Provérbios Provados noutras casas:

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Provérbio citado (COUPLAND)

«(...)
Wade levou o telefone para a varanda. Inspirou várias vezes e fez uma chamada que esperaria não ter de fazer. Ligou a uma pessoa com quem tinha tido relações profissionais.
- Daqui fala o Norm.
- Norm... é o Wade.
- O Wade Drummond? Boa, boa... que é que tens feito, meu?
- Isto e aquilo. Agora sou casado, Norm. Não tarda nada, tenho um filho, uma caravana e tudo o mais.
- Tu, um homem de família?
- Pfff... todos os bonecos de neve do inferno a derreter numa coluna de fumo.
- A família é uma coisa boa, Wade.
- Havias de ver a minha família. Somos todos psicóticos.
- Todas as famílias são psicóticas, Wade. Todos temos basicamente a mesma família... só que as famílias têm todas uma configuração diferente. Vem conhecer os meus sogros uma noite destas. De onde estás a ligar?
(…)
Passaram alguns minutos a pôr a conversa em dia, e depois seguiu-se um silêncio incómodo numa conversa de homens.
- Norm. Estou a precisar de dinheiro.
Um silêncio.
- Bem, todos precisamos.
- Tive de pedir um empréstimo do Tony «The Tiger» em Carson City para uma clínica de fertilidade que custou um balúrdio. A minha mulher e eu tivemos de ir à Europa tentar um processo novo. Cinquenta mil.
- Cinquenta mil? O que é que custou cinquenta mil dólares?
Talvez seja melhor ir direito ao assunto.
- Norm, sou seropositivo. Há uma clínica em Milão que recolhe sémen e coloca-o numa centrifugadora, e as partículas virais mais leves sobem e deixam a parte inferior limpa.
Norm permaneceu em silêncio.
- Okay. Certo. Já ouvi imensas histórias. Essa é muito boa.
- Não é nenhuma história... é a verdade.
- Mas mesmo assim precisas de massa.
- Exacto.
- Já sabes como é, Wade: quanto maior o risco, maior a recompensa.
(...)»


In Todas as famílias são psicóticas – Douglas Coupland

Provérbio provado desempoeirado

Há dias assim como este em que acordo com uma enorme energia, sabes, quase como se fosse um entusiasmo proibido. O corpo relaxado, bem descansado, o peso que de repente voou dos ombros, a cervical sem um nó, a lombar toda vertical, a respiração limpa, os pulmões oxigenados, o rei na barriga, o coração batendo num ritmo satisfeito, compassado... e isto de tal modo que consigo sentir todos os tecidos, as trocas celulares e as terminações nervosas. Visto-me, penteio-me, sorrio-me ao espelho e nenhuma pedra no sapato. É isto que somos, Cecília, humanos maravilhosos pulsando de vida a cada dia e em cada gesto que traçamos uma rede de possibilidades bela e infinita. Hoje estou capaz de cantar ou até pintar: coisas que normalmente não sei fazer, mas hoje sei e posso. Da vida quero tirar nabos da púcara, tendo sempre presente no presente que nada é permanente.

Findo o monólogo num tom entre alegre e espalha brasas, Cecília fez um breve silêncio, olhou a sogra de soslaio resignada, e perguntou: esqueceste-te de tomar os comprimidos da manhã, não foi, Jorge?

- Os mentirosos deviam ter boa memória

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Provérbio provado empoeirado

Há dias assim como este em que experimento um enorme cansaço existencial, sabes, sinto que viver não posso e morrer não quero, um rotundo zero à esquerda, não, dois ou três ou mais zeros. Somos pequenos seres mesquinhos na poeira do universo, vivendo e aprendendo neste microcosmos que nos corrói a alma. É isto que somos, Cecília, seres pequeninos preocupados com miudezas, com o tempo que faz, as contas do supermercado, o relógio no pulso, pensando que os miseráveis laços que tecemos com os outros fazem algum sentido. No entanto temos mais olhos que barriga, num orgulho renascentista desmedido, vendendo ideias de porta em porta e supondo que adquirimos conhecimento e mundividência. Tira mas é o cavalinho da chuva e fica escutando enquanto ela cai!

Findo o monólogo soprado com raiva, Cecília fez um breve silêncio, resignada, e perguntou: já tomaste os comprimidos da manhã, Jorge?

