Provérbios Provados noutras casas:

domingo, 21 de junho de 2015

Provérbio provado viajado

Começou por dizer que nasceu numa aldeia remota, onde só não havia mais miséria porque todo o país vivia na miséria. No final da década de 40, nove aninhos acabados de completar, partiu num transporte marítimo com destino a Lourenço Marques. O que terá motivado essa decisão, que empurrão precipitou tais circunstâncias, o que levou uma criança tão pequena a embarcar sozinha numa viagem tão penosa?

- Oh, por essa altura já eu era um adolescente – respondeu, sem mais adiantar de razões e pormenores.

Contou-me então do dia em que resolveu mudar de nome, uma novíssima identidade para fugir de justiças novas e chaminés velhas.

- De repente, nesse momento, parece que passei a ver tudo de um modo completamente novo. Aí, senti que ia começar de facto a minha grande viagem. Mas conservei o antigo bilhete português, por se acaso algum acaso...

- Foi aí que iniciou as suas travessias por África? E qual era o plano? - encaminhei a conversa para a história que me interessava.

- Foi, sim. Eu não tinha nenhum caminho traçado em mente. Parti de Moçambique para o que era então a Rodésia, hoje Zimbabwe, e daí para a África do Sul. Depois pela Namíbia, direito a Angola, e assim resolvi ir subindo a costa atlântica. É engraçado, sabe, quando estive em Marrocos podia ter regressado ao Portugal natal, mas decidi continuar a contornar África pelo Mediterrâneo com destino ao Egipto, pareceu-me mais interessante – riu-se.

- Sim? - digo, para incentivar a conversa.

- Oh, pois claro, isso nem se pergunta! Naveguei pelo Mar Vermelho até ao verde Índico. Foi uma experiência maravilhosa!

- Viajou sempre sozinho? - tentei dar cabo da ideia do viajante solitário.

- Sempre que pude, sim. É que durante estas viagens atravessei uma época tremenda: presenciei tumultos, convulsões socias, muitas mortes. Só trago a memória dos longos rios, dos desertos, dos animais pela savana e das árvores. As árvores por vezes eram poucas, mas que beleza! A natureza foi a minha melhor companheira. O resto apaguei tudo.

- E quando é que se dá o regresso a Moçambique?

- Fui-me atrasando pela Tanzânia. Tinha algum medo de voltar.

- Porquê, pode dizer-me? - perguntei, baixando levemente a voz.

- Tinham passado uns bons anos e muita porcaria por baixo da ponte. Mas quando cheguei a Maputo e reencontrei aquela cor do sol e aquela cor do barro, soube que estava em casa.

Disse esta frase em tom de despedida, mas ainda acrescentou, do outro lado da linha telefónica, com uma risada esplêndida:

- Mas, olhe, fui ganhando tiques nas várias Áfricas por onde passei. Por exemplo, sou de uma pontualidade britânica!

Não, a entrevista não podia terminar assim... e arrisquei a tirada final.

- Então, e o nome do senhor é mesmo Amílcar?

- Isso, menina, nunca poderá saber. É que afinal


- O mundo dá muita volta e numa delas eu entro

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Provérbios provados seleccionados

Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim. Foi pensado assim. pretende que os leitores descubram com surpresa qual é o provérbio-desfecho. Ora sabendo que quem lê muitas vezes espreita primeiro o final, segue uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:

