eu não acredito em mentiras pá. ‘Tou-me a cagar p’ra eles todos, são todos uns corruptos. Puta que os pariu mais a recessão..."
O Necas gostava de folhear A bola logo pela manhã ainda cheia de tinta. E gostava de ver a bola com os amigos no café, até porque era forreta e nunca ia ao estádio. "Aqui é mais emocionante, um gajo lá não vê nada.", nunca se sabendo se a emoção lhe surgia com as fresquinhas que despejava ou com a visão mais toldada que disparava para o écran. Nas faltas dos jogadores da sua equipa justificava: "Ele ‘tava a ir à bola, a fazer jogo... e o outro gajo atirou-se pr’ó chão, pá! Qual é o árbitro que não vê esta merda?" O Necas levava as mãos à cabeça quando era golo da outra equipa ao passo que sorria tranquila e desdenhosamente quando a sua marcava.
O Necas era um ex-fumador desejoso de reincidir. Andava numa espécie de liberdade condicional pois havia largado há pouco tempo, e o que ele sofria!... Às vezes abanava a mão incomodado, a afastar o fumo do cigarro dos outros. Mas à noite, já com os copos, apetecia-lhe fumar este mundo e o outro. Ficava para ali a salivar qual canino de Pavlov mas como "um gajo é um animal racional" lá controlava os ímpetos, não deixando de fixar exaustivamente o objecto de desejo.
O Necas era funcionário público. Não gostava de falar do trabalho, a não ser para reclamar do facto de ter de trabalhar. Tinha muitas regalias mas fingia não as ter. Na verdade poder-se-ia dizer que o Necas trabalhava apenas quatro dias úteis, dado que às segundas de manhã e sextas à tarde não fazia a ponta de um corno. Andava a estrebuchar em frequência FDS Mega Hertz – FDS de fim de semana, ou em interpretação livre: "Foda-se, já aqui ‘tou outra vez?" e "Foda-se, o que’é qu’eu ainda aqui ‘tou a fazer?". No regresso das férias ao trabalho emitia em frequência pirata intraduzível.
O Necas tinha as suas particularidades, "Deixem-me cá com as minhas merdas, pá!". Por exemplo, gostava de sumo de mamão e não admitia piadas sobre o assunto. E depois existiam outros temas intocáveis como dizerem-lhe que era sovina, que guardava trocos por vocação, perguntarem-lhe por que é que lhe chamavam Fanecas e qual o seu verdadeiro nome. Mas o que realmente deixava o Necas chateado era dizerem-lhe que cheirava mal dos pés, "Ouve lá, mas tu queres levar uma pêra?". No entanto à noite largava os ténis a espantar o odor na varanda...
- Quem tem chulé não sente o cheiro do próprio pé
P.S. - Post livre de preconceitos linguísticos, e quiça adaptando a tradução do correspondente provérbio crioulo guineense: Dun di mal ka ta obi si mal
Começava muitas das suas frases por: "Épa, isto pode parecer-te um bocado estranho..." ou "Já sei o que é que vais dizer...", ruminando qualquer coisa do arco da velha pelo meio, e terminando algumas delas com "Olha, são pérolas p’ra porcos, pá" ou "É dar bons vinhos a maus fígados, sabem lá o que é essa merda...".
O estado civil do Fanecas era algo que permanecia um mistério. Casado não era, não existia registo de nenhum acontecimento do género, mas não perdia uma despedida de solteiro. Também não constava que tivesse namorada oficial; claro que os amigos perceberam logo que a Ana Maria era alguém mais especial mas, como não falava nisso, também não lhe perguntavam. Trazia a tiracolo mulheres dos géneros mais diversificados, que iam, e às vezes voltavam, com uma frequência espantosa. Era um predador romântico: chegava a enviar flores e bombons às miúdas giras que apareciam na televisão, na internet, nos bares, esperando uma recompensa mas fingindo não a esperar. Conservava com as mulheres a sua educação da infância: o cuidado no evitar o vernáculo perto da mãe e as caralhadas e risadas que soltava com o pai.
Na política, assumia-se como um gajo do contra. Até nem se importava de levar outra vez com o Isaltino Morais e o Joaquim Raposo na corrida para a câmara de Oeiras, só para poder dizer mal à vontade devidamente fundamentado no passado. Mas não ia votar. Dizia com sarcasmo dos políticos: "É só injustiças de merda, eu não acredito em mentiras pá. ‘Tou-me a cagar p’ra eles todos, são todos uns corruptos. Puta que os pariu mais a recessão..."