- Do pó vieste, ao pó voltarás

domingo, 4 de maio de 2014

Provérbio com preço – II

Marcava germanicamente as reuniões para as oito da manhã e ai de quem chegasse atrasado. A explicação balbuciada em frente aos colegas, greve nos transportes, furo nos pneus, criança com febres, um menos redondo na caderneta, tenha santa paciência!, julga que temos toda a manhã por sua conta?
Ao atrasado sentado de pouco lhe adiantava cara de quem comeu e não gostou, o chefe é que tinha a faca e o queijo na mão. Despachava rapidamente a ordem de trabalhos, distribuía tarefas, enérgico, com fôlego de gato com medo que o mundo se acabe.
Vivia no agora, na acção, na optimização do tempo e do trabalho com lucro, muito lucro. Desprezava as pessoas que parece que tinham raiva de quem inventou o trabalho, uns molengas sem préstimo e sem noção de que o relógio enche o bolso a um homem.

- Tempo é dinheiro

P. S. - Post livre de preconceitos bancários, e quiçá teorizando que, se tempo é dinheiro, paguemos então as nossas dívidas com o tempo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Provérbio provado desconfiado – II

Deixámos João a conhecer Vitória como a palma da mão. A coisa desenrolou-se muitíssimo devagar: conversas prolongadas em esplanadas, voltinhas a apanhar ar, insinuações veladas. Ter confiança na Vitória foi meia batalha ganha, mas mesmo só meia. Encetaram um namoro demasiado sossegado, até que ela acabou o curso, regressou à terra e casou-se à pressa com um amigo de infância.
Tais acontecimentos deixaram João devastado, teria de ser doravante ainda mais desconfiado. E assim se deixou andar, até conhecer Liliana num bar. Caiu-lhe literalmente no colo. O oposto de Vitória: Liliana era mundana, baixa, voluptuosa, madura. Cuidada, maquilhada, de unha pintada, nesse dia usava laranja – que descobriu depois ser a sua cor favorita. Conversaram, dançaram, cada gesto de Liliana um convite irrecusável, cada frase uma piada, um fluir irrepetível das horas; Liliana ia directa ao assunto. Encetaram de imediato uma relação toda baseada na atracção, e logo se amaram sem se conhecerem.
Mas pouco tempo passado já Liliana manifestava insatisfação em relação a João. Pequenas inseguranças atingiam proporções gigantescas. Se lhe perguntava: achas que ponha este vestido?, a resposta certa não era sim nem não, mas uma área cinzenta algures no meio porque nunca tinha trapos suficientes; se sim, nem queres saber; se não, és um insensível e estou mais gorda, não estou? - só o laranja era uma cor que lhe melhorava o humor. Se olhava em redor em espaços com gente (qualquer um fora de casa), logo era acusado de estar a mirar esta ou aquela, quando na verdade apenas via quem passava, o velhote com o cão, mas que disparate é este? Liliana mantinha-o numa teia de amuos e lágrimas seguidas de reconciliações. João começou a perceber que as lágrimas de mulher parece que valem muito e custam-lhe pouco: como as lágrimas dos crocodilos.
Uma noite, farto de Liliana e dos traumas do seu passado, bateu com a porta aliviado.

- Laranja madura em beira de estrada ou é azeda ou é bichada

terça-feira, 22 de abril de 2014

Provérbio provado desconfiado

Desta é que foi, quando menos contava, num abrir e fechar de olhos, o João apaixonou-se. Estava na cantina da faculdade quando a viu pela primeira vez, morena e muito alta, comprida e chata como a espada de D. Afonso Henriques, mas ao mesmo tempo com um certo ar discreto, de quem não gosta de comprar barulho. Como se chama?, perguntou, Vitória, responderam-lhe. Apaixonou-se mesmo a sério, bolas!, de mal comer e mau dormir andava olheirento e pálido.
João receava tentar a aproximação com medo da rejeição. Não podia tomar decisões impetuosas, tinha de gizar um plano e manter-se nele de passo seguro com os olhos no futuro; conforme a pergunta assim seria a resposta: se tivesse um dizer idiota Vitória não o toleraria, e desfazer-se-ia a primeira impressão. Teria de ser um conhecerem-se lento, queria ser amigo de Vitória sem pressas, confiar desconfiando, até a conhecer como a palma da mão.

