Provérbios Provados noutras casas:

segunda-feira, 24 de março de 2014

Provérbio citado (ISHIGURO)

« - Li no jornal que vinhas cá – continuou Geoffrey Saunders. - Tenho estado à espera de receber notícias tuas. Enfim, a perguntar-me quando aparecerias. Até comprei uns bolos na pastelaria para ter alguma coisa para te oferecer com uma chávena de chá. No fim de contas, os meus alojamentos podem ser tristonhos, em virtude de ser solteiro e tudo o mais, mas, mesmo assim, espero que as pessoas me visitem de vez em quando e sou capaz de as receber bem. Por isso, quando soube que vinhas cá, saí e comprei diversos bolos para chá. Isso foi anteontem. Ontem achei que ainda estavam apresentáveis, embora o glacé estivesse a ficar um bocadinho para o duro. Mas hoje, como continuaste sem aparecer, deitei-os fora. Uma questão de orgulho, suponho. Quero dizer, tens tido tanto êxito que não queria que partisses a pensar que levo uma vida miserável num quarto alugado, apenas com bolos velhos para oferecer. Por isso, fui à pastelaria e comprei bolos frescos. E arrumei um pouco o meu quarto. Mas não apareceste. Bem, acho que não posso censurar-te. (…) Aconteceu que tive pouca sorte ao amor. Uma data de gente desta cidade julga que sou homossexual. Só porque vivo sozinho num  quarto alugado. A princípio importei-me com isso, mas agora já não. Muito bem, tomam-me erradamente por homossexual. E depois? Sucede que as minhas necessidades são satisfeitas com mulheres. Tu sabes, daquelas a quem pagamos. Perfeitamente adequadas para mim, diria mesmo que algumas delas são pessoas muito decentes. Mesmo assim, passado algum tempo, começamos a desprezá-las e elas começam a desprezar-nos. É inevitável. Conheço a maioria das prostitutas desta cidade. Não quero dizer que tenha dormido com todas elas. De modo algum! Mas conheço-as e elas conhecem-me. Cumprimento muitas delas com uma leve inclinação de cabeça. Se calhar, pensas que levo uma vida miserável. Mas não. É tudo uma questão de como vemos as coisas. (...)»

In Os inconsolados – Kazuo Ishiguro

quarta-feira, 12 de março de 2014

Provérbio esbelto

Devem conhecer uma Daniela como esta, uma ainda adolescente que se julga já mulher. A bem entender, Daniela é curvilínea e alta q.b. para ser confundida com uma menina. Nem deixa que a confundam: é moderna, gosta de moda, e pesquisa pela internet e pelas revistas as tendências. O que vestir torna-se um tema importante do dia em demasia. A escola é uma chatice, um enfado, uma seca completa, um revirar de olhos quando se lhe pergunta como vai a dita; mas é pelos seus corredores e pavilhões, numa passerelle maravilhosa, que Daniela desfila com as amigas para deixar mostar as fatiotas em todo o seu esplendor. Sabem de cor o que envergam as suas estrelas favoritas em ocasiões supostamente importantes – por estrelas entenda-se uma amálgama de modelos/actrizes, umas mais cadentes que outras. Gostariam de ser/vestir como elas e, não tendo tal dinheiro nunca suficiente, vasculham lojas atafulhadas de roupa desarrumada com a música a tocar muito alto, para tentar encontrar peças parecidas e principalmente muito mais baratas. Daniela e as amigas fazem gala de passar horas em preparação de festa: quando chegam então e tão excessivamente maquilhadas parecem ter pelo menos mais dez anos.
Devem conhecer uma Daniela como esta, nunca leu um livro – só os resumos – porque a informação está toda na net; aliás, os livros são, tipo, uma grande seca. Sobra-lhe assim o tempo para o que é mais importante para ela, Daniela: navegar pelo Livro das Caras e dos Instantes, onde vê o que interessa/supõe que os seus 847 amigos gostam, onde estão e a fazer o quê e porquê, e as coisas/pessoas que fotografam. Daniela tem a sua página onde se apresenta viçosa e vivaça, em calções curtos e tops de renda no Inverno. Nas fotografias tem os lábios muito pintados e é espalhafatosa nos comentários. Talvez um conflito de informação numa idade tramada, Daniela conseguiu publicar uma destas fotografias com a frase menos moderna de sempre:

- O que é bom é para se ver

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Provérbio convidado inventado

Já tenho pedido a amigos(as) que me escrevam um provérbio, mas sou normalmente enxotada. Hoje a Anabela inventou e ofereceu-me esta pérola – apesar de não querer escrever nenhuma história, ela assegura que está mais que provado:


- O português mesmo quando interessado não gosta de ser engatado

Provérbios provados mencionados

Os provérbios provados foram mencionados no prestigiado Malomil

Quanta honra! Estou inchada de satisfação.
Obrigada, António Araújo!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Provérbio asinino

Passou-se isto num lugar nos montes atrás dos montes. A essa aldeiazinha chegou um dia um casal de holandeses à procura de um burro. Isso mesmo, um burro. A Manuela do “Café Nelita” lá foi dizendo, num poucochinho de inglês e gestos de mímica, que sim, que havia um burro. Só um, mas havia. E lá foi mandado buscar o compadre Silvino que veio devagarinho com o seu burro Tó. O casal de holandeses passou do sorriso largo ao sorriso lasso: indecisos, falavam baixo lá no seu dialecto, e deveriam estar examinando o que sabiam todos: o burro era velho e para trabalhar já não servia. Então o casal continuou dialogando em tom surdo, e dirigindo-se num tom mais alto à Nelita, dispôs-se a falar, enquanto ela toda se soprava em onomatopeias e gestos desesperados.
Depois de um bocado naquilo: uns dispersavam, outros chegavam perguntando que se passava, e o Tó defecava; lá a Nelita muito afogueada conseguiu dar conta da holandesa jornada: este casal tinha uma casa de turismo rural, já ali num monte atrás dos montes mais perto. Ora os turistas que vinham para essa casa gostavam de fazer as coisas cá da terra, fazer o pão, o azeite, andar nas vindimas, que lá na terra deles não tinham nada dessas coisas. E agora queriam um burro para dar passeios. O pessoal ficou intrigado, então estes camoines em vez de descansar vinham para trabalhar e andar escanchados num burro? Que o compadre Silvino não se preocupasse, alvitrou a Nelita, viriam buscar o Tó sempre que houvesse ocasião e trá-lo-iam são e salvo depois da passeata. Sem problemas. Bom dinheiro por cada passeio do Tó. O compadre anuiu, mas lá foi avisando que o burro era muito teimoso e que apenas respondia por um chamado muito preciso
     - Ó-ó-ó, bu-u-u-rr-e-e
     seguido de um estalido com a língua. A holandesa tentava, o holandês repetia, a Nelita conseguia, e de repente tudo em largo ria enquanto o Tó zurrava irritado.

Até que chegou a primeira marcação: compadre Silvino mandou Tó engalanado, despedindo-se do holandês com um obrigado. Ao fim do dia, o burro foi devolvido e contada a história por um holandês desiludido: por mais que fizessem, chamassem, cantassem, estalassem a língua, o Tó fincou as patas no chão e dali não saiu. Ninguém nesse dia passeou. Mas o Silvino não se ficou: disse à Nelita que dissesse ao holandês que o burro continuava a ir, sim, mas acompanhado pelo dono, com a idade que tinha já estava cansado e além disso

 - Burro velho não aprende línguas

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Provérbio citado (AGUALUSA)

«Em criança, ainda antes de aprender a ler, passava horas na biblioteca da nossa casa, sentado no chão, a folhear grossas enciclopédias ilustradas, enquanto o meu pai compunha versos árduos, que depois, muito sensatamente destruía. Mais tarde, já na escola, refugiava-me nas bibliotecas para fugir às brincadeiras, sempre brutais, com que os rapazes da minha idade se entretinham. Fui um menino tímido, franzino, alvo fácil da chacota dos outros. Cresci – cresci até um pouco mais do que é comum -, ganhei corpo, mas continuei retraído, avesso a aventuras. Trabalhei durante alguns anos como bibliotecário e creio que fui feliz nessa época. Tenho sido feliz depois disso, inclusive agora, neste pequeno corpo a que fui condenado, enquanto acompanho, num ou noutro romance medíocre, a felicidade alheia. Na grande literatura são raros os amores felizes.(…)»