O Necas gostava de folhear A bola logo pela manhã ainda cheia de tinta. E gostava de ver a bola com os amigos no café, até porque era forreta e nunca ia ao estádio. "Aqui é mais emocionante, um gajo lá não vê nada.", nunca se sabendo se a emoção lhe surgia com as fresquinhas que despejava ou com a visão mais toldada que disparava para o écran. Nas faltas dos jogadores da sua equipa justificava: "Ele ‘tava a ir à bola, a fazer jogo... e o outro gajo atirou-se pr’ó chão, pá! Qual é o árbitro que não vê esta merda?" O Necas levava as mãos à cabeça quando era golo da outra equipa ao passo que sorria tranquila e desdenhosamente quando a sua marcava.
O Necas era um ex-fumador desejoso de reincidir. Andava numa espécie de liberdade condicional pois havia largado há pouco tempo, e o que ele sofria!... Às vezes abanava a mão incomodado, a afastar o fumo do cigarro dos outros. Mas à noite, já com os copos, apetecia-lhe fumar este mundo e o outro. Ficava para ali a salivar qual canino de Pavlov mas como "um gajo é um animal racional" lá controlava os ímpetos, não deixando de fixar exaustivamente o objecto de desejo.
O Necas era funcionário público. Não gostava de falar do trabalho, a não ser para reclamar do facto de ter de trabalhar. Tinha muitas regalias mas fingia não as ter. Na verdade poder-se-ia dizer que o Necas trabalhava apenas quatro dias úteis, dado que às segundas de manhã e sextas à tarde não fazia a ponta de um corno. Andava a estrebuchar em frequência FDS Mega Hertz – FDS de fim de semana, ou em interpretação livre: "Foda-se, já aqui ‘tou outra vez?" e "Foda-se, o que’é qu’eu ainda aqui ‘tou a fazer?". No regresso das férias ao trabalho emitia em frequência pirata intraduzível.
O Necas tinha as suas particularidades, "Deixem-me cá com as minhas merdas, pá!". Por exemplo, gostava de sumo de mamão e não admitia piadas sobre o assunto. E depois existiam outros temas intocáveis como dizerem-lhe que era sovina, que guardava trocos por vocação, perguntarem-lhe por que é que lhe chamavam Fanecas e qual o seu verdadeiro nome. Mas o que realmente deixava o Necas chateado era dizerem-lhe que cheirava mal dos pés, "Ouve lá, mas tu queres levar uma pêra?". No entanto à noite largava os ténis a espantar o odor na varanda...
- Quem tem chulé não sente o cheiro do próprio pé
P.S. - Post livre de preconceitos linguísticos, e quiça adaptando a tradução do correspondente provérbio crioulo guineense: Dun di mal ka ta obi si mal
Provérbio bovino
Vistas bem as coisas, qualquer dia da semana podia ser dia de feira, começando por segunda feira, tropeçando na terça e por ali adiante até à sexta feira. Aos domingos é que nem pensar, que era dia de missa. Os sábados, porém, eram terra de ninguém, onde se trabalhava na terra tanto ou mais que de semana. Mas se, por exemplo, um homem se quisesse ir embebedar para a tasca do Álvaro ou simplesmente alapar o rabo nos bancos do largo vendo quem passava, ninguém teria nada a obstar, desde que tomasse o seu banho semanal.
Vamos então à cantiga: calhava na vila a feira ser a quinta feira, se bem que nem todo o mês tivesse a sua feira na dita quinta quinta feira. Todo o espaço se aproveitava e de tudo um pouco se apregoava da origem ao produto final, desde que não corresse mal. Assim, não apenas se vendia a couve, como também a semente que a houve, e mais a maçã viçosa e o pesticida que a fez saborosa. Vendia-se a vaca e tudo o que dela saía: o leite que se mungia depois que ela mugia. O boi vinha para o prato, e do porco nascia o courato. Quanto ao ovo e à galinha é uma discussão antiga, guerra que não vamos travar, pois do que aqui se trata é o que cada um vem comprar.
Acompanhemos o ti Zé da Aparecida a fechar o negócio da vida, já entrega o envelope com as notas gastas de tão contadas, contente do vendedor o estar a tratar por senhor, e ei-los no aperto de mão, dando por encerrada a questão. Era uma vaca leiteira, não era uma vaca qualquer. Leite, manteiguinha, já sabemos a ladainha. Mas voltando à vaca fria, é tudo trinta e um de boca; afinal o compadre é sogro da afilhada e a comadre ainda é prima afastada.