- Dá Deus nozes a quem não tem dentes

- A cavalo dado não se olha o dente

- Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

- A César o que é de César

- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata

- Há mais marés que marinheiros

- Ladrão só, puta só

- Vão os anéis, ficam-se os dedos

- Quem vier atrás que feche a porta

- Pela boca morre o peixe

- Cada qual come do que gosta

- Vozes de burro não chegam ao céu

- A esperança é a última a morrer

- Burro velho não aprende línguas


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Provérbio provado adaptado

Adaptado do Ventoinha

É o final de uma tarde muito quente de Agosto. No escritório, Carlos espreita o relógio: falta uma hora para terminar o expediente. Está sozinho. Os patrões nem lá puseram os pés hoje; imagina-os refastelados numa qualquer espreguiçadeira na sombra de um pinhal. Os reposteiros estão corridos mas mesmo assim o calor penetra pelas paredes tornando mais saturada a atmosfera. A campainha do telefone trina, Carlos atende: Escritório de Advogados Bento, Filho & Associados Limitada boa tarde, mas do outro lado desligam de imediato. Serão os patrões a confirmar a sua presença?, e abana a cabeça não acreditando. Agora é a campainha da porta soando por sua vez. É o amigo Ventoinha. Traz como de costume os cabelos ao ar num reboliço, mesmo num dia como hoje em que não corre uma aragem.
- Acaba lá com isso e vem tomar um café ao Chiado. Quero passar ao Grandela e ver de um presente para uma tia minha...
E pisca-lhe o olho, divertido. Carlos garante que não pode sair já. Mas que ele faça horas, que terá o maior prazer em o acompanhar ao Chiado.
- Tu és muito amedrontado. Então tu crês que os teus patrões te andariam a espiar? Que disparate pegado! Eu sim, ando a ser seguido... mas anda daí à Brasileira que já te conto tudo.
Passam primeiro nos Armazéns do Grandela. Ventoinha vê luvas, chapéus, sombrinhas, meias finas mas nada lhe agrada, a tudo torce o nariz contrariado.
- Gostava de dar algo com mais chique à minha tia. Ela é muito moderna.
E pisca-lhe mais uma vez o olho, com uma gargalhada. Seguem então para a Brasileira a tomar o café. E o Ventoinha começa a soprar a sua história:
- Vês tu aquele indivíduo, à esquina da Bertrand, a espreitar para aqui? (Não olhes agora.) Já não o via há algum tempo e hoje... zás, lá o topei de novo. Tirou a gabardina e rapou o bigode, deve ser do calor.
E realmente lá está um fulano de ar suspeito que os olha. Imagina logo o Ventoinha muito mais metido na política do que parece; é certo que conversam em sussurro muitas vezes contra o regime, mas daí à conspiração vai um longo passo. Pensa que lhe apanharam folhetos, livros ou o apanharam em alguma reunião suspeita, está visto é que o apanharam!
- Tu estás a pensar que é um espião, não é meu pobre Carlos? Mas é alguém acima deles. Eu inventei uma coisa que se chama blog. É um diário do futuro. Tu bates palavras numa máquina de escrever que não faz barulho e, no minuto seguinte, qualquer pessoa no mundo lê na televisão tudo o que escreveste. E isto é uma máquina muito perigosa, claro está! Por isso é que eles andam atrás de mim...
Carlos fica desorientado com a revelação. Pensa que o querido amigo Ventoinha endoidou de vez. Mas ainda lhe pergunta que tipo de coisas escreve nesse ‘bloque’...

- Do bom tudo e do ruim nada

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Provérbio canino feminino

O Doutor Rui Gonçalves estabelecera-se como veterinário na província já lá iam p'ra mais de dez anos, e revelara-se essa mudança da cidade para o campo uma boa escolha para si e para a família. Para além das magníficas paisagens circundantes, estas gentes haviam-nos realmente acolhido com simplicidade e generosidade.
De vez em vez, ocorriam inesperados, emergências, e logo acorria prontamente às chamadas, sempre diligente. Assim foi esta madrugada aquando da aflição com um animal do Senhor José Madureira. Arrancou de sopetão, direito à quinta, e com ele se deparou ao portão dizendo:
- É a Tareca, Doutor!
- Lá vamos, lá vamos... Mas o que se passa com a gata?
- É uma cadela, Doutor!
- Mas tem nome de gata...
- Não, tem nome de fadista.
No meio deste diálogo, o Doutor aproximou-se e viu a cadela quase a sufocar, e a seu lado cinco cachorrinhos acabadinhos de nascer. Já a contar que por aí viessem mais irmãozinhos, o Doutor teve de os ajudar rapidamente a despertar para o mundo: e nasceram mais cinco!, nunca se vira uma cadela parir assim. O Senhor José Madureira, muito apreensivo, balbuciava:
- A Tareca só tem oito tetas! Como é que isto se vai fazer, valha-me Deus meu? Diga-me, Doutor. Como é que isto se vai fazer?
Assim foi que o Doutor Rui Gonçalves acabou por levar consigo dois sobejantes a tiracolo. Quando a mulher o viu chegar de manhã nestes preparos, levantou as sobrancelhas inquiridoras e recebeu como resposta:

