Tinha um restaurante chinês
A cozinha era uma imundície
E amiúde um cliente à vez
Reparava em tal javardice
Havia intoxicações alimentares
O sushi e o sashimi infectos
E baratas em cima dos bares
Colónoscopias p'los rectos
Quando à noite o sitio fechava
Ia logo entregar o menino
E à mãe sem pena o entregava
Para ir ligeiro p'ró casino
Então a fortuna estourou
A especular na roleta
E bem rápido assim se achou
Tão teso que foi uma treta
Mas quando chegou enfim ao lar
A mulher esperava com calor
Pois quem ao jogo tem azar
Tem sempre sorte no amor
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Provérbio provado rimado - XXIII
É regra da pessoa frontal
Dizer a verdade nua e crua
Ter boa coluna vertebral
Ir de costas direitas na rua
Pois quem preza a sinceridade
Não deve nada a ninguém
Essa certeza vem-lhe co'a idade
Aprendeu-a c'o pai e co'a mãe
Pode-se pedir-lhe um extracto
Se assim for tal o desejo
Que o mostra logo no acto
De ser pão pão queijo queijo
Dizer a verdade nua e crua
Ter boa coluna vertebral
Ir de costas direitas na rua
Pois quem preza a sinceridade
Não deve nada a ninguém
Essa certeza vem-lhe co'a idade
Aprendeu-a c'o pai e co'a mãe
Pode-se pedir-lhe um extracto
Se assim for tal o desejo
Que o mostra logo no acto
De ser pão pão queijo queijo
Provérbio provado rimado - XXII
Ao finório que é candidato
Sirva-se a soberba num prato
Que a corrida p'rás autarquias
Está tod'ela repleta de manias
Também na luta p'los concelhos
Se desejam os votos dos velhos
E alguns já estão enterrados
Mas nas listas 'inda contemplados
Os políticos passeiam p'las feiras
Quais pavões inchados de peneiras
Que a vitória já se prepara
É preciso ter podre a própria cara
Sirva-se a soberba num prato
Que a corrida p'rás autarquias
Está tod'ela repleta de manias
Também na luta p'los concelhos
Se desejam os votos dos velhos
E alguns já estão enterrados
Mas nas listas 'inda contemplados
Os políticos passeiam p'las feiras
Quais pavões inchados de peneiras
Que a vitória já se prepara
É preciso ter podre a própria cara
Provérbio provado rimado - XXI
Há paredes com grandes ouvidos
Que levam a água ao seu moinho
Escutam mexericos perdidos
Levam-nos se preciso ao Minho
Não se importam de gastar as solas
Se for p'ra ficarem bem vistas
E fazem figura de parolas
Das galinhas cobiçam as cristas
São mesmo umas pobres coitadas
Queriam era andar de Mercedes
Apoiam-se em pequenos nadas
E ficam a falar co'as paredes
Que levam a água ao seu moinho
Escutam mexericos perdidos
Levam-nos se preciso ao Minho
Não se importam de gastar as solas
Se for p'ra ficarem bem vistas
E fazem figura de parolas
Das galinhas cobiçam as cristas
São mesmo umas pobres coitadas
Queriam era andar de Mercedes
Apoiam-se em pequenos nadas
E ficam a falar co'as paredes
Provérbio provado rimado - XX
O que é barato sai caro
Lá diz o povo e com razão
Pois quando um homem é avaro
Logo lhe voa a ave da mão
Melhor é uma casa na vila
Do que ter duas no arrabalde
Mas se a teimosia se perfila
Dar conselhos é mesmo debalde
Então se sabes o que vales
E no bolso tens uns cobres médios
Lembra-te que p'ra grandes males
Sempre existem grandes remédios
Tenta mimar bem a patroa
Dá-lhe um lar que bem a satisfaça
Em cima da mesa põe a broa
E acompanha-a ao sábado à praça
Lá diz o povo e com razão
Pois quando um homem é avaro
Logo lhe voa a ave da mão
Melhor é uma casa na vila
Do que ter duas no arrabalde
Mas se a teimosia se perfila
Dar conselhos é mesmo debalde
Então se sabes o que vales
E no bolso tens uns cobres médios
Lembra-te que p'ra grandes males
Sempre existem grandes remédios
Tenta mimar bem a patroa
Dá-lhe um lar que bem a satisfaça
Em cima da mesa põe a broa
E acompanha-a ao sábado à praça
Provérbio provado rimado - XIX
A mulher é uma barata tonta
Se tenta fazer bem seu trabalho