- Confiança na vitória é meia batalha ganha

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Provérbio da despedida

Adeus, tio Zé. Faço agora o luto que não soube fazer pela Sara. Quando ela morreu, creio que há cerca de dois anos e meio, não consegui fazer nada, sabes, a única coisa em que consegui ser um bocadinho corajosa foi não chorar durante as visitas ao hospital, chegava ao elevador e aí, sim, podia chorar e chorava, mas nunca antes.  Quando ela morreu, apertei a pulseira que me deu e no funeral faltaram-me palavras, fui papagueando as frases religiosas que sabia que ela detestava. Creio que há cerca de dois anos e meio, não soube despedir-me da Sara.
Adeus, tio Zé. Se conhecesse os teus gostos de poetas, ler-te-ia um poema nada previsível como o Fim do Mário de Sá-Carneiro, tenho um pressentimento de que havias de detestar essa má escolha. A Sara detestaria que te papagueasse qualquer frase religiosa, e elegeria algo mais do teu agrado, ler-te-ia fumando pois a memória que guardo é essa, sempre nos conheci a ti e a ela e a mim assim, envoltos numa nuvem de fumo a conversar.

- Adeus, mundo, cada vez pior

segunda-feira, 24 de março de 2014

Provérbio citado (ISHIGURO)

« - Li no jornal que vinhas cá – continuou Geoffrey Saunders. - Tenho estado à espera de receber notícias tuas. Enfim, a perguntar-me quando aparecerias. Até comprei uns bolos na pastelaria para ter alguma coisa para te oferecer com uma chávena de chá. No fim de contas, os meus alojamentos podem ser tristonhos, em virtude de ser solteiro e tudo o mais, mas, mesmo assim, espero que as pessoas me visitem de vez em quando e sou capaz de as receber bem. Por isso, quando soube que vinhas cá, saí e comprei diversos bolos para chá. Isso foi anteontem. Ontem achei que ainda estavam apresentáveis, embora o glacé estivesse a ficar um bocadinho para o duro. Mas hoje, como continuaste sem aparecer, deitei-os fora. Uma questão de orgulho, suponho. Quero dizer, tens tido tanto êxito que não queria que partisses a pensar que levo uma vida miserável num quarto alugado, apenas com bolos velhos para oferecer. Por isso, fui à pastelaria e comprei bolos frescos. E arrumei um pouco o meu quarto. Mas não apareceste. Bem, acho que não posso censurar-te. (…) Aconteceu que tive pouca sorte ao amor. Uma data de gente desta cidade julga que sou homossexual. Só porque vivo sozinho num  quarto alugado. A princípio importei-me com isso, mas agora já não. Muito bem, tomam-me erradamente por homossexual. E depois? Sucede que as minhas necessidades são satisfeitas com mulheres. Tu sabes, daquelas a quem pagamos. Perfeitamente adequadas para mim, diria mesmo que algumas delas são pessoas muito decentes. Mesmo assim, passado algum tempo, começamos a desprezá-las e elas começam a desprezar-nos. É inevitável. Conheço a maioria das prostitutas desta cidade. Não quero dizer que tenha dormido com todas elas. De modo algum! Mas conheço-as e elas conhecem-me. Cumprimento muitas delas com uma leve inclinação de cabeça. Se calhar, pensas que levo uma vida miserável. Mas não. É tudo uma questão de como vemos as coisas. (...)»

In Os inconsolados – Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 12 de março de 2014