- Não pode a cadela com tanto cachorro

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Provérbio canino - III

Joaquim Pintor era viúvo e reformado, cedo deitava e cedo erguia, e frugalmente comia: cozidos e grelhados, nada de fritos ou estufados. Não foram os Domingos, em que se permita certas excepções como doces e enchidos e álcool e cigarrilhas, tudo o mais seria plácido e sereno.
O Joaquim não queria mãos alheias que lhe tratassem da casa; ia fazendo o necessário sem grande dificuldade, gostava de paz e tranquilidade.
Tinha apenas por companhia um gato e um cão que, fazendo jus à forma de estar do dono, conviviam lindamente. Chamavam-se simplesmente Gato e Cão e, como é natural, respondiam sempre pelo nome: eram dois animais muito completos, duas fotografias desfocadas da personalidade do Joaquim. Tinham chegado lá a casa ainda novos, o Cão primeiro que o Gato. O Gato era mais menineiro, e debaixo do sol gostava de caçar moscas no quintal e também de dormitar. Quando acordava das suas sestas, espreguiçava-se até à medula. Tinha um olhar cinza faíscante belíssimo. O Cão, sem querer, às vezes afundava-se naqueles olhos, mas logo se afastava tremendo. O Cão era mais velho e mais companheiro. Andava atrás do dono por toda a parte e, como era arraçado de perdigueiro com rafeiro, o Joaquim até costumava dizer que farejava até Faro.
Joaquim Pintor era caçador. Quando virava a porta, todos os dias à mesma hora, ambos Cão e Gato se acercavam – o Cão porque sabia que era chegada a hora do passeio, o Gato miando e esperando o seu miar comovesse o dono. O que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, não propriamente da caça em si. Aliás, nunca trazia mais do que um exemplar para casa, mesmo se havia caça animada em voo. Era sempre o Cão que lhe trazia a peça, arquejando triunfante à espera da festa reconhecida do dono, e às vezes um pedacinho de torresmo que sobrava dos Domingos.

São destas mudanças que acontecem nas histórias, e vai daí um Sábado em que Joaquim Pintor sai em vias de caçador, acompanhado como habitualmente pelo fiel Cão. Era esse um Sábado agitado, por mostra de caçadores amadores vindos das cidades com a motivação de somar disparos. Mas o que Joaquim gostava verdadeiramente era do contacto com a Natureza, por isso não compreendia propriamente aquela farsa da caça em si. E sentia tão certo o não estar certo, que os acontecimentos lhe vieram dar razão. Foi o Cão. Uma bala perdida. Depois trouxe o Cão todo o caminho ao colo.
O tempo avançou e Joaquim não quis mais cães nem mais caçou. O Gato caiu numa lealdade tal ao dono que o seguia para todo o lado, escavando covas furiosamente, perseguindo insectos no voo, desaparecendo e reaparecendo em ápices nos arbustos do quintal. Então vai daí um Sábado em que ao Joaquim lhe dá uma comichão de procurar a arma e um impulso de levar o Gato consigo. E foi assim e Era uma vez. Claro que o Gato não trazia perdizes nos dentes, embora as soubesse localizar se estivesse para aí virado. Mas foi assim que sucedeu porque Joaquim caçador e o seu Gato viveram muitos anos.