In O vendedor de passados – José Eduardo Agualusa

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Provérbio citado (SILVA)

«
A minha vida divide-se entre luz e sombra.
Dos vinte aos vinte e nove fui aplaudido
por holofotes em cio, todas as notícias
me queriam conhecer, e em meus braços
decidia-se a beleza ou fealdade das mulheres.
Quinze filmes de sucesso e depois, o desastre:
quatro fracassos consecutivos. O meu rosto,
disseram, passara de moda, ultrapassado
pelas máscaras de gás que atravessaram,
com a guerra, meia Europa, quando o público
desatou a imitar o cinismo dos intelectuais
e a achar ridículo o sensível romantismo
dos meus gestos. Assim se fundiu a minha
auréola, o meu prestígio. Remetido para
as trevas, nunca mais fui perseguido por
fotógrafos, e tudo em meu redor se esvaziou
como um balão abandonado pelo fogo.
No meu funeral, vinte anos depois, nenhuma
apaixonada deu a cara, nenhuma malcasada.
Só então compreendi quão morto estava.
Reflecti, vós que passais, na minha história:
morre duas vezes quem viveu da sua imagem.
»


Vozes apanhadas no chão na igreja de San Miniato al Monte, nº 2

In Erros individuais – José Miguel Silva

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Provérbio provado esperançado

A Esperança nasceu numa família de escassos recursos; abundantes mesmo, só os mimos e atenções que os pais dedicavam aos dois filhos, que foram sempre acarinhados. Quando pensa na infância, lá está ela: num baú sem chave e um odor eterno.
A Esperança cresceu e foi vivendo uma vida normal, recheada de alegrias e tristezas, êxitos e fracassos, vitórias de uma vontade férrea e alguns tropeções no destino, apanhada desprevenida diante de um mundo obcecado pela competição, o ganhar, o ter e o parecer.
A Esperança foi tia de dois mas, profunda sua pena, nunca chegou a casar nem teve filhos. Ficou com a melhor parte, dizia, podia saltar as perguntas mais incómodas e as birras mais chatas dos sobrinhos. Dizia isto com uma gargalhada, e claro que era mentira.
A Esperança viu morrer os pais, pela ordem natural da vida, e a dada altura perdeu subitamente o sobrinho, a vida a brincar às excepções. Viu depois morrer o irmão e em seguida a cunhada. Foi acumulando coisas inúteis, louças, toalhas, livros, fotos antigas, aniversários de familiares que partiram, recordações para ninguém.
A Esperança foi recentemente tia-avó: viu a netinha através dum computador e até podia ouvir a sobrinha falando, com a menina ao colo dormindo, do outro lado do Atlântico, imagine-se!

- A esperança é a última a morrer

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Provérbio citado (WALSER)

« (…) O meu colega, de resto, é um homem mais velho e mais infeliz, antigo proprietário de uma cestaria que se arruinou na sequência de infortúnios vários e que agora trabalha à jorna como copista, tal como eu, só que eu não pareço copista nem jornaleiro, mas sim um inglês excêntrico, ao passo que o meu camarada parece alguém que se recorda constante e dolorosamente de melhores dias. A maneira amável e comovente como caminha e como assente sempre com a cabeça conta a história da sua desdita numa linguagem que não conhece a vergonha. É um homem mais velho e já não quer impressionar ninguém, quer apenas manter-se de pé. Mas impressiona-me a mim, porque eu conheço o seu sofrimento e o peso que carrega nos ombros e o esmaga. Sinto orgulho em caminhar com ele num bairro tão elegante e aproximo-me dele sem qualquer embaraço para assim demonstrar o meu apreço espontâneo pelo seu fato de qualidade inferior. Deparo-me com vários olhares estupefactos, um ou outro fabuloso par de olhos que parece interrogar-me, e isso diverte-me, para o diabo com os outros! Falo alto e com grande ênfase. O fim do dia é tão propício à conversa. Trabalhei o dia inteiro. É magnífico passar o dia a trabalhar e depois sentir um bonito cansaço que nos reconcilia com tudo e com todos. Não ter um cuidado, um pensamento. Poder passear com ligeireza, com a sensação de não ter feito mal a ninguém. Olhar em volta para ver se agrado a alguém. Sentir que agora sou um pouco mais digno de amor e respeito, em comparação com os dias que passei a mandriar, dias que caíram num abismo e se esvaneceram como fumo. Sentir muito, sentir inteiramente este fim de tarde oferecido! Sentir o fim da tarde como uma oferenda, porque é uma oferenda, de facto, para quem passou o dia a trabalhar. Assim se dá e assim se recebe