Provérbio esbelto

Devem conhecer uma Daniela como esta, uma ainda adolescente que se julga já mulher. A bem entender, Daniela é curvilínea e alta q.b. para ser confundida com uma menina. Nem deixa que a confundam: é moderna, gosta de moda, e pesquisa pela internet e pelas revistas as tendências. O que vestir torna-se um tema importante do dia em demasia. A escola é uma chatice, um enfado, uma seca completa, um revirar de olhos quando se lhe pergunta como vai a dita; mas é pelos seus corredores e pavilhões, numa passerelle maravilhosa, que Daniela desfila com as amigas para deixar mostar as fatiotas em todo o seu esplendor. Sabem de cor o que envergam as suas estrelas favoritas em ocasiões supostamente importantes – por estrelas entenda-se uma amálgama de modelos/actrizes, umas mais cadentes que outras. Gostariam de ser/vestir como elas e, não tendo tal dinheiro nunca suficiente, vasculham lojas atafulhadas de roupa desarrumada com a música a tocar muito alto, para tentar encontrar peças parecidas e principalmente muito mais baratas. Daniela e as amigas fazem gala de passar horas em preparação de festa: quando chegam então e tão excessivamente maquilhadas parecem ter pelo menos mais dez anos.
Devem conhecer uma Daniela como esta, nunca leu um livro – só os resumos – porque a informação está toda na net; aliás, os livros são, tipo, uma grande seca. Sobra-lhe assim o tempo para o que é mais importante para ela, Daniela: navegar pelo Livro das Caras e dos Instantes, onde vê o que interessa/supõe que os seus 847 amigos gostam, onde estão e a fazer o quê e porquê, e as coisas/pessoas que fotografam. Daniela tem a sua página onde se apresenta viçosa e vivaça, em calções curtos e tops de renda no Inverno. Nas fotografias tem os lábios muito pintados e é espalhafatosa nos comentários. Talvez um conflito de informação numa idade tramada, Daniela conseguiu publicar uma destas fotografias com a frase menos moderna de sempre:

- O que é bom é para se ver

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Provérbio convidado inventado

Já tenho pedido a amigos(as) que me escrevam um provérbio, mas sou normalmente enxotada. Hoje a Anabela inventou e ofereceu-me esta pérola – apesar de não querer escrever nenhuma história, ela assegura que está mais que provado:


- O português mesmo quando interessado não gosta de ser engatado

Provérbios provados mencionados

Os provérbios provados foram mencionados no prestigiado Malomil

Quanta honra! Estou inchada de satisfação.
Obrigada, António Araújo!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Provérbio asinino

Passou-se isto num lugar nos montes atrás dos montes. A essa aldeiazinha chegou um dia um casal de holandeses à procura de um burro. Isso mesmo, um burro. A Manuela do “Café Nelita” lá foi dizendo, num poucochinho de inglês e gestos de mímica, que sim, que havia um burro. Só um, mas havia. E lá foi mandado buscar o compadre Silvino que veio devagarinho com o seu burro Tó. O casal de holandeses passou do sorriso largo ao sorriso lasso: indecisos, falavam baixo lá no seu dialecto, e deveriam estar examinando o que sabiam todos: o burro era velho e para trabalhar já não servia. Então o casal continuou dialogando em tom surdo, e dirigindo-se num tom mais alto à Nelita, dispôs-se a falar, enquanto ela toda se soprava em onomatopeias e gestos desesperados.
Depois de um bocado naquilo: uns dispersavam, outros chegavam perguntando que se passava, e o Tó defecava; lá a Nelita muito afogueada conseguiu dar conta da holandesa jornada: este casal tinha uma casa de turismo rural, já ali num monte atrás dos montes mais perto. Ora os turistas que vinham para essa casa gostavam de fazer as coisas cá da terra, fazer o pão, o azeite, andar nas vindimas, que lá na terra deles não tinham nada dessas coisas. E agora queriam um burro para dar passeios. O pessoal ficou intrigado, então estes camoines em vez de descansar vinham para trabalhar e andar escanchados num burro? Que o compadre Silvino não se preocupasse, alvitrou a Nelita, viriam buscar o Tó sempre que houvesse ocasião e trá-lo-iam são e salvo depois da passeata. Sem problemas. Bom dinheiro por cada passeio do Tó. O compadre anuiu, mas lá foi avisando que o burro era muito teimoso e que apenas respondia por um chamado muito preciso
     - Ó-ó-ó, bu-u-u-rr-e-e
     seguido de um estalido com a língua. A holandesa tentava, o holandês repetia, a Nelita conseguia, e de repente tudo em largo ria enquanto o Tó zurrava irritado.