- Quem não tem cão caça com gato


P.S. - Provérbio e história sugeridos pela afilhada/sobrinha Catarina, 11 anos. Espero que ela goste do resultado. E até possa quem sabe escrever uma história alternativa.

sábado, 28 de março de 2015

Provérbio provado conversado

Vamos de passeio, percorrendo uma longa estrada ladeada de cerejeiras em flor. Somos quatro no carro, e contemplamos e comentamos a magnífica paisagem. Fora isto, nada mais se diz; navegamos em silêncio como se no fundo do mar.
No banco de trás, a minha amiga Luísa leva um livro abandonado no colo:
- Como se chama esse livro, Lu?
- Pela estrada fora
- É esse o título? É mesmo assim que vamos.
Gonçalo, o meu companheiro do lado, conversa com os seus botões no registo habitual: é discreto e silencioso como um peixe lento.
Resta-me o Lourenço, que no ir mirando as cerejeiras vai de lado, mas alheado, calado e mergulhado nos seus pensamentos. Até que num momento se interrompe e sai-se com esta:
- As cerejas parecem flores do silêncio. E também respiram sozinhas. No entanto, juntam-se às duas e três para terem companhia.
E de repente, entre sins, enfins e afins, entre amigos, despontam palavras animadas, soltas e mal passadas.

- As conversas são como as cerejas: atrás d'umas vêm as outras

terça-feira, 24 de março de 2015

Provérbio individualista

Somos por costume social atacados por conselhos que não pedimos e observações impertinentes - por vezes ambíguas - fora de hora(s) e de lugar. Têm algum poder de poder azedar o dia ou parte dele.
Durante uns tempos utilizava em resposta a expressão "Como assim?" com uma certa indiferença mas, se não calava os predadores, ameaçava também ser início de mais palpites idiotas.
Por estes tempos, adoptei então um provérbio que rasteira mais considerações:

- Cada um sabe de si

P.S. - Post livre de preconceitos de apatia, e quiçá observando que às vezes há resposta, mas é invariavelmente só uma e a continuação do provérbio acima...
- E Deus sabe de todos...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Provérbio citado (DESAI)

« Quando Sai começou a interessar-se pelo amor, começou a interessar-se pelos assuntos do coração das outras pessoas; assim, passou a importunar o cozinheiro com perguntas sobre o juiz e a sua esposa.
O cozinheiro declarou:
- Quando eu vim trabalhar para a casa, todos os criados antigos me disseram que a morte da sua avó fez do seu avô um homem cruel. Ela era uma grande dama, nunca elevava a voz aos criados. Como ele a amava! Aliás, era uma relação tão profunda que nos revirava o estômago, pois era algo demasiado grande para ser contemplado por qualquer outra pessoa.
- Ele amava-a assim tanto? - Sai ficou atónita.
- Devia amar – respondeu o cozinheiro. - Mas dizem que não o demonstrava.
- Talvez não a amasse? - aventou ela então.
- Morda a língua, sua malvada. Retire o que disse! - gritou o cozinheiro. - Claro que ele a amava.
- Então, como podiam os criados saber?
O cozinheiro refletiu um pouco, pensou na sua própria mulher.
- Tem razão – admitiu ele. - Ninguém sabia realmente, mas também naquela altura ninguém dizia nada. Mas saiba, menina, que existem muitas formas de demonstrar amor e não só à maneira do cinema, que é a única forma que a menina conhece. É uma rapariga muito tola. O maior amor é aquele que nunca é demonstrado.
(...)»

In A herança do vazio – Kiran Desai

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Provérbio na barra do tribunal

Falando sobre a corrupção em geral, e falando de Portugal em particular, e em particular dos negócios sujos que proliferam desde a economia à política até ao futebol, trago um singelo provérbio que poderá ajudar no acelerar dos processos judiciais:

- Tanto peca o que segura o saco como o que para dentro mete

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Provérbio provado endinheirado

Ora bem, o início desta história dá-se com esta escriba começando por confessar que a escutou como verdadeira. Não vão os caros leitores pensar que a inventou: apenas a adulterou e acrescentou o seu cunho em certas partes, na sua forma idealizada de como se recorda de a ter ouvido.