 In Os irmãos Tanner – Robert Walser

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Provérbio funcionário

No meu serviço, digo no meu serviço porque por aqui é costume dizer-se assim, as pessoas tratam-se por colegas porque por aqui é costume dizer-se assim.
No meu serviço, não há cão nem gato que não queira mandar mas as colegas inventam urgências de tarefas quando é preciso ajudar.
No meu serviço classificam-se documentos: podem arrumar-se também as colegas segundo determinada categoria?


Há-as sempre atrapalhadas, à nora, que repetem perguntas e pedem assistências, e andam em círculos para apressar o ponteiro dos minutos. E depois há as que com elas vão atrás como o cú, por arrasto, atrasadas na opinião, a pensar na morte da bezerra. Neste grupo dormem na forma as pachorrentas e sem energia que se movimentam a passo de caracol.
No oposto para lá do ensaio da lentidão, temos as colegas apressadas, com o mundo fugindo debaixo dos pés, sempre atarefadas e afogueadas, tantas vezes nessa urgência disfarçando a falta do que fazer.
Há-as também assustadas, pálidas e de olhos sensíveis, que trazem o coração nas mãos receosas dum perigo invisível, maus-olhados-invejas-energias, e são atacadas por frequentes alergias.
As maldispostas guardam sete pedras atrás das costas, de pé atrás, desconfiadas, e ninguém se meta quando vêm de faca e calhau.
E as colegas que apalpam terreno, rodeiam, rodopiam, e depois trepam: o que dizer deste maravilhoso obedecer aos seus instintos territoriais?


Afinal aqui no meu serviço há de tudo como as estações do ano e as colegas, tal como elas, vão intercalando várias disposições e adicionando outras tantas que não descrevi. E afinal aqui no meu serviço:

- Ainda há quem faça bem, não há quem saiba agradecer

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Provérbio hipócrita

Logo pela manhã, assim é o indicador emprestado ao relógio de ponto, logo é um esguicho, para desinfectar. Assim se vagueia o olhar pela mesa de trabalho, aquela caneta mais dois minutos a oeste nada de novo, e mais um esguicho, para desinfectar. E assim, logo pela manhã, o corpo todo num bailado de 360 graus, para desinfectar.
Percorrendo dia afora, mãos lavadas vezes sem conta até ao cotovelo, semblante constricto, cabelo e pensamento bem esticados, lisos. O corpo todo pendurado num cabide, num bailado de 360 graus, sem profundidade, só para desinfectar.

- Com a verdade me enganas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Provérbio citado (ANDERSEN)

É absolutamente certo!
Det er ganske vist!(1852)