Até que chegou a primeira marcação: compadre Silvino mandou Tó engalanado, despedindo-se do holandês com um obrigado. Ao fim do dia, o burro foi devolvido e contada a história por um holandês desiludido: por mais que fizessem, chamassem, cantassem, estalassem a língua, o Tó fincou as patas no chão e dali não saiu. Ninguém nesse dia passeou. Mas o Silvino não se ficou: disse à Nelita que dissesse ao holandês que o burro continuava a ir, sim, mas acompanhado pelo dono, com a idade que tinha já estava cansado e além disso

 - Burro velho não aprende línguas

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Provérbio citado (AGUALUSA)

«Em criança, ainda antes de aprender a ler, passava horas na biblioteca da nossa casa, sentado no chão, a folhear grossas enciclopédias ilustradas, enquanto o meu pai compunha versos árduos, que depois, muito sensatamente destruía. Mais tarde, já na escola, refugiava-me nas bibliotecas para fugir às brincadeiras, sempre brutais, com que os rapazes da minha idade se entretinham. Fui um menino tímido, franzino, alvo fácil da chacota dos outros. Cresci – cresci até um pouco mais do que é comum -, ganhei corpo, mas continuei retraído, avesso a aventuras. Trabalhei durante alguns anos como bibliotecário e creio que fui feliz nessa época. Tenho sido feliz depois disso, inclusive agora, neste pequeno corpo a que fui condenado, enquanto acompanho, num ou noutro romance medíocre, a felicidade alheia. Na grande literatura são raros os amores felizes.(…)»

In O vendedor de passados – José Eduardo Agualusa

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Provérbio citado (SILVA)

«
A minha vida divide-se entre luz e sombra.
Dos vinte aos vinte e nove fui aplaudido
por holofotes em cio, todas as notícias
me queriam conhecer, e em meus braços
decidia-se a beleza ou fealdade das mulheres.
Quinze filmes de sucesso e depois, o desastre:
quatro fracassos consecutivos. O meu rosto,
disseram, passara de moda, ultrapassado
pelas máscaras de gás que atravessaram,
com a guerra, meia Europa, quando o público
desatou a imitar o cinismo dos intelectuais
e a achar ridículo o sensível romantismo
dos meus gestos. Assim se fundiu a minha
auréola, o meu prestígio. Remetido para
as trevas, nunca mais fui perseguido por
fotógrafos, e tudo em meu redor se esvaziou
como um balão abandonado pelo fogo.
No meu funeral, vinte anos depois, nenhuma
apaixonada deu a cara, nenhuma malcasada.
Só então compreendi quão morto estava.
Reflecti, vós que passais, na minha história:
morre duas vezes quem viveu da sua imagem.
»


Vozes apanhadas no chão na igreja de San Miniato al Monte, nº 2

In Erros individuais – José Miguel Silva

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Provérbio provado esperançado

A Esperança nasceu numa família de escassos recursos; abundantes mesmo, só os mimos e atenções que os pais dedicavam aos dois filhos, que foram sempre acarinhados. Quando pensa na infância, lá está ela: num baú sem chave e um odor eterno.
A Esperança cresceu e foi vivendo uma vida normal, recheada de alegrias e tristezas, êxitos e fracassos, vitórias de uma vontade férrea e alguns tropeções no destino, apanhada desprevenida diante de um mundo obcecado pela competição, o ganhar, o ter e o parecer.
A Esperança foi tia de dois mas, profunda sua pena, nunca chegou a casar nem teve filhos. Ficou com a melhor parte, dizia, podia saltar as perguntas mais incómodas e as birras mais chatas dos sobrinhos. Dizia isto com uma gargalhada, e claro que era mentira.
A Esperança viu morrer os pais, pela ordem natural da vida, e a dada altura perdeu subitamente o sobrinho, a vida a brincar às excepções. Viu depois morrer o irmão e em seguida a cunhada. Foi acumulando coisas inúteis, louças, toalhas, livros, fotos antigas, aniversários de familiares que partiram, recordações para ninguém.
A Esperança foi recentemente tia-avó: viu a netinha através dum computador e até podia ouvir a sobrinha falando, com a menina ao colo dormindo, do outro lado do Atlântico, imagine-se!