Toda a tarefa é uma afronta
Ela é uma carta fora do baralho
É a definição de incompetente
Do serviço não percebe um avo
E no fim do mês é descontente
Acha que vale mais que um chavo
No entanto recusa aprender
Com quem assim tão bem a trata
O melhor seria compreender
Que é muito mais tonta que a barata
Se tenta fazer bem seu trabalho
Toda a tarefa é uma afronta
Ela é uma carta fora do baralho
É a definição de incompetente
Do serviço não percebe um avo
E no fim do mês é descontente
Acha que vale mais que um chavo
No entanto recusa aprender
Com quem assim tão bem a trata
O melhor seria compreender
Que é muito mais tonta que a barata
Provérbio provado rimado - XVIII
O José era veterinário
Mas tirou um curso ordinário
Numa faculdade privada
Que vendia cursos de fachada
O canudo lá emoldurou
Mas depois sem emprego ficou
Até que viu um anúncio p'ró zoo
Que lhe punha as fraquezas a nu
E um dia o belo do Zé
Após tomar de manhã o café
Dirigiu-se para o zoológico
Atulhado de um medo ilógico
Mas depois de ter lá chegado
Percebeu que não aviava gado
Mandaram-no foi pentear macacos
E cuidar de pôr os pêlos em sacos
Mas tirou um curso ordinário
Numa faculdade privada
Que vendia cursos de fachada
O canudo lá emoldurou
Mas depois sem emprego ficou
Até que viu um anúncio p'ró zoo
Que lhe punha as fraquezas a nu
E um dia o belo do Zé
Após tomar de manhã o café
Dirigiu-se para o zoológico
Atulhado de um medo ilógico
Mas depois de ter lá chegado
Percebeu que não aviava gado
Mandaram-no foi pentear macacos
E cuidar de pôr os pêlos em sacos
Provérbio provado rimado - XVII
Ninguém gosta de fazer de vela
Que o diga a minha amiga Anabela
Numa noite quase o fez sem querer
Mas não havia ali nada a temer
Que a união com o dito rapaz
É tranquila e assim com muita paz
E a coisa não era assumida
Ele teria de fazer p'la vida
E construir como peças de um lego
Pôr de parte algum aflito ego
Nesse barco não se segura vela
'Inda que grande no mastro uma tela
Que o diga a minha amiga Anabela
Numa noite quase o fez sem querer
Mas não havia ali nada a temer
Que a união com o dito rapaz
É tranquila e assim com muita paz
E a coisa não era assumida
Ele teria de fazer p'la vida
E construir como peças de um lego
Pôr de parte algum aflito ego
Nesse barco não se segura vela
'Inda que grande no mastro uma tela
Provérbio provado rimado - XVI
O filho é um acumulador
Já lhe disse que deite por favor
Para o lixo todos os cadernos
Que não servem em tempos modernos
Ele guarda-os até da primária
É pessoa um pouco refractária
Porém neste doido acumular
A mãe já se começa a passar
Que em casa já não há espaço
Nem p'ra mais um botão nem um laço
E a mãe quer ter todo o conforto
Não tarda a coisa dá para o torto
É por isso que te digo Alzira
Põe o André a dançar o vira
E que deite fora sem resistir
Velharias mande com os porcos ir
Já lhe disse que deite por favor
Para o lixo todos os cadernos
Que não servem em tempos modernos
Ele guarda-os até da primária
É pessoa um pouco refractária
Porém neste doido acumular
A mãe já se começa a passar
Que em casa já não há espaço
Nem p'ra mais um botão nem um laço
E a mãe quer ter todo o conforto
Não tarda a coisa dá para o torto
É por isso que te digo Alzira
Põe o André a dançar o vira
E que deite fora sem resistir
Velharias mande com os porcos ir
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Provérbio provado rimado - XV
Não pagam dívidas as tristezas
Disso não duvides com certezas
Que os tristes são pobres p'la certa
Desconhecem a alegria d'oferta
Não aquecem se há gentilezas
Os amigos não reúnem às mesas
Sua alma sucumbe deserta
Por não q'rerem uma vida incerta
Apoquentam-se com miudezas
Quando vagueiam p'las redondezas
Com a alma em constante alerta
Comprimida numa f'rida aberta
Pois nem todos têm as mesmas riquezas
Como eu com grandes e francesas