Começamos então por cerca dos anos 30, 40, do século passado, quando a Dona Elvira, residente numa freguesia encavalitada nos montes lá para os lados da Lousã, acolheu três padres – costume típico na época – que vinham de pregar de outra freguesia. A tia Vira, assim conhecida pelos vizinhos, cedeu aos padres uma casa vazia que tinha à beira da estrada. Dizia-se na aldeia que os padres vinham fugidos do Brasil e de certeza traziam nos bolsos uma invulgar fortuna, pois ergueram nos anos seguintes uma tal igreja como a não tinha a sede de concelho, e organizavam festas tais que vinha povo das aldeias mais longínquas assistir às procissões, bailaricos e foguetórios.

Foram passando os anos nesta história, até que o destino dos padres se foi desenrolando. Um deles acabou por regressar ao Brasil e por lá morreu às mãos de com quem tinha contas a ajustar e o quis apanhar; um outro foi morto naqueles caminhos sombrios da aldeia, numa noite sem luar, à navalha e à sucapa que é como actuam os bandidos; o último morreu de velho, pois se já não era novo quando chegou, assim ficou meio apatetado e sem conhecimento da realidade.

Aqui se recapitulam os factos: os padres vieram e foram, tia Vira já morreu sem herdeiros directos, a casa foi cedendo sem mais préstimo e um dia o telhado ruiu...

E recomeçamos mais tarde, já nos anos 80, quando a Câmara Municipal resolve mandar limpar os caminhos das estradas nacionais. Abrir valas, cortar mato, desbastar silvas, trabalho duro de limpeza em que, numa tarde de suor, encontramos três funcionários trabalhando junto à casa quase desfeita à beira da estrada. Já não sabem se é do excesso de calor ou são os pontos luminosos da casa que brilhando ao sol quase os cegam. Acercam-se e encontram caixas já desfeitas que haviam resvalado do sotão quando o telhado abateu. Um tesouro inominável, diz-se, porque ninguém o viu: moedas de ouro e de prata e jóias em grande quantidade. O saque dos padres portugueses no Brasil.

Os herdeiros indirectos, atiçados pela história que se contava, apresentaram queixa na polícia, onde um basbaque cofiando a bigodaça tomou notas e garantiu que os trabalhadores iam ser “espremidos” para falarem. Que sumo foi esse não se sabe, mas a coisa foi arquivada por falta de provas.

O tesouro ficou na imaginação das gentes e nunca nada foi encontrado na posse destes três homens. Até que um belo dia, um deles comprou uma moto potente e espetou-se numa curva apertada dos montes; o outro comprou um carro de alta cilindrada que enfiou numa árvore na sua primeira ida a Coimbra; o terceiro vive amargurado, e nem à boleia... só de comboio.


- Dinheiro de padre e brasileiro não chega a terceiro

sábado, 25 de outubro de 2014

Provérbio provado sentado

A professora tentava a todo o custo manter-nos sentados. Todos sentados, cada um em seu lugar, sem levantar para espreitar o recreio, sem idas inventadas à casa de banho, sem arremesso de bolas de papel ao quadro e uns aos outros. Sentados, a ouvir histórias passadas de outros continentes. Sentados, compostos, sem bocejos. Sentados, de preferência calados. E se a coisa às vezes descambava, a professora de repente gritava: - Todos sentados!

- Quem não se sente não é filho de boa gente

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Provérbio citado (CRUZ)

«(...)
Mulhermente, Lola crescera para ser muito atraente, ao ponto de parecer uma evolução estética da humanidade. A evolução é isso mesmo: uma pessoa sabe que evoluiu quando à sua volta só vê macacos. Lola desenvolveu esse espaço poético que é o seu corpo, tudo com grande elegância. Enquanto ela o fazia, os homens à sua volta desenvolviam a acuidade visual e, quando ela passava, permitia que apanhassem torcicolos. Mas não se prendia a nenhum, até que um dia apareceu o imbecil certo. Demora muito até que aconteça e a maior parte das mulheres não tem essa sorte. A maior parte casa-se simplesmente com o imbecil errado.
O encontro dos dois deu-se numa das festas em que a sua mãe já não era convidada (…). Plácido haveria de se tornar noivo de Lola, depois de dois anos de namoro. Ele era um rapaz bem-parecido, alto, de ombros largos e com grande capacidade para calar-se a si mesmo. Na noite em que se conheceram, ele quase não falou. O perigo disto é bem conhecido. Há um provérbio que o afirma claramente: o néscio, por se calar, passa por sábio. (...)»