- A esperança é a última a morrer

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Provérbio citado (WALSER)

« (…) O meu colega, de resto, é um homem mais velho e mais infeliz, antigo proprietário de uma cestaria que se arruinou na sequência de infortúnios vários e que agora trabalha à jorna como copista, tal como eu, só que eu não pareço copista nem jornaleiro, mas sim um inglês excêntrico, ao passo que o meu camarada parece alguém que se recorda constante e dolorosamente de melhores dias. A maneira amável e comovente como caminha e como assente sempre com a cabeça conta a história da sua desdita numa linguagem que não conhece a vergonha. É um homem mais velho e já não quer impressionar ninguém, quer apenas manter-se de pé. Mas impressiona-me a mim, porque eu conheço o seu sofrimento e o peso que carrega nos ombros e o esmaga. Sinto orgulho em caminhar com ele num bairro tão elegante e aproximo-me dele sem qualquer embaraço para assim demonstrar o meu apreço espontâneo pelo seu fato de qualidade inferior. Deparo-me com vários olhares estupefactos, um ou outro fabuloso par de olhos que parece interrogar-me, e isso diverte-me, para o diabo com os outros! Falo alto e com grande ênfase. O fim do dia é tão propício à conversa. Trabalhei o dia inteiro. É magnífico passar o dia a trabalhar e depois sentir um bonito cansaço que nos reconcilia com tudo e com todos. Não ter um cuidado, um pensamento. Poder passear com ligeireza, com a sensação de não ter feito mal a ninguém. Olhar em volta para ver se agrado a alguém. Sentir que agora sou um pouco mais digno de amor e respeito, em comparação com os dias que passei a mandriar, dias que caíram num abismo e se esvaneceram como fumo. Sentir muito, sentir inteiramente este fim de tarde oferecido! Sentir o fim da tarde como uma oferenda, porque é uma oferenda, de facto, para quem passou o dia a trabalhar. Assim se dá e assim se recebe.»

 In Os irmãos Tanner – Robert Walser

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Provérbio funcionário

No meu serviço, digo no meu serviço porque por aqui é costume dizer-se assim, as pessoas tratam-se por colegas porque por aqui é costume dizer-se assim.
No meu serviço, não há cão nem gato que não queira mandar mas as colegas inventam urgências de tarefas quando é preciso ajudar.
No meu serviço classificam-se documentos: podem arrumar-se também as colegas segundo determinada categoria?


Há-as sempre atrapalhadas, à nora, que repetem perguntas e pedem assistências, e andam em círculos para apressar o ponteiro dos minutos. E depois há as que com elas vão atrás como o cú, por arrasto, atrasadas na opinião, a pensar na morte da bezerra. Neste grupo dormem na forma as pachorrentas e sem energia que se movimentam a passo de caracol.
No oposto para lá do ensaio da lentidão, temos as colegas apressadas, com o mundo fugindo debaixo dos pés, sempre atarefadas e afogueadas, tantas vezes nessa urgência disfarçando a falta do que fazer.
Há-as também assustadas, pálidas e de olhos sensíveis, que trazem o coração nas mãos receosas dum perigo invisível, maus-olhados-invejas-energias, e são atacadas por frequentes alergias.
As maldispostas guardam sete pedras atrás das costas, de pé atrás, desconfiadas, e ninguém se meta quando vêm de faca e calhau.
E as colegas que apalpam terreno, rodeiam, rodopiam, e depois trepam: o que dizer deste maravilhoso obedecer aos seus instintos territoriais?


Afinal aqui no meu serviço há de tudo como as estações do ano e as colegas, tal como elas, vão intercalando várias disposições e adicionando outras tantas que não descrevi. E afinal aqui no meu serviço:

- Ainda há quem faça bem, não há quem saiba agradecer

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Provérbio hipócrita

Logo pela manhã, assim é o indicador emprestado ao relógio de ponto, logo é um esguicho, para desinfectar. Assim se vagueia o olhar pela mesa de trabalho, aquela caneta mais dois minutos a oeste nada de novo, e mais um esguicho, para desinfectar. E assim, logo pela manhã, o corpo todo num bailado de 360 graus, para desinfectar.
Percorrendo dia afora, mãos lavadas vezes sem conta até ao cotovelo, semblante constricto, cabelo e pensamento bem esticados, lisos. O corpo todo pendurado num cabide, num bailado de 360 graus, sem profundidade, só para desinfectar.