É por isso que agradeço a esperta
Original e q'rida amiga Berta
Disso não duvides com certezas
Que os tristes são pobres p'la certa
Desconhecem a alegria d'oferta
Não aquecem se há gentilezas
Os amigos não reúnem às mesas
Sua alma sucumbe deserta
Por não q'rerem uma vida incerta
Apoquentam-se com miudezas
Quando vagueiam p'las redondezas
Com a alma em constante alerta
Comprimida numa f'rida aberta
Pois nem todos têm as mesmas riquezas
Como eu com grandes e francesas
É por isso que agradeço a esperta
Original e q'rida amiga Berta
Provérbio provado rimado - XIV
De noite todos são pardos
Têm medo de água fria
E são ásperos como cardos
Quando rompe a monotonia
Deitam-se na almofada
Fazem contas de cabeça
Dos sonhos não lembram nada
Nem ninguém que os mereça
Vivem sem respirar fundo
Morrem sem deixar lembrança
E continua igual o mundo
Com eles não houve dança
Sobre talvez um lamento
Alguém os há-de chorar
Mas faltou o sentimento
Por não ousarem amar
Têm medo de água fria
E são ásperos como cardos
Quando rompe a monotonia
Deitam-se na almofada
Fazem contas de cabeça
Dos sonhos não lembram nada
Nem ninguém que os mereça
Vivem sem respirar fundo
Morrem sem deixar lembrança
E continua igual o mundo
Com eles não houve dança
Sobre talvez um lamento
Alguém os há-de chorar
Mas faltou o sentimento
Por não ousarem amar
Provérbio provado rimado - XIII
O piropo se é engraçado
Até um sorriso arranca
Porém quando é depravado
Merece uma resposta franca
Tem mais fama que proveito
O desgraçado do trolha
Mas por vezes lá diz a preceito
Uma frase feita à sua escolha
Em cima do andaime profere
O ditote és boa comó milho
E conquanto até se esmere
Só arranja um grande sarilho
Até um sorriso arranca
Porém quando é depravado
Merece uma resposta franca
Tem mais fama que proveito
O desgraçado do trolha
Mas por vezes lá diz a preceito
Uma frase feita à sua escolha
Em cima do andaime profere
O ditote és boa comó milho
E conquanto até se esmere
Só arranja um grande sarilho
Provérbio provado rimado - XII
Às vezes a boca não calo
Se a mostarda me chega ao nariz
Sem filtros tudo tal qual falo
Aquilo que ninguém nunca diz
As calças recuso baixar
Não tenho truques na manga
Quem quer em mim poder mandar
Cuidado que solto a franga
Se há coisa que mais detesto
É quem não sabe dar a cara
E manda dizer pelo resto
Pois cobardemente não encara
E assim a medo delega
Apoiada em gente nefasta
Os fracos sobrecarrega
Há que dizer-lhe um basta
Se a mostarda me chega ao nariz
Sem filtros tudo tal qual falo
Aquilo que ninguém nunca diz
As calças recuso baixar
Não tenho truques na manga
Quem quer em mim poder mandar
Cuidado que solto a franga
Se há coisa que mais detesto
É quem não sabe dar a cara
E manda dizer pelo resto
Pois cobardemente não encara
E assim a medo delega
Apoiada em gente nefasta
Os fracos sobrecarrega
Há que dizer-lhe um basta
Provérbio provado rimado -XI
Rir é o melhor remédio
Para enfrentar a manhã
Afasta bem qualquer tédio
E esquece o diário afã
Permite soltar as risadas
Que enterram a ansiedade
E até acreditar em fadas
Que não conhecem maldade
Rir de tudo e um par de botas
Da quinta pata do cavalo
E das estúpidas anedotas
Que se contam no intervalo
É uma espécie de placebo
Que faz mais bem que mal
No focinho do cão o sebo
Que alimenta o animal
Pois mesmo a piada veloz
Tem muito efeito na gente
Afasta o piegas e atroz
Simular intransigente
E é melhor ainda rir
Da sua própria pessoa
Para assim poder fugir
Da seriedade à toa
Para enfrentar a manhã
Afasta bem qualquer tédio
E esquece o diário afã
Permite soltar as risadas
Que enterram a ansiedade
E até acreditar em fadas
Que não conhecem maldade
Rir de tudo e um par de botas
Da quinta pata do cavalo
E das estúpidas anedotas
Que se contam no intervalo
É uma espécie de placebo
Que faz mais bem que mal