O ti Zé torna a casa satisfeito, sonhando tamanho proveito. Mas dali a uns dias a expectativa é gorada, quando a esposa indignada se acerca contrariada:
- A vaca da minha vizinha dá mais leite do que a minha
Vamos então à cantiga: calhava na vila a feira ser a quinta feira, se bem que nem todo o mês tivesse a sua feira na dita quinta quinta feira. Todo o espaço se aproveitava e de tudo um pouco se apregoava da origem ao produto final, desde que não corresse mal. Assim, não apenas se vendia a couve, como também a semente que a houve, e mais a maçã viçosa e o pesticida que a fez saborosa. Vendia-se a vaca e tudo o que dela saía: o leite que se mungia depois que ela mugia. O boi vinha para o prato, e do porco nascia o courato. Quanto ao ovo e à galinha é uma discussão antiga, guerra que não vamos travar, pois do que aqui se trata é o que cada um vem comprar.
Acompanhemos o ti Zé da Aparecida a fechar o negócio da vida, já entrega o envelope com as notas gastas de tão contadas, contente do vendedor o estar a tratar por senhor, e ei-los no aperto de mão, dando por encerrada a questão. Era uma vaca leiteira, não era uma vaca qualquer. Leite, manteiguinha, já sabemos a ladainha. Mas voltando à vaca fria, é tudo trinta e um de boca; afinal o compadre é sogro da afilhada e a comadre ainda é prima afastada.
O ti Zé torna a casa satisfeito, sonhando tamanho proveito. Mas dali a uns dias a expectativa é gorada, quando a esposa indignada se acerca contrariada:
- A vaca da minha vizinha dá mais leite do que a minha
terça-feira, 4 de abril de 2017
Provérbio solitário - II
Justino já tinha dobrado os quarenta e continuava solteiro, sem mulher a quem chamar sua. Namorara Zeferina anos a fio numa idade em que recuava ante compromissos maiores e em que nem lhe falassem em constituir família. Zeferina falara, e fora esse o seu bilhete de ida para ir iniciá-la noutra freguesia. Recordava-a agora com a saudade de quem sabe que desperdiçou um grande amor, talvez o único. Ainda outro dia a tinha encontrado acidentalmente na rua, o acaso aos pontapés com a sua ferida aberta instigando à covardia. Não fora capaz de lhe contar do arrependimento: limitara-se a mostrar o melhor sorriso que podia, fixando o olhar torturado num pormenor da calçada, enquanto desejava ser invisível. Ela fora calorosamente desinteressada, narrando-lhe a existência em duas frases: era agora mãe de dois e continuava casada com o José, o primo da Eduarda, ele lembrava-se? E chegou então a fatídica pergunta; que não, respondeu, continuava solteiro - e bom rapaz, acrescentou em graçola - sentindo o olhar dela, subitamente atento, lastimando-o.
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.
- Mais vale só que mal acompanhado
Esse encontro deixou-o a cogitar na sua amarga situação e resolveu ir em busca das Zeferina desta vida. Foi um período conturbado; tinha uma urgência desassossegada de conjugar o verbo amar. Nesse afã inclemente disparou em todas as direcções: solteiras, divorciadas e até casadas, que a vida dá muitas voltas e a ocasião faz o ladrão. Cheio de boas intenções, cedo descobriu que era apetecido apenas para passar uns bons momentos. Que na sua idade o ser-se solteiro era motivo para lhe inventarem traumas, inseguranças e defeitos insuspeitos. Que era usado e descartado sem dizer água vai. Então, desanimado, voltou à pornografia.
- Mais vale só que mal acompanhado
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Provérbio citado (ANTUNES)
«Gago Coutinho era também o café do Mete Lenha, branco sopinha de massa cujo esforço para falar o torcia de caretas de defecação, casado com uma espécie de botija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se aos oficiais dos beliscões com que os soldados lhe homenageavam as nádegas atlânticas, difíceis, aliás, de discernir numa mulher aparentada a um imenso glúteo rolante em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorroida, café para refrescos inocentes nas tão compridas tardes de domingo, e onde pela primeira vez o tenente, confidencial, abriu a carteira para me mostrar a fotografia da criada, e revelou, recostando-se para trás no assento de ferro por de mais exíguo para as suas omoplatas enormes, o produto sintético das meditações de uma vida:
- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa.»
In Os cus de Judas - António Lobo Antunes
- Sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa.»