- É uma história terrível! – disse uma galinha, e tudo isso num ponto da cidade onde a história nunca se tinha passado. – É uma história terrível de capoeira! Não ouso dormir sozinha esta noite! É bom que sejamos muitas, todas, juntas no poleiro! – E então contou, e de tal modo, que as penas se levantaram nas outras galinhas e o galo deixou cair a crista. É absolutamente certo!
Mas comecemos pelo princípio, e isto deu-se noutro ponto da cidade, numa capoeira. O Sol desceu e as galinhas subiram para o poleiro. Uma delas tinha penas brancas e pernas curtas, punha os seus ovos regulamentados e era, como galinha, respeitável de todos os modos. Quando veio para o poleiro, afagou-se com o bico e assim caiu-lhe uma peninha.
- Lá vai! – disse ela. – Quanto mais me afago, tanto mais bonita fico! – E isso foi dito em tom jovial, pois era ela a brincalhona de entre as galinhas, se bem, como se disse, muito respeitável. E depois deixou-se dormir.
À volta estava tudo escuro, galinha ao lado de galinha, mas aquela que estava mais perto dela não dormia. Ouviu e fingiu que não ouviu, como se deve fazer neste mundo para se viver em boa tranquilidade, mas à outra vizinha teve de dizê-lo:
- Ouviste o que se disse? Não nomeio ninguém, mas há uma galinha que quer arrancar as penas para parecer bem! Se eu fosse o galo, desprezava-a!
E directamente por cima das galinhas estavam a coruja com o corujo e os corujinhos. Têm ouvidos apurados na família. Ouviram todas as palavras que a vizinha galinha dise. Rebolaram os olhos e a coruja-mãe bateu as asas:
- Não estejam à escuta! Mas ouviram com certeza o que se disse! Ouvi-o com as minhas próprias orelhas e muito se tem de ouvir antes de estas caírem! Há uma das galinhas que, em tal grau, esqueceu como se deve comportar uma galinha, que está a arrancar todas as penas e permite que o galo a veja assim!
- Prenez garde aux enfants! – disse o corujo-pai. – Não é coisa para crianças ouvirem.
- Quero, contudo, contá-lo à coruja vizinha, em frente. É uma coruja tão estimada na vizinhança! – E lá voou a mãe.
- Uh-uh! Uh-hu! – gritaram ambos directamente para baixo, para as pombas no pombal vizinho. – Ouviram? Ouviram? Uh-uh! Há uma galinha que arrancou todas as penas por causa do galo! Está a morrer de frio, se não morreu já, uh-uh!
- Onde?, onde? – arrulharam as pombas.
- No pátio do vizinho! Vi-a com os meus próprios olhos! É quase uma história imprópria para contar! Mas é absolutamente certa!
- Cremos, cremos em cada palavra! – disseram as pombas e arrulharam para baixo, para a capoeira: - Há uma galinha, sim, alguns dizem mesmo que há duas, que arrancaram todas as penas para não parecerem como as outras, e chamarem assim a atenção do galo. É um jogo arriscado, pode apanhar-se uma constipação e morrer-se com febre, e mortas estão ambas!
- Acordem! Acordem! – cantou o galo e voou para a trave, ainda com os olhos ensonados, mas cantou, mesmo assim: - Há três galinhas que morreram de amores por um galo que lhes correspondeu! Arrancaram todas as penas! É uma história desagradável, mas não quero guardá-la, façam-na correr!
- Façam-na correr! – chiaram os morcegos, as galinhas cacarejaram e os galos cantaram: - Façam-na correr! – E assim a história correu de capoeira para capoeira e, por fim, voltou ao lugar donde tinha partido.
- Há cinco galinhas – contava-se – que arrancaram todas as penas para mostrar qual delas tinha emagrecido mais, por penas de amor pelo galo, e depois bicaram-se umas às outras até sangrarem e caírem mortas, para vergonha e desonra da família, e grande prejuízo do dono!
E a galinha que tinha perdido a peninha solta não reconheceu, naturalmente, a sua própria história. Como era uma galinha respeitável, disse:
- Desprezo essas galinhas! Mas há muitas desse género! Dessas coisas não se deve guardar segredo e eu vou fazer com que a história venha no jornal e corra todo o país. É o que estas galinhas merecem e a sua família também!
E veio no jornal. Foi publicado e é certo, absolutamente certo, que uma peninha pode bem transformar-se em cinco galinhas.