In A carne de Deus : aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites - Afonso Cruz

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Provérbio citado (JORGE)

«(...)
Isabela retomou a senda poluída da Marginal. A ventania havia feito secar ervas cor de palha, amontoado resíduos inqualificáveis, pendurado nas abas das acácias sacos de plástico desfeitos e desbotados. Ela seguia as superfícies de pedra, as sombras das vivendas recatadas, a estreita senda entre o asfalto e as ervas, unindo as pernas para não ser atropelada nem tropeçar nos pastos, muito direita, de modo a não deixar cair a tolha e o saco que por vezes punha sobre a cabeça, podendo assim ziguezaguear entre obstáculos concretos e imaginados. Com as mãos na cintura, ou os braços abertos, levantados no ar, Isabela divertia-se, desequilibrava-se, retomava o seu prumo, seguia. Só depois deveria entrar num caminho de areia, e aí, à sombra duns prédios altos, escondida no resto do que fora um antigo quintal, ainda com redes de pescador na porta e nas janelas, ficava a casa onde a avó a esperava, sempre ralhando com ela - «Por que não me ajudas, por que não ficas em casa? Para onde vais? Com quem andas? A mim não me enganas tu! Um dia vais e não voltas mais, com essas pernas nuas.» Depois, choramingava um pouco e punha a comida na mesa. Isabela sentava-se à mesa depois do duche, com o cabelo a pingar sobre a toalha - «Está bem, Vó, amanhã eu fico...» Não ficava. Mas, apesar de tudo, a avó mantinha secretas esperanças em relação à neta.
A sua maior ambição decorria da interpretação que fazia duma espécie de parábola dos talentos, muito sua, repetindo todas as manhãs que cada um poderia ser feliz se soubesse usar o que Deus lhe tinha dado. «A felicidade está no peito de cada um!» - dizia, fazendo ressoar, no meio do próprio peito, uma pancada seca. (...)»


Miss beijo

In O belo adormecido – Lídia Jorge

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Provérbio citado (COUPLAND)

«(...)
Wade levou o telefone para a varanda. Inspirou várias vezes e fez uma chamada que esperaria não ter de fazer. Ligou a uma pessoa com quem tinha tido relações profissionais.
- Daqui fala o Norm.
- Norm... é o Wade.
- O Wade Drummond? Boa, boa... que é que tens feito, meu?
- Isto e aquilo. Agora sou casado, Norm. Não tarda nada, tenho um filho, uma caravana e tudo o mais.
- Tu, um homem de família?
- Pfff... todos os bonecos de neve do inferno a derreter numa coluna de fumo.
- A família é uma coisa boa, Wade.
- Havias de ver a minha família. Somos todos psicóticos.
- Todas as famílias são psicóticas, Wade. Todos temos basicamente a mesma família... só que as famílias têm todas uma configuração diferente. Vem conhecer os meus sogros uma noite destas. De onde estás a ligar?
(…)
Passaram alguns minutos a pôr a conversa em dia, e depois seguiu-se um silêncio incómodo numa conversa de homens.
- Norm. Estou a precisar de dinheiro.
Um silêncio.
- Bem, todos precisamos.
- Tive de pedir um empréstimo do Tony «The Tiger» em Carson City para uma clínica de fertilidade que custou um balúrdio. A minha mulher e eu tivemos de ir à Europa tentar um processo novo. Cinquenta mil.
- Cinquenta mil? O que é que custou cinquenta mil dólares?
Talvez seja melhor ir direito ao assunto.
- Norm, sou seropositivo. Há uma clínica em Milão que recolhe sémen e coloca-o numa centrifugadora, e as partículas virais mais leves sobem e deixam a parte inferior limpa.
Norm permaneceu em silêncio.
- Okay. Certo. Já ouvi imensas histórias. Essa é muito boa.
- Não é nenhuma história... é a verdade.
- Mas mesmo assim precisas de massa.
- Exacto.
- Já sabes como é, Wade: quanto maior o risco, maior a recompensa.
(...)»