- Com a verdade me enganas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Provérbio citado (ANDERSEN)

É absolutamente certo!
Det er ganske vist!(1852)

- É uma história terrível! – disse uma galinha, e tudo isso num ponto da cidade onde a história nunca se tinha passado. – É uma história terrível de capoeira! Não ouso dormir sozinha esta noite! É bom que sejamos muitas, todas, juntas no poleiro! – E então contou, e de tal modo, que as penas se levantaram nas outras galinhas e o galo deixou cair a crista. É absolutamente certo!
Mas comecemos pelo princípio, e isto deu-se noutro ponto da cidade, numa capoeira. O Sol desceu e as galinhas subiram para o poleiro. Uma delas tinha penas brancas e pernas curtas, punha os seus ovos regulamentados e era, como galinha, respeitável de todos os modos. Quando veio para o poleiro, afagou-se com o bico e assim caiu-lhe uma peninha.
- Lá vai! – disse ela. – Quanto mais me afago, tanto mais bonita fico! – E isso foi dito em tom jovial, pois era ela a brincalhona de entre as galinhas, se bem, como se disse, muito respeitável. E depois deixou-se dormir.
À volta estava tudo escuro, galinha ao lado de galinha, mas aquela que estava mais perto dela não dormia. Ouviu e fingiu que não ouviu, como se deve fazer neste mundo para se viver em boa tranquilidade, mas à outra vizinha teve de dizê-lo:
- Ouviste o que se disse? Não nomeio ninguém, mas há uma galinha que quer arrancar as penas para parecer bem! Se eu fosse o galo, desprezava-a!
E directamente por cima das galinhas estavam a coruja com o corujo e os corujinhos. Têm ouvidos apurados na família. Ouviram todas as palavras que a vizinha galinha dise. Rebolaram os olhos e a coruja-mãe bateu as asas:
- Não estejam à escuta! Mas ouviram com certeza o que se disse! Ouvi-o com as minhas próprias orelhas e muito se tem de ouvir antes de estas caírem! Há uma das galinhas que, em tal grau, esqueceu como se deve comportar uma galinha, que está a arrancar todas as penas e permite que o galo a veja assim!
- Prenez garde aux enfants! – disse o corujo-pai. – Não é coisa para crianças ouvirem.
- Quero, contudo, contá-lo à coruja vizinha, em frente. É uma coruja tão estimada na vizinhança! – E lá voou a mãe.
- Uh-uh! Uh-hu! – gritaram ambos directamente para baixo, para as pombas no pombal vizinho. – Ouviram? Ouviram? Uh-uh! Há uma galinha que arrancou todas as penas por causa do galo! Está a morrer de frio, se não morreu já, uh-uh!
- Onde?, onde? – arrulharam as pombas.
- No pátio do vizinho! Vi-a com os meus próprios olhos! É quase uma história imprópria para contar! Mas é absolutamente certa!
- Cremos, cremos em cada palavra! – disseram as pombas e arrulharam para baixo, para a capoeira: - Há uma galinha, sim, alguns dizem mesmo que há duas, que arrancaram todas as penas para não parecerem como as outras, e chamarem assim a atenção do galo. É um jogo arriscado, pode apanhar-se uma constipação e morrer-se com febre, e mortas estão ambas!
- Acordem! Acordem! – cantou o galo e voou para a trave, ainda com os olhos ensonados, mas cantou, mesmo assim: - Há três galinhas que morreram de amores por um galo que lhes correspondeu! Arrancaram todas as penas! É uma história desagradável, mas não quero guardá-la, façam-na correr!
- Façam-na correr! – chiaram os morcegos, as galinhas cacarejaram e os galos cantaram: - Façam-na correr! – E assim a história correu de capoeira para capoeira e, por fim, voltou ao lugar donde tinha partido.
- Há cinco galinhas – contava-se – que arrancaram todas as penas para mostrar qual delas tinha emagrecido mais, por penas de amor pelo galo, e depois bicaram-se umas às outras até sangrarem e caírem mortas, para vergonha e desonra da família, e grande prejuízo do dono!
E a galinha que tinha perdido a peninha solta não reconheceu, naturalmente, a sua própria história. Como era uma galinha respeitável, disse:
- Desprezo essas galinhas! Mas há muitas desse género! Dessas coisas não se deve guardar segredo e eu vou fazer com que a história venha no jornal e corra todo o país. É o que estas galinhas merecem e a sua família também!
E veio no jornal. Foi publicado e é certo, absolutamente certo, que uma peninha pode bem transformar-se em cinco galinhas.