In Os contos – Hans Christian Andersen
(traduzido directamente do dinamarquês por Niels Fischer)

sábado, 23 de julho de 2011

(Vários) provérbios provados numa (longa) conversa

Uma tasca com nome de estádio. Múltiplas pequenas mesas amontoadas ao calhas. Três jovens, nos seus vintes, mais as minis e as conversas cruzadas. E um brinde inicia o jogo habitual do “se perdes, bebes”, que é só um pretexto para a conversa fluir solta:

RICARDO - Então?, vamos escolher o tema…
PATRÍCIA - Gostei na semana passada, o dos filmes. Hoje não tenho ideias.
MANUEL - Sim, o dos filmes, muito interessante. (maroto) Quando tu não estás cá, jogamos com outro tipo de filmes. (piscadela de olho para Ricardo)
R. - Ó Patrícia, não lhe ligues. Ele só te quer chatear. Então?, o tema de hoje pode ser, deixa ver: provérbios.
M. - Provérbios? Isso é um bocado seca.
R. – Não é nada! É tão fácil, há tantos!
M. – Se é assim tão fácil, não se bebe nada. (ri-se muito)
P. – Eu gosto da ideia. E temos dois terços dos votos, portanto a maioria é soberana; isto já conta como provérbio?
R. – Podia contar. (sorri benevolente para Patrícia) Mas não, começamos agora. Vamos lá, no sentido dos ponteiros do relógio. Patrícia, és tu. Ó Sr. Marques, traga mais três, estamos secos!
P. – Deixa-me pensar… O que é teu à tua mão há-de chegar.
M. – Pássaro enjaulado não voa.
R. – Ó Manel, qual é a relação?
M. – Tu não disseste que há tantos?, cada um vê nos provérbios a relação que quer. E toma lá dois seguidos. Ah-ah!
R. – Se queres jogar à toa, Manel, por mim tudo bem. A paciência é uma virtude.
M. – Essa é boa! O que tem o cu a ver c’as calças? E toma lá três, bebe!
R. – Adiante. (bebe) Patrícia, és tu.
P. – Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
M. – Quem? Essa não é para mim, de certeza. (piscadela de olho para Ricardo) Sou eu a jogar? Quem diz quem? Ah-ah! O seguro morreu de velho.
P. – Nunca percebi essa expressão…
R. – Nem eu. (sorri benevolente para Patrícia) O que não se faz de uma vez, faz-se em duas ou três.
P. – Fraquinho, fraquinho. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
M. – Epá, temos guerra aberta. (esfregando as mãos) Vénus anda no ar?
R. – E também o Baco; não é, ó Manel? Isso nem foi provérbio, atina lá no jogo.
M. – O que é bonito é para se ver. Ah-ah!
R. – O segredo é a alma do negócio.
P. – Onde há fumo, há fogo.
M. – Olho por olho, dente por dente.
R. – Isso é bíblico. O Cristo não concordava com isto, e vai daí a ligação de se oferecer a outra face.
M. – Lá vens tu, feito professor, estou-me a cagar para a Bíblia. (Manuel interroga-se agora se há-de manter a maiúscula)
P. – Manel, bem sabes que o Ricardo não perde uma oportunidade de ensinar os pobres de espírito. (irónica)
R. – O saber não ocupa lugar. Bebam, os dois! Com esta arrumei-vos.
P. – O sol quando nasce é para todos. (bebe)
M. – O sol, se houvesse onde o esconder, já o teriam roubado. Ah-ah! (bebe)
R. – Nem sei se é provérbio, mas que bonito, pá! Os amigos são prás ocasiões.
P. – Esse nem devia valer, Ricardo, de lógico que é… Deixa-me pensar numa coisa espirituosa assim da mesma colheita (irónica): O sal é o rei dos temperos.
M. – Vocês, parem com a parvoíce; Sr. Marques, são só mais três! Sou eu a pagar esta rodada? Sou eu a jogar? Quem diz quem? Os espertos também se enganam. Ah-ah!
R. – Os olhos comem primeiro do que a boca.
P. – Os olhos são o espelho da alma.
M. – Olha que merda mais a estas frases recicladas, parece que estamos todos a mandar bocas uns aos outros. Quando termina o jogo? Cá p’ra mim, quem ri por último, ri melhor. (e bebe)



P.S. – Post livre de preconceitos de enumeração, e quiçá arriscando prémio a quem contar os provérbios deste diálogo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Provérbio provado viciado

As notícias publicadas nos jornais cantavam parangonas em louvor ao euro: estava-se no tempo da transição do escudo e fazia-se ainda a multiplicação por duzentos vírgula outros três números. Que crise, que lá!, o euro era moeda boa, viçosa e fresquinha, que apetecia gastar.