In Todas as famílias são psicóticas – Douglas Coupland

Provérbio provado desempoeirado

Há dias assim como este em que acordo com uma enorme energia, sabes, quase como se fosse um entusiasmo proibido. O corpo relaxado, bem descansado, o peso que de repente voou dos ombros, a cervical sem um nó, a lombar toda vertical, a respiração limpa, os pulmões oxigenados, o rei na barriga, o coração batendo num ritmo satisfeito, compassado... e isto de tal modo que consigo sentir todos os tecidos, as trocas celulares e as terminações nervosas. Visto-me, penteio-me, sorrio-me ao espelho e nenhuma pedra no sapato. É isto que somos, Cecília, humanos maravilhosos pulsando de vida a cada dia e em cada gesto que traçamos uma rede de possibilidades bela e infinita. Hoje estou capaz de cantar ou até pintar: coisas que normalmente não sei fazer, mas hoje sei e posso. Da vida quero tirar nabos da púcara, tendo sempre presente no presente que nada é permanente.

Findo o monólogo num tom entre alegre e espalha brasas, Cecília fez um breve silêncio, olhou a sogra de soslaio resignada, e perguntou: esqueceste-te de tomar os comprimidos da manhã, não foi, Jorge?

- Os mentirosos deviam ter boa memória

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Provérbio provado empoeirado

Há dias assim como este em que experimento um enorme cansaço existencial, sabes, sinto que viver não posso e morrer não quero, um rotundo zero à esquerda, não, dois ou três ou mais zeros. Somos pequenos seres mesquinhos na poeira do universo, vivendo e aprendendo neste microcosmos que nos corrói a alma. É isto que somos, Cecília, seres pequeninos preocupados com miudezas, com o tempo que faz, as contas do supermercado, o relógio no pulso, pensando que os miseráveis laços que tecemos com os outros fazem algum sentido. No entanto temos mais olhos que barriga, num orgulho renascentista desmedido, vendendo ideias de porta em porta e supondo que adquirimos conhecimento e mundividência. Tira mas é o cavalinho da chuva e fica escutando enquanto ela cai!

Findo o monólogo soprado com raiva, Cecília fez um breve silêncio, resignada, e perguntou: já tomaste os comprimidos da manhã, Jorge?

- Do pó vieste, ao pó voltarás

domingo, 4 de maio de 2014

Provérbio com preço – II

Marcava germanicamente as reuniões para as oito da manhã e ai de quem chegasse atrasado. A explicação balbuciada em frente aos colegas, greve nos transportes, furo nos pneus, criança com febres, um menos redondo na caderneta, tenha santa paciência!, julga que temos toda a manhã por sua conta?
Ao atrasado sentado de pouco lhe adiantava cara de quem comeu e não gostou, o chefe é que tinha a faca e o queijo na mão. Despachava rapidamente a ordem de trabalhos, distribuía tarefas, enérgico, com fôlego de gato com medo que o mundo se acabe.
Vivia no agora, na acção, na optimização do tempo e do trabalho com lucro, muito lucro. Desprezava as pessoas que parece que tinham raiva de quem inventou o trabalho, uns molengas sem préstimo e sem noção de que o relógio enche o bolso a um homem.