In Os contos – Hans Christian Andersen
(traduzido directamente do dinamarquês por Niels Fischer)

sábado, 23 de julho de 2011

(Vários) provérbios provados numa (longa) conversa

Uma tasca com nome de estádio. Múltiplas pequenas mesas amontoadas ao calhas. Três jovens, nos seus vintes, mais as minis e as conversas cruzadas. E um brinde inicia o jogo habitual do “se perdes, bebes”, que é só um pretexto para a conversa fluir solta:

RICARDO - Então?, vamos escolher o tema…
PATRÍCIA - Gostei na semana passada, o dos filmes. Hoje não tenho ideias.
MANUEL - Sim, o dos filmes, muito interessante. (maroto) Quando tu não estás cá, jogamos com outro tipo de filmes. (piscadela de olho para Ricardo)
R. - Ó Patrícia, não lhe ligues. Ele só te quer chatear. Então?, o tema de hoje pode ser, deixa ver: provérbios.
M. - Provérbios? Isso é um bocado seca.
R. – Não é nada! É tão fácil, há tantos!
M. – Se é assim tão fácil, não se bebe nada. (ri-se muito)
P. – Eu gosto da ideia. E temos dois terços dos votos, portanto a maioria é soberana; isto já conta como provérbio?
R. – Podia contar. (sorri benevolente para Patrícia) Mas não, começamos agora. Vamos lá, no sentido dos ponteiros do relógio. Patrícia, és tu. Ó Sr. Marques, traga mais três, estamos secos!
P. – Deixa-me pensar… O que é teu à tua mão há-de chegar.
M. – Pássaro enjaulado não voa.
R. – Ó Manel, qual é a relação?
M. – Tu não disseste que há tantos?, cada um vê nos provérbios a relação que quer. E toma lá dois seguidos. Ah-ah!
R. – Se queres jogar à toa, Manel, por mim tudo bem. A paciência é uma virtude.
M. – Essa é boa! O que tem o cu a ver c’as calças? E toma lá três, bebe!
R. – Adiante. (bebe) Patrícia, és tu.
P. – Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
M. – Quem? Essa não é para mim, de certeza. (piscadela de olho para Ricardo) Sou eu a jogar? Quem diz quem? Ah-ah! O seguro morreu de velho.
P. – Nunca percebi essa expressão…
R. – Nem eu. (sorri benevolente para Patrícia) O que não se faz de uma vez, faz-se em duas ou três.
P. – Fraquinho, fraquinho. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
M. – Epá, temos guerra aberta. (esfregando as mãos) Vénus anda no ar?
R. – E também o Baco; não é, ó Manel? Isso nem foi provérbio, atina lá no jogo.
M. – O que é bonito é para se ver. Ah-ah!
R. – O segredo é a alma do negócio.
P. – Onde há fumo, há fogo.
M. – Olho por olho, dente por dente.
R. – Isso é bíblico. O Cristo não concordava com isto, e vai daí a ligação de se oferecer a outra face.
M. – Lá vens tu, feito professor, estou-me a cagar para a Bíblia. (Manuel interroga-se agora se há-de manter a maiúscula)
P. – Manel, bem sabes que o Ricardo não perde uma oportunidade de ensinar os pobres de espírito. (irónica)
R. – O saber não ocupa lugar. Bebam, os dois! Com esta arrumei-vos.
P. – O sol quando nasce é para todos. (bebe)
M. – O sol, se houvesse onde o esconder, já o teriam roubado. Ah-ah! (bebe)
R. – Nem sei se é provérbio, mas que bonito, pá! Os amigos são prás ocasiões.
P. – Esse nem devia valer, Ricardo, de lógico que é… Deixa-me pensar numa coisa espirituosa assim da mesma colheita (irónica): O sal é o rei dos temperos.
M. – Vocês, parem com a parvoíce; Sr. Marques, são só mais três! Sou eu a pagar esta rodada? Sou eu a jogar? Quem diz quem? Os espertos também se enganam. Ah-ah!
R. – Os olhos comem primeiro do que a boca.
P. – Os olhos são o espelho da alma.
M. – Olha que merda mais a estas frases recicladas, parece que estamos todos a mandar bocas uns aos outros. Quando termina o jogo? Cá p’ra mim, quem ri por último, ri melhor. (e bebe)



P.S. – Post livre de preconceitos de enumeração, e quiçá arriscando prémio a quem contar os provérbios deste diálogo.