Ele transportava-se pela profissão com perfeição, o euro era ouro na sua mão, misto de Midas e Adónis com cauda de pavão. Vaidoso, vaidoso. Todo o ser se projectava para fora, como um filme dedilhado a pulso pelo realizador. Nos momentos em que não tinha de estar a fingir, podia então recolher-se aos seus corredores envoltos em trevas.
Até que um dia, o consumo esporádico e tão-só recreativo se transformou em sujeição ao vício. Isto foi antes das consultas, muito antes da suspeita de que um dia precisaria dos médicos e medicamentos; isto foi na época em que se supunha no controlo das vontades. E em que ganhava bom dinheiro, que lhe sustentava tanto o vício como as aparências.
Vivia sozinho em casa própria e, quando estava normal, dava jantares para os amigos, onde fazia as vezes de esforçado cozinheiro e anfitrião afável. Dera-se porém ao cuidado de arrendar uma casa no bairro mais esconso da cidade, na viela mais pútrida desse bairro, com os passeios carregados de traficantes e viciados. Aí, nessa casa, despia a máscara e dava-se à evasão total. Nem sequer se pode dar o nome de casa a um quarto minúsculo, com a sanita e o lavatório a um canto e um colchão piolhoso no outro.
Nunca ninguém soube desse refúgio durante mais de dez anos; alguns amigos dos jantares chegaram a visitá-lo na clínica, outros não foram a tempo.

- O que o dinheiro dá o dinheiro tira

sábado, 14 de maio de 2011

Provérbio citado (RUSHDIE)

«(...) Quanto à culpabilidade, recuso-me absolutamente a ter dela uma visão mais larga; todos estamos próximos do-que-se-passou, é impossível ter uma visão em perspectiva, talvez mais tarde os analistas descubram os porquês e os comos, invoquem os fundamentos económicos e os desenvolvimentos políticos, mas agora estamos muito próximos do ecrã e a imagem decompõe-se em pequenos grãos, a única possibilidade são os juízos subjectivos. (...)
A política, meninos: é um negócio imundo, na melhor das hipóteses. Devíamos tê-la evitado, nunca eu devia ter sonhado com ela, estou a chegar à conclusão de que a vida privada, a mera vida individual dos homens, é preferível a esta actividade macrocósmica inchada de vanglória. Mas agora já é tarde. Nada a fazer. O que não pode curar-se tem de se aguentar.
(...)»

In Os filhos da meia-noite - Salman Rushdie

sexta-feira, 18 de março de 2011

Provérbio da Graça

O meu bairro é lindo, tem miradouros e casas coloridas nas ruas em subida. Dum lado vê-se o rio, do outro as outras colinas da cidade e também o rio: o rio está por toda a parte.
O meu bairro é lindo, não fossem as pessoas que o estragam. Quando saio de manhã mil olhos, velhas que aparecem por encanto com urgências de lixo à porta – bom dia, menina! – a ver se saio sozinha, como vou vestida – bom trabalho, menina!
Quando saio de manhã mil olhos, sinto-os nas costas quando viro à esquerda para a paragem do autocarro. Isto aqui uma aldeia, quem dera ser mosca curiosa em voo debicado: ouvir o que dizem as velhas com urgências de lixo à porta quando viro à esquerda por encanto. Em críticas: que espalhafatosa!, ou talvez lamentando-me: uma rapariga tão jovem e a viver sozinha!
Quando volto ao final da tarde, ainda mais é o meu bairro lindo - qualquer miradouro e o rio por toda a parte. No meu bairro pergunto sempre pela Graça, onde está, como passa:
- A Graça está na praça.
A Graça é a minha amiga do bairro, conquistou-me à primeira assim que transpôs minha soleira: sorriso de peixeira, riso fácil e malandrinho; a Graça reserva-me um peixinho, e leva-me legumes, tudo muito fresquinho. É coisa de mais meia menos meia hora, aí aparece de mão na anca para dar um dedinho de conversa:
- Ai, minha querida!, que me sobrou alho francês, faz uma sopinha e o mais o darei à vizinha.
Generosa, a Graça, e sempre tão engraçada nos ditotes:
- Que lá te interessa o que zurra a voz alheia, filhinha... quando o sono chega, a almofada esquece a adivinha.