No focinho do cão o sebo
Que alimenta o animal
Pois mesmo a piada veloz
Tem muito efeito na gente
Afasta o piegas e atroz
Simular intransigente
E é melhor ainda rir
Da sua própria pessoa
Para assim poder fugir
Da seriedade à toa
Provérbio provado rimado - X
No dia em que a égua pariu
Nesse instante o cavalo fugiu
Logo se sentiu abandonada
No estábulo assim foi deixada
Olhou tristonha o filhote
Apertado com um garrote
Que sozinho tentava fugir
Sabendo que ia cair
No campo andavam vindimas
Que ali reuniam as primas
Foi naquela época da uva
Que tirou o cavalinho da chuva
Do macho teve sempre saudade
Mesmo até ter passado da idade
Pois no coração ninguém manda
Isso lhe disse a prima Vanda
Nesse instante o cavalo fugiu
Logo se sentiu abandonada
No estábulo assim foi deixada
Olhou tristonha o filhote
Apertado com um garrote
Que sozinho tentava fugir
Sabendo que ia cair
No campo andavam vindimas
Que ali reuniam as primas
Foi naquela época da uva
Que tirou o cavalinho da chuva
Do macho teve sempre saudade
Mesmo até ter passado da idade
Pois no coração ninguém manda
Isso lhe disse a prima Vanda
Provérbio provado rimado - VIII
Normal é quando se esconde
Uma pulga atrás da orelha
Porque o cochicho está onde
Se encontra a beata da velha
Segredinhos são apanágio
De gente muito calhandreira
E propagam-se por contágio
Basta começar a primeira
P'la frente cerram os lábios
Fazendo um gesto com a mão
E vomitam provérbios sábios
Enquanto simulam compaixão
Pior é que muitas vezes passam
Por serem cordatas e discretas
Mas boas reputações devassam
Com suas mordazes indirectas
Uma pulga atrás da orelha
Porque o cochicho está onde
Se encontra a beata da velha
Segredinhos são apanágio
De gente muito calhandreira
E propagam-se por contágio
Basta começar a primeira
P'la frente cerram os lábios
Fazendo um gesto com a mão
E vomitam provérbios sábios
Enquanto simulam compaixão
Pior é que muitas vezes passam
Por serem cordatas e discretas
Mas boas reputações devassam
Com suas mordazes indirectas
Provérbio provado rimado - VII
Foi o gato que comeu a língua
E o deixou p'ra sempre em silêncio
Ficou portanto à míngua
De palavras o pobre Inocêncio
E se já era muito calado
Mais ainda pôde acontecer
De ter o pescoço dobrado
E os olhos ao chão oferecer
Esta pequena história nos ensina
Que o que aparenta tragédia
Apesar de ser pequenina
Tem ternura acima da média
E o deixou p'ra sempre em silêncio
Ficou portanto à míngua
De palavras o pobre Inocêncio
E se já era muito calado
Mais ainda pôde acontecer
De ter o pescoço dobrado
E os olhos ao chão oferecer
Esta pequena história nos ensina
Que o que aparenta tragédia
Apesar de ser pequenina
Tem ternura acima da média
Provérbio provado rimado - VI
Quem não tem esqueletos no armário
Que atire a primeira pedra
Isso é porque o imaginário
De boas ideias não medra
Macaquinhos na cabeça
E no sótão muitos baús
É bem normal não se esqueça
Que a originalidade seduz
Que atire a primeira pedra
Isso é porque o imaginário
De boas ideias não medra
Macaquinhos na cabeça
E no sótão muitos baús
É bem normal não se esqueça
Que a originalidade seduz
Provérbio provado rimado - V
Um take away queria abrir
Não sabia se pizza ou se tostas
P'ra depois poder fugir
Com uma perna às costas
Evasão era a palavra chave
Para um paraíso fiscal
E a ASAE era um entrave
No meio de tal chavascal
Foi assim que no fim da história
Deu um grande tiro no pé
Que só deixou a memória
Do sapato a cheirar a chulé
Não sabia se pizza ou se tostas
P'ra depois poder fugir
Com uma perna às costas
Evasão era a palavra chave
Para um paraíso fiscal
E a ASAE era um entrave
No meio de tal chavascal
Foi assim que no fim da história
Deu um grande tiro no pé
Que só deixou a memória
Do sapato a cheirar a chulé
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