- Tempo é dinheiro

P. S. - Post livre de preconceitos bancários, e quiçá teorizando que, se tempo é dinheiro, paguemos então as nossas dívidas com o tempo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Provérbio provado desconfiado – II

Deixámos João a conhecer Vitória como a palma da mão. A coisa desenrolou-se muitíssimo devagar: conversas prolongadas em esplanadas, voltinhas a apanhar ar, insinuações veladas. Ter confiança na Vitória foi meia batalha ganha, mas mesmo só meia. Encetaram um namoro demasiado sossegado, até que ela acabou o curso, regressou à terra e casou-se à pressa com um amigo de infância.
Tais acontecimentos deixaram João devastado, teria de ser doravante ainda mais desconfiado. E assim se deixou andar, até conhecer Liliana num bar. Caiu-lhe literalmente no colo. O oposto de Vitória: Liliana era mundana, baixa, voluptuosa, madura. Cuidada, maquilhada, de unha pintada, nesse dia usava laranja – que descobriu depois ser a sua cor favorita. Conversaram, dançaram, cada gesto de Liliana um convite irrecusável, cada frase uma piada, um fluir irrepetível das horas; Liliana ia directa ao assunto. Encetaram de imediato uma relação toda baseada na atracção, e logo se amaram sem se conhecerem.
Mas pouco tempo passado já Liliana manifestava insatisfação em relação a João. Pequenas inseguranças atingiam proporções gigantescas. Se lhe perguntava: achas que ponha este vestido?, a resposta certa não era sim nem não, mas uma área cinzenta algures no meio porque nunca tinha trapos suficientes; se sim, nem queres saber; se não, és um insensível e estou mais gorda, não estou? - só o laranja era uma cor que lhe melhorava o humor. Se olhava em redor em espaços com gente (qualquer um fora de casa), logo era acusado de estar a mirar esta ou aquela, quando na verdade apenas via quem passava, o velhote com o cão, mas que disparate é este? Liliana mantinha-o numa teia de amuos e lágrimas seguidas de reconciliações. João começou a perceber que as lágrimas de mulher parece que valem muito e custam-lhe pouco: como as lágrimas dos crocodilos.
Uma noite, farto de Liliana e dos traumas do seu passado, bateu com a porta aliviado.

- Laranja madura em beira de estrada ou é azeda ou é bichada

terça-feira, 22 de abril de 2014

Provérbio provado desconfiado

Desta é que foi, quando menos contava, num abrir e fechar de olhos, o João apaixonou-se. Estava na cantina da faculdade quando a viu pela primeira vez, morena e muito alta, comprida e chata como a espada de D. Afonso Henriques, mas ao mesmo tempo com um certo ar discreto, de quem não gosta de comprar barulho. Como se chama?, perguntou, Vitória, responderam-lhe. Apaixonou-se mesmo a sério, bolas!, de mal comer e mau dormir andava olheirento e pálido.
João receava tentar a aproximação com medo da rejeição. Não podia tomar decisões impetuosas, tinha de gizar um plano e manter-se nele de passo seguro com os olhos no futuro; conforme a pergunta assim seria a resposta: se tivesse um dizer idiota Vitória não o toleraria, e desfazer-se-ia a primeira impressão. Teria de ser um conhecerem-se lento, queria ser amigo de Vitória sem pressas, confiar desconfiando, até a conhecer como a palma da mão.

- Confiança na vitória é meia batalha ganha

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Provérbio da despedida

Adeus, tio Zé. Faço agora o luto que não soube fazer pela Sara. Quando ela morreu, creio que há cerca de dois anos e meio, não consegui fazer nada, sabes, a única coisa em que consegui ser um bocadinho corajosa foi não chorar durante as visitas ao hospital, chegava ao elevador e aí, sim, podia chorar e chorava, mas nunca antes.  Quando ela morreu, apertei a pulseira que me deu e no funeral faltaram-me palavras, fui papagueando as frases religiosas que sabia que ela detestava. Creio que há cerca de dois anos e meio, não soube despedir-me da Sara.
Adeus, tio Zé. Se conhecesse os teus gostos de poetas, ler-te-ia um poema nada previsível como o Fim do Mário de Sá-Carneiro, tenho um pressentimento de que havias de detestar essa má escolha. A Sara detestaria que te papagueasse qualquer frase religiosa, e elegeria algo mais do teu agrado, ler-te-ia fumando pois a memória que guardo é essa, sempre nos conheci a ti e a ela e a mim assim, envoltos numa nuvem de fumo a conversar.

- Adeus, mundo, cada vez pior