- Vozes de burro não chegam ao céu

Provérbio com graça

A pasta resvalando ombro abaixo com juras de hérnias futuras, onde o bilhete?, cá está o maldito!, e luz verde, abre-te portinhola que estou com pressa. Finalmente a subida à boca do Metropolitano donde parte a aorta da cidade a bombear passageiros para as artérias principais. O ar que se respira não é puro. Inspiro, expiro, eis a rua que procuro; mas pouco oxigeno e então pouca assim a inspiração. Ainda assim ensaio respostas: principal qualidade: a pró-actividade!; ah, e o defeito?, muito perfeccionista, que soa a qualidade. Suo. Chego à porta transpirado e prometo-me ficar calado.

- Mais vale cair em graça do que ser engraçado

Provérbios provados espaçados - III

É sabido que este blog hiberna, mas aproxima-se o degelo.
Viva a Primavera!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Provérbio provado cansado

De Samuel podia dizer-se que terminara a Quarta Classe com distinção, se estivéssemos a falar doutros tempos. Saltemos, porém, umas décadas adiante e digamos que se encontra no Ensino Básico 2, que também já teve o nome de Ciclo Preparatório.
Contrariamente ao que pode deixar supor o título e a introdução, o Samuel é um menino enérgico, moderno, que tecla como quem escreve, uma espécie de cromo adepto da ginástica física e mental. Traja-se na moda e é popular - os óculos míopes não dão azo a alcunhas: os outros rapazes tomam-no por desportista bom aluno e não por o bom aluno desportista.
Contrariamente ao que pode deixar supor o parágrafo anterior, não vamos contar o primeiro amor do Samuel pois ainda não se tomou de amores verdadeiramente, se estivéssemos a usar expressões doutros tempos.
Adaptou-se bem à passagem da sua querida, já tão no passado, velha professora Eugénia – reformada mesmo no fim do seu primário, mortificada pelas reduções do salário provocadas pela Crise -, para passar a ter vários professores divididos por temas.
Corre-lhe então ao Samuel a vida particularmente bem no meio estudantil em que se movimenta, não fosse uma coisa que o atormenta: detesta trabalhos de grupo. Claro que Samuel nunca o diz, só às vezes à mãe, única pessoa passível de ouvir coisas destas sem o julgar por egoísta, demasiado ambicioso ou pouco generoso com os colegas, as mães compreendem estas coisas e os colegas não.
Quando surge um trabalho de grupo logo se impacienta, normalmente tem azar nos cooperantes que lhe calham em sorte: isto de ser popular tem as suas desvantagens. Combinam em casa de alguém, cortam frases dos motores de busca à toa enquanto enviam sms à toa, e deixam o trabalho todo para o bom do Samuel. Porque o Samuel nessa tarde prescinde dos treinos do futebol porque se recusa a apresentar um trabalho à toa. Não assina Samuel Silvestre à toa, mesmo que os outros nomes só estejam para ali para enfeitar. É sempre assim nos trabalhos de grupo, fica depois só e não aproveita quase nada da sessão de trabalho em comum. Então dedica-se, pesquisa referências na internet, mas principalmente em enciclopédias, vai à biblioteca se preciso; em suma, cansa-se.
No dia da entrega dos trabalhos, os colegas olham meio apalermados para o resultado e tomam os louros, reconhecidos:

- Cansa quem dá, não cansa quem toma

Provérbio citado (ASSIS)

«
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar… (…)»

In Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis


P.S. – Post livre de preconceitos de citação, e quiçá acrescentando o início do capítulo seguinte – para provar que nem tudo é provérbio:
«
Talvez suprima o capítulo anterior; entre outros motivos, há aí nas últimas linhas, uma frase muito parecida com despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro.
(…)»