In Os cus de Judas - António Lobo Antunes
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Provérbio citado (AMADO)
« (...) O Coronel não precisava de nada no Rio? De algum empenho junto a algum político importante? Se precisasse era só dizer. Ele estava ali para servir aos amigos e, se bem tivesse conhecido o coronel fazia pouco, tinha simpatizado imensamente com ele, seria feliz de servi-lo. O coronel não precisava de nada no Rio, mas ficou muito agradecido e como Maneca Dantas ia passando, pesadão e gorducho, a camisa suada e as mãos pegajosas, ele o chamou e fez as apresentações:
- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é mesmo que mato...
(...)»
In Terras do sem fim - Jorge Amado
- Aqui é o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte lá da zona... Dinheiro em casa dele é mesmo que mato...
(...)»
In Terras do sem fim - Jorge Amado
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Provérbio citado (MÁRAI)
« (...) A Kristóf podia confiar-se tudo. Não era preciso convencê-lo de nada, pois, desde a mais tenra infância, estava imbuído dos princípios que norteiam o entendimento da vida social. O velho juiz sabia que também Kristóf queria salvar a sociedade - não era necessário discutir isso com ele, a tal ponto o entusiasmo, a fé e a convicção emanavam da sua pessoa, de cada uma das suas palavras. Poder-se-ia confiar-lhe a sociedade... Mas o velho juiz observava o jovem juiz num ar de reflexão crítica, atrás da cortina de fumo do cigarro. «Tem o seu excesso de formalismo» pensou. «É pura correcção. Nunca o vi com uns copos, nunca lhe ouvi uma palavra descuidada.» O juiz estava quase nos setenta, já vira muito, vira a nudez moral dos homens, pior do que a nudez física, e julgava conhecê-los. Observava a «correcção» de Kristóf com uma certa preocupação. «Só se cuida assim quem se vigia.» (...)»
In Divórcio em Buda - Sándor Márai
In Divórcio em Buda - Sándor Márai
sábado, 15 de outubro de 2016
Provérbio incontestável
Na primeira, mesmo logo na primeira vez, acho que não correu lá muito bem. Foi tudo às apalpadelas, com pouca luz, tacteando a medo: um receio muito vivo de poder chocar sensibilidades, os lábios juntando-se hesitantes na dança envergonhada dos corpos. Nem a eito, nada feito.
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.
- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu
Quem vem lá, quem não vem lá? A filha adolescente, a inquilina espanhola, a gata silenciosa, quase imóvel? Será isto certo, será que não quero? Será que, em o querendo, não quererá o meu par? Para quê tantas perguntas?, diz-me.
Na segunda, mesmo depois da segunda vez, a diferença foi gigante. Libertos os membros das amarras que os prendiam, foram da direita à esquerda, ao contrário dos ponteiros do relógio, sem receios, olhares, nem pausas, buscando plenitude no querer e rédea solta no prazer.
- Aquilo que sucedeu, não evitas tu nem eu
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Provérbio citado (LUÍS)
« (...) Criava simpatias entre a criadagem; armada em conselheira, ouvia, toda saturada de lógica e espírito piedoso, as práticas das serventes rebeldes. Por elas, conhecia o escândalo de alcova, as misérias domésticas, as longas histórias de família, que os interesses faziam de uma sordidez de viela. Toda a escorralha podre e inútil daquela burguesia cujos nervos amoleciam na fartura, cujo orgulho não era mais que um histerismo de populaça que se embriaga e se rebola em colchões de plumas, ela a sepultava na sua alma, colocando-lhe por cima um sinete de sigilo, à semelhança dos campónios que, depois de uma catástrofe, duma batalha, encontram os vasos do templo e os enterram para não serem culpados de violarem coisas sacras. - «A prudência é a mãe dos pequeninos» - costumava dizer. (...)»
In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís
In Contos impopulares / Agustina Bessa-Luís
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Provérbio sortudo
Quando nasceu já trazia um sinal dourado no meio da testa, o que fazia prever um futuro auspicioso. Nascendo assim com o cú todo viradinho para a lua, teve uma infância sem cuidados, sem resfriados, mente e espírito sincronizados, uma família funcional e compreensiva, pais companheiros e jardins soalheiros.
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.
- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece
Piscina, golf, ténis, equitação, música, artes, os grandes poetas, nada lhe foi poupado até ao mestrado.
E depois as taxas de juro, as contribuições, um amor sem tempero, tudo em rara e limpa ordem, cidadão exemplar - desses em que o Estado nem repara.
Nunca assaltado, pneu furado, partido um osso, caído num fosso, uma intervençãozita cirúrgica, nada de nada! Uma vivência sem problemas e muito, mas muito, desinteressante.
- A quem a sorte favorece, até o perigo dele se esquece
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